1/14/2023

A fonte milagrosa (Conto popular), por Iba Mendes

 


A fonte milagrosa

Conta-se que num remoto reino havia um poderoso rei que amanheceu cego. Desesperado com seu deplorável estado, deliberou aos seus súditos que convocassem todos os médicos e curandeiros da terra, a fim de que algum deles pudesse curá-lo de tão terrível moléstia. No entanto, por mais que tentassem, nenhum dos sábios conseguiu satisfazer o desejo do rei, o qual acabou por se resignar à sua triste sorte.

Certo dia, porém, apareceu no palácio um velhinho suplicando uma esmola. Ao saber que o monarca estava cego, pediu para falar-lhe, pois dizia conhecer um remédio que poderia curá-lo. Comunicado do fato, o rei autorizou sua entrada.  Ao chegar à presença do rei, disse:

- Ó poderoso rei! Saiba Vossa Majestade que há somente uma coisa em toda a terra que poderá curar vossa cegueira.  Trata-se da água da Fonte das Três Comadres, que fica num reino muito distante daqui, onde um terrível dragão vela dia e noite.  Com sete gotas dessa milagrosa água pingadas em cada olho, a vossa visão retornará como por encanto.  No entanto,  poderoso soberano, quem for incumbido desta espinhosa missão, deverá procurar uma velha que mora próximo desta fonte, pois somente ela conhece os segredos do dragão, e saberá dizer quando ele está dormindo ou acordado.  Isso é tudo, meu senhor.

- Pois bem! - respondeu o monarca. - Enquanto meus súditos não retornarem com esta água maravilhosa, ficarás habitando neste palácio, onde terás tudo que precisares. Se o que me dissestes for verdadeiro, recompensar-te-ei com  muita riqueza, mas se tiveres mentindo, mandarei vazar teus dois olhos e viverás na escuridão como eu.

Imediatamente o rei ordenou ao filho mais velho que preparasse uma esquadra, incumbindo-o de trazer a água num prazo de um ano.

- E tu toma muito cuidado, não te distraias com nada, que pode deitar tudo a perder.

O rapaz seguiu viagem e apenas tinha navegado cinco dias, resolveu aportar numa ilha paradisíaca, onde encontrou muitas mulheres bonitas, com as quais esbanjou em divertimentos todo o dinheiro que levava, contraindo ainda muitas dívidas, de modo que não pôde  continuar sua aventura rumo à Fonte das Três Comadres.  

Findo o prazo de um ano e não tendo o filho retornado, o rei ficou muito triste e encarregou o segundo filho que fosse buscar a água milagrosa.

- E tu toma muito cuidado, não te distraias com nada, que pode deitar tudo a perder.

O rapaz seguiu viagem e apenas tinha navegado quatro dias pela costa, decidiu aportar na mesma ilha onde jazia preso seu irmão mais velho. Ali chegando ficou deslumbrado com a formosura das moças, e deu-se em frequentar bailes com elas, gastando em pouco tempo toda a soma que levava, de modo que ficou impedido de seguir adiante em busca da água salvadora.

Findo o prazo de um ano e não tendo retornado o segundo filho, o rei ficou ainda mais triste e desanimado. Embora tivesse ainda um terceiro filho, não quis incumbi-lo da missão, pois tinha medo de que este também não voltasse e ficasse sem um herdeiro para o trono. No entanto, o moço, que amava muito pai, apresentou-se dizendo:

- Meu pai, venho pedir vossa permissão para ir também à Fonte das Três Comadres, e afianço-lhe que trarei sem falta a água que restaurará vossa visão.

O rei, ciente da pouca idade e inexperiência do filho, caçoou dele dizendo:

- Olá, meu pingo de gente!  Se teus irmãos que eram homens formados e que conheciam as procelas dos mares, não conseguiram retornar, como queres tu, que só a pouco deixastes os cueiros, ousar tamanha façanha? E, com seriedade: - Jamais o permitiria seguir nessa aventura.

O menino então foi falar com a rainha. Essa, que sabia das habilidades do caçula, convenceu o marido a deixá-lo ir, dizendo:

- Às vezes de onde se não espera vem o remédio.

Pronta a esquadra, o moço seguiu sem demora para o seu destino. Depois de navegar três dias, chegou à mesma ilha onde estavam presos os dois irmãos. Informado da situação destes, pagou-lhes as dívidas e os convidou para seguir com ele. Os irmãos, porém, recusaram o convite e ainda tentou convencê-lo a  ficar, expondo as maravilhas que poderiam desfrutar ali. O moço, por sua vez, rejeitou a proposta e continuou viagem. Decorridos mais alguns dias, chegou sozinho ao lugar indicado pelo andarilho. Ali aportando foi ter à casa da velha, cuja casa ficava perto da Fonte das Três Comadres. A anciã, logo que o avistou, admirou-se que um menino daquela idade  pudesse chegar naquelas terras são e salvo.

- Ó meu netinho, que vieste fazer neste lugar? Volte depressa de onde veio, pois corre grande perigo.

O rapaz disse que vieira buscar uma garrafa de água da Fonte das Três Comadres, pois seu pai estava cego e precisava curá-lo.

- Pois fique sabendo que um terrível monstro guarda dia e noite esta fonte. Se lá fores será imediatamente devorado. Mas se queres mesmo correr este risco, aviso-lhe que esta fera é uma princesa que foi encantada. Preste bem atenção, pois quando ela tiver com os olhos abertos é porque está dormindo, e quando estiver de olhos fechados é porque está acordada.

O rapaz, de pronto, seguiu rumo à empreitada. Chegando à fonte, observou que o monstro estava com os olhos abertos. Então devagarzinho, pé ante pé, aproximou-se da fonte e encheu rapidamente a garrafa.  Neste instante ouviu um som agudo: era a fera que tinha acordado.

- Como ousas tu, pirralho atrevido, retirar água da minha fonte?

Dizendo isto partiu veloz sobre o rapaz. Este, porém, desembainhou ligeiro a espada e o feriu de raspão.  Com a perda de sangue, a fera desencantou numa linda princesa, que disse:

 - Estava escrito que deveria me casar com aquele que me libertasse desta terrível maldição. Foste tu o meu salvador.

O moço, que tinha pressa em levar a água ao pai, respondeu:

-  Oh, princesa! Isso será uma honra.  Antes, porém, preciso curar meu pai. Volto daqui um ano para buscá-la.

A princesa anuiu, dizendo:

- Vai... Vai depressa, príncipe!... Porém, se daqui um ano não voltares, irei em tua procura. - E tirando do dedo um anel, entregou-lhe declarando que seria uma lembrança para que se não esquecesse dela.

 O moço seguiu então de volta ao seu reino. Antes, porém, parou na Ilha onde viviam os dois irmãos. Desta vez esses resolveram acompanhá-lo. Em certo momento da viagem, os dois combinaram entre si roubarem a garrafa com a água da Fonte das Três Comadres. A ideia era chegar ao reino e se apresentarem ao pai como sendo os verdadeiros autores da extraordinária façanha. Para isso resolveram convencer o irmão a dar uma festa.

-  É para brindar sua vitória, irmão! - disseram.

O outro achou boa a proposta.  Beberam a noite toda. Quando já ia romper o dia, notaram que o irmão estava ébrio. Então sorrateiramente tiraram-lhe a chave do pescoço; em seguida abriram o baú e substituíram a garrafa  por outra igual mas contendo água comum do mar. Quando, enfim, aportaram no reino do pai, foram recebidos com festas e grandes alaridos, sendo o menor levado até o palácio nos braços da multidão. Tão logo entraram nos aposentos do rei, este já foi pedindo que pingassem as sete gotas da água nos olhos. No entanto, em vez de se lhe abrirem os olhos, sentiu apenas um forte ardor. Neste momento, os irmãos aproximaram-se dizendo:

-  Prendem este impostor! Eis aqui a verdadeira água que trazemos da Fonte das Três Comadres, após matarmos o terrível monstro devorador.

Então abriram a verdadeira garrafa e pingaram a água nos olhos do monarca, que no mesmo instante passou a enxergar com mais clareza que antes.  Quanto ao pequeno príncipe, este fora mandado para umas brenhas distantes, onde deveria ser morto. No entanto, os dois homens incumbidos desta tarefa, condoídos com a desgraça do pobre moço, resolveram deixá-lo vivo ali, levando como prova ao rei um coração de porco do mato.

Nesse ínterim, decorrido o tempo de o príncipe voltar para buscar a princesa, esta vendo que ele não cumprira sua promessa, reuniu uma esquadra de cem navios e foi ao reino onde ele disse que morava.

Ali chegando mandou comunicar ao rei que viera buscar o príncipe que há um ano a desencantara na Fonte da Três Comadres, o qual ali fora buscar a água sagrada que curaria a visão do pai. O rei ficou desesperado, pois não sabia qual dos três filhos era aquele indicado pela princesa. Então o mais velho apresentou-se dizendo que foi ele quem desencantara o monstro e que trouxera a água santa. A princesa que via nele um impostor, disse:

- Se és tu o meu salvador, apresente agora o anel que selou nosso pacto!

O rapaz vendo-se impossibilitado de cumprir o desejo da moça, retirou-se  cabisbaixo e preocupado. Em seguida apareceu o irmão do meio, afirmando também que seria ele o autor da façanha na Fonte da Três Comadres. Como não portava o anel de que falava a princesa, retirou-se também muito acabrunhado. A princesa insistia no seu intento, e ameaçava destruir toda a cidade caso não lhe fosse apresentado o verdadeiro príncipe até o outro dia. O rei, muito agoniado, não sabia o que fazer. Foi quando os homens que levaram o príncipe para as brenhas, apresentaram-se ao rei, confessando-lhe que o coração que lhes entregara era de um porco e que o príncipe deveria ainda estar vivo. O monarca imediatamente ordenou que o procurassem em todos os cantos da terra e que o trouxesse à sua presença. Não foi preciso ir muito longe, pois o moço fora achado mendigando nas imediações da cidade. Sem delongas fora conduzido ao palácio do rei.

- Pronto, princesa! - disse o rei - só me resta este filho.

- Se és tu o meu salvador, apresente agora o anel que selou nosso pacto!

O moço que já transbordava de alegria, tirou do dedo o anel e entregou-lho à princesa. Esta reconhecendo o objeto, declarou que de fato aquele era o príncipe que viera buscar. No outro dia, ambos retornaram ao reino da princesa, onde casaram e viveram muito felizes. Quanto ao mendigo que anunciara ao rei o prodigioso remédio, este fora recompensado com grande quantidade de ouro e outras pedras preciosas. Já os dois irmãos mais velhos, estes foram trancafiados num calabouço nos subterrâneos do castelo, onde provavelmente estão até hoje, vivos ou mortos.

 
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Recontado a partir de "A Fonte das Três Comadres", de Sílvio Romero
Por Iba Mendes. São Paulo, 2023.

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