4/09/2023

A galinha da minha vizinha... (Conto), de Rodrigo Paganino


A GALINHA DA MINHA VIZINHA...

Já era o sol posto havia um quarto de hora. Tocara a largar o trabalho, e cada qual recolhera para a sua casa: uns sozinhos, pelas azinhagas fora, se mais tresmalhados moravam; outros, em rancho, se pousavam juntos em alguma terra próxima.

André Pimenta, um dos trabalhadores mais falados dos sítios onde este caso aconteceu, deitara a enxada ao ombro, e enfiara-lhe o cesto do jantar, de maus modos e sem dizer um Deus os ajude aos companheiros, coisa para estranhar num homem maneiro e pratico como ele era; entestou para as bandas da casa, sem dar palavra e com cara de curtir sezões.

Foi grande falada na malta por causa deste passo. Nunca o tinham visto tão esquerdo, nem de tão má catadura para os amigos. E daí, andara todo o dia a fugir com o corpo ao trabalho, e a resmungar com os seus botões, como quem lhe roía alguma coisa lá por dentro.

Ou estava doente o pobre do homem; ou lhe tinham dado quebranto.

Porque até então ninguém lhe pusera o pé adiante no trabalho e ninguém o levara à parede em alegrias e cantigas. Andava sempre mais contente do que a cigarra e mais esperto do que o pardal.

O que teria o André Pimenta?

Nestes pontos de interrogação viera a gente toda da quinta do Chibanta ao lugar da Rabiça fazer o farnel para a semana, porque era num sábado e tinham recebido a feria: em perguntas e conversas deitaram até defronte da casita onde ele morava e onde estava ainda, muito bem amezendado num poial à entrada da porta, e tão pasmado, que parecia ter-lhe um ar mau passado por cima, naquele lugar mesmo.

— Boas noites, tio André!

— Adeus, tio André, quer alguma coisa da Rabiça?

Estas perguntas, com mais ou menos variantes, lhe dirigiam os pobres ganha-pães, sem que obtivessem resposta, além de um resmungar ininteligível, que de má vontade saiu do peito de André, e que se fez ouvir sem que abrisse a boca.

Os malteses olharam-se, encolheram os ombros, entenderam se pelos olhos: e, cada vez mais admirados, seguiram para o lugar.

O caso era para dar que fazer até mesmo a um escrivão!

André fora sempre um bom trabalhador e um honrado chefe de família. Depois de andar um santo dia na sua labutação, não havia para ele maior regalo, do que vir de noitinha brincar com os pequenos ou conversar com a mulher, enquanto se lhe não aprontava a ceia e não tocava a deitar. Ao portal da casa, de verão; de inverno, sentado ao pé da chaminé num banco que ele arranjara em horas de sesta.

Naquela casa não se conhecera nunca cirurgião nem boticário, e não constava pela vizinhança que se lá tivesse ralhado nunca. Pois a língua daquela gente não perdoava, nem ao padre prior!

Mas, quando tocava ao André das Furoas, (assim se chamava ao sítio onde assistia) ou à Madalena da tia Inácia, todos diziam à uma, que era um casal em que se não podia por boca, e que viviam tão sossegados, como Deus com os Anjos.

Entretanto nem só os camaradas haviam estranhado André naquele dia; Madalena e os pequenos tinham ficado passados, quando o haviam visto chegar ao pé da porta, atirar com a enxada e o cesto para o meio da casa, como quem atirava com o diabo à rua e deitar-se para cima do banco, sem dizer nada nem à mulher nem aos filhos.

Pela primeira vez na sua vida um mau pensamento viera torvar a serenidade daquela alma. André sentira a inveja, e tinha medo dela e de si. Admirava-se da mudança, que lhe ia lá por dentro e não tinha alma para deitar fora aquela tentação. Não se conhecia, por diferente; e não sabia como havia de tornar a ser o mesmo.

Parecerá estranho a quem não conhecer a vida apática e rotineira da gente do campo, André não pensara nunca nas diferenças deste mundo, nem nas gradações de posição. Parecia-lhe tão natural ser rico o Sr. Manoel Fernandes e ele trabalhar para o Sr. Manoel Fernandes e ser pobre, como deitar-se à noitinha e erguer-se de madrugada. Nunca considerara nessas diferenças, e ia trabalhando todos os dias com a enxada ou com o podão, como já seu pai trabalhara, e o pai de sua mulher, e como esperava que seus filhos trabalhassem, quando tivessem idade para isso.

Naquele dia, porém, a horas de almoço, ouvira uma conversa em que andara a matutar todo o dia, porque lhe fizera sensação deveras lá por dentro. Dois senhores da cidade tinham vindo visitar o Sr. Manoel Fernandes e ao dar uma volta pela fazenda demoraram-se, com a curiosidade de vadios a ver trabalhar os malteses, que andavam numa cova aos montes.

Admirados de ver, numa hora, trafego, que os cansaria todo um mês, começaram em voz alta a fazer comentários, e a lamentar a sorte daqueles homens, que supunham infelizes.

— Pobre gente, dizia um, tanto trabalho e por tão pouco dinheiro!

— Então, respondia-lhe o companheiro, se eles não trabalhassem como havíamos de comer, bem vês que nem todos podíamos ser iguais.

— É verdade mas eu morria se cavasse duas horas!

— Não admira, cada um para o que nasceu.

E mil cousas como estas que é fácil imaginar. O efeito que produziram, isto é que nem eles nem ninguém poderia imaginar. Não caíram no chão. Apanhou-as o ouvido de André a quem abriram um mundo novo. Pois havia homens, que não podiam cavar, ou que não queriam; e outros eternamente condenados àquele trabalho! Era coisa em que não pensara nunca, mas que lhe fervilhava agora lá por dentro, azoinando-o todo o dia. André Pimenta começava, como o anjo caído, a olhar para cima, e ao ver outros tão altos e a si tão baixo ourou-lhe a cabeça e ficou estonteado.

Era quase noite e não cuidava em recolher. As crianças, que andavam numa empreitada de fazer uns castelinhos de barro ao pé da porta, e que, mal lobrigaram o pai, tinham deitado a correr a abraçar se lhes com as pernas, sacudidos por ele haviam vindo de orelha murcha, com as lágrimas nos olhos e corridos de susto para o pé das suas arquiteturas sentar-se amuados sem compreenderem aqueles termos diferentes das festas do costume: e mais estranhos ainda continuavam sem se atreverem a falar com a vista pregada no pai, e com a presciência infantil a adivinhar-lhe desgraça. A mulher, essa entrava, saia, falava, dizia mil cousas, fazia mil perguntas e sem obter resposta alguma, não sabia a que santo se apegasse para lhe fazer o milagre de lhe chamar a ternura antiga, tremia de entrar a fundo naquele grande desgosto, por fim animou-se, e chegando-se a ele tocou-lhe no ombro e perguntou-lhe a medo:

— Não vens cear, homem, é já tão tarde?

— Não; foi a resposta seca e desabrida como badalada tangida rápida por mão inexperiente; e ficou-se.

— Que tens tu, homem, nunca te vi assim?

— Pois tu não sabes, que há homens que não precisam de andar agarrados a uma enxada todo o dia para ganhar o pão de seus filhos?

— Sei, homem, que se lhe há de fazer; são cousas do mundo!

— E nunca mo disseste?

— Para quê, André; valha-me a Senhora da Madre de Deus, nunca pensei que te dessem cuidado essas cousas!

— Que me não dessem cuidado! Mulher de... não sei que diga! Pois eu, um homem como os mais, que nunca fiz mal a ninguém, que me tenho feito em postas para os sustentar a vocês; eu, se amanhã me desse um estupor, ia para o hospital; por lá morria ao Deus dará, e vocês ficavam por aí a pedir esmola!

— Mas, que se lhe há de fazer, se nascemos pobres?

— É em que eu tenho andado todo o dia a matutar, porque hão de uns nascer pobres, e outros ricos; porque hei de eu não ter nada, e o Sr. Manoel Fernandes, há de ter mais de uma dúzia de quintas, cada qual maior, cada qual que bastava para vivermos todos descansados:

— Queres reformar o mundo? Tens inveja, André, e inveja do patrão, que nos faz tanto bem?

— Quem te fala em inveja! Se eu me lembrasse de que era invejoso dava um tiro nestes miolos. Eu não olho para as mãos do Sr. Manoel Fernandes, que merece... verdade, verdade, e que é um homem às direitas; mas eu não sou somenos e se tivesse uma daquelas quintas, ao menos; trabalhava, que não nasci para vadio: mas sem pensar no dia de amanhã, sem tremer com a ideia do que lhes pode acontecer.

— Por amor disso não te rales, homem; respondeu-lhe uma voz meio alegre, meio repreensiva ao pé dele.

Era o Sr. Manoel Fernandes, que saindo a dar uma volta parara perto do grupo, e entrara assim na conversa, pousando a mão direita sobre o ombro de André.

Este enfiou, Madalena entrou a tremer, e os pequenos, compreendendo que uma nova cena se ia passar, aproximaram se curiosos do lugar da ação.

Houve um momento de silêncio geral, enquanto os diversos atores se entre olhavam e reconheciam. Por fim André, com aquela gíria saloia, que participa da sagacidade dos selvagens, conhecendo que a defesa era difícil, tomou a ofensiva.

— Ora, vossa senhoria, assim a escutar o que diz cada um à sua mulher, Sr. Manoel Fernandes!

— Qual escutar, nem meio escutar, tornou este entre serio e risonho pois que percebera a manobra, não ouviste nunca, que, palavras leva-as o vento? Estavas para aí a parolar alto e bom som, e não querias que ouvisse? Só se viesse pela charneca adiante com as mãos nos ouvidos.

— Vossa senhoria tem razão, tornou Madalena interferindo, como o poder moderador no sistema constitucional, mas vossa senhoria bem disse que palavras leva-as o vento, e o meu pobre homem apoquentado da sua vida, não admira, que desabafe...

— Ninguém lhe diz o contrário, santinha, e daí bem fala o rifão: quem escuta...

— Mas o meu André não pôs boca em vossa senhoria para mal.

— E que pusesse! El-rei também tem costas, não lhe quisera eu mal por isso, e tanto que já lhe disse, por amor da Chibanta não há de ser a duvida.

— Vossa senhoria também!... observou André, como em recriminação, levou a mal, uma palavra dita sem maldade nenhuma.

— Como queres que te diga que não, homem? fazes-te André! Já te disse, que está na tua mão, ser tua a Chibanta.

— Ora!...

— Não há aqui ora, nem meia ora. Amanhã começas a tomar conta da fazenda, e de caminho descanso eu o meu bocado. Se te avires com ela, e se te mostrares tão pronto de braço como de língua, virá a ser tua.

— Vossa senhoria tem vagar de rir, mas um pobre homem como eu, é que nem sempre está de feição: basta-lhe a sua vida, disse André, que não acreditava em tanta generosidade.

— Queres acreditar-me ou não? Bem sabes que não tenho senão uma palavra.

— Vossa senhoria então!...

— O dito dito, e até amanhã.

O Sr. Manuel Fernandes voltou costas e seguiu no seu passeio: apenas desapareceu no atalho, Madalena e André olharam-se espavoridos e como receosos, e por algum tempo estiveram sem dar palavra; por fim Madalena voltou-se para o marido, para o acusar, segundo o costume das mulheres em semelhantes ocasiões.

— Para que havias de falar, André?

— Então nem queres ao menos, que desabafe. Anda um homem ralado de trabalho todo o dia, e nem ao menos há de ser senhor de dizer duas palavras em sua casa!

— E se ele te despede?

— Não faltará onde dê cabo do corpo?

— Ele parecia falar serio!

— Ainda acreditas! Bem me fio eu no que ele disse: esteve a divertir-se com a gente. Má raios...

— Cala-te André, atalhou rapidamente Madalena, cala-te, pode ainda estar por aí, e quem sabe, talvez o homem faça o que disse.

E em duvidas decorreu a noite. A pior, que desde que eram casados tinham passado. Ora a esperança lhes sorria, ora o receio os amedrontava; ora acreditavam, ora descriam. Pela primeira vez nem Madalena nem André provaram da ceia, e só as crianças, que não compreenderam nada, comeram como do costume, e adormeceram com o mesmo descanso.

De madrugada André, com cara de morte de homem, encaminhou se para a Chibanta. Vergavam-lhe as pernas pelo caminho; não ia contente consigo, nem com a sua consciência. Parecia outro.

O Sr. Manuel Fernandes esperava-o ao portão da quinta. Uns quês de ironia transpareciam no rosto alegre do fazendeiro.

— Melhor cara traga o dia da amanhã, homem, mofina te deu, que tão amargurado vens! Parece que não pregaste olho!

— Eu bem sei que vossa senhoria me vai despedir; mas não é porque eu faltasse à obrigação...

— Que tens tu homem, mordeu-te bicho?

— É que vossa senhoria...

— Bem sei o que vais dizer, mas o que ontem te disse, está dito, hoje começas a ser meu feitor e para o diante falaremos...

André duvidou ainda e só depois do fazendeiro o ter apresentado aos trabalhadores, como seu substituto é que começou a entrar em si, parecia-lhe tudo um sonho.

Em quanto lhe ia dando as instruções necessárias, e lhe explicava por miúdo o granjeio da fazenda, o Sr. Manuel Fernandes sorria-se vendo que André meneava a cabeça com ares de profundo entendedor, e respondia a tudo: já entendi, deixe estar, não tem duvida. O velho lavrador não acreditava naquela proficiência, e lá de si para si amolava o caso. Tanta confiança mostrava porém o novo caseiro, que, depois de acabada a vistoria, mandou o entrar para a casa principal da habitação, que acumulava as funções de casa de jantar, escritório e cozinha, e disse-lhe:

— Oxalá que me enganasse homem, queria-te dar uma lição e mostrar-te que nem tudo é o que parece, que para grande nau, grande tormenta e que cada qual sabe as linhas com que se cose. Se a inveja é feio pecado, não é culpa menor julgar as coisas pelas aparências. Comecei, como tu, pobre, enriqueci por felicidade, mas sempre honradamente; ainda assim, não poucas vezes me têm lembrado, com saudade, as noites, em que, ralado com o trabalho, mas sem cuidados, atirava com o corpo para cima da enxerga, sem deitar contas à vida porque a feria no fim da semana pagava tudo.

— Ó senhor Manoel Fernandes, mas a mulher e os filhos?

— Também se acomodavam como podiam. Olha: uma cava é para o milho, outra para a vinha; quanto mais se sobe, mais cansado se fica. Hoje tenho mais dinheiro do que então, lavro muitas jeiras de chão, deito um par de moios à terra, e não dou pouco que fazer ao lagar; mas, podes acreditar-me, tenho mais vezes falta de dinheiro, do que quando recebia um quartinho cada semana; e passo mais dias de amarguras, do que quando era um triste trabalhador.

E como André meneava a cabeça, com ares de quem não acreditava muito no que ele dizia, o Sr. Manuel Fernandes tornou-lhe triste:

— Daqui a tempos me dirás se tinha razão.

Não tardou que se não realizasse a profecia. André, quanto mais entrava naquela vida nova, mais espinhos lhe achava. Tinha que repartir a atenção para mil lados, tinha que cuidar em muitíssimas coisas diferentes ao mesmo tempo.

Não descansava, não dormia mesmo. Lembrava-se de noite, que podiam andar ladrões na fazenda, sentia ladrar os cães ou grasnar os patos, saltava da cama e corria para fora, de espingarda carregada. Parecia-lhe que se esquecera de dar ordens para o dia seguinte, que não determinara trabalho, e ei-lo, sem pregar olho, a espreitar a madrugada para ir acordar os trabalhadores e marcar-lhes a obrigação; era um suplicio.

Depois a cultura em ponto maior, os processos da lavoura, de debulha, de vindima, de sacha, de cava, de poda e de empa, a qualidade das sementes, o tempo da sementeira e a escolha dos terrenos, o traçar da horta, e a rega das plantas, o decote das árvores e a colheita dos frutos, o cuidado do gado e da criação, o fabrico dos instrumentos de lavoura, a guarda do pão, e o meio de o conservar, reclamavam conhecimentos que lhe faltavam. Quando lhe perguntavam alguma coisa, é que via na resposta as dificuldades, que à primeira vista não encontrara. Tinha sempre medo de mandar o contrário, e não poucas vezes lhe aconteceu, quando errava, ouvir os homens da quinta rirem-se dele, e lá, uns com os outros, fazerem observações bem desagradáveis. André, por natureza bondoso e crente, tornara-se irascível e desconfiado de todos.

Nos seus mais íntimos mesmo se fizera sentir a diferença de posição; Madalena e os pequenos tinham-se tornado exigentes, nada os contentava, tudo lhes parecia pouco, e André podia contar todos os dias com uma contenda, quase sempre neste teor:

— Dantes não me recusavas coisa nenhuma...

— Se não pode ser, mulher.

— Estás sovina, para que queres o dinheiro?

— Mas se o não tenho?

— Pois sim, a mim não me enganas tu, ainda ontem vendeste isto ou aquilo, é porque o gastas com outras.

E seria um nunca acabar referir todas as desavenças, todas as ralações do pobre homem. Nem em casa nem fora, lhe deixavam um momento de descanso. Andava como doido.

Entretanto o Sr. Manoel Fernandes tinha ido à província; demorara se por lá algum tempo e esperava-se de um momento para o outro.

André foi ter com ele ao caminho, apenas o avistou a alcance de voz, as suas primeiras palavras foram como o deitar ao chão um peso que o oprimisse, e com que não pudesse mais.

— Aceite a Chibanta, Sr. Manoel Fernandes, quero a minha enxada e o meu sono descansado; a minha feria e o meu sossego.

O fazendeiro sorriu-se.

— Pois já, homem?

— E é demais. O que lá vai lá vai, aprendi deveras, estes dois meses têm-me custado anos de vida.

— Pois não tens as mesmas ideias que tinhas há seis meses, já te não lembras do hospital?

— Tenho-me agora lembrado mais ainda, mas é do hospital dos doidos, e lá não tardaria eu se continuasse naquele inferno. Guarde-a que lhe não invejo o vagar.

O Sr. Manoel Fernandes viu o pobre André tão amofinado, que não quis abusar. No dia seguinte este começava no trabalho antigo e pela primeira vez, havia tanto tempo, dormia de um sono desde o deitar até ao amanhecer.

Madalena reagiu, e queixou-se ao principio, depois costumou-se outra vez: e se se lembrava com saudades dos seus antigos esplendores, não tinha muito tempo para ter pena, porque o trabalho da casa preocupava-lhe a atenção.

Os pequenos esses só tiveram desgosto com a mudança. Uma enxurrada havia-lhes desmanchado o seu castelinho de terra.

De novo reinou naquela casa o sossego antigo: a alegria, que parecia ter fugido espavorida das grandezas do rendeiro da Chibanta, tornou a sorrir no pobre albergue do modesto trabalhador.

O Sr. Manoel Fernandes entretanto foi ajudando André, que, com o andar dos tempos, conseguiu comprar um quintalejo que, se não era tão grande como a Chibanta, correspondia ao menos ao seu saber e não lhe dava grande cuidado.

Mas tinha-lhe aproveitado a lição, e quando lhe falavam nos haveres dos outros dizia sempre:

— Eu bem sei o que isso é; ninguém está contente com o que Deus lhe deu. Por isso diz o rifão: a galinha da minha vizinha...


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023. 

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