terça-feira, 11 de maio de 2021

A sapa casada (Conto Popular) de Figueiredo Pimentel


A sapa casada

Reinaldo era um moço estimadíssimo pelas excelentes qualidades, sobretudo por ser honrado e sério. Tinha dois irmãos, e todos três eram filhos de um rico fidalgo.

Os irmãos casaram-se com moças da sua sociedade e posição. Vivia cada um em sua casa, tendo por costume irem jantar o primeiro domingo de cada mês no palacete do velho, onde se reunia toda a família.

Reinaldo gostava extraordinariamente de música. Qualquer que fosse o instrumento, apreciava, e seria capaz de ficar um dia inteiro a ouvi-lo.

Uma tarde passeava à margem de uma lagoa. Era ao pôr do sol. De súbito, ouviu uma voz deliciosa, cantando uma romanza que ele desconhecia, de extraordinária harmonia e suavidade.

O moço parou, e deixou-se ficar enlevado a escutar. A voz parecia vir de perto, mas debalde procurou a moça que cantava.

Foi-se entusiasmando cada vez mais, até que, cessando a cantiga, ele exclamou:

— Palavra de honra que me casaria com a dona de tão linda voz, se pudesse vê-la, ainda que fosse uma sapa desta lagoa!

Acabando de dizer isso, Reinaldo viu saltar da água para terra uma sapa enormíssima e horrendamente feia.

— Pois é uma sapa que estava cantando, falou ela. O senhor é um moço sério, e tem de cumprir a sua palavra...

— Fui leviano em pronunciar tal frase, replicou Reinaldo. Entretanto, como só tenho uma palavra, cumpri-la-ei. Vou apenas avisar meu pai, e amanhã aqui estarei.

Saiu e chegou à casa, tristíssimo, narrando o que lhe sucedera. O velho fidalgo concordou que ele devia cumprir a promessa, feita sob palavra de honra.

No dia seguinte, o jovem foi à lagoa. A sapa, assim que o viu, falou:

— Entre dentro da água sem receio, e mergulhe.

O rapaz executou à risca aquela recomendação, e viu-se de súbito num deslumbrante palácio, edificado embaixo do lago.

Aí estava tudo preparado para o casamento. Passou-se o mesmo que ocorre em nossas cerimônias, com a diferença que a única criatura humana era Reinaldo. O mais: padre, sacristão, testemunhas, convidados, lacaios, eram sapas e rãs que coaxavam desagradavelmente.

Durante quinze dias o moço viveu satisfeitíssimo. Habitando um palácio real, nada lhe faltava, melhor do que no palacete de seu pai, e tendo ainda por cima, concertos divinos, em que tomavam parte sapos músicos e sapos cantores inexcedíveis, tocando toda a sorte de instrumentos.

Ia se aproximando o primeiro domingo em que sua família – segundo antiquíssima tradição – devia reunir-se no solar paterno.

Reinaldo entristeceu-se, lembrando-se que tinha que ir forçosamente em companhia de sua horrenda mulher. Que não diriam seus irmãos/? Como não haviam de zombar dele suas cunhadas e sobrinhos?

***

Chegou o dia marcado. Eram onze horas da manhã quando ele e a sapa se puseram a caminho, seguidos de uma infinidade de sapos, sapas, sapões.

Iam em ordem, enfileirados, como se se tratasse de um cortejo real.

No palacete, a família reunida esperava a chegada de Reinaldo, zombando dele, cheia de escárnio e ironia.

Avistaram de longe a multidão dos habitantes da lagoa.

Todo o mundo se ria.

Quando o séquito chegou ao grande pátio do palacete, bateu a primeira badalada do meio-dia.

Nesse instante os sapos, sapas, sapões e sapinhos viraram fidalgos, fidalgas, lacaios, pajens, soldados e cavaleiros, escoltando Reinaldo e uma lindíssima jovem.

A sapa era uma princesa. Encantada por uma feiticeira, só devia volver à forma humana, bem como os seus súditos, se encontrasse um homem que a desposasse.

Reinaldo ficou louco de contentamento, ao passo que seus irmãos e cunhadas desapontaram.

No lugar onde era a lagoa pareceu um palácio sem igual em todo o país – o palácio que estava no fundo da água, e fora submergido pela fada má.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

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