quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A tentação do Padre Alfredo (Estórias de Capim Grosso), de Iba Mendes

 


A tentação do Padre Alfredo 

Conta-se que o Padre Alfredo, em certo dia, ia montado no seu burrinho com destino a Capim Grosso. Assim que passou pelo povoado de Vaca Brava, sentiu uma fome devoradora, e nada levava consigo que pudesse saciá-la. Seguindo mais adiante, numa curva, deparou-se com um velhinho de barbas longas e brancas, o qual sentado num velho tamborete assava no espeto um peru tenro e gordo. O assado exalava um cheiro tão inebriante que o bom Padre não resistiu. Apeou rapidamente do animal e foi direto ao idoso, crendo ser ele uma providência enviada pelos céus para suprir sua imediata necessidade.

— Boas tardes, bom velhinho, que o Senhor seja contigo! 

O ancião, que a esta altura beliscava com imenso gosto o petisco saboroso, correspondeu com uma cortesia ao cumprimento: 

— Muito boas tardes, viajante! Parece com muita fome, não? 

O sacerdote, que sentia suas entranhas roerem com a voracidade de um leão faminto, não hesitou em achegar-se a ele e pedir-lhe algum bocado. 

— Certamente. Chegue-se, sente-se aqui! — continuou o idoso, oferecendo ao outro um tamborete com assento de couro, o qual parecia estar ali exatamente com esta única finalidade. 

— Oh, graças a Deus! — exclamou o religioso afagando com ambas as mãos a barriga. — Estou caindo de fome. 

— Então, que faz você neste fim de mundo a essas horas, sem ter nada para comer? — perguntou o velho, enquanto fatiava vagarosamente a ave suculenta. 

— Milito pela causa de Cristo — respondeu o missionário, fixando os olhos na bela iguaria e evocando mentalmente os manás enviados por Deus aos israelitas durante a longa jornada pelo deserto. E concluiu para si que aquele peru assado, surgido assim numa hora tão propícia e de uma maneira tão inusitada, não seria outra coisa senão um maná mandado por Deus para ele, tal qual fizera a Moisés depois da fuga do Egito. 

Enquanto o velho ia oferecendo ao padre uma fatia de peru na ponta de um garfo de duas pontas, indagou dele se de fato acreditava que aquele peru era uma bênção de Deus, acrescentando ainda que o diabo também era capaz de realizar milagres e prodígios. E concluiu sarcasticamente: 

— O senhor acredita no diabo, padre? 

O sacerdote, notando que os pés do velho se assemelhavam aos de um bode e que dele  exalava um odor semelhante ao de fósforos queimados, meteu depressa a mão dentro da sua batina branca e tirou de lá um vidrinho com água benta, respondendo com firmeza: 

— Isso é o que vamos ver! 

Dizendo isso, destampou o frasquinho e, num movimento rápido, borrifou sobre o homem algumas gotas do líquido abençoado, gritando bem alto: 

Vade retro, Satanás! 

Neste instante, o velhinho, que nada mais era do que o próprio diabo disfarçado e que estava ali para induzir o padre ao pecado da gula, deu um grande estouro e desapareceu nos ares juntamente com o peru assado, deixando para trás um cheiro acre de enxofre e muita fumaça preta. 

O padre levantou-se ligeiro, fez o "pelo sinal" e saiu na direção do burro. Quando  ergueu os olhos para montar no animal, eis que viu bem à sua frente um enorme pé de jaca abarrotado de frutos maduros, cuja fragrância fez aumentar ainda mais o apetite do santo homem. 

Horas depois chegou ele a Capim Grosso com a barriga cheia e o burrinho carregado da abençoada fruta. 

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São Paulo, 03 de novembro de 2021.

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