1/15/2022

O encontro de Capitão com o Caipora (Capim Grosso folclórico), por Iba Mendes

 

O encontro de Capitão com o Caipora

Corria o ano da graça de 1915, quando o jovem Zózimo, saltando num cavalo de pau que improvisara por puro divertimento, corria como um "Quixote" por entre o grosso capim de uma extensa lagoa que circundava a velha fazenda.

— Eia! Avante Rocinante! — bradava alto, empunhando numa das mãos uma vara verde que parecia simular uma espada.

O velho Chico, que a tudo observava escondido detrás de uma árvore, não resistiu a ocasião e gritou em tom de gracejo:

— Muito bem capitão!... Avante, avante!...

O rapaz, que até então não pressentira a presença do pai, interrompeu bruscamente a brincadeira e abaixou a cabeça. O velho, notando o constrangimento do filho, retirou-se rindo muito de toda aquela grotesca pantomima.

Zózimo, tão logo o pai ausentou-se, montou novamente em seu alazão de madeira e saiu em disparada por entre o mato, gritando louco de satisfação:

— Avante, capitão!...

Esse passatempo transcorreu assim pouco mais de meia hora. Quando, enfim, deu por si já se achava bem no meio de uma mata densa e desconhecida. De repente, viu como que uma sombra a correr num contínuo vaivém por entre os arvoredos.  O estranho movimento vinha sempre acompanhado de assobios, de estalar de galhos, de um cheiro inebriante de fumaça e de um grito fanhoso, que dizia:

— Ecou!... Ecou!... Ecou!...

Não havia dúvida, pensou o moço, é o Caipora.

Zózimo, que conhecia muito bem as malvadezas daquele monstrinho cabeludo, tratou logo de se precaver, retirando do bolso um pedaço de fumo, com o qual seguiu caminhando em busca de uma clareira conhecida, pela qual pudesse se safar daquela trilha apavorante. Porém, quanto mais andava, mais perdido se via no meio daquele  matagal espesso e medonhamente trançado. Quando, enfim, topou num lugar que lhe parecia familiar, viu aparecer de supetão diante de si a figura grotesca do Caipora montado no seu porco caititu. O monstrinho peludo, que fumava um grosso cachimbo de barro, acercou-se dele e foi logo pedindo fumo.

— Me dá fumo!

O moço, que já se havia precavido para esse encontro, estendeu a mão e lhe entregou um pedaço de fumo de corda.

— Me dá mais!

Que fazer, se não havia mais fumo? Correr era impossível, pois eram de todos conhecidas as peripécias daquele diabinho peludo,  que certamente não deixaria impune o aventureiro que ousasse evadir de sua presença sem o seu devido consentimento.

— Acabou — respondeu o rapaz um tanto apreensivo, mas logo acrescentou: — Vou buscar mais em casa, se você deixar.

— Quero mais! — insistiu o capetinha peloso.

— Em casa tem mais — repetiu Zózimo todo trêmulo.

—  Tô esperando, vá correndo — respondeu o Caipora visivelmente impaciente. E completou: - Se não voltar ligeiro, deixa estar que você me paga!

O moço sabia muito bem do  que seria capaz o Caipora caso não cumprisse a promessa que a ele ali fizera. Então correu como um louco em direção à fazenda. Chegou lá esbaforido e suando em bagas. Pegou sem demora, na dispensa, meio metro de fumo e retornou correndo como um desesperado. Quando chegou no matagal, o Caipora ainda estava lá montado no seu porco-do-mato. Este foi logo perguntando:

— Trouxe meu fumo?

— Sim, toma! — respondeu Zózimo, entregando ao guardião da floresta o pedaço do rolo preto.

O  monstrinho então tomou do fumo e o levou às narinas. Em seguida fez um gesto de agradecimento e saiu em disparada, gritando:

— Ecou, Capitão!...  Ecou, Capitão!...  Ecou, Capitão!...

Reza a lenda que foi a partir deste dia que o célebre fundador de Capim Grosso passou a ser chamado de "Capitão".



---
São Paulo, 15/01/2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...