sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Zé Gatinha (Conto), de Iba Mendes


 Zé Gatinha 

Toda cidade tem forçosamente o seu "João Grilo", o seu "Macunaíma", o seu "Pedro Malazarte", ou seja: um morador que se destaca por suas "presepadas" ou pela sua maneira peculiar de ser e viver. Em Capim Grosso o nosso "folclórico" personagem tinha por alcunha "Zé Gatinha". 

Nada sei de suas origens e até desconheço o seu verdadeiro nome. Isso, porém, pouca importa a esta narrativa. O que de fato me interessa são suas histórias, ou mais precisamente uma delas. Ei-la como me contaram: 

Era uma Sexta-Feira da Paixão. Zé Gatinha, que entre outras habilidades, sabia fazer despachos nas encruzilhadas, preparava-se para uma arriscada tarefa, pois tinha plena ciência que em dia santo tal prática era um abominável sacrilégio contra a religião do papa. No entanto, como era um caso de extrema urgência e como já havia recebido adiantado pelo serviço, não tinha outra alternativa senão cumprir essa dura missão. Paramentou-se então ao seu exótico estilo: um turbante colorido combinado com uma blusa vermelha, calça preta e tamancos. O despacho consistia de velas, moedas, cigarros e uma garrafa de Jurubeba Leão do Norte, da qual tragou uns ligeiros goles antes de sair. 

Aproximando a meia-noite retirou-se rapidamente para seu destino, seguindo pela Rua São José em direção ao contorno próximo. Naquele momento nas ruas tudo era silêncio, um silêncio vasto, enorme, sinistro, apenas sublinhado pelos latidos insistentes de um velho vira-lata que dormia na calçada e que despertou do seu tranquilo sono ao ouvir o tilintar dos pesados calçados do exótico carimbamba. 

O ritual a que se incumbira Zé Gatinha naquele dia, posto ser mais um entre tantos outros que já fizera, parecia trazer em si alguma coisa de inusitado ou particular, algo a que ele atribuía ao fato de ser realizado no dia em que se comemorava a morte do Salvador numa cruz. Então ele, que até ali nunca sentira o menor receio diante de uma tal incumbência, agora fraquejava em seus pensamentos e até aventou a ideia de desistir de tudo e ir devolver o dinheiro ao contratante. Logo, porém, caiu em si que gastara todo o pagamento e que a pessoa para a qual iria prestar seus serviços, no jargão popular, não era flor que se cheire. Tinha, portanto, de continuar naquele duro encargo. 

Quando, enfim, chegou à encruzilhada, os ponteiros do relógio já indicavam que se aproximava a hora propícia para a entrega da oferenda a Exu. Contudo, à medida que ia retirando da bolsa os apetrechos do despacho, eis que notou ao longe a presença de um vulto que vinha caminhando em zigue-zagues na sua direção. A estranha figura, que mais parecia uma visagem do que uma pessoa de carne e osso, tinha agora o rosto todo aceso, como se duas brasas ocupassem nas órbitas o mesmo lugar dos olhos. Súbito, correu-lhe um frio pela espinha, que o fez cessar de imediato o ritual, metendo novamente na bolsa os objetos de que se utilizaria naquele bozó. Ia voltar os olhos para o vulto, quando este, veloz como a passagem de uma sombra, aproximou-se dele, dizendo com voz alta e cavernosa: 

— Vim pessoalmente buscar a encomenda. 

Em seguida tudo escureceu. 

Pela manhã, encontraram o Zé Gatinha bêbado e dormindo na calçada ao lado do mesmo cão que lhe importunara na noite anterior. 

Dizem as más línguas que desde aquele dia Zé Gatinha passou a frequentar as missas aos domingos e nunca mais compareceu às encruzilhadas nas noites das sextas-feiras santas.

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Iba Mendes
São Paulo, 29 de outubro de 2021.

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