domingo, 9 de maio de 2021

O príncipe enforcado (Conto popular), de Figueiredo Pimentel

 


O príncipe enforcado

País grande, importante, populoso e rico, era o que governava Edmundo XXII, rei poderosíssimo. Na capital do reino existia uma velha, tão velha, que já contava mais de duzentos anos.

Essa velha, a tia Joana, como todos a chamavam, vivia na floresta numa casa arruinada, tendo por única companhia um gato.

Dizia-se que ela era adivinha ou bruxa, e era de acreditar porque tudo quanto dizia saía certo.

Nunca vinha à cidade, salvo sendo chamada por alguém que quisesse saber do seu futuro.

O rei Edmundo tinha um filho, único, Roberto, herdeiro e sucessor no governo do país.

Quando sua alteza completou quinze anos, a rainha, sua mãe, preocupada com o seu futuro, querendo a todo o custo saber o que lhe reservava o destino, mandou convidar a velha feiticeira para vir ao palácio e aí ler a buena dicha do príncipe.

A velha, a princípio não quis dizer o futuro que estava reservado ao príncipe, mas a rainha tanto lhe pediu que ela profetizou haver o príncipe Roberto de morrer enforcado.

A rainha desde esse dia, viveu imersa em profundíssima tristeza.

Roberto, notando que sua querida mãe vivia sempre no quarto, chorando inconsolável, perguntou-lhe o motivo porque andava tão desesperado.

A rainha nada lhe quis dizer pretextando moléstia. Mas o jovem príncipe tanto insistiu, que a pobre mãe não teve remédio senão revelar a causa de sua tristeza.

O moço não se arreceou do destino que lhe estava reservado.

Disse que não se incomodava com o gênero de morte que teria, porquanto tinha de morrer um dia e, que, nesse caso, tanto se lhe dava ser desta ou daquela maneira.

Pediu então, já que lhe estava destinada aquela sorte, que os pais lhe dessem licença para ir correr mundo, a fim de morrer em país estranho, longe dos seus, e não afligir os pais com o espetáculo de sua morte horrorosa.

O rei, só a muito custo lhe concedeu a licença pedida.

Roberto aprontou-se para a viagem. À despedida a rainha deu-lhe dinheiro que bastasse para se sustentar durante o resto de sua vida.

***

Começou o príncipe a correr mundo; e depois de haver percorrido muitas cidades e reinos foi ter a um pequeno povoado onde existia uma capelinha erguida no alto de um morro, dedicada a São Miguel.

O povo desse lugarejo era muito pobre, de modo que não só a igrejinha como São Miguel e a figura do diabo e as demais alfaias do templo, tudo, já se achava em péssimo estado.

O príncipe Roberto, apiedando-se da miséria em que estavam a capela e as imagens, mandou consertar tudo à sua custa.

Resolveu, então, demorar-se aí por algum tempo à frente dos operários, administrando as obras.

Concluídas que foram, o pintor, disse que ficara um resto de tinta, pois não pintara o Anjo Mau, por lhe parecer que não merecia a pena, com que o príncipe não concordou, ordenando que pintasse também a figura do diabo.

Quando tudo ficou pronto e nada mais faltou, retirou-se da povoação, levando consigo a bênção do povo, que só assim vira a sua capelinha restaurada.

Roberto continuou a viagem, a correr mundo, indo ter à casa de uma velhinha, na beira de uma estrada solitária, a quem pediu pousada por uma noite.

A velha, que era uma bruxa muito má, cedeu-lhe a pousada pedida e mostrou-lhe o quarto onde ele devia passar a noite.

O moço, entrando no quarto que lhe fora destinado, começou a contar o dinheiro que tinha no bolso.

A feiticeira, que estava à espreita, pelo buraco da fechadura, ficou admirada de ver tanto dinheiro e correu para a cidade, dizendo que em sua casa estava um estrangeiro a lhe roubar toda fortuna.

A polícia acompanhada de soldados bem armados, dirigiu-se para lá e deu voz de prisão ao príncipe, conduzindo-o para a cadeia amarrado pelos pulsos, com duas cordas grossas.

Ficou Roberto na cadeia à espera do resultado do processo, quando um dia soube que fora condenado à forca por gatuno.

Quis se defender, mas nada conseguiu.

Como era aquela a sua sina, depressa se resignou.

***

Chegando o dia de ser executada a sentença, seguiu o príncipe Roberto para a praça em direção à forca, no meio de uma escolta de soldados de armas embaladas.

São Miguel que estava na capelinha que o príncipe mandara consertar, virou-se para o diabo e disse:

— Então, agora não estás mais bonito?

— Estou sim respondeu ele.

— Sabes quem te mandou consertar?

— Sei. Foi aquele honrado príncipe que há tempos passou por aqui?

— Pois fica sabendo que este bom príncipe a esta hora está a caminho da forca, a que foi condenado injustamente. Está todo amarrado, no meio de uma escolta e daqui a pouco estará morto. Vai defendê-lo.

Quando o diabo ouviu o que São Miguel lhe contou, montou num cavalo preto de crinas de fogo, veloz como um raio e voou a toda a brida para a casa da velha que dera queixa contra Roberto.

Chegando aí conduziu a bruxa, que confessou o seu crime, dizendo que o príncipe era inocente, e que ela tinha feito tudo aquilo com o fim de se apoderar da riqueza do estrangeiro que tinha pedido pousada.

O rei, sabendo do ocorrido, por intermédio do diabo, imediatamente lavrou ordem de soltura para o príncipe.

Entregou-a ao diabo, que, rápido, como o pensamento, foi à praça onde estava levantada forca, e entregou a absolvição do príncipe ao carrasco.

Já não era sem tempo. Mais dois segundos demorasse, estaria o príncipe morto.

Roberto foi levado à presença do rei que perguntou quem era e de onde vinha.

O moço contou-lhe que era filho do rei de um país muito distante dali; que saíra do reino porque sabia que a sua sina era morrer enforcado, e não queria que a sua morte fosse no domínio de seu pai.

O rei ficou penalizado com a história do jovem.

Obrigou a velha a restituir o dinheiro que roubara ao moço e mandou prendê-la.

Assim que se viu livre e embolsado de seu dinheiro, Roberto continuou a viagem.

No meio do caminho encontrou-se com um fidalgo, montado num cavalo muito bonito e ricamente arreado.

O cavaleiro perguntou-lhe para onde ia, ao que respondeu o príncipe que estava correndo terras e não sabia qual o seu destino, nem podia dizer onde ia pernoitar.

E pelo caminho foram andando em direção à capelinha que o príncipe havia anos mandara consertar.

Durante a viagem o príncipe contou ao cavaleiro a sua história, como tinha se tinha livrado da forca, mas que tinha a certeza de morrer enforcado porque era aquela a sua sina.

O fidalgo, então lhe disse:

— E não sabeis quem vos salvou quase na hora da morte?

— Não, disse o príncipe.

— Pois sabei que fui eu. Eu sou a figura daquele diabo que o pintor não quis pintar por não valer a pena, e que ordenaste consertar e pintar. Sabendo do embaraço em que vos acháveis, vim ao vosso encontro. Podeis voltar para vossa terra. A vossa sina está desmanchada, em vosso lugar foi enforcada aquela bruxa que era feiticeira. O encanto está quebrado.

Dizendo isso o cavaleiro sumiu-se e foi para sua morada na capelinha.

O príncipe ao passar pela capelinha, entrou e começou a rezar.

Depois voltou para a sua cidade, onde encontrou seus pais que o receberam com grande contentamento.

Já o rei Edmundo sabia que a sina do seu filho estava desmanchada, porque Joana fora ao palácio contar a história do príncipe Roberto.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

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