sábado, 7 de novembro de 2020

O velho (Conto), de Guy de Maupassant

 


O velho

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Um tépido sol de outono caía no pátio da fazenda por cima das grandes árvores que beiravam os barrancos. Sob a relva tosada pelas vacas, a terra impregnada de chuva recente, achava-se encharcada, e nela se enterravam os pés despertando o barulho da água; e as macieiras, carregadas com o seu fruto, semeavam as suas maçãs de um verde pálido no denso verde das folhagens.

Quatro bezerras pastavam, presas em linha, e mugiam a espaços para a casa da fazenda; as aves domésticas punham um movimento colorido sobre a estrumeira, defronte do estábulo, e esgaravatavam, remexiam, cacarejavam, enquanto que os dois galos cantavam sem cessar, procuravam vermes para as suas galinhas, pelas quais chamavam com um cacarejo apressado.

A cancela de madeira abriu-se; entrou um homem que teria talvez os seus quarenta anos mas que parecia ter sessenta, enrugado, curvado, marchando a grandes passos vagarosos, pesados, para mais com uns grosseiros tamancos cheios de palha. Os seus braços muito compridos pendiam-me aos lados do corpo.

Quando se aproximou da fazenda, um cão caçador, amarelo, preso ao pé de uma enorme pereira, ao lado de um barril que lhe servia de nicho, remexeu a cauda, depois pôs-se a latir em sinal de alegria.

O homem gritou-lhe:

— Está calado, Finório!

O cão calou-se.

Uma camponesa saiu a esse tempo de casa. Seu corpo largo e ossudo desenhava-se sob uma camisola de lã que lhe apertava o corpo. Uma saia parda, muito curta, caía-lhe pelo meio das pernas calçadas em meias azuis, e trazia calçados também tamancos forrados de palha. Uma touca que fora branca e se tornara amarela, cobria-lhe alguns cabelos colados ao crânio, e o seu rosto trigueiro, magro, feio, desdentado, mostrava essa fisionomia selvagem que tem muitas vezes o rosto das camponesas.

O homem perguntou:

— Como vai ele?

A mulher respondeu:

— O senhor padre diz que está nas últimas, que não passará desta noite.

Entraram ambos na casa. Depois de terem atravessado a cozinha, penetraram no quarto, que era baixo, escuro, iluminado apenas por uma claraboia, diante da qual pendia um farrapo. Os grossos barrotes do teto, brunidos pelo tempo, negros e enfumados, atravessavam o compartimento de um lado ao outro, suportando o delgado forro do sótão, onde corriam, de dia e de noite, rebanhos de ratos.

O chão da casa era de terra amassada, úmido, parecendo engordurado, e no fundo do compartimento notava-se o leito formando vagamente uma mancha branca. Um ruído regular, rouco, uma respiração dura, arquejante, sibilante, parecido a água correndo, desses que faz quebrar uma bomba, partia do quarto escuro onde agonizava um velho, o pai da camponesa.

O homem e a mulher aproximaram-se e olharam o moribundo, com o seu olhar plácido e resignado.

O genro disse:

— Desta vez é que é certo: não passará desta noite.

A caseira respondeu:

— Desde o meio-dia que ele ressona assim.

Depois calaram-se. O pai tinha os olhos fechados, o rosto cor de terra, tão seco que parecia talhado em pau. A boca entreaberta deixava-lhe passar a respiração marulhante e dura; e o lençol de pano pardo elevava-se sobre o peito a cada aspiração.

O genro, depois de um longo silêncio, disse:

— Deixai-o acabar. Não lhe podemos fazer nada. Em todo caso não deixa de fazer diferença para couvinho, uma vez que o tempo é bom e que tenho que o plantar amanhã.

A mulher pareceu inquietar-se àquele pensamento.

Refletiu alguns instantes, depois declarou:

— Uma vez que ele está a acabar, não o enterrarão antes de sábado; terás tempo amanhã de plantar o couvinho.

O lavrador meditou e disse:

— Pois sim, mas amanhã é preciso ir convidar para a sepultamento, e preciso de boas cinco ou seis horas para ir de Tourville a Manetot convidar todo o mundo.

A mulher, depois de ter refletido por espaço de dois ou três minutos, disse:

— E amanhã, só lá pelas três horas é que poderás principiar a jornada, e só a noite poderás estar de volta de Tourville. É melhor ires hoje. Podes muito bem dizer que ele já se findou, uma vez que ele não passará desta noite ou pelo até amanhã ao meio-dia.

O homem ficou alguns instantes perplexo, avaliando as consequências e vantagens da ideia. Afinal declarou:

— Não faz mal, irei hoje.

Ia já a sair; voltou, e depois de uma hesitação:

— Uma vez que não tens hoje que fazer, vai buscar as maçãs para cozinhar, e depois faz quatro dúzias de bolos de fruta para os convidados que vierem ao enterro, visto que é preciso a gente confraternizar. Acende o lume com a lenha que está sobre o telhado da oficina. Ela já está seca.

E o homem saiu do quarto, entrou na cozinha, abriu o armário, tirou um pão de seis arráteis, cortou com todo o cuidado uma fatia, recolheu na palma da mão as migalhas que tinham caído sobre a mesinha e atirou-as para a boca para nada desperdiçar. Depois, levantou com a ponta da faca um pouco de manteiga salgada do fundo de um pote de barro escuro, passou-a sobre a fatia de pão e pôs-se a comê-la lentamente, como lentamente fazia tudo.

Atravessou o pátio, acalmou o cão, que tornava a latir, saiu pelo caminho que acompanhava o barranco e afastou-se na direção de Tourville.

***

Ficando só, a mulher meteu mãos à obra.

Destapou o pote de farinha e preparou a massa para os bolos. Amassou-a durante muito tempo, dobrando-a e desdobrando-a. Depois fez uma grande massa de um branco amarelado, que deixou ao canto da mesa.

Então foi buscar as maçãs e, para não maltratar a árvore com a colhedora, trepou-se em cima de um pequeno banco e subiu sobre ela. Escolheu os frutos com cuidado, para não apanhar os que estavam bem maduros e recolheu-os no avental.

Uma voz chamou-a do caminho:

— Olé, tia Chicot!

Ela voltou-se. Era o Sr. Osime Favet, estrumar as suas terras, e que se encontrava sentado com as pernas pendentes sobre o carro de estrume. Ela voltou-se, e respondeu:

— Em que o posso eu servir, ó seu Osime?

— O pai, como vai ele hoje?

Ela gritou-lhe:

— Está quase a dar o último suspiro. O enterro é sábado, logo às sete horas, por causa dos couvinhos que não podem esperar.

O vizinho replicou:

— Bem, entendo. Haja saúde. Passe bem.

Ela respondeu àquela delicadeza:

— Obrigado, igualmente.

Depois continuou a colher as maçãs.

Logo que entrou em casa, foi ver o pai, esperando encontrá-lo morto. Mas logo à porta distinguiu a respiração sussurrante e monótona, e, julgando inútil aproximar-se do leito, para não perder tempo, começou a preparar os bolos. Envolvia os frutos, um a um, numa delgada folha de massa e ia-os alinhando na beirada da mesa.

Quando fez quarenta e oito bolos enfileirados às dúzias uma diante da outra, pensou em preparar a ceia, e pôs ao fogo a panela, para cozer as batatas; porque refletira que era inútil acender o forno, naquele mesmo dia, tendo ainda toda a manhã seguinte para terminar todos os preparativos.

O seu homem entrou por volta das cinco horas. Logo que transpôs o portal, perguntou.

— Já acabou?

Ela respondeu:

— Ainda não, continua ofegante.

Foram ver. O velho estava absolutamente no mesmo estado. A sua respiração rouca regular como um movimento de relógio, não se tinha nem acelerado nem diminuído. Aquilo vinha-lhe de segundo em segundo, variando um pouco de tom, conforme o ar entrava ou saía do peito.

O genro olhou-o, depois disse:

— Acabará quando menos nisso pensarmos, como uma vela que se apaga.

Tornaram na cozinha e, sem falar, puseram-se a cear. Quando engoliram a sopa comeram ainda uma fatia de pão com manteiga, depois, lavada a louça, entraram no quarto do agonizante.

A mulher, tendo na mão uma pequeno candeeiro de pavio fumarento, passou-o por diante do rosto do pai. Se ele não respirasse ainda tê-lo-iam certamente julgado morto.

O leito dos dois camponeses estava oculto no outro extremo do quarto, numa espécie de cavidade. Deitaram-se sem dar palavra, apagaram a luz, fecharam os olhos; e dentro em pouco, dois roncares desiguais, um mais profundo, o outro mais agudo, acompanharam o estertor ininterrupto do moribundo.

No sótão corriam os ratos.

***

O marido despertou logo às primeiras claridades do dia. O sogro vivia ainda. Sacudiu a mulher, inquieto com aquela resistência do velho.

— Ouve cá Fêmia, ele parece que não quer acabar. Que farás tu nesse caso?

Ele sabia que a mulher era de bom conselho.

Ela respondeu:

— Com certeza que não passará desta manhã. Nada temos a recear. Por certo que o Sr. Osime não se oporá a que ele seja enterrado logo de manhã, uma vez que já fizemos o mesmo ao tio Bernardo, que morreu mesmo pelas sementeiras.

O homem ficou convencido com a evidencia do raciocínio, e partiu para os campos.

A mulher meteu no forno os bolos, depois fez todo o serviço da casa.

Ao meio dia o velho ainda não falecera.

As pessoas contratadas para o plantio dos couvinhos vieram em grupo ver o ancião que tanto tardava em acabar. Cada um disse a sua palavra e partiram para as terras.

 

Às seis horas, quando regressavam, o pai respirava ainda. O genro, por fim, assustou-se.

— Que farás tu, agora ó Fêmia?

Ela não sabia como resolver o caso. Ele prometeu que o enterro certamente se realizaria na manhã seguinte. O oficial comprometeu-se também, em atenção ao tio Chicot, a alterar a data na certidão de óbito. O homem e a mulher entraram em casa descansados.

Deitaram-se e dormiram como na véspera, misturando as suas respirações sonoras à respiração mais fraca do velho.

Quando despertaram, o velho não tinha ainda morrido.

***

 

Então ficaram aterrados. Detiveram-se em pé, à cabeceira do pai, olhando-o com desconfiança, como se ele houvesse querido pregar uma peça, enganá-los, como se os quisesse contrariar por gosto, e não lhe perdoavam sobre tudo o tempo que ele lhes fazia perder.

O genro perguntou:

— Que iremos nós fazer?

A mulher não sabia que dizer; respondeu:

— Mas que maçada!

Não podiam avisar a tempo todos os convidados que deviam estar prestes a chegar. Resolveram esperá-los, a fim de explicar o caso. Pelas sete horas menos dez minutos, apareceram os primeiros. As mulheres de preto, a cabeça coberta por um grande véu, achegavam-se com ar triste. Os homens, constrangidos nos seus casacos de pano, avançavam mais livremente, dois a dois.

O tio Chicot, mais a sua mulher, confusos, receberam-nos com desolação; e ambos de repente e no mesmo momento, abeirando-se do primeiro grupo, puseram-se a chorar. Explicaram o ocorrido, contaram o seu embaraço, ofereciam cadeiras, remexiam-se, pediam desculpas, queriam provar que no seu caso toda a gente procederia como eles, falavam infinitamente, tornando-se bruscamente conversadores, de modo que ninguém lhes respondesse.

Iam de um a outro convidado:

— Quem esperaria tal? parecia incrível que ele durasse tanto!

Os convidados estavam sem palavras, um pouco desapontados, como pessoas a quem se cancelam uma cerimônia esperada. Não sabiam que fizessem, ficavam-se sentados uns, outros de pé. Alguns quiseram ir-se embora. O tio Chicot deteve-os:

— Vamos petiscar alguma coisa, já agora. Fizemos os bolos de fruta; é preciso aproveitá-los.

Os rostos desanuviaram-se àquela ideia.

Puseram-se a conversar em voz baixa.

O pátio enchia-se pouco a pouco; os primeiros convidados davam a nova aos que chegavam em último lugar. Cochichava-se, e a ideia dos belos alegrava toda a gente.

As mulheres entravam para o ver o moribundo. Persignavam-se junto do leito, balbuciavam uma oração e saíam. Os homens, menos ávidos daquele espetáculo, lançavam uma olhadela pela janela que então se achava aberta.

A senhora Chicot explicava a agonia:

— Há já dois dias que está naquele estado, nem mais nem menos, nem mais alto nem mais baixo. Parece uma bomba quando tem falta de água!

***

Quando todos viram o agonizante, pensaram na refeição; mas, como eram muito numerosos para abancar na cozinha, saíram para o quintal, instalando a mesa diante da porta. As quatro dúzias de belos, dourados, apetitosos, atraíam os olhares, dispostos em dois grandes pratos. Cada qual dos assistentes estendia o braço para tirar o seu, com medo de que não chegassem para todos. Mas ainda sobraram quatro.

Tio Chicot, disse com a boca cheia:

— Se nos visse aqui a comer, o pai, sentiria pena. Ele gostava tanto deles em vida.

Um lavrador gordo declarou:

— Não mais os comerá, não. Cada qual no seu lugar.

Esta reflexão, longe de entristecer os convidados, pareceu alegrá-los. Era agora a vez deles, de comerem os bolos que o velho não comeria.

A senhora Chicot, desolada com a despesa, andava numa carreira de casa para o celeiro, a buscar a cidra. Os canjirões vazavam-se um após outro para se tornarem a encher.

Por fim ria-se, falava-se alto, começava-se a gritar animadamente, como sucede nas refeições.

De repente, uma velha camponesa que ficara junto ao moribundo, retida por um medo ávido daquela coisa que dentro de pouco também lhe chegaria a ela própria, apareceu à janela e gritou numa voz esganiçada:

— Acabou! Acabou!

Todos se calaram. As mulheres levantaram-se apressadamente para irem ver.

Morrera com efeito. Cessara de estertorar. Os homens olhavam-se, sentindo-se pouco à vontade. Não tinham acabado de comer os bolos. Escolhera mal o momento de acabar, o velhaco.

Os Chicot, agora, já não choravam. Acabara-se, estavam descansados. Repetiam:

— Nós bem dizíamos que não podia durar muito. Sé ao menos ele tivesse decidido a noite passada, não teria causado tanto transtorno.

Não importava, acabara. Enterrar-se-ia na segunda-feira, e tornariam a comer os bolos de fruta nessa ocasião.

Os convidados foram-se, faltando do caso, satisfeitos no entanto por terem assistido àquilo e por terem petiscado, e quando o homem e a mulher ficaram completamente sós, frente a frente, ela disse, com o rosto contraído pela angústia:

— Afinal é preciso assar outras quatro dúzias de bolos! Se ao menos ele tivesse decidido a noite passada!

E o marido, mais resignado respondeu:

— Deixa lá mulher. Isto não vem cá todos os dias.

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