quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O lobisomem de Capim Grosso (Conto), de Iba Mendes



 
O lobisomem de Capim Grosso

Era uma daquelas sextas-feiras em que a lua, no céu, parecia olhar para a terra como uma dama apaixonada contempla o seu mais dileto amante. A cidade dormia, e os poucos que empreendiam em alguma aventura, andavam solitários rumo ao um destino duvidoso. Entre esses se achava Zé Magro, assim conhecido por seu porte franzino e por sua palidez cadavérica. De cabeça baixa e introspectivo seguia ele a passos lentos em direção ao "Contorno de Jacobina", a esta altura tão silencioso como o velho cemitério que o circundava.   

Quando chegou ao campo-santo, parou de súbito em frente ao portão, de onde, imóvel, passou a observar atentamente para todos os lados, como se temesse a chegada inesperada de um intruso. De repente, correu em grande velocidade na direção ao muro do sepultário, saltando ligeiro para dentro. Lá, sob o manto negro da abóboda celeste,  a lua continuava o seu namoro refulgente com a terra, tendo por indesejadas testemunhas as miríades de constelações do imenso breu sideral. 

Já dentro do cemitério, o homem passou a correr como um louco por entre os túmulos, até que por fim, exausto, deteve-se em frente de uma velha tumba, sobre a qual se acomodou, sentando-se sobre ela e encostando a cabeça numa lápide de mármore. Assim permaneceu durante alguns minutos, quando, tomado de estranho frenesi, mirou o relógio e mais agitado ainda ficou ao perceber que já aproximava a meia-noite. 

Quando, enfim, os ponteiros do relógio se encontraram e ao longe a mãe-da-lua fez ecoar o seu canto agourento, eis que num salto desesperado ele tira a roupa e se lança no chão, uivando e rodando da esquerda para direita, como um animal possesso. Em seguida, ergue-se ofegante e passa a correr com joelhos e cotovelos por entre os túmulos. Quando cessa, enfim, essa exaustiva labuta, já não é o mesmo Zé Magro. Via-se ali, agora, um tipo de animal medonho, mais ou menos do tamanho de um bezerro, com a cara semelhante a um morcego, os olhos vermelhos como brasas, as orelhas eriçadas, as ventas dilatadas, as unhas em forma de garras e o corpo todo coberto de pelo. 

Durante algum tempo ele ali permaneceu inerte sobre a relva, mirando fixamente para o grande astro luminoso nas alturas. Logo, porém, uma inquietação generalizada principia a agitar-lhe os membros monstruosos. Ergue-se  então novamente e parte em disparada para fora do cemitério, em direção ao contorno. Dali perde-se de vista. 

Pela manhã, dia de feira, encontrei-o na sua agitada bodega à Rua da Librina. Estava de bermuda e sem camisa.  Olhou-me espantado e com a fronte baixa. Não tive dúvida: os joelhos e os cotovelos  ensanguentados tornavam evidentes a sua condição de lobisomem. Despedi-me com tristeza e fui para casa fazer a oração que dindinha me ensinou: 

Sete padres me acompanhem,
Sete anjos me deu luz,
Antes de nascer lobisomens,
Primeiro nasceu Jesus.

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Iba Mendes
São Paulo, outubro de 2021.

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