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3/21/2024

Chapeuzinho Vermelho (Conto), de Figueiredo Pimentel



 CHAPEUZINHO VERMELHO

Existia na capital de um país distante, uma meninazinha muito galante, muito linda.

Chamava-se Albertina, mas toda gente a conhecia por Naná. Sua avó estimava-a imensamente.

Esta boa avozinha, não sabendo mais o que inventar para alegrá-la, deu-lhe um chapeuzinho de veludo vermelho.

A pequenita ficou satisfeitíssima com seu novo chapéu, a ponto de não querer usar outro, e, como andasse constantemente com aquele, quando a viam aproximar-se, tão bonitinha, chamavam-lhe Chapeuzinho Vermelho.

Sua mãe e avó moravam a meia légua de distância uma da outra, e entre as duas habitações havia uma floresta.

Uma manhã, a mamãe disse para Naná:

- “Tua avozinha está doente e não pode vir ver-me. Eu também não posso ir lá. Assim, vai tu levar-lhe um bolo e uma garrafa de vinho. Toma cuidado: não quebres a garrafa, nem te divirtas em correr pela floresta. Segue sossegada pelo caminho, e volta depressa.”

- “Sim”, respondeu Chapeuzinho Vermelho. “Obedecê-la-ei, mamãe.”

Vestiu-se com aventalzinho muito limpo, colocou a garrafa numa cestinha, e seguiu contente.

Desobedecendo a mãe entrou num outro caminho para colher flores, quando a pareceu um lobo.

A menina não conhecia os lobos, e olhou para aquele sem receio algum.

- “Bom dia, pequeno Chapeuzinho Vermelho”, disse o lobo.

- “Bom dia, senhor”, respondeu Naná, delicadamente.

- “Onde vai tão cedo?”

- “Vou à casa da minha avó, que está doente.”

- “E leva-lhe alguma coisa?”

- “Sim um bolo e uma garrafa de vinho que mamãe mandou.”

- “Diga-me, minha interessante menina: onde mora sua avó? Quero ir vê-la também.”

- “Mora à beira da floresta, não muito longe daqui. Ao lado da casinha há árvores muito grandes e no jardim laranjeiras.”

- “Ah! tu é que és uma laranjinha muito apetitosa”, disse o lobo consigo mesmo, e acrescentou algo:

“Olha que lindas árvores e que lindos passarinhos! É na verdade um belo divertimento a gente passear na floresta, onde se encontram tão boas plantas medicinais.”

- “Sem dúvida alguma o senhor é médico”, replicou Albertina, “pois conhece as plantas medicinais.

Talvez pudesse indicar-me alguma, que fizessem bem à vovó.”

- “Perfeitamente, minha filha: aqui tem várias... esta, essas, aquel’outra...”

Mas todas as plantas que o lobo ia indicando eram venenosas.

A inocente criança, entretanto, colheu-as para levá-las à sua vovó.

- “Adeus, meu gentil Chapeuzinho Vermelho, estimei muito encontrar-me com você. Vou deixá-la, pesaroso, pois tenho que ir depressa ver alguns doentes.”

Assim falando, correu ràpidamente para a casa da velha, enquanto Naná se divertia colhendo as plantas que ele indicara.

Chegando à residência da velha senhora, achou a porta fechada e bateu.

A avó não podendo levantar-se da cama, falou:

- “Quem bate?”

- “É o pequeno Chapeuzinho Vermelho”, respondeu o lobo, mudando de voz, “mamãe mandou-lhe um bolo e uma garrafa de vinho.”

- “Entre minha netinha. A chave está aí em baixo da porta.”

O lobo encaminhou-se para a cama da doente.

Aí, engoliu-a de uma só vez, e, vestindo as roupas da velha, esperou deitado no leito.

Um instante depois chegou Albertina, que ficou admirada por ver a porta escancarada, sabendo o cuidado de sua avó.

O lobo tinha colocado uma touca na cabeça; apenas se percebia um pouco da sua cara.

Mas assim mesmo, o que se via era horroroso.

- “Ah, avozinha”, disse o pequeno Chapeuzinho Vermelho, “para que é que a senhora tem orelhas tão grandes?”

- “Para melhor te ouvir, minha neta.”

- “Para que tem braços tão compridos?”

- “Para melhor te abraçar, minha neta.”

- “Para que tem uma boca tão grande e dentes tão compridos?”

- “Para te comer...”

Dizendo isso, o lobo avançou para a desgraçada menina, e engoliu-a.

Achando-se plenamente satisfeito, adormeceu, e durante o sono ressonava terrivelmente.

Um caçador, passando por acaso perto da casinha, e ouvindo esse ruído extraordinário, disse:

- “A velhinha está talvez com um pesadelo. Quem sabe mesmo se não está mal? Vou ver se posso servir para alguma coisa.”

Entrou e descobriu o lobo estendido na cama.

- “Olé! Você por aqui! Há quanto tempo o procuro!”

Armou a espingarda, mas lembrou-se:

- “Não vejo a dona da casa, e bem pode ser que ele a tenha engolido viva.”

Então, com a sua faca de caça, abriu habilmente a barriga do lobo.

Apareceu Chapeuzinho Vermelho, que saltou no chão, exclamando:

- “Ah! que lugar terrível em que eu estava encerrada!”

A avó saiu também, muito satisfeita por tornar a ver o dia.

A fera continuava a dormir profundamente.

O caçador meteu-lhe duas pedras na barriga, e em seguida coseu a pele, ocultando-se depois com a avó e a neta.

Quando o lobo acordou, devorado por uma sede ardente, dirigiu-se para o tanque.

Enquanto caminhava ouviu as pedras batendo lá dentro, e ficou pasmado, sem saber o que era.

Chegando ao tanque, arrastado pelo peso das pedras, afogou-se.

Naná desde esse dia, vendo quanto é mau uma filha ser desobediente, prometeu nunca mais deixar de seguir as recomendações de sua mãe, e sempre cumpriu a promessa.


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2024.

6/24/2021

O papagaio encantado (Conto popular), de Figueiredo Pimentel

 

O papagaio encantado

Longe, muito longe daqui, lá para as bandas onde o sol nasce, dizem que existia maravilhoso país, diferente em tudo e por tudo do nosso. 

Governava-o um soberano, um rei, que fez a felicidade dos seus súditos, pelos generosos dotes de coração que abrigava; pelo seu amor e respeito à Justiça, ao Direito, à Liberdade, à Igualdade e à Fraternidade; e, sobretudo pela sua grande sabedoria. 

Chamava-se Marval, e tinha três filhas, qual delas a mais bonita: a primeira tinha por nome Alice, – a do meio – Rosa, e a terceira, – Amanda. 

Um dia ordenou-lhes o pai que elas lhe contassem todos os dias, pela manhã, o sonho que por acaso, cada uma tivesse durante a noite. 

As meninas receberam essa ordem com certa estranheza. Contudo, como eram mui obedientes, prometeram cumprir o que lhes era mandado. 

À noite, antes de se deitarem, em conversa, começaram a discutir aquela ordem absurda e tão fora de propósito. 

Dizia Alice, a mais velha: 

 Estou admirada da ordem que o nosso pai nos deu, manas, tão esquisita é ela; e nem sei que farei amanhã, se acaso sonhar uma tolice, como às vezes sucede a gente sonhar. Com certeza terei pejo em narrá-la. 

— Eu não, disse Rosa, não tenho vergonha alguma de meu pai, e contarei tudo, se tiver algum sonho. 

— E eu, falou Amanda, a caçula, já que, é a vontade do meu pai, dir-lhe-ei tudo nem que saiba zangar-se ele depois comigo. 

No dia seguinte, pela manhã, Marval mandou, dizer às moças que já estava à espera, para elas lhe contarem os seus sonhos. 

As duas primeiras nada tinham sonhado, por isso nada disseram. Amanda, porém, sonhara que por aqueles dias havia de se casar com um príncipe muito lindo e muito rico, senhor de um país onde as casas eram de ouro e pedras preciosas, e que cinco reis haviam de lhe beijar a mão, achando-se entre eles seu pai. 

O monarca, zangadíssimo com a filha, declarou que se ela sonhasse outra vez semelhante coisa, e tivesse coragem de lhe relatar outro sonho, assim tão soberbo, mandaria matá-la. 

As duas irmãs ficaram tristes, quando souberam do sonho de Amanda e foram lhe pedir para não contar outro, que por ventura tivesse, no mesmo sentido, sendo nesse caso preferível mentir. 

— Papai disse que te mandaria matar. Ora, bem sabes que palavra de rei não volta atrás. Por isso acho bom nada mais lhe narrares. 

No dia seguinte a menina quis enganá-lo. Mas como não sabia mentir, chegou-se para ele chorando muito, e lhe contou entre lágrimas, o sonho da véspera, que se repetira naquela noite. 

Marval enfureceu-se com a desobediência da filha, pensando, que ela estava procedendo propo­sitadamente. Mandou, pois, que os criados a levassem para uma floresta distante, e a matassem; trazendo-lhe o dedo mindinho, como prova de sua morte. 

As irmãs, tendo notícia da sentença, de joelhos, pediram ao rei que a perdoasse, pois se Amanda havia contado o sonho, foi porque lho tinha sido ordenado; que elas duas lhe haviam aconselhado não repetir a narração, mas, como era muito verdadeira, não quis mentir, e confiara na bondade do pai para absolvê-la. 

— Antes papai a mande presa para a torre dó castelo, opinou Rosa, sem poder sair, senão uma vez por ano. 

Continuando a suplicar o perdão da irmã, ou, pelo menos, a comutação da pena, Rosa e Alice inventaram mil castigos. O rei, todavia, foi inflexível; não revogou a ordem, e as meninas saíram dali com o coração cheio de dor, pela próxima perda da irmãzinha que tanto estimavam. 

No outro dia, assim que rompeu a madrugada, a princesa Amanda partiu para a Floresta Negra, toda de luto, com um véu preto, que lhe cobria completamente o rosto, a ponto de torná-la desco­nhecida. 

Ordenara-lhe Marval o uso desse véu, para que a corte ignorasse o fato, e não começasse a propalar a sua maldade. 

Os próprios criados de confiança, que foram designados para matar a princesa, não sabiam quem era aquela moça toda de preto, com um véu tão espesso, que não deixava ver sequer a sua fisionomia. 

Antes de chegarem à Floresta Negra, os emissários reais encontraram uma velhinha, uma mendiga, que todos os dias ia receber esmolas que Amanda lhe dava. 

Essa velhinha, que era adivinha, ao ver passar aquela gente tão cedo, ainda de madrugada, conheceu logo a princesa, e gritou: 

— Adeus, princesa Amanda, minha benfeitora, filha do muito poderoso rei Marval! Desejo-lhe muitas venturas. Vá depressa, que seu noivo está à sua espera!... 

A moça, que ia muito triste, pensando na sua sorte desgraçada, mais triste ficou, por se lembrar que a pobrezinha ia passar sem esmolas. 

Não obstante não poder parar, nem um segundo, sob hipótese alguma, a carruagem que ia, teve ela ainda tempo de atirar uma moedinha, que se achava acaso no bolso do vestido. 

A velha, compreendendo o bom coração da menina, exclamou: 

— Deus nunca desampara os bons, princesa Amanda! Nossa Senhora há de acompanhá-la e protegê-la! 

Ora, entre os criados que haviam ido levar a princesa, para matá-la na Floresta Negra, achava-se um, de nome João, já velho, que a tinha criado. Sabendo, pelas palavras da mendiga, que a moça a quem levavam para assassinar tão cruelmente, ser a sua querida, a sua extremosa, sua dileta filhinha, – como ele chamava e considerava a princesa, – protestou logo no não-cumprimento da ordem real, sucedesse o que sucedesse. 

Firme nesse propósito, logo que o cortejo chegou à entrada da Floresta Negra, João disse aos seus companheiros que fora ele o encarregado de matar a moça; e por isso que o esperassem ali, pois não precisava de ajudante para tal serviço. Levou a menina para longe, no meio da mata, e como estimava muito a princesinha teve pena de matá-la. Trouxe, todavia, para o rei não desconfiar, o dedo mínimo de Amanda como, prova de sua morte, e em cumprimento à ordem que rece­bera. 

Assim que a jovem Amanda se viu só, principiou a chorar de medo, porque ouvira dizer que aquela floresta era mal-assombrada. Começou a andar; e, andando muito, já bastante fatigada, chegou a um buraco. 

Aproximou-se dele, e assim que transpôs a entrada, percebeu que quanto mais caminhava, tanto mais largo se tornava ele, do mesmo modo que o terreno mais pedregoso e cheio de raízes, se cobria de relva fina e macia, que seus pés cans­ados pisavam. 

Prosseguindo sempre, deparou-se-lhe deslumbrante palácio todo de mármore cor-de-rosa, e janelas e portas de ouro. 

Sentindo-se bem, ficou residindo aí, satisfeita, almoçando, jantando e ceando, sem no entanto ver pessoa alguma, o que de algum modo a impressionava. 

A única coisa que quebrava o silêncio desse palácio, era um papagaio, que falava dentro de um quarto fechado e cujas portas jamais se abriam. 

*** 

Havia algum tempo já que Amanda ali se achava, vivendo, cada vez mais serena e feliz, apenas muitíssimo triste, quando um dia, lhe apareceu um moço, formoso, ricamente vestido. Entregou-lhe ele a chave do quarto, dizendo que po­dia abri-lo, o que fez sem mais demora. 

Foi um deslumbramento. Ficou maravilhada de ver papagaio tão grande, tão bonito, de asas tão douradas que parecia o sol, e tendo na cabeça um diamante de inexcedível preço, e lindo, lindíssimo, sem igual no mundo. 

Ao ver aproximar-se a moça, a ave sacudiu as penas, contentíssima, e disse: 

— Bons-dias, princesa Amanda, filha do rei Marval! Como vem tão bonita, tão formosa! 

 Mais formoso do que eu, és tu, meu lindo papagaio dourado... 

Ainda bem não havia terminado a última palavra, e o papagaio transformou-se no lindo moço que lhe tinha aparecido para lhe dar a chave do quarto. 

Esse moço era sua alteza o príncipe imperial Calcim, filho e herdeiro de Manarés XI, imperador da região das Pedras Raras. Fora transformado num papagaio, e deveria permanecer nesse estado até encontrar uma princesa que descobrisse o palácio subterrâneo e o desencantasse. 

Assim, meses após, celebrou-se o seu casamento com Amanda, comparecendo cinco reis tributários do imperador Manarés XI, entre os quais se achava o rei Marval para beijarem a mão da noiva. 

Todos os outros beijaram a mão da princesa, mas, quando chegou a vez de Marval, a nova imperatriz recusou-a. 

Escandalizado com tão grave injúria, à vista dos outros reis, Marval perguntou o motivo do procedi­mento da princesa. 

Calcim, querendo dar uma satisfação da recusa, perguntou a Amanda por que assim procedia com um rei tão ilustre e senhor de uma nação poderosa e amiga. 

A moça narrou, então, a sua história, que foi ouvida por todos com a máxima atenção. Marval foi muito censurado, mas, mostrando-se arrependido, obteve o seu perdão, e viveu feliz ainda muitos anos.

5/11/2021

A alma do outro mundo (Conto Popular) de Figueiredo Pimentel


A alma do outro mundo

Zeneida tinha um namorado com quem queria a todo o transe casar-se. Sendo ele, porém, um homem do povo, conquanto honrado e trabalhador, a família dela, orgulhosa, com fumaças de fidalguia, e rica, não o consentiu, e tratou de lhe arranjar outro casamento.

Apresentando-se como pretendente um velho, que enriquecera no comércio, o pai obrigou-a a aceitá-lo por noivo. A moça obedeceu, a seu pesar, não gostando daquele marido que lhe ofereceriam, e não se tendo esquecido do seu apaixonado.

Realizadas as bodas, os noivos partiram para uma longa viagem que devia durar três meses.

***

Uma vez estavam jornadeando, e tiveram que passar um rio, largo e fundo, sobre uma estreita ponte de madeira. Zeneida, alegando muito medo, fez o marido passar adiante, e, quando se viram em meio, atirou-o à água.

Na ocasião em que estava prestes a se afogar, o velho ricaço, antes de desaparecer submergindo, exclamou:

— Deixe estar malvada, que minha alma te há de perseguir!...

Desde esse dia, uma voz invisível acompanhou-a sem cessar, noite e dia repetindo todas as palavras que ela pronunciava.

A rapariga foi obrigada a se fingir muda, receosa que viessem a descobrir o seu crime.

 

***

Continuando a viagem sozinha, Zeneida foi ter a um grande país, a cuja capital chegou.

Aí, passeando pelos arredores, foi vista por um príncipe, que dela se apaixonou, dirigindo-lhe declarações de amor, e terminando por pedi-la em casamento.

Por meio de gestos mímicos, ela fez compreender que aceitava, mas que não podia falar por ser muda.

O príncipe ficou sentidíssimo, porque a lei vedava-o casar com qualquer moça que não fosse absolutamente perfeita. Todavia mandou levá-la para o paço, confiando-a aos cuidados dos mais notáveis médicos do reino, que a examinaram, desenganando-se de curá-la.

Quando se achava a sós, Zeneida tentava falar. Mas, à menor palavra, que pronunciasse, a alma do seu marido a repetia, e mesmo conversavam.

Um dia soube que o príncipe ia casar-se, vendo que ela não ficava boa.

A noiva devia chegar nessa manhã, e todos os criados do palácio tinham ido ver o seu desembarque.

Zeneida, ficando sozinha, dirigiu-se à cozinha real, também abandonada, onde se preparava o banquete. Destampou uma panela, e provando o guisado, exclamou:

— Oh! como está gostoso!

— Oh! como está gostoso, repetiu a alma.

— Queres um bocadinho?

— Quero.

— Então, chega-te aqui, para a ponta de meu dedo!

A alma chegou-se, e, assim que a sentiu bem na extremidade do indicador, Zeneida estalou o dedo no fogão.

Ouviu-se um grande estrondo, e ela disse com um suspiro de alívio:

— Uff! Felizmente estou livre!

Falou, cantou, recitou, e não ouviu mais a voz da alma que a importunava.

Foi se vestir deslumbrantemente.

O cortejo da nova princesa já havia chegado ao palácio.

Zeneida dirigiu-se para o salão, onde viu a noiva sentada num trono, junto ao príncipe.

Ao avistá-la, a noiva, querendo fazer espírito, perguntou:

— Esta é muda mudona?

 A outra retorquiu:

— E esta é a noiva noivona, que já está tão sabichona?

Admirado de ouvi-la falar, o príncipe desmanchou o casamento com a primeira, vindo a se casar com Zeneida.

 

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

O vestido rasgado (Conto Popular) de Figueiredo Pimentel


O vestido rasgado

Ivone por que virá hoje tão triste da escola? Faria por lá alguma maldade? Não. A mestra ficou muito satisfeita com ela.

Foi isto: quando ela se levantou do banco, rasgou o vestido, sem querer.

E que buraco! Dar-se-á o caso que o saiba consertar, sem se ficar conhecendo?

Bem pode ser, porque a mãe (uma pobre lavadeira), quando chega à casa, vem mortinha de cansaço. Como estava escuro, Ivone acendeu o candeeiro, e foi procurar a caixa em que a mãe costuma guardar todos os retalhos.

— Aqui está um azul, da cor do meu vestido, pensou Ivone, estendendo o retalho. Se eu lhe puder meter uma tira!

Despiu o vestido, deitou um xalinho pelos ombros, e pôs mãos à obra, com tanto afã, que nem deu pela chegada da mãe.

— Aconteceu-te alguma coisa? perguntou-lhe, chegando ao pé da filhinha. Estás a consertar o vestido? Rasgaste-o? Olha que seria uma desgraça, porque não tens outro, nem há mais nenhum bocado de pano azul.

— Há sim, minha mãe, respondeu a pequenina, mostrando-lhe o vestido.

— Pois eu julgava que não havia; mas está me parecendo que sabes fazer muito bem um conserto.

— Já sei, já, respondeu Ivone, brilhando-lhe os olhos.

Naquela noite foi se deitar contentíssima.

De manhã levantou-se, vestiu-se, lavou-se, olhou para o vestido, e chegou ao pé da janela para o examinar de mais perto.

— Olhe! minha mãe! minha mãe! gritou ele em choro; venha cá ver. Pois não pus uma tira verde no meu vestido azul? Que hei de eu fazer agora? Não posso ir à escola com esse vestido assim!

— Então, como foi isso? Não sabes que muitas vezes, à luz do candeeiro, o azul se confunde com o verde, e o verde com o azul? Mas, por causa disso, não hás de faltar à escola. Talvez que o avental te esconda a tira.

Ivone vestiu o vestido, e pôs o avental. Qual história! O avental é pequeno demais, e a tira continuava a ser vista.

— Lembra-me uma coisa, disse Ivone: é pôr a pasta dos papéis mais para trás, e assim parece-me que não se verá.

Lá foi para a escola, e empregou tanto cuidado todo o dia, que ninguém reparou.

À saída, porém, esqueceu-se da tira. Foi pôr a pasta a um canto do pátio, e começou a brincar com as condiscípulas. Não brincou por muito tempo, porque dali a pouco reparou em duas meninas, que olhavam para ela a rir-se. De repente, lembrou-se do vestido, fez-se muito corada, e sentiu duas lágrimas rolarem-lhe pelas faces. Pegou na pasta, e saiu.

***

Eugênia, uma das meninas que tinha feito escárnio do vestido de Ivone, não voltou muito contente da escola, nem a mãe a ouvia cantarolar, como costumava, pela escada acima. Não fez senão pensar na colega, que viu sair da escola tão triste.

— Eu é que fui culpada, pensava. Faz-me tanta pena ter-me rido. Mas também para que foi ela deitar uma tira verde num vestido azul? A falar verdade, era muito esquisito.

Eugênia pegou na boneca para brincar, mas a boneca não a distraía. Por mais que fizessem, tinha defronte dos olhos o rosto melancólico de Ivone.

— Foi decerto por ela não ter outra fazenda da cor do vestido; se eu a tivesse, dar-lha-ia.

Correu, então, a casa toda, a ver se a achava. Perguntou à mãe. Tudo debalde. Pôr mais voltas que deu, não encontrou fazenda alguma azul, senão a do vestido da boneca. Então pegou nesta, abraçou-a, olhou muito para ela e parecia refletir.

— Minha adorada Ida, disse de repente: bem conheço o teu bom coraçãozinho, por isso te vou pedir uma fineza. Não te lembras da Ivone, que no outro dia vistes em nossa casa? Hás de acreditar que deitou uma tira verde no vestido azul! Por mais que imagines, não podes fazer ideia da fealdade que ficou. Tenho a certeza de que não quererias para ti um vestido consertado daquela maneira. Foi decerto por não ter outra fazenda. O vestido é da cor do teu. Farias tu o sacrifício de lhe dar este, para mudar a tira? Bem sei que não tens outro para o inverno, mas a nossa casa é quentinha. Não te parece que, vestindo o teu vestido de verão, e pondo o teu xalinho de lã escarlate, ficarás ainda uma boneca senhoril?

Ida olhou para a dona, com o sorriso do costume. Pareceu a Eugênia que ela fazia o sinal de consentir. Despiu-lhe, então, o vestido do corpo, separou a saia, e pegando nesta, correu à casa de Ivone.

Quando chegou, a porta estava entreaberta.

Antes de entrar, parou um instante, e ouviu Ivone dizer para a mãe:

— Olha! mamãe! Eu não posso tornar à escola com esse vestido!

— Hás de tornar, bradou-lhe Eugênia (abrindo de repente a porta), olha, aqui tens um bocado de fazenda para consertares. Só Deus sabe o que me afligi por ter sido a causa de te ver chorar. Não penses mais nisso, não?

***

Diz a vizinhança que Ivone ficou tão contente, que de tudo se esqueceu daquele desgosto.

Deitou tira nova no vestido, e no outro dia entrou alegríssima na escola. Eugênia, pulando de contentamento, voltou para a boneca, encontrando-a a sorrir como sempre. E desde aquela ocasião, as duas meninas, Ivone e Eugênia, ficaram amicíssimas.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

A burra e o seu burrinho (Conto Popular) de Figueiredo Pimentel


A burra e o seu burrinho

Xairelada deu à luz a um elegante burrinho, quando o sol principiava a aluminar as casinhas da aldeia de São Pedro. Ainda muitos habitantes se estavam espreguiçando, e já na cavalariça, no extremo da terra, acordava tudo, havia imenso tempo. Ali está, Xairelada, a burra benquista, a deitar a cabeça pela janela. “Hi! Han! Hi han!” cantarola, mostrando a dentuça. “Hi han! Hi han!” repete, cada vez que ouve passar alguém pela rua.

Que prazenteira que está! brilham-lhe os olhos; até se pode dizer que sorri! Que lhe sucedeu? Venham ver. Além, em cima de um molho de palha, está a dormir o seu recém-nascido, um formoso burrinho, com cada olho! A mãe acha-lhe as orelhas tão bonitas e tão compridas, que nem um instante deixa de lhas admirar e lamber, e, revendo-se, nele, assim lhe diz:

— Filhinho querido! O sol alumia-te o primeiro dia de vida. Oxalá que seja para tua felicidade.

— E decerto que há de vir a ser um burro famoso, interrompe de lá a Parda, a burra mais velha da cavalariça. Ainda há pouco se sustinha ele já nas pernas. Queres um conselho, Xairelada? Dá-lhe de mamar seis meses, pelo menos; tenhamos fé em que o nosso dono há de dar licença.

— Eu cá por mim, diz dali um burro, só desejo que ele seja menos tagarela que sua mãe. Desde o arrebol da manhã, ou ainda antes, que não faz senão zurrar. Não há meio de pregar o olho. Não estarás calada, Xairelada? Tens o dia todo para anunciar aos quatro ventos da terra o nascimento de teu filho.

— Meu querido amor, interrompe Xairelada, não me querem ver feliz!

Depois, deitando-se-lhe ao lado e ajeitando-se, continua:

— Aqui tens um leite soberbo. Ninguém to poderia dar melhor. Quantos doentes o não desejariam beber! Não, minhas senhoras, este não há de ser para vossas excelências, já lhes dei muito no ano passado: este, agora, reservo eu para o meu filho.

Cresceu o burrinho, e já acompanha a mãe ao prado. Enquanto ela vai roendo as folhas, anda ele a saltar, a pular, a rolar-se todo pela erva; às vezes dá saltos tão grandes, que Xairelada chega a ter medo de lhe ver quebrar alguma perna.

Ao filho estremecido, puseram o nome de Grizão.

Uma vez Grizão descobriu um riacho no fim do prado. Por mais voltas que desse ao miolo, Xairelada não chegava a adivinhar porque ia ele sempre para aquele lado: para tomar banho, não podia ser, porque ela lho proibira, e, de mais a mais, não é lá muito próprio de um burro estar a ensopar os pés na água. Fora o caso: Grizão, indo uma vez beber água, descobriu no riacho o seu rosto burrical, e nunca mais deixou de ir ali dia nenhum para ver se lhe cresciam as orelhas, se a pontinha da cauda ia crescendo também, numa palavra, se no focinho se estampava o ar burricalmente característico. Porque o seu desejo mais ardente era ver-se burro.

— Quando chegar a ser grande, dizia ele a cada passo, hei de me pôr a comer cardos, como faz a minha mãe, hei de puxar as carroças, hei de trazer sobre o espinhaço todos aqueles senhores e senhoras e meninos que vão a passeio. A mamãe fica estafada, mas eu cá, se visse uma senhora montada, em mim, havia de lhe mostrar que sou forte, que lhe poderia fazer isto e mais isto...

Grizão tem um gênio, muito alegre, caráter franco, e por isso adquiriu muitos amigos na aldeia. Mais que todos, um potrozinho, preto, da idade dele, depois uma cabra velha e o filho, um cabritinho. Andam muitas vezes juntos no prado. À sombra de uma mangueira, falam de uma infinidade de coisas, em favor dos animais de sua espécie. Chegam-se a zangar, e quase a engalfinhar, mas fazem logo as pazes.

Um dia, o potro, voltando-se para Grizão, perguntou-lhe:

— Ó meu amiguinho, não me dirás onde foste desencantar essas orelhas tão grandes, e de que te podem elas servir? Quando as deixas cair, ficas com um ar tão esquisito, que, por mais que eu faça, não me posso suster com o riso.

— Que queres tu? respondeu Grizão, se eu sou um burro, como hei de ter orelhas de cavalo? Ora, toma sentido! Não digas mal de minhas orelhas, olha que eu já percebi que elas ouvem melhor que as tuas.

— Talvez, diz o potro.

Depois, dirigindo-se à cabra:

— Ó Negrinha, haverá quem apresente um pé mais esquisito do que o teu. Parece partido ao meio. Aposto que o da tua avó era mais benfeito. Repara no de Grizão e no meu. Duas belezas! Bem se vê que ainda somos primos!

— Somos, somos, interrompeu Grizão, primos pelos pés, mas não pelas orelhas.

— Muito obrigado pelo presente dos teus pés bonitos, disse Negrinha, mas não aceito. Vão vocês com os seus pezinhos delicados trepar e saltar por sobre os rochedos, comer a erva e as florinhas que só crescem no cimo dos montes, e depois venham-me mostrar em que estado lhes ficaram os joelhos e os dentes. Sou uma sua criada! Ainda tem mais outra vantagem os meus pés: é não os ferrarem nunca; e, ou estou muito enganada, ou é vantagem que nenhum de vocês apetece. 

 — Tens sempre boas respostas, disfarçou o potro, não falemos mais nisto.

— Falemos, sim senhor, continuou Negrinha, porque é que os cavalos e os burros não têm nenhuma arma para se defenderem, nem mesmo um chavelho, enquanto as cabras possuem dois?

— É porque nós nos defendemos com os pés, tornou-lhe o potro.

— Olhe que defesa!

Nisso o cabrito saltou sobre Grizão, o que na linguagem deles queria dizer: “Vem brincar comigo”. Grizão espojou-se nas ervas; Negrinha entrou aos saltos de outro lado com o potro. E assim passavam vida regalada os três amigos.

***

Grizão completou o seu segundo ano, e é já um burro feito. Xairelada gloria-se do filho que tem. Afirma que é o burro mais bonito do sítio. O dono mandou-lhe fazer uma sela, depois montou nele para lhe ensinar a comportar-se com juízo, quando levasse cavalheiros e senhoras, mas o pobre dono regressou ferido na cara. Grizão estreara tão contente, que saltou para a direita, saltou para a esquerda, acabando por ferrar com o dono em terra.

— Meu querido filho, disse-lhe, quando o viu chegar; por quem és, anda mais passo, olha que te há de acontecer alguma!

— Eu faço as diligências, mas não sei que formigueiro sinto nas pernas; é-me forçoso saltar: um homem para mim é peso muito leve. Se eu pudesse falar, dir-lhe-ia que montassem em mim ao mesmo tempo ele e a mulher.

— Que força! exclamou a burra toda vangloriosa; como a mocidade é feliz!

Sucedeu que uma manhã chegassem à aldeia um passageiro, os filhos pequenos e outros rapazinhos amigos. Uma passeata.

— Burros! burros! gritavam todos eles ao mesmo tempo, ao ver a cabeça de Grizão à janela. Ó papá, aluga-os para passearmos!

— Se houver para todos, respondeu o pai. Olá, tio dono dos burros, pode-nos alugar oito?

— São os que tenho; mas, por um, não respondo: a poucos passos deitará pelo pescoço fora o que montar nele.

— Quero esse! quero esse! gritou Eduardo, o rapaz mais velho; eu sei me suster.

— Olha que não te quero ver chegar com alguma perna quebrada.

— Não há de suceder mal, continuou Eduardo: não é primeira vez que monto em burros.

— Está bem, disse o pai, como não há mais nenhum, monta nele, e eu vou ao pé de ti, para não te suceder alguma.

Dali a momentos, largava a caravana. Grizão caminhava ao lado da mãe, que não cessava de lhe fazer advertências, aconselhando-o, sobretudo, a ir sossegado.

Os rapazes vão gritando todos ao mesmo tempo, em algazarra própria: – “Eh! Grizão! Eh! Xairelada! Eh! Branquinha”. E a burricada toda a trote por ali afora, ficando para trás o pai e o burriqueiro.

— Eh! Grizão! disse Eduardo.

Grizão deu um saltinho, mas, de repente, lembrando-se da recomendação da mãe, conteve-se, e continuou a trotar com juízo.

— Eh lá Grizão! repetiu Eduardo, dando-lhe uma palmada no pescoço. Desta vez Grizão esquecendo-se da camaradagem em que ia, partiu a toda a brida, sem se importar com as subidas nem descidas.

— Para, Grizão! para! gritava Eduardo. Mas, Grizão, cada vez a correr mais, até que o pobre rapaz, perdendo o freio, foi pela cabeça do burro fora, e de rolo por um montículo abaixo.

Levantou-se todo aturdido, sacudiu os joelhos e os cotovelos. O pai, assustado, chegou correndo, mas, ao ver que lhe não sucedeu mal algum exclamou:

— És um cavaleiro às direitas! Agora, olha para o teu burro.

Grizão, tendo-se empoleirado numa altura, estava vendo passar a cavalgada, entoando a sua cantiga do “hi han, hi han, hi han”, como quem bradava a Eduardo:

— Ora apanha, meu menino; agarra-me, se és capaz; não viste como eu me livrei de ti?

Grizão não quis tornar a ajuntar à alegre companhia e voltou para a cavalariça por outro caminho.

— Ah! Grizão, exclamou a dona, quando o viu chegar sozinho. Aposto que fizeste alguma das tuas!

O dono, desenganado de que Grizão se tornava de dia para dia mais turbulento, e antevendo mais quedas aos fregueses, vendeu-o a uma leiteira, que morava ao sopé da montanha. Uma manhã foi levá-lo à nova dona. O mísero ia cabisbaixo e de orelhas caídas, todo tristonho, por se separar da sua querida mãe. Xairelada não fazia senão chorar, e tinha-se conservado à janela da cavalariça todo o tempo que pôde ver o filho pelo caminho afora. Já ia muito longe, e ainda ela cá a bradar-lhe: “Hi han, hi han, hi han, adeus, adeus!...”

A leiteira era uma mulher velha que havia muitos anos levava todas as manhãs à cidade o leite das suas vacas. Acabara de lhe morrer o burro mais velho, de quinze anos, que apesar da idade conservou-se à carroça até o último dia. Agora é dado a Grizão o encargo de o substituir naquele penoso labor. Pois está satisfeito, porque se acha com forças, e, mal a dona o vem buscar para o pôr à carroça, logo dá um salto de contente.

Chegou o dia próprio. A carroça levava além do leite algumas canastras de legumes.

— Muito bem, Sr. Grizão, disse-lhe a velha fazendo-lhe uma festa: Continue assim e seremos amiguinhos.

Grizão tem de esperar enquanto a dona vai tratar da vida. Vem à capital pela primeira vez, e por isso está todo maravilhado do que tem visto. Muitos outros burros esperam também pela chegada dos donos. Grizão, parecendo-lhe que eles tem um ar triste, perguntou ao vizinho o que significava toda aquela melancolia.

— Bem se vê que ainda estás novo e forte, respondeu-lhe o interrogado; formosa se te afigura a vida, mas, para nós outros, velhos, cujas forças vamos perdendo todos dias, a carroça é pesada, duras as arrochadas e o sustento pouco de cobiçar. Eu só tinha um amigo neste mundo: era um rapazinho que me levava todas as manhãs um pedaço de pão e me fazia festas, mas há duas semanas que desapareceu e receio que lhe tenha acontecido alguma desgraça.

Nesse momento ouviu-se um rufar de tambor. O burro ancião estremeceu todo.

— Que tens? perguntou Grizão.

— Não é nada. O ruído do tambor incomoda-me sempre; não me posso esquecer de que seja em cima da pele de minha mãe que eles batam.

— Em cima da pele de tua mãe?

— Decerto, acrescentou o burro velho; da nossa pele é que se fazem os tambores; é nosso destino o sermos espancados não só em vida, mas também depois de mortos.

Esse pensamento entristeceu profundamente Grizão no resto do dia, e, à volta para casa, vinha menos alegre do que fora para a cidade, a passo e de cabeça baixa.

— Eh! lá, dizia-lhe a leiteira, dando-lhe uma chicotada.

— Ah! ela tem o atrevimento de me dar? pensou Grizão continuando muito a passo.

— Eh! eh! chegando-lhe outra vez.

De repente, Grizão estacou.

— Olá! Este é tão cabeçudo como os outros, murmurou a velha, tornando a mimoseá-lo com o chicote.

— Bonito! disse Grizão de si para si; começa a minha vida de tambor.

E não deu mais nem um passo.

A leiteira apeou-se para o puxar pela rédea; mas ele, vendo-a pôr os pés em terra, deitou a todo galope, e chegou à casa muito antes dela. Como estava cansado, queria ir beber água, mas a da fonte não lhe agradava muito, e Grizão, como todos os animais da sua família, não bebia senão água claríssima.

A dona, ao chegar, a pé, e banhada em suor, quis ajustar as contas com ele, mas refletiu que ainda era novo, e que, a falar verdade, para a primeira vez, não tinha sido demasiadamente caritativa. Desaparelhou-o, foi-lhe dar de beber (Grizão tem todo o cuidado de não meter o focinho na água) e levou-o para o pasto. Vendo-se à rédea solta, espojou-se pelas ervas. É um modo de dizer à dona:

— Ah! já que me não limpas, limpo-me eu, assim!

À noite reentrou na cavalariça, adormeceu pensando na mãe, e projetando ir um dia visitá-la.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)
 

faquinha e a bilha quebrada (Conto Popular) de Figueiredo Pimentel


A faquinha e a bilha quebrada

Vicente já está de volta da escola, sossegado, sim, mas a deitar sua olhadela para as vistosas lojas. De repente para. Que estará ele a ver com tanta curiosidade? Um açafate cheio de faquinhas brancas, lindíssimas. Ah! como devem cortar bem! Que lâminas tão polidas e brilhantes! E não são caras: – a oito vinténs. Vão-se-lhe os olhos, mas falta-lhe o melhor; oito vinténs é uma quantia demasiada para as suas finanças. A mãe, uma mulher pobre, apesar de trabalhar muito, pode-lhe lá dar dinheiro para comprar uma faquinha!

— Oh! diz o Vicente de si para si; que poderia eu fazer para ganhar aquele dinheiro?

Saía da loja um sujeito carregado de compras.

— Oh! rapazinho, ajudas-me a levar estas encomendas para minha casa?

— De muito boa vontade, respondeu-lhe o Vicente, se não for muito longe, porque minha mãe se zanga quando venho tarde da escola.

— É muito perto daqui, não te demoras nada.

O Vicente pegou em dois pacotes, e foram ambos andando até a rua onde morava o homem.

— Está bem, rapazinho, aqui tens pelo teu trabalho, – e deu-lhe dois vinténs.

— Muito obrigado, meu senhor, mas eu não quero receber dinheiro por um serviço tão pequeno.

— Pois então guarda-os para te lembrares de mim, tornou-lhe o sujeito, entrando em casa.

Para a rua correu Vicente, pulando de contente.

— Ó mãe!! ó mãe! Olhe o que me deram quando eu voltava da escola: dois vinténs, ambos novinhos (e pôs-se a contar o caso à mãe).

— Se eu pudesse ganhar mais seis vinténs, chegava-me exatamente para comprar uma faquinha. Ah! se a mãe soubesse como são bonitas!

— E para que precisas tu de uma faquinha?

— Ó! mãe! Com uma faquinha posso fazer muitas coisas: aparar os meus lápis e os dos meus condiscípulos; cortar ramos na alameda para chicotes e flautinhas; arranjar um barquinho; e até ajudá-la a descascar as batatas para o jantar, porque as nossas facas são muito grandes. Parece-me que já a estou a ouvir dizer: – Então, ainda não viste a faquinha do Vicente? É tão bonita! E a mãe, quando eu tiver os oitos vinténs, dá-me licença para comprar uma?

— Dou sim, filho. O que eu não sei é como tu os hás de ter.

Vicente passou o serão a imaginar como poderia ganhar alguns vinténs, mas, por mais que batesse na testa, foi-se deitar sem nada ter descoberto.

Um dia, às sete horas da manhã, havia apenas alguns instantes em que se levantara, tirou a lama da porta. De repente, ergueu casualmente a cabeça, e deu com o tio Martinho à janela. É um dos vizinhos.

— Oh! pensa o Vicente; o tio Martinho está já tão velho para tirar a neve que lhe caiu à porta; depressa a retirou para ele não escorregar quando for sair.

Dito e feito. Quando Vicente voltava para casa, abriu Martinho a janela e pôs-se a chamá-lo.

— Fizeste bem, meu rapazinho, em me evitar alguma queda. Se repetires isto quando tornar a chover, dou-te um vintém.

Vicente pensou nas faquinhas, e aceitou contentíssimo a proposta. Infelizmente a chuva não cai todos os dias a cântaros, e decorreu muito tempo antes de ter o dinheiro necessário.

E assim passaram-se semanas e semanas. Trabalhando daqui e dali, mesmo assim o menino apenas conseguiu arranjar sete vinténs.

Só lhe faltava um, para completar a quantia com que poderia comprar a ambiciosa faquinha.

— Ah! se chovesse muito esta noite. Era o pensamento fixo do rapazinho, em cada serão, quando se ia deitar.

***

Uma manhã levantou-se, correu à janela para espreitar o tempo, e a mãe viu-o andar aos saltos, e bater palmas.

Não sabia o que isso queria dizer, mas adivinhou-o quando viu o Vicente, depois de lhe ter vindo pedir a bênção, e de lhe dar um beijo, pegar na pá e na vassoura, e sair de casa.

A mãe pôs-se a espreitá-lo. Que azáfama! que desembaraço! As mãos roxas da friagem, mas a vassoura num corrupio.

Acabou. O Martinho abre a porta, sai, tira a bolsa, e o oitavo ambicionado vintém passa da mão do vizinho para a de Vicente. Correr a ir buscar os outros sete vinténs, guardados com tanto carinho numa caixinha, almoçar e partir para a escola, foi obra de um momento.

Como ele salta pela rua fora! Que leva fechado na mão? Um tesouro que tem medo de perder: oito vintenzinhos em que se vai revendo, contando-os e tornando-os a contar.

Lá está já na rua da loja sedutora. Um instante mais e a faquinha é dele.

***

Do outro lado da rua vai uma menina, vestida pobremente, e andando com muita cautela para não escorregar. Parece transida de frio; as mãozinhas, roxas de todo. Leva uma bilha de leite. O Vicente ia já a entrar na loja, quando, de repente, vê a menina escorregar e cair ao atravessar a rua. A bilha quebrou-se-lhe! O leite que ia ser o almoço da avó, todo entornado!

Quando a vê cair, corre para a ajudar a levantar-se. Já em pé, a menina, lavada em lágrimas, conta-lhe que não leva nem um real, e que a avó ainda não almoçou. Vicente olha para os seus oito vinténs, depois para a loja onde estão penduradas as faquinhas, depois para a pequenina, que ainda continuava a chorar. Reflete um momento.

— Vem comigo, diz-lhe ele pegando-lhe na mão; ambas haveis de ter que almoçar.

Levou-a a outra loja em que não se viam faquinhas, mas uma grande quantidade de pratos, xícaras, bilhas de todos os tamanhos e de todas as cores. O rapazinho escolheu uma bilha azul e branca, muito bonita, pagou um tostão à dona da loja, e ato contínuo foi à leiteria, onde a mandou encher de leite. De todo o seu dinheiro, nada lhe sobrou.

A menina, doida de contente por ter uma bilha nova, sorriu-se e consolou-se. Retomou o caminho de casa, levando ao lado o seu novo conhecido, mas sempre com mil precauções para não tornar a cair.

E, ao separar-se dele, perguntou-lhe:

— Como te chamas?

— Vicente.

— E eu, Maria. A minha avó diz que ainda sou pequenina para guardar dinheiro; mas, quando crescer, hei de ter muito, e hei de te comprar um brinquedo, porque hoje foste um anjinho para mim.

As duas crianças ainda conversaram alguns instantes. Depois separaram-se, prometendo que haviam de ser amigos para sempre. Maria correu para avó, mostrou-lhe alvoroçada a sua bilhinha nova e contou-lhe tudo o que lhe aconteceu. Vicente seguiu para a escola, resplandecente de alegria, pela boa ação cometida.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)
 

Um raio de sol (Conto Popular) de Figueiredo Pimentel


Um raio de sol

Uma formosa manhã de maio, limpa, alegre, fresca, perfumada, é um dos maiores encantos da natureza.

Em uma dessas lindas manhãs de primavera, bem cedo, ainda à hora em que o sol se faz anunciar pelos seus primeiros raios, Helena, ainda dormia! Como sorri em algum sonho alegre! Ainda ninguém entrou no quarto dela, e apesar disto, a Heleninha já hoje recebeu um beijo. Quem foi então, que lho deu? Algum passarinho que entrasse pela janela? Não; a janela está fechada. Foi um raio de sol que, penetrando por uma fenda, passou nos lábios de Helena, e ficou todo espantado por encontrar uma menina ainda a dormir. Mas, de repente, Helena acorda, esfrega os olhos, relanceia a vista por todos os lados para ver quem a acordou, e dá com o raio de sol.

— Raiozinho brilhante, disse-lhe ela, tiveste muito juízo em me vires visitar. Aposto que estás levantado há muito tempo; quem sabe mesmo se já trabalhaste muito esta manhã?

— É verdade que sim, respondeu o raio, já hoje trabalhei muito. Quando meu pai me despede não dá licença que me divirta, e tem razão, porque eu, quando estou mais contente, é quando trabalho.

— Teu pai? Mas quem é teu pai?

— É o sol. Mora lá em cima, muito alto, no céu. É tão grande, tão grande, que não poderia vir à terra; por isso manda os filhos em seu lugar. Os filhos são os raios do sol meus irmãos, que à minha semelhança, alumiam e aquecem a terra.

— Mas, tornou Helena, teus irmãos poderiam entrar contigo no quarto?

— De modo nenhum; a fenda era estreitíssima. Só eu pude passar. Os outros raios ficaram lá fora, estão alumiando a fachada da casa. Agora, se tu quiseres abrir a janela, entrarão contentíssimos no teu quarto.

— Ainda não, disse Helena, eu queria que tu, antes disso, me contasses tudo o que tens feito e o que viste no teu passeio esta manhã.

— Oh! já vi muitas coisas. Não tas posso contar todas; mas, se gostas dir-te-ei algumas. Quanto rompi da montanha, entrei numa floresta, e dei claridade a uma família de cotias que se recolhiam à toca, e pareciam alegríssimas; naturalmente tinham dançado toda a noite nalgum gramado. Na mesma floresta alumiei um ninho de sabiás negros. A mãe, mal me viu, acordou o marido, depois os filhinhos, e todos a um tempo, principiaram a cantar. Interei aluminar também um besouro muito velho, mas escondeu-se logo debaixo de uma folha, por me não querer ver. Por volta das cinco horas entranhei-me numa sebe à borda da estrada e fiz desabrochar uma formosa trepadeira, cor-de-rosa e branca. Quando cheguei, ainda estava toda fechada, mas apenas a aqueci, logo se abriu, eu fiquei alegríssimo ao observá-la. Na mesma sebe alumiei uma aranha que estava a tecer a teia; espero que ninguém lha destrua, porque levou muito tempo, e teve muito trabalho, em a tecer. Mesmo ao pé, fiz brilhar as gotas de orvalho suspensas nas vergônteas das ervas, ajudei uma pitanga amadurecer e aqueci uma mosca. Ainda fiz muitas mais coisas; amanhã tas contarei. Agora, já é tarde, é mais que tempo de te levantares.

— Oh! por quem és, conta-me ainda mais alguma coisa, disse a pequenina. Não vistes crianças esta manhã?

— Ora, se vi! e muitas! Levantaram-se bem cedo. A Luizinha, ainda não eram seis horas, já estava a dar de comer às galinhas, ao mesmo tempo que a leiteira saía para a cidade. O Joãozinho levava as cabras para o pasto, em companhia do pai, que ia ceifar erva! Ah! já me esquecia dizer-te que muitas vezes trabalho ajudado pelos meus irmãos; sozinho não poderia muito. Agora, uns com os outros, amadurecemos os trigos e as frutas todas, de que tu gostas tanto; aquecemos as costas da avó da Luizinha, que estava assentada no pátio, e secamos uma camisa e uma touca, que estão penduradas na corda. Ai! Ai! Que tenho falado muito! é tempo e retempo, de te vestires e de te pores a trabalhar mas sempre te confessarei com franqueza que, se os raios do sol se devem dar por felizes por prestarem luz aos trabalhadores, não gostam muito de aluminar os preguiçosos.

—Lindo raio, obrigada por tantas coisas boas que hoje me ensinaste. Se voltares amanhã, à mesma hora, eu te prometo que não me hás de encontrar na cama; aproveitarei a tua formosa luz para continuar a minha tarefa.

Dizendo isto, Helena levantou-se e foi abrir a janela de par em par. Os raios de sol entraram todos ao mesmo tempo no quarto, e encheram-no de luz. Helena, preparou-se, almoçou, e deu princípio ao seu dia, com a firme tenção de se tornar numa boa trabalhadorazinha.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)