sábado, 7 de novembro de 2020

A vingança (Conto), de Guy de Maupassant

 

A vingança

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

A viúva de Paulo Saverini habitava sozinha com seus filhos numa casinha pobre, à beira das muralhas de Bonifácio.

A cidade, construída numa superfície da montanha, alcandorada em parte sobre o mar, olha por cima do estreito, eriçado de escolhos, a parte mais baixa da costa da Sardenha. A seus pés, da outra banda, contornando-a quase inteiramente, um recorte de rocha escarpada que se assemelha a um gigantesco corredor, serve-lhe de porto, conduz até às primeiras casas, depois de um longo circuito entre duas muralhas abruptas, os pequenos barcos dos pescadores italianos ou sardos, e, de quinze em quinze dias, o velho e pacífico vapor que faz a carreira de Ajaccio. Sobre a montanha branca, o montão de casas põe uma mancha ainda mais branca.

Essas casas têm o aspecto de ninhos de aves selvagens, agarradas àquela rocha, dominando aquela passagem onde nunca se aventuram os navios.

O vento, sem repouso, fatiga o mar, fatiga a costa nua, por ele roída, apenas vestida de plantas, e abisma-se no estreito de que invade as margens. Os pedaços de escuma pálida, agarrados às pontas negras das inumeráveis rochas que por toda a parte furam as vagas, têm a aparência de farrapos de pano flutuando e palpitando à superfície da água.

A casa da viúva Saverini, pespegada na própria margem dos rochedos, abria as suas três janelas para aquele horizonte selvagem e desolado.

Ela vivia ali, só, com seu filho Antônio e a sua cadela "Semelhante", um animal grande e magro, de compridos pelos selvagens, da raça dos cães pastores. "Semelhante" o servia também ao rapaz para caçar.

Uma noite, depois de uma briga, Antônio Saverini foi morto à traição, com uma navalhada, por Nicolas Ravolati, que nessa mesma noite se safou para a Sardenha.

Quando a velha mãe recebeu o corpo de seu filho, que uns homens que passavam-lhe trouxeram, não chorou, mas ficou muito tempo imóvel e a olhá-lo; depois, estendendo a sua mão rugosa sobre o cadáver, prometeu vingá-lo.

Não consentiu que ninguém a acompanhasse e fechou-se com o corpo, ficando ao pé dele, com a cadela, que uivava. O animal uivava continuamente, em pé, aos pés do leito, a cabeça estendida para o seu dono e de cauda apertada entre pernas.

E não se mexia mais que a mãe do morto, a qual, pendida para o corpo, o olhar fixo, chorava grossas lágrimas mudas, contemplando-o. O rapaz, prostrado de costas, vestido na sua veste grosseira de pano esburacado e rasgado no peito, parecia dormir; mas tinha sangue por todos os lados: na camisa arrancada pelos primeiros cuidados, no colete, na calça, nas faces, nas mãos. Pastas de sangue haviam-se coalhado na barba e nos cabelos.

A velha mãe pôs-se a falar-lhe. Ao ruído daquela voz, a cadela calou-se.

— Deixa, deixa, serás vingado, meu filho, meu menino. Dorme, dorme, que serás vingado, entendes? É a tua mãe que to promete! E ela nunca faltou à sua palavra, a tua mãe, tu bem no sabes.

E lentamente, a viúva de Saverini debruçou-se para seu filho, colando os lábios frios àqueles lábios mortos.

Então "Semelhante" pôs-se a gemer. Soltava uma grande lamúria monótona, lancinante, horrível.

E ali ficaram ambas, a mulher e o animal, até manhã.

Antônio Saverini foi enterrado no dia seguinte, e daí a pouco ninguém mais falou dele em Bonifácio.

***

Não tinha nem irmãos nem parentes próximos. Nenhum homem havia na família para prosseguir na vingança. Só a mãe pensava nela, só a velha. Da outra banda do estreito via ela, de manhã e à noite, um ponto branco sobre a costa. É uma pequena aldeia sarda, Longosardo, onde se refugiavam os bandidos corsos perseguidos de muito perto.

São eles quem quase exclusivamente povoa aquela aldeia, defronte das costas da sua pátria, esperando ali o momento de poderem voltar, de regressar ao mato da Córsega, o maquis, como lá se chama. É naquela aldeia, ela sabe-o, que se refugia Nicolas Ravolati.

Completamente só, todo o comprido dia, assentada à sua janela, a velha olha para os longes, pensando na vingança. Como a levaria ela a cabo, sem auxílio de ninguém, enferma tão perto da morte? Mas prometera, jurara sobre o cadáver. Não podia esquecer, não podia esperar. Que faria? Não dormia durante a noite, não tinha descanso nem paz, procurava obstinadamente um meio. A cadela, a seus pés, dormia, e, por vezes, levantando a cabeça, uivava para longe. Desde que seu dono deixara de estar ali, o animal uivava muitas vezes assim, como se ela o chamasse, como se a sua alma de irracional, inconsolável, houvesse também guardado a recordação que não se apaga.

Ora, uma noite, como "Semelhante" se pusesse a gemer, a mãe, de repente, teve uma ideia, uma ideia selvagem, vingativa e feroz. Meditou nela até de manhã; depois, levantando-se logo ao romper do dia, dirigiu-se à igreja.

Rezou, prostrada no assoalho, abatida diante de Deus, suplicando-lhe que a ajudasse, que lhe conservasse a vida, que desse ao seu pobre corpo a força que lhe faltava para vingar seu filho.

Depois tornou à casa. Tinha no quintal um velho barril sem tampa em que recolhia a água das goteiras: tombou-o, despejou-o, fixando-o no chão por meio de pedras e estacas; depois prendeu "Semelhante" àquele nicho e entrou em casa.

Marchava agora, sem descanso, pelo quarto, o olhar continuamente fixado na Costa da Sardenha. Estava lá ao longe o assassino.

A cadela uivou todo o dia e toda a noite. A velha, de manhã, levou-lhe água numa panela; e nada mais: nem sopa, nem pão.

Passou-se ainda um dia. "Semelhante", extenuado, deixou-se dormir, tinha os olhos luzentes, o pelo eriçado, e puxava doidamente pela corrente que a amarrava.

A velha continuou a não lhe dar nada de comer. O animal, tornou-se furioso, latia em voz rouca. Passou-se ainda a noite.

Então, ao despontar do dia, a mãe Saverini foi a casa de um seu vizinho pedir dois molhos de palha. Pegou em algum traje velho que outrora servira seu marido, e forrou-o com a palha, de forma a imitar um corpo humano.

Tendo fincado um pau no chão, diante do nicho de "Semelhante", amarrou a ele aquele boneco, que assim parecia estar de pé.

Depois, disfarçou a cabeça por meio de uma trouxa de roupa velha.

A cadela, surpreendida, olhava para aquele homem de palha, e calava-se, embora devorada pela fome.

Então a velha foi comprar ao açougue um grande pedaço de chouriço. Tornando à casa acendeu uma luz no pátio, perto do nicho onde estava a cadela, e assou o chouriço. "Semelhante", desesperada, escumava, de olhos fixos na grelha cujo fumo lhe entrava no ventre.

Depois a mãe fez daquela gordura fumegante uma gravata ao homem de palha. Atou-a detidamente em redor do pescoço, como se a quisesse enterrar dentro dele. Feito isto, soltou a cadela.

De um salto formidável, o atingiu às goelas do boneco, e, com as patas sobre os seus ombros, pôs-se a rasgá-lo. Caía, com um pedaço das goelas da sua preza, depois atirava-se de novo, enterrando os dentes nos cordéis, arrancando algumas partes de comida, tornando a cair para tornar a atirar-se encarniçadamente. Arrancava o rosto ao boneco a grandes pedaços, fazendo em destroços todo o pescoço.

A velha, imóvel e calada, atentava para este espetáculo selvagem  com um olhar abrasado em chamas. Depois tornou a prender o animal, fê-lo jejuar mais dois dias e recomeçou aquele estranho exercício.

Durante três meses, habituou a cadela àquele gênero de luta, àquela refeição conquistada às dentadas. Por fim já a não prendia, lançava-a apenas com um gesto sobre o boneco.

Ensinara-a a rasgar, a devorar, por fim, sem que mesmo houvesse comida alguma nas goelas do homem. E em seguida, como recompensa, dava-lhe o chouriço assado na grelha.

Assim que via o homem de palha, "Semelhante" estremecia, depois voltava os olhos para a dona, que lhe gritava: "Vá!" num voz sibilante, levantando o dedo.

***

Quando lhe pareceu que era tempo, a mãe de Saverini foi confessar-se e comungou, um domingo de manhã, com um furor extático: depois vestiu-se com um traje de homem, aparentando de velho mendigo esfarrapado, contratou com um pescador sardo, que a conduziu, acompanhada da sua cadela, à outra margem do estreito.

Levava, no seu alforje, um grande pedaço de chouriço preto. "Semelhante" jejuava havia dois dias. A velha, fazia-lhe a todo o momento cheirar aquela comida odorante, excitando o animal.

Entraram em Longosardo. A corsa caminhava coxeando. Dirigiu-se à casa de um padeiro e perguntou a morada de Nicolas Ravolati. Este retomara o seu antigo ofício, o de marceneiro. Trabalhava só, como que escondido no seu estabelecimento. A velha passou pela porta e chamou:

— Eh, Nicolas!

Ele voltou-se. Então, soltando a cadela, a velha gritou:

— "Vá! corre, devora, devora!"

O animal, desesperado, atirou-se, ferrou os dentes na garganta do homem. Este estendeu os braços, estreitou o animal e rolou por terra. Durante alguns segundos contorceu-se, batendo com os pés no solo; depois ficou imóvel, enquanto que "Semelhante" lhe afundava o pescoço, arrancando-lho aos pedaços.

Dois vizinhos, que se achavam assentados às suas portas, recordam-se perfeitamente de terem visto sair da aldeia um velho mendigo com um cão negro, magríssimo, e que comia, ao mesmo tempo que ia andando, qualquer coisa negra que lhe dava o seu dono.

A velha, à noite, estava de volta em sua casa. E nessa noite dormiu profundamente. 

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