sábado, 6 de novembro de 2021

O romance de Milton com a Mula-Sem-Cabeça (Estórias de Capim Grosso), de Iba Mendes


Milton e a Mula-Sem-Cabeça 

Quem visse aquele homem esquisito passando ali na praça Otaviano Ferreira, só de cueca e sem o menor pudor dos olhares, talvez não imaginasse que no seu coração pulsasse um amor sincero e avassalador, um amor capaz das maiores loucuras e nem um pouco semelhante ao amor ordinário dos salões. Essas suas andanças, porém, ao contrário do que supunham os faladores, que acreditavam ser aquilo puro desvario de um descarado, tinha na verdade um plano muito bem traçado, que principiava sempre às vinte horas e acabava pontualmente à meia-noite de toda sexta-feira, lá para as bandas da velha rodoviária, quando então sua estranha amada,  transmudada numa mula sem cabeça, partia ligeira como o vento pelos matagais, desandando coices em todas as direções e chispando fogo pelos olhos, tendo de percorrer nessa faina desvairada sete igrejas, a fim de cumprir assim sua sina por ter feito um padre quebrar o santo juramento de castidade.   

Naquele momento em diante, Milton inicia também sua sina, que consistia em perambular seminu pelas suas ruas,  resignando-se assim à própria sorte com a qual pactuou. 

Como foram os pormenores deste pacto, ainda é um fato de todo desconhecido. O que se sabe, porém, é que se deu numa sexta-feira e que foi na região do povoado de Sete Porcos, no caminho que vai até São José do Jacuípe. Milton seguia a pé por uma trilha escura, quando se deparou com uma cruz velha de madeira, que indicava ter morrido ali alguma pessoa. Ele que nunca foi de temer a assombrações, sentiu naquele momento um frio a correr-lhe por toda a espinha e o suor a escorrer-lhe em bagas pela testa. Tentou apressar os passos e, quando olhou para trás, viu que um animal do tamanho de um  burro corria loucamente em sua direção, ao mesmo tempo em que relinchava e botava fogo pelos olhos. Exausto e sem forças para continuar a fuga, ele cessou os passos e sentou-se sobre  um montículo de terra, esperando a morte inevitável. Quando, porém, o monstro o alcançou, recolheu para dentro de si as chamas dos olhos e após um relinchar estridente assumiu a figura de uma bela mulher, toda nua, cujos cabelos arrastavam-se até o chão. Esta, aproximando-se dele, tomou suas mãos trêmulas e o fez levantar com um sorriso, ao que ele acedeu sem qualquer resistência. Em seguida, ambos caminharam de mãos dadas para uma lagoa próxima, e ali entre os juncos e imersos na águas barrentas, entrelaçaram-se como cobras num embaraço de pernas, numa uma união de barrigas e num tremor desesperado de nervos e  artérias. 

Foi, pois, dessa união fantástica que resultou o pacto de que fizemos menção, que consiste em um encontro todas as sextas-feiras num lugar desconhecido, onde ela sempre o aguarda sedenta de amor até meia-noite, quando  inevitavelmente sai pelo mundo a cumprir seu triste fado. 

Quem me contou o caso, garante que desse estranho romance nasceu um rebento, que é hoje um ilustre político de Capim Grosso,  o qual, em caráter, herdou os traços de uma besta, que é o filho de um burro com uma égua.


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São Paulo, 06 de novembro de 2021.

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