domingo, 9 de maio de 2021

A casa de maribondo (Conto popular), de Figueiredo Pimentel


A casa de maribondo

Xisto e Tomás eram conterrâneos filhos da mesma aldeia, uma aldeiazinha de Trás-os-Montes, em Portugal. Desde crianças, sendo quase da mesma idade, eram íntimos amigos, e continuaram sempre na mesma intimidade, depois de grandes, casados e pais de filhos, vindo até a serem compadres.

Tão amigos eram, que resolveram embarcar para o Brasil já que na aldeia não tinham esperanças de melhorar de estado, ao passo que ouviam dizer que nos Brasis, floria a Árvore das Patacas. Era só a gente subir aos galhos, e recolher moedas.

Assim um belo dia embarcaram no mesmo navio. Sofreram iguais privações, juntos compartilharam as mesmas mágoas, as mesmas saudades da Santa Terrinha, que deixaram, e das esposas, os filhos, os amigos, o burro, mais a vaca, dois bezerritos, quatro leitões, e mais de dúzia e meia de cabeças de criação.

Aqui, porém, a sorte mudou. Xisto enriqueceu no comércio de escravos, e numa porção de negócios do mesmo gênero. Tomás, no entanto, continuava pobre, e mais pobre se viu, depois que, à imitação do compadre, mandara vir a mulher. A sua vida, por último, era um horror, e vendo que não podia viver mais na cidade, onde tudo estava caríssimo, por preços exorbitantes, resolveu-se a ir pedir ao comendador Xisto, que possuía léguas e léguas de terras abandonadas, de todo incultas, alguns palmos de terreno, onde pudesse construir uma casinha de morada, e cultivar alguns produtos de pequena lavoura, que o sustentassem, mais a família, e que pudesse ir vender à vila.

Xisto, dessa vez mostrou-se compassivo e generoso: cedeu ao seu compadre pobre, a terra que necessitava, e Tomás ali se aboletou, numa choupana coberta de sapé, que edificou por suas próprias mãos.

As duas moradas eram vizinhas. De um lado, via-se a miserável cabana de Tomás da Abadia, e do outro, a soberba e luxuosa vivenda do “honrado comendador Xisto Manuel de Souza e Silva".

Certa vez, Tomás estava cavando a terra, e Xisto se achava perto, gozando o prazer de não trabalhar, e ver o seu íntimo amigo a mourejar como um escravo. De repente, a enxada de Tomás bateu num corpo estranho, duro, resistente. Cavou mais, afundou o buraco, e eis que descobriu uma panela cheia de moedas de ouro.

Como as terras lhe pertenciam, Xisto apressou-se em levar o pote a casa, muito agitado, e não consentiu mais que o compadre pobre trabalhasse em suas terras. Despediu o pobre Tomás, e chamou a mulher para verem as riquezas que existiam em sua propriedade.

Abriram então a panela, mas encontraram apenas uma casa de maribondos. Julgando que aquilo era caçoada de Tomás, o milionário ficou possesso de raiva, e protestou que havia de lhe pregar uma peça.

Apanhou a casa, colocou-se com muito jeito num saco, para não alvoroçar os bichos, e dirigiu-se à casa de Tomás.

Assim que o avistou, foi logo gritando:

— Compadre, fecha as portas e deixa somente um lado da janela aberto...

Tomás fez o que lhe dizia o outro.

Xisto chegando perto da janela, jogou para dentro a casa de maribondos, dizendo:

— Fecha agora tudo, compadre, e toma este presente que te trago.

Mas os maribondos assim que bateram no chão, transformaram-se em moedinhas de ouro, e o pobre Tomás chamou a mulher e os filhos para ajuntá-las.

Xisto gritava:

— Ó compadre, abre a porta!

— Deixa-me compadre Xisto, já não posso mais com estes malditos bichos, que me matam de ferroadas, respondia o outro, que compreendeu imediatamente o que havia sucedido, satisfeito por ver que Xisto não conseguira fazer o mal que pretendera.

E o rico ria-se da boa peça que havia pregado ao pobre.

Ficou assim o pobre rico, e o rico pobre, por querer fazer maldade que não conseguiu.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

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