8/12/2023

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Tradução de 1879)

 

O Corvo, de Edgar Allan Poe
(Tradução de 1879)
 

Uma vez, à meia-noite lúgubre enquanto eu, fraco e cansado, meditava sobre muitos elevados  e curiosos volumes de ciência esquecida, enquanto eu cabeceava, quase a dormitar, ouvia-se de repente um leve ruído, como de alguém que docemente batia, que batia à porta do meu quarto. “É algum visitante, murmurei, que bate docemente à porta do meu quarto; é só isto e nada mais.”

Ah! lembro-me distintamente que era no regelado dezembro, e os tições sulcavam de fantasmas o chão nas vascas da agonia. Ansiava com ardor a manhã; em vão julgava tirar de meus livros fim para minha tristeza, a tristeza pela minha perdida Lenore, pela preciosa e radiante donzela que os anjos chamam Lenore, e aqui se não chamará jamais.

E o assedado, triste, vago frêmito das cortinas de púrpura enchia-me de terrores fantástico nunca dantes sentidos; de modo que para deter o pulsar do coração, ergui-me repetindo. “É algum visitante que pede para entrar à porta do meu quarto; é algum visitante retardado que pede para entrar á porta do meu quarto; — é isto e nada mais.”

Então minh'alma se sentiu mais forte, e, sem mais hesitar: “meu senhor, lhe disse, ou minha senhora, peço-vos em verdade perdão, mas o caso é que eu dormitava, o viestes bater tão docemente, tão ao de leve bater à porta do meu quarto, que eu nem certo estava de vos ter ouvido.” — Abri então a porta inteira; — trevas e nada mais.

Perscrutando profundamente essas trevas, longo tempo estive de pé, atônito, receoso, cheio de dúvida, sonhando sonhos que nenhum mortal até ali ousara sonhar; mas nem se quebrara o silêncio, nem deram sinal as trevas, e a única palavra proferida fora baixinho a palavra “Lenore”! Murmurejara-a eu, e os ecos repetiram: “Lenore!” — Isto apenas, nada mais.

Voltando, entrei para o meu quarto com a alma de todo abraseada, ouvi de novo bater um tanto mais forte que da primeira vez. “Certamente, disse, certamente há alguma coisa nos gelosias da minha janela. Vejamos pois o que é e exploremos este mistério, deixemos calmar o coração e exploremos este mistério; — é e vento e nada mais.”

Impelida então a janela, cruzou-a com esvoaçar estrepitoso um majestoso corvo dos veneráveis tempos da antiguidade, Não fez a menor reverência; não parou, não hesitou um instante, mas, com modos de lord ou de lady. empoleirou-se sobre a porta do meu quarto, empoleirou-se sobre um busto de Palas, mesmo por sobre a porta de meu quarto; empoleirou-se, instalou-se e nada mais.

Então como essa ave d'ébano induzisse minha imaginação contristada a sorrir pela compostura solene e austera. “Apesar de teu penacho, lhe disso, estar raso e tonsurado, tu de certo não és um poltrão, lúgubre, sombrio o antigo corvo vindo das plagas da Noite. Dize-me qual é teu nome senhoril lá nas plagas da Noite Plutoniana!” — O Corvo disse: “Jamais.”

Maravilhei-me de que desse desgracioso volátil ouvisse tão bem a palavra, conquanto sua resposta, de exígua significação, pouco auxílio me desse; porque não podemos deixar de convir que ainda a nenhum ser humano foi dado o ver sobre a porta do seu quarto uma ave, uma ave ou um animal, em cima de um busto esculturado sobre à porta de seu quarto, com o nome de “Jamais.”

Mas o Corvo, instalado solitariamente sobre o plácido busto, proferia apenas essa única palavra, como se nessa única palavra ele expandira a alma inteira. Nada mais disso, nem agitava uma pena, até que eu murmurei baixinho: “outros amigos já se foram e pela manhã também ele me deixará, como minhas antigas esperanças que se foram!” — Então  ave disse: “Jamais.”

Estremecendo ao ouvir quebrado o silêncio por uma resposta tão à propósito: “sem dúvida, disse, que o que ele pronuncia é todo o seu cabedal, todo o seu tesouro, recebido de algum mestre infeliz, que à inexorável desgraça perseguiu sempre, e perseguiu com ardor, até que seus cantos tivessem esse estribilho, até que os responsórios de sua esperança dessem no melancólico estribilho: “Jamais.”

Mas o Corvo como induzisse sempre minha imaginação contristada a sorrir, rojei imediatamente uma cadeira almofadada para defronte da ave e do busto e da porta; e então, enterrando-me no veludo, dei-me a ligar as ideias com as ideias, cogitando no que aquela agourenta ave da antiguidade, no que aquela sombria, desgraciosa, lúgubre, descarnada, e agourenta ave da antiguidade queria dizer ao crocitar: “Jamais.”

Então pareceu-me que o ar se condensava perfumado por invisível turíbulo, que sopesavam serafins, cujos passos ao de leve roçaram pelo quarto atapetado. “Desgraçado! exclamei, teu Deus prestou-te, mandou-te por estes anjos repouso, repouso e nepentes para a tua saudade de Lenore! Traga, oh! traga esse bom nepentes, e olvida esta já perdida Lenore” O Corvo disse: “Jamais!”

“Profeta! lhe tornei, ente de desgraça! ave ou demônio, mas sempre profeta! Que te mandasse o tentador ou te arremessasse a tormenta, desolado mas sempre intrépido, por esta terra deserta, enfeitiçada, para esta estância habitada pelo terror, dize-me com verdade, eu te peço, existe, existe porventura um bálsamo de Judeia. Dize-me! Dize-me! Eu te imploro!” O Corvo disse: “Jamais.”

“Profeta! lhe tornei. Ente de desgraça, ave ou demônio, mas sempre profeta! Pelo céu que se arqueia por sobre nós, pelo Deus que ambos nós adoramos, dize a esta alma opressa pela tristeza, se lá no Éden distante ela poderá apertar nos braços uma santa donzela a quem os anjos chamam — “Lenore”, — apertar nos braços uma preciosa o radiante donzela a quem os anjos chamam — “Lenore?” — O Corvo disse: “Jamais.”

“Que esta palavra seja o sinal de nossa separação, exclamei erguendo-me. Volta porém à tormenta, torna-te às plagas da Noite Plutoniana! Que me não fique nem uma pluma negra como testemunha da mentira que tua alma proferiu! Deixa-me a solidão inquebrantada! Deixa o busto de sobre à minha porta! Arranca teu bico de dentro da minh'alma, e arrasta tuas formas para longo da minha porta! O Corvo disse: — “Jamais!”

E o Corvo, imperturbável, continua instalado, instalado sobre o pálido busto de Palas, mesmo por sobre a porta de meu quarto; e seus olhos tinham toda a semelhança com os de um demônio a sonhar, e a luz que o banhou estirou-lhe a sombra pelo chão; e do âmago dessa sombra minh’alma evolar-se não logrará — jamais!...


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023.

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