sábado, 8 de maio de 2021

História de um pintinho (Fábula), de Figueiredo Pimentel



História de um pintinho

Qui-Qui-Ri- Qui-Co-có-ró-có!

Num terreno de grande chácara, pertencente a opulento capitalista, viviam em profusão galos, galinhas, pintos, perus, patos, marrecos, galinholas, pavões – todas as espécies de aves domésticas, numa palavra. Vida regalada passavam eles alimentados à farta. A única exceção era um pobre pintinho, que vivia muito triste. Por ser muito pequeno e magro, os companheiros levavam todo o dia a beliscá-lo, de modo que o infeliz pintinho andava sempre ferido e quase sem comer, por quanto as galinhas não lhe deixavam um grãozinho de milho sequer.

Vivia o coitadinho muito triste de sua vida, pensando em fugir de perto dos outros, devido aos maus-tratos que constantemente recebia, quando, uma vez, mariscando, viu um papelzinho, e disse:

“Bravo! Agora estou com a minha vida ganha! Vou levar esta carta ao rei, e ele com certeza, em paga, há de mandar-me dar milho bastante para eu comer durante a minha vida inteira.”

Ficou o pintinho tão satisfeito, pensando em arranjar uma casinha para morar, onde pudesse passar os dias longe de terreiro, livre das beliscadas de seus companheiros, que cantou pela primeira vez:

— Qui-Qui-Ri-Qui!

Os outros, ouvindo aquela voz desconhecida, olharam e viram-no a cantar.

O galo velho, pastor do terreiro, perguntou:

— Quem é que canta aqui neste terreiro sem minha ordem?

— Sou eu, disse o pintinho, porque achei uma carta, e vou levá-la a el-rei nosso senhor.

Disse, e partiu em direção ao palácio real.

Depois de muito andar, parou para descansar das fadigas de viagem. Estava beliscando a terra, pensando na fortuna que o rei lhe havia de dar, quando passou uma raposa, que, avistando-o lhe dirigiu a palavra:

— Bons-dias, Sr. Pinto. Por aqui por estas alturas? Onde vai tão cedo?

— Qui-Qui-Ri-Qui, retorquiu o pinto, vou levar esta carta a el-rei nosso senhor.

— Se não é abuso, Sr. Pinto, pedia-lhe para me levar em sua companhia. Desejava ver o palácio do rei. Dizem que é muito bonito, que tem muitos soldados, e que a gente, só de o ver, se diverte.

— Não faço dúvida em levá-la, dona Raposa. Se quiser, entre aqui no meu papinho, que a conduzirei até lá.

A raposa fez o que o pintinho mandou, e lá seguiram os dois em demanda do palácio.

Andaram muito; e, depois de já bem cansados, o pintinho encontrou um riacho. Desanimou de seguir viagem, por não poder atravessar a nado um rio tão grande e com tanta correnteza.

Encarapitou-se em cima de uma pedra; e, muito triste, pensava num meio de transpor o rio, quando este lhe falou:

— Olé, Sr. Pinto, porque se aflige tanto? Há meia hora o estou vendo a olhar para mim, com cara tão triste. Diga-me o que sente. Talvez lhe possa ser útil.

— É o caso, senhor Rio, que tenho de levar esta carta a el-rei, nosso senhor, mas não posso, porque não tenho coragem de o atravessar a nado.

— Não seja essa a dúvida, Sr. Pinto. Pô-lo-ei na outra margem, sem risco de sua própria vida, mas com a condição de me levar também em sua companhia.

— Pois bem, entre no meu papinho, e vamos ver o rei, respondeu ele.

O rio entrou, e seguiram viagem os três; o pintinho, a raposa e o rio.

Mais adiante encontraram um espinheiro.

— Onde vai, Sr. Pinto, com tanta pressa? inquiriu este.

— Qui-Qui-Ri-Qui! Vou ao palácio do rei levar-lhe esta carta, e não quero me demorar, porque pretendo lá chegar antes da noite.

— Quer levar-me em sua companhia? Talvez eu lhe seja útil.

O espinheiro entrou também, e seguiu com seus companheiros para o palácio do rei.

Chegados aí, o pinto dirigiu-se à guarda do palácio, dizendo que tinha uma carta para entregar a sua majestade real. A sentinela não quis deixá-lo entrar. Ele, porém, tão alto falou, tanto cantou, que o rei, ouvindo aquele barulho todo, chegou à janela, e perguntou porque razão aquele pinto fazia tamanha algazarra.

— Saberá vossa real majestade que este pinto quer por força entrar, para entregar uma mensagem, disse o soldado.

— Pois deixe-o entrar.

O rei recebeu o papelinho do bico do pinto, e vendo que era um simples pedaço de papel sujo, ficou zangado com aquele atrevimento, e mandou que seus vassalos o pusessem no poleiro, em meio das galinhas e galos, que no palácio havia em grande quantidade.

Assim que ele entrou, os outros vendo um hóspede novo, começaram a beliscá-lo.

Nisso gritou a raposa:

— Sr. Pinto, espere que vou defendê-lo. En­sinarei a esses tratantes que não se maltrata assim uma ave tão distinta.

Saiu do papo do pintinho, e começou a comer toda a criação que existia no poleiro.

Em seguida, saíram ambos a toda a pressa, fugindo do cozinheiro que havia corrido a ver o que havia de extraordinário ali, para que as galinhas tanto gritassem.

Quando entrou e não viu ave alguma, alguém foi comunicar ao rei que o pintinho, que na véspera levara a carta, e que fora metido no poleiro, em castigo do seu atrevimento, fugira, tendo ma­tado as galinhas.

O rei, exasperado mandou que um batalhão fosse logo em procura do fugitivo, e que o trou­xesse vivo ou morto.

Já estava o pinto muito longe, e fugia a bom fugir, quando ouviu tropel de animais, retinir de espadas.

Compreendeu que era gente mandada pelo rei para prendê-lo.

Soltou o rio do seu papinho, que, estendendo-se pelo campo afora, impediu a marcha do batalhão.

Os soldados levaram muito tempo a arranjar canoas que os conduzissem à outra margem.

Nesse intervalo, ia o pintinho ganhando terreno. Corria sempre, para se livrar dos seus perseguidores.

O batalhão conseguiu, finalmente, transpor o rio, e correu a toda a brida atrás do pinto.

Mestre Pinto, vendo-se assim quase alcançado pelos seus perseguidores, deixou sair do papo o espinheiro, que formou expressa, impenetrável cerca de espinhos, impedindo, assim, os soldados de continuarem a empresa.

O galináceo, livre, finalmente de tantos perigos voltou para o terreiro, mas teve vergonha e receio de entrar, com medo das pancadas que viria a sofrer dos companheiros.

Começou a espreitar por trás, de uma cerca, e não avistando nenhum dos antigos companheiros, atreveu-se a entrar.

Ficou maravilhado, vendo o bom trato que a nova geração, assim que saía do poleiro, lhe dava.

Fizeram-lhe muitas festas, e ofereceram-lhe casa, comida e o lugar do galo velho pastor de terreiro, que havia morrido dias antes, porque nesse tempo, o pintinho era um frango bonito, preto, com penas douradas nas asas.

Assim, ficou ele sendo o galo, dono do terreiro, e viveu longos anos, muito feliz no meio dos seus iguais.

 

O papagaio encantado

Longe, muito longe daqui, lá para as bandas onde o sol nasce, dizem que existia maravilhoso país, diferente em tudo e por tudo do nosso.

Governava-o um soberano, um rei, que fez a felicidade dos seus súditos, pelos generosos dotes de coração que abrigava; pelo seu amor e respeito à Justiça, ao Direito, à Liberdade, à Igualdade e à Fraternidade; e, sobretudo pela sua grande sabedoria.

Chamava-se Marval, e tinha três filhas, qual delas a mais bonita: a primeira tinha por nome Alice, – a do meio – Rosa, e a terceira, – Amanda.

Um dia ordenou-lhes o pai que elas lhe contassem todos os dias, pela manhã, o sonho que por acaso, cada uma tivesse durante a noite.

As meninas receberam essa ordem com certa estranheza. Contudo, como eram mui obedientes, prometeram cumprir o que lhes era mandado.

À noite, antes de se deitarem, em conversa, começaram a discutir aquela ordem absurda e tão fora de propósito.

 

 

— Estou admirada da ordem que o nosso pai nos deu, manas, tão esquisita é ela; e nem sei que farei amanhã, se acaso sonhar uma tolice, como às vezes sucede a gente sonhar. Com certeza terei pejo em narrá-la.

— Eu não, disse Rosa, não tenho vergonha alguma de meu pai, e contarei tudo, se tiver algum sonho.

— E eu, falou Amanda, a caçula, já que, é a vontade do meu pai, dir-lhe-ei tudo nem que saiba zangar-se ele depois comigo.

No dia seguinte, pela manhã, Marval mandou, dizer às moças que já estava à espera, para elas lhe contarem os seus sonhos.

As duas primeiras nada tinham sonhado, por isso nada disseram. Amanda, porém, sonhara que por aqueles dias havia de se casar com um príncipe muito lindo e muito rico, senhor de um país onde as casas eram de ouro e pedras preciosas, e que cinco reis haviam de lhe beijar a mão, achando-se entre eles seu pai.

O monarca, zangadíssimo com a filha, declarou que se ela sonhasse outra vez semelhante coisa, e tivesse coragem de lhe relatar outro sonho, assim tão soberbo, mandaria matá-la.

As duas irmãs ficaram tristes, quando souberam do sonho de Amanda e foram lhe pedir para não contar outro, que por ventura tivesse, no mesmo sentido, sendo nesse caso preferível mentir.

— Papai disse que te mandaria matar. Ora, bem sabes que palavra de rei não volta atrás. Por isso acho bom nada mais lhe narrares.

No dia seguinte a menina quis enganá-lo. Mas como não sabia mentir, chegou-se para ele chorando muito, e lhe contou entre lágrimas, o sonho da véspera, que se repetira naquela noite.

Marval enfureceu-se com a desobediência da filha, pensando, que ela estava procedendo propositadamente. Mandou, pois, que os criados a levassem para uma floresta distante, e a matassem; trazendo-lhe o dedo mindinho, como prova de sua morte.

As irmãs, tendo notícia da sentença, de joelhos, pediram ao rei que a perdoasse, pois se Amanda havia contado o sonho, foi porque lho tinha sido ordenado; que elas duas lhe haviam aconselhado não repetir a narração, mas, como era muito verdadeira, não quis mentir, e confiara na bondade do pai para absolvê-la.

— Antes papai a mande presa para a torre dó castelo, opinou Rosa, sem poder sair, senão uma vez por ano.

Continuando a suplicar o perdão da irmã, ou, pelo menos, a comutação da pena, Rosa e Alice inventaram mil castigos. O rei, todavia, foi inflexível; não revogou a ordem, e as meninas saíram dali com o coração cheio de dor, pela próxima perda da irmãzinha que tanto estimavam.

No outro dia, assim que rompeu a madrugada, a princesa Amanda partiu para a Floresta Negra, toda de luto, com um véu preto, que lhe cobria completamente o rosto, a ponto de torná-la desco­nhecida.

Ordenara-lhe Marval o uso desse véu, para que a corte ignorasse o fato, e não começasse a propalar a sua maldade.

Os próprios criados de confiança, que foram designados para matar a princesa, não sabiam quem era aquela moça toda de preto, com um véu tão espesso, que não deixava ver sequer a sua fisionomia.

Antes de chegarem à Floresta Negra, os emissários reais encontraram uma velhinha, uma mendiga, que todos os dias ia receber esmolas que Amanda lhe dava.

Essa velhinha, que era adivinha, ao ver passar aquela gente tão cedo, ainda de madrugada, conheceu logo a princesa, e gritou:

— Adeus, princesa Amanda, minha benfeitora, filha do muito poderoso rei Marval! Desejo-lhe muitas venturas. Vá depressa, que seu noivo está à sua espera!...

A moça, que ia muito triste, pensando na sua sorte desgraçada, mais triste ficou, por se lembrar que a pobrezinha ia passar sem esmolas.

Não obstante não poder parar, nem um segundo, sob hipótese alguma, a carruagem que ia, teve ela ainda tempo de atirar uma moedinha, que se achava acaso no bolso do vestido.

A velha, compreendendo o bom coração da menina, exclamou:

— Deus nunca desampara os bons, princesa Amanda! Nossa Senhora há de acompanhá-la e protegê-la!

Ora, entre os criados que haviam ido levar a princesa, para matá-la na Floresta Negra, achava-se um, de nome João, já velho, que a tinha criado. Sabendo, pelas palavras da mendiga, que a moça a quem levavam para assassinar tão cruelmente, ser a sua querida, a sua extremosa, sua dileta filhinha, – como ele chamava e considerava a princesa, – protestou logo no não-cumprimento da ordem real, sucedesse o que sucedesse.

Firme nesse propósito, logo que o cortejo chegou à entrada da Floresta Negra, João disse aos seus companheiros que fora ele o encarregado de matar a moça; e por isso que o esperassem ali, pois não precisava de ajudante para tal serviço. Levou a menina para longe, no meio da mata, e como estimava muito a princesinha teve pena de matá-la. Trouxe, todavia, para o rei não desconfiar, o dedo mínimo de Amanda como, prova de sua morte, e em cumprimento à ordem que rece­bera.

Assim que a jovem Amanda se viu só, principiou a chorar de medo, porque ouvira dizer que aquela floresta era mal-assombrada. Começou a andar; e, andando muito, já bastante fatigada, chegou a um buraco.

Aproximou-se dele, e assim que transpôs a entrada, percebeu que quanto mais caminhava, tanto mais largo se tornava ele, do mesmo modo que o terreno mais pedregoso e cheio de raízes, se cobria de relva fina e macia, que seus pés cans­ados pisavam.

Prosseguindo sempre, deparou-se-lhe deslumbrante palácio todo de mármore cor-de-rosa, e janelas e portas de ouro.

Sentindo-se bem, ficou residindo aí, satisfeita, almoçando, jantando e ceando, sem no entanto ver pessoa alguma, o que de algum modo a impressionava.

A única coisa que quebrava o silêncio desse palácio, era um papagaio, que falava dentro de um quarto fechado e cujas portas jamais se abriam.

***

Havia algum tempo já que Amanda ali se achava, vivendo, cada vez mais serena e feliz, apenas muitíssimo triste, quando um dia, lhe apareceu um moço, formoso, ricamente vestido. Entregou-lhe ele a chave do quarto, dizendo que po­dia abri-lo, o que fez sem mais demora.

Foi um deslumbramento. Ficou maravilhada de ver papagaio tão grande, tão bonito, de asas tão douradas que parecia o sol, e tendo na cabeça um diamante de inexcedível preço, e lindo, lindíssimo, sem igual no mundo.

Ao ver aproximar-se a moça, a ave sacudiu as penas, contentíssima, e disse:

— Bons-dias, princesa Amanda, filha do rei Marval! Como vem tão bonita, tão formosa!

— Mais formoso do que eu, és tu, meu lindo papagaio dourado...

Ainda bem não havia terminado a última palavra, e o papagaio transformou-se no lindo moço que lhe tinha aparecido para lhe dar a chave do quarto.

Esse moço era sua alteza o príncipe imperial Calcim, filho e herdeiro de Manarés XI, imperador da região das Pedras Raras. Fora transformado num papagaio, e deveria permanecer nesse estado até encontrar uma princesa que descobrisse o palácio subterrâneo e o desencantasse.

Assim, meses após, celebrou-se o seu casamento com Amanda, comparecendo cinco reis tributários do imperador Manarés XI, entre os quais se achava o rei Marval para beijarem a mão da noiva.

Todos os outros beijaram a mão da princesa, mas, quando chegou a vez de Marval, a nova imperatriz recusou-a.

Escandalizado com tão grave injúria, à vista dos outros reis, Marval perguntou o motivo do procedi­mento da princesa.

Calcim, querendo dar uma satisfação da recusa, perguntou a Amanda por que assim procedia com um rei tão ilustre e senhor de uma nação poderosa e amiga.

A moça narrou, então, a sua história, que foi ouvida por todos com a máxima atenção. Marval foi muito censurado, mas, mostrando-se arrependido, obteve o seu perdão, e viveu feliz ainda muitos anos.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

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