domingo, 8 de novembro de 2020

Napoleão numa aventura na Córsega (Conto), de Guy de Maupassant

 


Napoleão numa aventura na Córsega

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Muito conhecida a frase de Pascal sobre o grão de areia que mudou a sorte do mundo, detendo a fortuna de Cromwel. Pois no acaso que governa os homens e o mundo, um fato insignificante, o gesto desesperado de certa mulher, decidiu da sorte da Europa, salvando a vida ao jovem Napoleão Bonaparte.

A narração seguinte é de todo autêntica. Seus detalhes me foram fornecidos diretamente pelo único homem que pode colhê-los na própria fonte e cujo testemunho dirigiu o inquérito feito em 1853 sobre aqueles fatos para assegurar a execução do testamento do Imperador em Santa Helena.

Com efeito, três dias antes de morrer, Napoleão acrescentou ao seu testamento um codicilo com estas disposições:

"Lego 20 mil francos ao morador de Bocognano que me arrancou às mãos dos bandidos que me queriam assassinar.

10 mil francos ao Sr. Vizzavona, o único dessa família que foi meu partidário.

100 mil francos ao Sr. Jerônimo Levi. 100 mil francos ao Sr. Costa de Bastelica.

20 mil francos ao padre Reccho.

Foi sem dúvida velha recordação da sua mocidade que, nos seus últimos momentos, veio ao seu espírito: a longínqua visão perseguiu-o quando resolveu deixar esses supremos dons ao devotado partidário cujo crime lhe escapava à memória enfraquecida e aos amigos que o ajudaram em momento terrível.

Luz XVI acabava de morrer. A Córsega era então governada pelo general Paoli, homem enérgico e violento, realista devotado, que odiava a Revolução, ao passo que Bonaparte, jovem oficial de artilharia, então de licença em Ajaccio, punha em jogo sua influência, e a da sua família, em favor das idéias novas.

Entre o jovem Bonaparte e o general havia velha animosidade, nascida quando Paoli, tendo recebido ordem de conquistar a ilha de Madalena, confiou essa missão ao coronel Cesari, recomendando-lhe, ao que se diz, fizesse malograr-se a empresa. Nomeado lugar-tenente-coronel da guarda nacional do regimento comandado pelo coronel Queuza, Napoleão tomou parte na expedição e ergueu-se violentamente contra o modo porque fora conduzida, acusando abertamente os chefes de a haverem perdido propositalmente.

Pouco tempo depois, comissários da República, entre eles Saliceti, foram enviados a Bastia. Sabedor da sua chegada, quis Napoleão reunir-se a eles e, para empreender essa viagem, fez vir de Bocognano seu homem de confiança, um dos seus partidários mais fiéis, Santo Bonelli, chamado Riccio, que 'lhe serviria de guia.

Partiram ambos a cavalo, dirigindo-se a Corte, onde se achava Paoli, a quem Bonaparte queria visitar de passagem. Diga-se que, ignorando ainda a participação do seu chefe na trama urdida contra a França, ele até o defendia contra as murmurações; a hostilidade crescente entre ambos não havia ainda explodido.

O jovem Napoleão desceu do cavalo no pátio da casa de Paoli e, confiando o animal a Santo-Riccio, foi em procura do general. Ao subir as escadas, uma pessoa a quem se dirigiu informou-lhe que tinha havido ali um conselho dos principais chefes corsos, todos inimigos das idéias republicanas. Procurava Napoleão investigar quando um dos conspiradores saiu da casa.

Indo ao seu encontro, perguntou-lhe: "Então?". O outro, julgando-o um aliado. respondeu-lhe: "Resolvido! Vamos proclamar a independência e separarmo-nos da França, com o auxílio da Inglaterra".

Indignado, Napoleão exaltou-se e gritou: "Isso é uma traição, uma infâmia!" Atraídos pelo ruído, apareceram uns parentes afastados da família Bonaparte, que compreenderam o perigo em que se lançava o jovem oficial, porque Paoli era homem para se desembaraçar dele para sempre. Cercaram-no, pois, e fizeram-no descer e montar de novo a cavalo.

Chegados Napoleão e o guia à entrada da vila de Bocognano, separaram-se, combinando encontro no dia seguinte, na junção das duas estradas. Napoleão dirigiu se à aldeia, de Pagiola, a pedir hospitalidade ao seu partidário e parente Felix Tusoli.

Entrementes, Paoli soubera da visita do jovem Bonaparte, bem como das palavras violentas por ele proferidas ao descobrir a conspirata e encarregou Mário Peraldi de persegui-lo e impedir, a todo custo, sua chegada a Ajaccio ou a Bastia.

Peraldi chegou a Bocognano horas antes ele Bonaparte e foi à casa dos Morelli, família poderosa de partidários do general Paoli. Souberam estes que o jovem oficial chegara à vila e passaria a noite em casa de Tusoli. O chefe dos Morelli, homem enérgico e temível, sabedor dás ordens de Paoli, prometeu ao seu enviado que Napoleão não havia de escapar.

Mandou Jogo distribuir sua gente, fazendo ocupar todas as estradas e barrar todas as saídas. Bonaparte, acompanhado  de Tusoli, saiu em buscas de Santo-Riccio mas seu hospedeiro, adoentado, deixou-o logo depois.

Logo que o oficial se viu só, um homem apareceu-lhe, anunciando-lhe que num albergue vizinho, achavam-se alguns partidários do general que o eperavam, a ele, Napoleão, em Corte. O futuro imperador a eles se dirigiu e, quando os viu: "Ide procurar vosso chefe, estais a fazer uma grande e nobre ação!" Nesse momento, porém, os Morelli precipitaram-se sobre ele e o fizeram prisioneiro.

Santo-Riccio, que o esperava na encruzilhada, soube logo da prisão e correu à casa de um partidário de Bonaparte, Vizzavona, que ele sabia capaz, de ajudá-lo. Havia compreendido a extrema gravidade da situação: ou salvariam o jovem oficial ou ele seria morto dentro de duas horas. Vizzanova, à força de eloquência e de habilidade, conseguiu dos Morelli permissão para que Bonaparte fosse à sua casa tomar uma refeição, enquanto eles guardariam a casa.

Para ocultar seus desígnios, os Morelli concordaram e seu chefe, o único que conhecia a vontade do general Paoli, confiou-lhes a vigilância do lugar e foi preparar-se para a partida.

Foi essa ausência que alguns minutos mais tarde salvou a vida do prisioneiro. Santo-Riccio, com coragem e sangue frio, preparava entretanto a libertação do companheiro. Chamou dois jovens valentes e fiéis como ele e, ocultando-os atrás do muro dum jardim contíguo à casa de Vizzavona, apresentou-se tranquilamente aos Morelli, pedindo-lhes permissão para se despedir de Napoleão. Em presença deste e de Vizzavona, combinou a fuga. Penetraram então os três na estrebaria e fugiram para a mata. Percebendo-os, os Morelli saíram, aos gritos,  em sua perseguição.

De casa, soube o chefe Morelli do ocorrido e precipitou-se com cara tão feroz que a esposa, aliada aos Tusoli, lançou-se a seus pés, pedindo a vida para o jovem oficial. Ele repeliu-a, furioso, e ela, sempre de joelhos, enlaçou-o fortemente. Batida, derrubada ela acabou arrastando na queda o marido.

Sem a força e a coragem dessa mulher, era uma vez Napoleão!

Mas os Morelli atingiam os fugitivos. Santo-Riccio, intrépido, encostando-se a uma árvore, fez-lhes face, gritando aos dois companheiros de Bonaparte que o levassem. Como este se recusasse a abandoná-lo, gritou o guia: "Levem-no de qualquer modo! Amarrem-no de pés e mãos se for preciso!"

Os três foram afinal alcançados e um partidário dos Morelli, Honorato, pondo o cano do fuzil na testa de Napoleão, gritou-lhe: "Morte ao traidor à pátria!" Nesse momento, porém, Tusoli, prevenido por um emissário de Riccio, chegava com seus parentes armados. Vendo o perigo e reconhecendo seu cunhado no que ameaçava a vida do seu hóspede, gritou-lhe Tusoli, apontando-lhe a arma:

— Honorato! o caso agora é entre nós!

Surpreso, o outro hesitava em atirar, quando Riccio, aproveitando a confusão, agarrou Bonaparte, que resistia sempre, carregou-o e, com os dois outros rapazes meteu-se pela mata.

Através de mil dificuldades chegaram a Ucciani, à caba dos Pazzoli, partidários de Bonaparte. Daí seguiram para Ajaccio, onde Napoleão se refugiou em casa do administrador, Jean-Jerôme Lévi, que o escondeu num armário. Precaução excelente, porque no dia seguinte chegava a polícia e tudo vasculhava em vão.

Na mesma noite Napoleão embarcava numa gôndola e atravessava o golfo indo para a casa da família Costa de Bastelica e daí para esconderijo na mata.

Alguns dias após era proclamada a independência da Córsega. A casa dos Bonaparte foi incendiada e as três irmãs do fugitivo entregaram-na à guarda do padre Reccho.

Depois, uma fragata francesa, que recolhia na costa os últimos partidários da França, tomou Napoleão a seu bordo e reconduziu-o à pátria.

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