sábado, 7 de novembro de 2020

Tombuctu (Conto), de Guy de Maupassant

 


Tombuctu

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

O boulevard, esse rio de vida, formigava na poeira de ouro do sol poente. Todo o céu se achava vermelho, deslumbrante; e, por detrás da Magdalena, uma imensa névoa chamejante lançava em toda a avenida uma oblíqua aguaceira de fogo, vibrante como um vapor de braseiro.

A multidão alegre, palpitante, ia sob aquela bruma inflamada, como numa apoteose. Os rostos iam dourados; os chapéus negros e as vestes tinham reflexos de púrpura; o verniz do calçado lançava chamas sobre o asfalto das calçadas.

Diante dos cafés, uma chusma de homens bebia bebidas brilhantes e coloridas que dir-se-iam pedras preciosas fundidas no cristal.

No meio dos consumidores de fatos leves mais escuros, dois oficiais em grande uniforme atraíam todos os olhares com o brilho dos seus dourados.

Conversavam, alegres e sem motivo, nessa glória de vida, nesse brilho radioso da tarde; e olhavam a multidão, os homens vagarosos e as mulheres apressadas, que deixavam após elas um cheiro intenso e perturbador.

De repente, um enorme preto vestido também de preto, pançudo enfeitado de berloques destacando-se sobre um colete de brim, a face luzidia como se estivesse encerada, passou por diante deles com ar triunfante. Ele ria para os transeuntes, ria para os vendedores de jornais, ria para o céu brilhante, ria para todo o Paris. Era tão alto que a sua cabeça sobrepujava todas as outras; e, por detrás dele, todos os basbaques se voltavam para o contemplar de costas.

Mas de repente ele viu os oficiais, e, encalhando com os assistentes, precipitou-se para eles. Logo que chegou diante da mesa a que eles estavam, plantou nos olhos deles os seus olhos deslumbrados, e os cantos da boca subiram-lhe até às orelhas, descobrindo os seus dentes brancos, claros como um crescente de lua num céu negro. Os dois homens, estupefatos, contemplavam aquele gigante de ébano, sem compreenderem nada da sua alegria.

E ele exclamou, numa voz que fez rir os assistentes de todas as mesas:

— Bom dia, meu tenente.

Um dos oficiais era comandante de batalhão — o outro coronel. O primeiro disse:

— Eu não o conheço, senhor; ignoro o que deseja da minha pessoa.

 O negro tornou:

— Eu estimava muito a ti, tenente Vedié, em cerco Bézi, muita uva, buscava mim.

O oficial, cada vez mais passado, olhava fixamente para aquele homem, rebuscando no fundo das suas recordações; mas bruscamente exclamou:

— Tombuctu?

O negro, radiante, bateu uma palmada na sua coxa, soltou um riso de uma inverosimilhante violência e tartamudeou:

— Se, se, vá, meu tenente conhece Tombuctu, vá, bom dia.

O comandante estendeu-lhe a mão, rindo também com toda a alma. Então, Tombuctu pôs-se sério.

Pegou na mão do oficial, e, tão rapidamente que ele não teve tempo de o evitar, beijou-lha, segundo o costume africano e árabe. Confundido, o militar disse-lhe em voz severa:

— Vamos, Tombuctu, nós não estamos na África. Assenta-te e dize-me como é que te encontras aqui.

Tombuctu dilatou o ventre, e, gaguejando, tanta era a pressa com que falava:

— Ganhado muito dinheiro, muito grande restaurante, boa comida, prussianos, e roubado muito eu, muito cozinha francesa. Tombuctu cozinheiro do Imperador, duzentos mil francos a mim. Ah! ah! ah! ah! E ria, torcendo-se, roncando com uma grande loucura de riso que lhe transluzia no olhar.

O oficial, que compreendia bem a sua estranha linguagem, depois de o interrogar por algum tempo, disse-lhe:

— Muito bem, até mais ver, Tombuctu; até logo.

O regro levantou-se de repente, apertou desta vez a mão que lhe estendiam, e rindo sempre, exclamou:

— Bom dia, bom dia meu tenente!

E foi-se tão contente, que até gesticulava ao mesmo tempo que caminhava, de modo que o podiam tomar por doido.

O coronel perguntou:

— Quem é este bruto?

O comandante respondeu:

— É um rapaz muito bravo e um bravo soldado. Vou contar-lhe o que sei a seu respeito, é muito divertido.

***

Como sabe, nos começos da guerra de 1870 fui encurralado em Bézieres, a que aquele negro chama Bézi. Não estávamos cercadas, mas bloqueados. As linhas prussianas rodeavam-nos por todos os lados, fora do alcance dos canhões, não atirando sobre nós, mas reduzindo-nos pouco a pouco pela fome.

Eu era então tenente. A nossa guarnição era composta de tropas de toda a espécie, farrapos de regimentos fragmentados, desertores, maraus que haviam sido separados dos corpos do exército.

Tínhamos de tudo, enfim, até onze turcos chegados uma noite, não se sabia como, nem por onde. Haviam-se apresentado às portas da cidade, estafados, esguedelhados, esfomeados e esquálidos. Deram-mos a mim.

Não tardei a conhecer que eram rebeldes a toda a disciplina, sempre fora e sempre embriagados. Tentei corrigi-los pela detenção na caserna e até mesmo na prisão, e nada consegui. Os meus homens desapareciam durante dias inteiros, como se se enterrassem pela terra dentro, depois reapareciam a cair de bêbados. Não possuíam dinheiro. Onde bebiam? Como e com quê?

Começava o caso a intrigar-me vivamente, tanto mais que aqueles selvagens interessavam-me pelo seu riso eterno e o seu caráter de crianças grandes e traquinas.

Percebi, dentro em pouco, que eles obedeciam cegamente ao maior de todos, aquele preto que há pouco vimos. Ele governava-os a seu bel-prazer, preparando as suas misteriosas empresas como chefe todo poderoso e incontestado. Chamei-o a minha casa e interroguei-o. A nossa conversação durou boas três horas, tanto era o custo que eu tinha em perceber a sua impenetrável algaravia. Quanto a ele, o pobre diabo, fazia esforços inauditos para ser compreendido, inventava palavras, gesticulava, suava, limpava a testa, parava e tornava a falar bruscamente, quando julgava ter encontrado uma nova maneira de se explicar.

Adivinhei enfim que ele era filho de um grande chefe, de uma espécie de rei negro de cercanias de Tombuctu. Perguntei-lhe o seu nome. Respondeu-me qualquer coisa assim como Chavaharibuhalikhranafotapolara. Pareceu-me mais simples dar-lhe o nome do seu país: "Tombuctu". E, oito dias depois, toda a guarnição não o tratava de outra forma.

Mas eu tinha uma curiosidade enorme em saber onde aquele ex-príncipe africano encontrava de beber. Descobri isso de uma maneira singular.

Achava-me uma manhã sobre as muralhas observando o horizonte, quando divisei numa vinha, qualquer coisa que remexia.

Era chegado o tempo das vindimas, as uvas achavam-se maduras, mas eu não pensava em nada disso. Pensei que um espião se aproximava da cidade, e organizei uma expedição completa para agarrar quem se aventurava a espiar. Eu próprio assumi o comando, depois de ter obtido autorização do general. Fiz sair, por três portas diferentes, três pequenos grupos, que deviam reunir-se perto da vinha suspeita e cercá-la. Para cortar a retirada ao espião, uma dessas divisões tinha de fazer uma marcha de uma hora pelo menos. Um homem que ficara em observação sobre as muralhas, indicou-me por sinais que a criatura que eu vira, não saíra do campo. Íamos em grande silêncio, de rastos, quase deitados nos carreiros. Enfim, chegamos ao ponto designado; desdobro de repente os meus soldados, que se atiram à vinha, e encontram... Tombuctu viajando de gatas por entre as cepas e comendo uvas, ou antes abocando a uva como um cão que come a sua sopa, a plena boca, arrancando os cachos às dentadas.

Quis fazê-lo levantar; mas nem pensar nisso, e compreendi então porque ele se arrastava daquele modo sobre as mãos e sobre os joelhos. Desde que o plantaram sobre as pernas, oscilou alguns segundos, estendeu os braços e foi de ventas ao chão. Estava embriagado como nunca eu vi embriagado um homem.

Conduziram-no sobre uma padiola. Ele não cessou de rir em todo o caminho, gesticulando com os braços e as pernas. E ali estava todo o mistério. Os meus libertinos bebiam na própria uva. Depois, desde que se achavam bêbados a ponto de não poderem mexer, deixavam-se ficar a dormir onde caíam.

Quanto a Tombuctu, o seu amor pela vinha ultrapassava nele toda a crença e toda a lei. Vivia dentro dela à maneira dos tordos, que ele de resto abominava com um ódio de rival cheio de inveja. Repetia sem cessar:

— Os tordos comem a uva toda, malditos!

***

Uma tarde vieram procurar-me. Apercebia-se na planície qualquer coisa que crescia para nós.

Eu não tinha a minha luneta e via muito mal. Dir-se-ia uma grande serpente que se desenrolava, um comboio, que sei eu?

Mandei alguns homens ao encontro daquela estranha caravana que não tardou em fazer a sua entrada triunfal. Tombuctu e nove dos seus companheiros traziam sobre uma espécie de altar, feito cadeiras de campo, oito cabeças cortadas, ensanguentadas e amedrontadoras. O décimo turco trazia um cavalo, à cauda do qual um outro vinha amarrado, e seis outras bestas seguiam o segundo, amarradas da mesma forma.

Eis o que eu soube. Tendo partido para as vinhas, os meus africanos tinham visto de repente uma facção prussiana que se aproximava de uma aldeia.

Em vez de fugirem, tinham-se escondido; depois, logo que os oficiais se apearam, puseram em fuga os uilanos que se julgaram atacados, mataram as duas sentinelas, a seguir o coronel e os cinco oficiais da escolta.

Nesse dia, abracei Tombuctu. Mas percebi que ele marchava a custo. Julguei-o ferido; ele pôs-se a rir e disse-me:

— Eu, ter provisões p'ra país.

Era que Tombuctu não fazia a guerra por honra, mas por dinheiro.

Tudo o que ele achava, tudo o que lhe parecia ter um valor qualquer, principalmente se brilhava, mergulhava-o na sua algibeira. E que algibeira! Um abismo que começava no ombro e acabava nos artelhos. Tendo aprendido um termo de caserna, chamava-lhe a sua "profunda", e era a sua profunda, com efeito!

Tinha pois arrancado o ouro dos uniformes dos prussianos, o cobre dos capacetes, os botões etc., e tudo lançara na sua "profunda" que se achava cheia a transbordar.

Todos os dias, precipitava ali dentro todo o objeto luzente que lhe estivesse ao alcance dos olhos, como pedaços de estanho ou peças de prata, o que lhe dava por vezes um andar infinitamente patusco.

Contava levar aquilo para o país dos avestruzes, das quais ele parecia em verdade o irmão, aquele filho de rei torturado pela necessidade de engolir corpos brilhantes. Se ele não tem a sua "profunda" que teria feito a todos aqueles objetos? Tê-los-ia engolido com certeza. Mas todas as manhãs a sua algibeira se achava esvaziada. Ele tinha portanto um armazém onde empilhava as suas riquezas. Mas onde? Nunca o pude descobrir.

O general, prevenido da façanha de Tombuctu, não tardou em fazer enterrar os corpos que haviam ficado na aldeia vizinha, para que não fosse descoberto que eles tinham sido decapitados.

Os prussianos vieram ali no dia seguinte. O administrador e sete habitantes dos mais notáveis foram logo fuzilados, como represálias, como tendo denunciado a presença dos alemães.

***

Chegara o inverno. Achávamo-nos fatigados e desesperados. Batíamo-nos todos os dias. Os homens, famintos, já não podiam marchar. Só os oito turcos (três haviam sido mortos) continuavam gordos e luzidios, vigorosos e sempre prontos a baterem-se com o inimigo. Tombuctu continuava também a engordar. Um dia disse-me:

— Tu tens muita fome, eu tem boa carne.

E entregou-me em verdade um excelente naco de carne. Mas de quê? Nós não unhamos nem bois, nem carneiros, nem cabras, nem burros, nem porcos. Era impossível encontrar-se um cavalo. Refleti em tudo aquilo depois de ter devorado a carne que ele me dera. Então veio-me um pensamento horrível. Aqueles negros haviam nascido muito perto do país onde se come carne humana! E todos os dias cabiam tantos soldados em redor da cidade! Interroguei Tombuctu. Não me quis responder. Não insisti, mas recusei daí em diante os seus presentes.

Ele adorava-me. Uma noite, a neve surpreendeu-nos nos postos avançados. Estávamos assentados por terra. Eu olhava impiedosamente os pobres negros, tremelicando sob aquela poeira branca e gelada. Como tivesse imenso frio, comecei a tossir, e senti qualquer coisa cair-me em cima como um grande e quente cobertor. Era o manto de Tombuctu que ele me deitava pelos ombros.

Levantei-me, e entreguei-lhe o seu manto.

— Guarda isso, meu rapaz; tu precisas mais dele do que eu.

Ele respondeu:

— Não, meu tenente, para ti; eu não tem precisão, eu está quente, quente.

E contemplava-me com olhos suplicantes.

E eu tornei:

— Vamos, obedece, guarda o teu manto, assim o quero.

O negro então levantou-se, tirou o seu sabre que estava afiado a ponto de cortar como uma foice, e tendo na outra mão o largo manto que eu recusava:

 Se tu não guarda manto, eu corta; ninguém tem manto, olé!

E cortava-o, com certeza. Por isso eu cedi.

***

Oito dias depois, tínhamos capitulado. Alguns de entre nós tinham podido fugir. Os outros iam sair da cidade e entregar-se aos vencedores.

Dirigia-me para a Praça de Armas, onde devíamos reunirmos, quando fiquei estupefato diante de um negro gigante vestido de brim, que tinha na cabeça um chapéu de palha. Era Tombuctu. Parecia radiante e passeava, de mãos nas algibeiras, diante de uma lojinha em cuja montra se via dois pratos e dois copos.

Eu disse-lhe:

— Que fazes?

Ele respondeu:

— Eu não fui embora, eu é bom cozinheiro, eu fez comer cornel algéia; eu faz comer prussianos, rouba muito, muito.

Gelava a dez graus. Eu batia o queixo diante daquele negro vestido de branco. Então ele pegou-me pelo braço e fez-me entrar. Vi uma tabuleta desmesurada que ele ia pendurar diante da porta, logo que partíssemos, porque tinha alguma vergonha de que o víssemos.

E li, traçado pela mão de algum cúmplice:

COZINHA MILITAR DE MR. TOMBUCTU
Antigo cozinheiro de Sua Majestade, o Imperador
Artista de Paris - Preço sem concorrência.

Apesar do desespero que me roía, não pude suspender o riso, e deixei o meu negro no seu novo comércio.

Não valeria mais que fazê-lo ir prisioneiro? Como acaba de ver, ele escapou, o valente.

Beziéres, hoje, pertence à Alemanha. O restaurante Tombuctu é um início de desforra.

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