12/10/2020

E os cisnes? (Conto), de Júlia Lopes de Almeida

 


E os cisnes?

Procurando emoções, ou por uma curiosidade extravagante, a viscondessa de São Roque lembrou-se um dia de ir ver o hospital de alienados do Dr. Aguilar. 

Descendo do seu coupé dentro do pátio do edifício, perguntou ao porteiro pelo diretor. 

Não estava; mas como não devesse tardar, conduziram-na a um escritório ao rés-do-chão, cheio de armários e de aparelhos elétricos. 

A viscondessa sentou-se e olhava para o chão reluzente, quando percebeu uma sombra a deslizar a seu lado. 

Voltou-se e viu junto a si uma mulher de uns trinta anos, baixa, clara e delgada, de rosto longo como o dos carneiros e olhos pardos, de expressão dulcíssima. Tinha o andar macio como o das freiras, as mãos delicadas, pequeninas e pálidas, e um sorriso que lhe iluminava a fisionomia triste e vaga... 

– Deseja alguma coisa? 

– Sim... vim pedir permissão ao Dr. Aguilar para ver o seu estabelecimento. Disseram-me que ele não tarda e mandaram-me esperar aqui... 

– Se é só isso, não vale a pena cansar-se; ele virá... ou não virá. Em todo o caso, prontifico-me a acompanhá-la. 

– É enfermeira? 

– Sim, minha senhora. O que lhe peço é que escreva aqui o seu nome. 

A enfermeira apresentou, sobre a grande secretária de nogueira, o livro em que se inscreviam os visitantes. 

A viscondessa tirou rapidamente a luva, e mesmo sem se sentar, apoiou o cotovelo na mesa e escreveu. Por trás dela, a outra esticou muito o pescoço e leu-lhe o nome. Depois, com um sorriso: 

– Podemos ir. 

Saíram ambas, atravessaram corredores e subiram escadas. 

A enfermeira ia adiante, roçando sem bulha nos degraus o vestido mole, de riscadinho azul e branco, coberto na frente por um largo avental de linho pardo. As sedas da viscondessa farfalhavam. 

– Por aqui... veja, esta é a sala dos doidos pacíficos, dizia a enfermeira. Passemos agora a escola das crianças. A senhora não receia impressionar-se? 

– Não... – respondeu a visitante, depois do uma pequena hesitação. 

– É muito triste. Enfim, é bom ver tudo! – concluiu a enfermeira. 

– A senhora... – e a viscondessa interrompeu-se para perguntar 

– Como hei de chamá-la? 

A outra não respondeu logo e ficou pensativa, como se fizesse um esforço para se lembrar do sou nome; depois disse com um sorriso: 

– Chame-me... irmã Serafina; não sou freira, mas fui educada num convento, e os meus irmãos, em casa, por brincadeira, davam-me esse nome. Acostumei-me. 

– A irmã Serafina – voltou a viscondessa, prendendo o fio do seu pensamento partido – não tem medo de viver aqui? 

– Às vezes... certamente que os doidos fazem-nos passar bocados perigosos!... Mas tenho compaixão, dediquei-me a isto e já agora hei de envelhecer ao lado deles. Pobre gente! 

Havia no olhar de irmã Serafina uma tamanha expressão de piedade e doçura, que a viscondessa sentiu-se comovida e murmurou: – Que anjo! 

Entraram na escola. Umas dez crianças, espalhadas por meia dúzia de bancos, levantaram os narizinhos curiosamente para a visitante. O mestre tinha sentado nos joelhos um pequenito, que se encaracolou todo, fazendo-se num novelo. Ao mesmo tempo surgiam da aula gritos e guinchos estranhos; um rapaz de dez anos quis fazer discurso, outro arremedou o miar dos gatos, de uma maneira tão justa e com uma careta tão dolorosa, que a viscondessa, arrepiada, voltou depressa para o corredor. 

A irmã Serafina deixou-se ficar para trás e, curvando-se, beijou uma menina que, encostada à parede, contava os dedinhos incessantemente: um, dois, três... 

Quando voltou para junto da visitante, ela disse com uma voz magoada: 

– Não a avisei de que se havia de impressionar na escola das crianças? Pobres anjos! Eu ainda não me habituei a olhar sem lágrimas para aqueles entezinhos condenados, por uns pais sem consciência, a uma vida de agonias! 

– Condenados pelos pais? – murmurou com estranheza a visitante. 

– Certamente. Quem pode dar uma herança tão desgraçada aos filhos, não se casa. Sabe que são vítimas da hereditariedade. 

– Todos?! 

– A maior parte. Que pecado! Deveria haver leis que proibissem certas uniões... O que estas crianças me têm feito chorar, só de pena! Algumas são más, mordem, batem, causam estragos de toda a ordem. Umas ferazinhas inconscientes. Quanto piores elas são, mais as lamento. É preciso que haja alguém que as ame. Eu sou mais carinhosa para aquelas a quem ninguém quer bem... Afinal, boas e más correm para mim. Sabe que todas as crianças gostam das aves. 

– Das aves?! 

– Sim, que tenham asas que as agasalhem. 

– Ah... 

A voz da irmã Serafina era melíflua, escorregadia e branda; uma dessas vozes cantantes e claras, que uma vez ouvidas nunca mais se esquecem. Não há por certo mulher cuja harmonia seja tão completa no seu todo. Deveriam antes chamá-la irmã Suavíssima! 

Atravessaram todo o edifício sem que uma palavra, um gesto da guia alterasse a sua expressão de candura. Todos os doentes lhe sorriam, e ela sorria a todos os doentes. Ia passando como uma bênção, branda como o perfume de um lírio. No chão encerado dos largos corredores só se ouviam os passos da viscondessa batendo o metal dos tacões num tic-tac sonoro. Aquele som regular caía-lhe no ouvido como um barulho profano. Envergonhava-se e temia atrair a atenção dos doidos. Repelia o desejo de descalçar-se para deslizar como a irmã Serafina pelo parquet

– Quer ver uma louca feliz? 

– Sim... Respondeu a viscondessa. 

Impelindo a porta de um quarto, entraram. Ao pé de uma janela, aberta para o azul do espaço, e ao lado de um leito todo feito de branco, uma velhinha risonha cantarolava num delgado fio de voz, fazendo tricô. Os novelos bailavam-lhe no colo, sobre o zuarte limpo do vestido, e as mãos enrugadas e secas moviam as longas agulhas, ligeiras, ligeiras. 

Sempre a cantar uma cantiga risonha, a doida cumprimentou a visita, com um movimento airoso de cabeça. 

A enfermeira murmurou indicando-a: 

– É sempre assim. 

Tornaram a sair e desceram uma escada larga de corrimão envernizado. 

Embaixo atravessaram um pátio cimentado, onde numa ordem simétrica se alinhavam grandes tinas verdes plantadas de azaleias. Os arbustos carregados pareciam buquês, mais flores do que folhas. Uns vermelhos, escuros como sangue pisado, outros róseos como o céu na aurora, e outros brancos como a neve casta. A viscondessa roçava por eles o vestido de seda que ia gemendo, no seu farfalhar, pela pressão nervosa com que ela o arregaçava. 

A irmã Serafina colheu um galho das azaleias brancas, soprou delicadamente uma formiguinha que passeava numa das flores e entregou-o a viscondessa, murmurando: 

– As brancas são as mais bonitas, as mais ingênuas; não acha? 


A outra sorriu. Entraram num corredor que conduzia, direito e amplo, a uma alta porta de vidro azul. 

Chegadas aí pararam; era a porta da saída. Através do vidro grosso da porta via-se o vestíbulo de ladrilho, aberto sobre o jardim. 

O sol estava forte, de um ouro intenso; o azul acinzentado do vidro quebrava-o numa luz de crepúsculo outonal. Mármore da escada, areia do jardim, maciços de verdura, grupos de palmas de roseiras ou de crótons variados, tinha tudo o mesmo tom enfumado, uniforme e brando. 

Ao centro do jardim, entre um relvado côncavo, um pequeno lago tinha a cor e a placidez de um espelho; e à beira dele, sobre a grama bem aparada, uma cegonha parecia de aço, não só pela cor, como pela imobilidade da atitude. 

A viscondessa estendeu a mão à irmã Serafina, mas esta não lhe prestou atenção: tinha o rosto colado ao vidro da porta. 

– Adeus... repetiu a viscondessa. 

A outra então voltou-se e, suspendendo o busto para chegar a boca ao ouvido da viscondessa, disse com voz mal firme: 

– E os cisnes?... 

– Que cisnes? Ia perguntar a viscondessa. Mas conteve-se. A irmã Serafina tinha o olhar branco de cólera, uma transformação súbita quebrara-lhe o encanto. Ela movia-se abrindo os cotovelos e esticando o pescoço. 

A viscondessa compreendeu a verdade e tateou a porta, sem poder abri-la; quis gritar – teve medo; e a outra, entretanto, volteava, volteava, repetindo cada vez com mais força: 

– E os cisnes? E os cisnes?! 

*** 

Minutos depois a viscondessa ouvia do diretor do hospital que a loucura daquela mulher provinha de ter perdido uma filha afogada por causa de uns cisnes. A criança, debruçada no lago, quis agarrar as aves; – as aves partiram e a pequenina mergulhou. – Desde então a mãe finge-se de cisne, asseverou ele. 

– Compreendo agora... Ela disse-me que tinha asas! Com quem eu andei! 

– Andou com uma inofensiva que, mesmo quando grita, não faz mal a ninguém. Para mim, ela só tem uma curiosidade: a mania de se ter encarnado no inimigo. Foi um cisne que lhe motivou a loucura, ela quer ser cisne... Enfim, também acontece lá fora adorarmos às vezes a própria causa do nosso mal... As suas azaleias, minha senhora! 

E o médico apanhou as flores que a viscondessa deixara cair ao entrar para o coupé, enquanto os gritos continuavam lá dentro, repetidos e chorosos: 

– E os cisnes? E os cisnes?!

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