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6/08/2019

Branca de Neve (Fábula), dos Irmãos Grimm



Branca de Neve

Um dia, a rainha de um reino bem distante bordava perto da janela do castelo, uma grande janela com batentes de ébano, uma madeira escuríssima. Era inverno e nevava muito forte. A certa altura, a rainha desviou o olhar para admirar os flocos de neve que dançavam no ar; mas com isso se distraiu e furou o dedo com a agulha.

Na neve que tinha caído no beirai da janela pingaram três gotinhas de sangue. O contraste foi tão lindo que a rainha murmurou:

— Pudesse eu ter uma menina branquinha como a neve, corada como sangue e com os cabelos negros como o ébano...

Alguns meses depois, o desejo da rainha foi atendido. Ela deu à luz uma menina de cabelos bem pretos, pele branca e face rosada. O nome dado à princesinha foi Branca de Neve.

Mas quando nasceu a menina, a rainha morreu. Passado um ano, o rei se casou novamente. Sua esposa era lindíssima, mas muito vaidosa, invejosa e cruel.

Um certo feiticeiro lhe dera um espelho mágico, ao qual todos os dias ela perguntava, com vaidade:

— Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.

E o espelho respondia:

— Em todo o mundo, minha querida rainha, não existe beleza maior.

O tempo passou. Branca de Neve cresceu, a cada ano mais linda... E um dia o espelho deu outra resposta à rainha.

— A sua enteada, Branca de Neve, é agora a mais bela. Invejosa e ciumenta, a rainha chamou um de seus guardas e lhe ordenou que levasse a enteada para a mata e lá a matasse. E que trouxesse o coração de Branca de Neve, como prova de que a missão fora cumprida.

O guarda obedeceu. Mas, quando chegou à mata, não teve coragem de enfiar a faca naquela lindíssima jovem inocente que, afinal, nunca fizera mal a ninguém. Deixou-a fugir. Para enganar a rainha, matou um veadinho, tirou o coração e entregou-o a ela, que quase explodiu de alegria e satisfação.

Enquanto isso, Branca de Neve fugia, penetrando cada vez mais na mata, ansiosa por se distanciar da madrasta e da morte.

Os animais chegavam bem perto, sem a atacar; os galhos das árvores se abriam para que ela passasse.

Ao anoitecer, quando já não se aguentava mais em pé de tanto cansaço, Branca de Neve viu numa clareira uma casa bem pequena e entrou para descansar um pouquinho.

Olhou em volta e ficou admirada: havia uma mesinha posta com minúsculos sete pratinhos, sete copinhos, sete colherezinhas e sete garfinhos. No cômodo superior estavam alinhadas sete caminhas, com cobertas muito brancas.

Branca de Neve estava com fome e sede. Experimentou, então uma colher da sopa de cada pratinho, tomou um gole do vinho de cada copinho e deitou-se em cada caminha, até encontrar a mais confortável. Nela se ajeitou e dormiu profundamente.

Os donos da casa voltaram tarde da noite; eram sete anões que trabalhavam numa mina de diamantes, dentro da montanha.

Logo que entraram, viram que faltava um pouco de sopa nos pratos, que os copos não estavam cheios de vinho... Estranho.

Lá em cima, nas camas, as cobertas estavam mexidas... E na última cama — surpresa maior! — estava adormecida uma linda donzela de cabelos pretos, pele branca como a neve e face vermelha como o sangue.

— Como é linda! — murmuraram em coro.

— E como deve estar cansada — disse um deles —, já que dorme assim.

Decidiram não incomodar; o anão dono da caminha onde dormia a donzela passaria a noite numa poltrona.

Na manhã seguinte, quando despertou, Branca de Neve se viu cercada pelos sete anões barbudinhos e se assustou. Mas eles logo a acalmaram, dizendo-lhe que era muito bem-vinda.

— Como se chama? — perguntaram.

— Branca de Neve.

— Mas como você chegou até aqui, tão longe, no coração da floresta?

Branca de Neve contou tudo. Falou da crueldade da madrasta, da sua ordem para matá-la, da piedade do caçador que a deixara fugir, desobedecendo à rainha, e de sua caminhada pela mata até encontrar aquela casinha.

— Fique aqui, se gostar... — propôs o anão mais velho.

— Você poderia cuidar da casa, enquanto nós estamos na mina, trabalhando.

Mas tome cuidado enquanto estiver sozinha. Cedo ou tarde, sua madrasta descobrirá onde você está, e se ela a encontrar... Não deixe que ninguém entre! E mais seguro.

Assim começou uma vida nova para Branca de Neve, uma vida de trabalho.

E a madrasta? Estava feliz, convencida de que beleza de mulher alguma superava a sua. Mas, um dia, teve por acaso a ideia de interrogar o espelho mágico:

— Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.

E o espelho respondeu com voz grave:

— Na mata, na casa dos mineiros, querida rainha, está Branca de Neve, mais bela que nunca!

A rainha entendeu que tinha sido enganada pelo guarda: Branca de Neve ainda vivia! Resolveu agir por si mesma, para que não houvesse no mundo inteiro mulher mais linda do que ela.

Pintou o rosto, colocou um lenço na cabeça e irreconhecível, disfarçada de velha mercadora, procurou pela mata a casinha dos anões. Quando achou, bateu à porta e Branca de Neve, ingenuamente, foi atender. A malvada ofereceu-lhe suas mercadorias, e a princesa apreciou um lindo cinto colorido.

— Deixe-me ajudá-la a experimentar o cinto. Você ficará com uma cintura fininha, fininha — disse a falsa vendedora, com uma risada irônica e estridente, apertando cada vez mais o cinto.

E apertou tanto, tanto, que Branca de Neve se sentiu sufocada e desmaiou, caindo como morta. A madrasta fugiu.

Pouco depois, chegaram os anões. Assustaram-se ao ver Branca de Neve estirada e imóvel. O anão mais jovem percebeu o cinto apertado demais e imediatamente o cortou. Branca de Neve voltou a respirar e a cor, aos poucos, começou a voltar a sua face; melhorou e pôde contar o ocorrido.

— Aquela velha vendedora ambulante era a rainha disfarçada — disseram logo os anões. — Você não deveria tê-la deixado entrar. Agora, seja mais prudente.

Enquanto isso, a perversa rainha, já no castelo, consultava o espelho mágico e se surpreendeu ao ouvi-lo dizer:

— No bosque, na casa dos anões, minha querida rainha, há Branca de Neve, mais bela que nunca.

Seu plano fracassara! Tentaria novamente.

No dia seguinte, Branca de Neve viu chegar uma camponesa de aspecto gentil, que lhe colocou na janela uma apetitosa maçã, sem dizer nada, apenas sorrindo um sorriso desdentado. A princesinha nem suspeitou de que se tratava da madrasta, numa segunda tentativa.

Branca de Neve, ingênua e gulosa, mordeu a maçã. Antes de engolir a primeira mordida, caiu imóvel.

Dessa vez, devia estar morta, pois o socorro dado pelos anões, quando regressaram da mina, nada resolveu. Não acharam cinto apertado, nem ferimento algum, apenas o corpo caído.

Branca de Neve parecia dormir; estava tão linda que os bons anõezinhos não quiseram enterrá-la.

— Vamos construir um caixão de cristal para a nossa Branca de Neve, assim poderemos admirá-la sempre.

O esquife de cristal foi construído e levado ao topo da montanha. Na tampa, em dourado, escreveram: "Branca de Neve, filha de rei".

Os anões guardavam o caixão dia e noite, e também os animaizinhos da mata - veadinhos, esquilos e lebres — todos choravam por Branca de Neve.

Lá no castelo, a malvada rainha interrogava o espelho mágico:

— Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.

A resposta era invariável.

— Em todo o mundo, não existe beleza maior. Branca de Neve parecia dormir no caixão de cristal; o rosto branco como a neve e de lábios vermelho como sangue, emoldurado pelos cabelos negros como ébano. Continuava tão linda como enquanto vivia.

Um dia, um jovem príncipe que caçava por ali passou no topo da montanha. Bastou ver o corpo de Branca de Neve para se apaixonar, apesar de a donzela estar morta. Pediu permissão aos anões para levar consigo o caixão de cristal.

Havia tanta paixão, tanta dor e tanto desespero na voz do príncipe, que os anões ficaram comovidos e consentiram.

— Está bem. Nós o ajudaremos a transportá-la para o vale. A donzela Branca de Neve será sua.

Com o caixão nas costas, puseram-se a caminho. Enquanto desciam por um caminho íngreme, um anão tropeçou numa pedra e quase caiu. Reequilibrou-se a tempo.

O abalo do caixão, porém, fez com que o pedaço da maçã envenenada, que Branca de Neve trazia ainda na boca, caísse. Assim a donzela se reanimou.

Abrindo os olhos e suspirando se sentou e, admirada, quis saber:

— O que aconteceu? Onde estou?

O príncipe e os anões, felizes, explicaram tudo.

O príncipe declarou-se a Branca de Neve e pediu-a em casamento. Branca de Neve aceitou, felicíssima. Foram para o palácio real, onde toda a corte os recebeu.

Foram distribuídos os convites para a cerimônia nupcial. Entre os convidados estava a rainha madrasta — mas ela mal sabia que a noiva era sua enteada.

Vestiu-se a megera suntuosamente, pôs muitas joias e, antes de sair, interrogou o espelho mágico:

— Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.

E o fiel espelho:

— No seu reino, a mais bela é você; mas a noiva Branca de Neve é a mais bela do mundo.

Louca de raiva, a rainha saiu apressada para a cerimônia. Lá chegando, ao ver Branca de Neve, sofreu um ataque: o coração explodiu e o corpo estourou, tamanha era sua ira. Mas os festejos não cessaram um só instante.

E os anões, convidados de honra, comeram, cantaram e dançaram três dias e três noites. Depois, retornaram para sua casinha e sua mina, no coração da mata.


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Fonte:
"Contos tradicionais, fábulas, lendas e mitos": Ministério da Educação - Fundescola - Projeto Nordeste - Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília, 2000 - Volume 2. (A imagem que acompanha o texto, não se inclui na referida obra).

9/30/2017

Branca de Neve (Conto), de Guerra Junqueiro


Branca de Neve

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia de inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano olhando de vez em quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no chão, distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.

— Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros como este ébano.

Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à luz uma filha, que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo tão branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher de uma grande beleza, e de um orgulho não menos extraordinário. Era tão formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante de um espelho mágico dizia-lhe:

— Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no mundo?

— És tu, respondia o espelho.

No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais formosa. Tinha apenas sete anos, e já ninguém a podia ver sem ficar maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu espelho, disse-lhe:

— Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no mundo?

— Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.

A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dor aguda, como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio mortal pela inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de noite. Para satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:

— Quero que Branca desapareça. Conduze-a à floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o coração.

O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criança chorava e lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela não tinha feito mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com aquelas lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se as feras a devorassem a culpa não era dele, mas sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração de Branca à rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou contentíssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo é tão bela como eu.

A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez também via animais ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

À noite chegou ao pé de uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha de brancura irrepreensível, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.

Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo que tinham gente em casa. Um deles disse:

— Quem comeu o meu pão?

E os outros sucessivamente:

— Quem pegou no meu garfo?

— Quem comeu o meu caldo?

— Quem bebeu o meu vinho?

E enfim um deles:

— Quem está aí deitado na minha cama?

Reuniram-se todos à roda do pequeno leito em que dormia Branca. À luz das lanternas viram o doce rosto da criança, que dormia tranquilamente, e afastaram-se sem fazer bulha, para a não acordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si aqueles sete anões das montanhas. Mas eles disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe de onde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste história, e os anões disseram-lhe:

— Queres tu ficar conosco, para tomar conta da nossa casa?

— Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.

Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, e disse-lhe:

— Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda que há no mundo?

E o espelho respondeu:

— Sim, nos teus palácios e nos teus castelos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.

Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã partiu disfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio de objetos de fantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu à porta da casinha, gritando: “Quem quer comprar bonitas joias?”

Os anões tinham recomendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, receando os emissários da rainha, e ela tinha prometido ser prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no cesto, esqueceu-se das suas promessas.

— Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou por ao pescoço.

Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios algumas gotas de um licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou a si pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

— Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, não deixes entrar aqui ninguém, quando não estivermos em casa.

Ao entrar no seu palácio toda contente, colocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:

— Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que há no mundo?  Responde.

E o espelho respondeu:

— És tu nos teus grandes palácios e nos teus castelos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.

A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou às sete montanhas, e bateu à porta da cabana.

— Quem quer comprar lindas joias? Branca veio à janela, e respondeu.

— Vá-se embora, aqui não entra ninguém.

— Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. Já viu outro tão bonito?

Branca não pode resistir ao desejo de possuir aquela joia. Abriu a porta.

— Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na cabeça.

Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.

À noite quando regressaram os anões, acharam-na pálida e fria. Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.

No entanto a cruel rainha voltava contentíssima para o seu palácio. Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu como antecedentemente.

— Ah! é preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.

Vestiu-se de camponesa com um cesto de maçãs. Entre elas havia uma que estava envenenada de um lado. Foi, e bateu à porta da cabana.


— Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?

— Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo entrar ninguém, nem compro coisa alguma.

— Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão bonita, quero dar-lhe uma.

— Obrigada, não posso aceitar.

— Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se tentar, levou à boca o outro pedaço, e caiu fulminada.

— Aí tens, para castigo da tua formosura.

Quando chegou ao palácio a rainha foi direita ao espelho, e perguntou-lhe:

— Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?

E o espelho respondeu:

— És tu, és tu.

— Até que enfim!

Os anões estavam inconsoláveis. Debalde tinham tentado reanimá-la com o licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os passarinhos da floresta choraram também. No entanto as boas avezinhas não podiam acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquilo, as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quiseram enterrá-la. Meteram-na num caixão de cristal, e escreveram em cima. “Aqui jaz a filha de um rei;” puseram o caixão numa das sete montanhas, e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.

Um dia um formoso rapaz, filho de um rei, tendo-se perdido ao andar à caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lho cedessem, fosse por preço que fosse.

— Somos muito ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixão, que é o nosso tesouro.

— Então deem-mo, já não posso viver sem contemplar este rosto de mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do meu palácio. Peco-lhes que me façam isto.

Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o caixão sofreu um balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O jovem príncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. O casamento fez-se com grande pompa. O príncipe convidou todos os reis e rainhas dos diferentes países, e entre elas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos os olhares, pôs-se diante do espelho, e disse a rainha:

— Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que há do mundo?

E o espelho respondeu:

— Branca é mais formosa que tu.

A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.

Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio de princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus benfeitores.