12/29/2023

Bagunça (Crônica), por Graciliano Ramos


BAGUNÇA

A cidade amanheceu calma e tudo indicava que assim permaneceria muitos anos. As lojas abriram-se na hora certa, os meninos marcharam para a escola, os pais de família buscaram meios de aumentar a receita, as moças leram os programas do cinema e as notas sociais, os funcionários assinaram o ponto na repartição.

Um jornal afirmou que as coisas iam bem, outro arriscou timidamente que talvez elas pudessem melhorar um pouco. Nenhuma novidade. Os matutinos requentaram notícias, os vespertinos copiaram os matutinos.

Ao meio-dia chegou, num telegrama curto do presidente da República, a informação de que tudo se achava em ordem. Os boatos relativos a distúrbios no Sul não mereciam importância, e as classes armadas se mantinham vigilantes, em defesa da autoridade.

O governador enviou o telegrama à Imprensa Oficial, depois telefonou mandando suspender a publicação dele. Entrou no automóvel, deu uma volta lenta pelas ruas, observando os grupos. Evidentemente o público estava satisfeito: não valia a pena agitá-lo anunciando bagunças. Regressou ao palácio, folheou alguns papéis e telefonou à Imprensa Oficial ordenando a publicação do telegrama. Às duas horas reuniu os secretários, o comandante da polícia e amigos de confiança.

— O negócio está piorando.

— Onde?

— No Rio Grande do Sul, em Minas, na Paraíba. Creio que em Pernambuco já começou.

— Estamos fritos, murmurou alguém. Se Pernambuco for abaixo, tomam isto sem um tiro.

Mas o comandante da polícia exibia disposições belicosas: num instante organizou planos, guarneceu as fronteiras e dinamitou as pontes sem dificuldade.

À tardinha zoaram cochichos e a torcida manifestou-se. No dia seguinte houve alarma. Cidadãos pacíficos mostraram-se moderadamente revolucionários. Outros apoiaram o governo, resolutos. Sempre se haviam conservado longe dele, mas na hora do perigo estavam decididos e queriam sacrificar-se. Essa firmeza durou uma semana, com intercadências.

A sala de jantar do palácio abriu-se. E a noite inteira ali fervilhavam sujeitos do interior, que pisavam nas pontas dos pés, segredavam nos vãos das janelas, escutavam as opiniões dos políticos sentados em redor da mesa enorme. Nunca se tinha visto democracia tão perfeita. Os deputados estiravam o beiço com desânimo. Nenhum desejo de luta. Havia, porém, um otimismo renitente.

— Governo é governo.

Embora defendendo-se pouco, era natural que se aguentasse. A multidão crescia, aumentou demais quando apareceram os fugitivos do Recife. Chegou primeiro um delegado de polícia, magro, fúnebre, de fala doce, óculos pretos e modos de pastor protestante. Depois vieram muitos, narraram casos. E os voluntários perderam o ânimo. Continuaram a andar em torno da mesa, a reunir-se em magotes perto das janelas, mas retiravam-se logo, escorregando no soalho muito encerado. O comandante da polícia esqueceu os planos de resistência e entrou a falar em hospitais de sangue, aflito.

Uma noite alguns cavalheiros ponderosos tiveram uma longa entrevista com o governador. Ignoram-se os termos da conversa. Provavelmente se referiram a d. Pedro II e às desgraças que ameaçavam o Estado. Às onze horas S. Exa. embarcou.

E ao amanhecer toda a cidade se cobriu de bandeiras vermelhas. Declamaram-se discursos inflamados em meetings, um orador furioso aconselhou o povo a queimar jornais. Foi apupado, deixou a tribuna, veio outro, que recomendou prudência.

As repartições feriaram, os estabelecimentos comerciais fecharam-se, a guarda civil, hesitante, não sabia a quem obedecer.

Tinha-se evitado o barulho, graças a Deus. Espalhou-se nas ruas uma alegria sincera. Alguns ataques ao governo caído, ataques ligeiros: realmente estavam agradecidos a ele por se ter ido embora antes da briga.

No outro dia começaram a entrar nos quartéis as tropas rebeldes, pouco numerosas — e os cidadãos que se haviam apressado a chamá-las inquietaram-se. O palácio fora abandonado muito cedo. Se o presidente da República endurecesse e triunfasse, viriam complicações, desgostos.

Felizmente a invasão engrossou, em poucas horas todo o Estado era uma vasta caserna. Explicava-se que ele não se tivesse defendido. E para que defesa? Na verdade os frequentadores do café sorriam, certos de que sempre tinham vivido na oposição, e até pessoas que uma semana antes cochichavam na sala de jantar do palácio surgiram fardadas, com energia e galões.

Vários se acautelavam, pensando no Rio, e, bastante dignos para renegar de chofre convicções antigas, limitavam-se a introduzir no bolso um lencinho encarnado. Via-se dele uma ponta discreta, que, em conformidade com as notícias, mergulhava ou reaparecia. Depois da vitória foram esses os mais afoitos e intransigentes. Não mereceram demasiada atenção.

A maioria animava-se de verdade, oferecia moedas de prata para a liquidação da dívida externa, esperava que altos-fornos se construíssem de repente, corresse o petróleo e a população subisse a duzentos milhões. Esses desejos encurtaram-se, mas ainda ficaram extensos, e moços verbosos, falando muito na realidade brasileira, procuraram em países distantes receitas convenientes aos males nacionais. Os políticos maduros, educados na poesia e na retórica, arrepiavam-se ouvindo sujeitos imberbes que se agarravam à economia e à sociologia, citavam livros desconhecidos.

— Que materialismo!

 

Rio de Janeiro, novembro de 1941;


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2024.

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