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2/26/2019

O eterno descontente (Conto), de Leon Tolstoi


O eterno descontente

Um homem descontente com a sua sorte  queixava-se de Deus.

— Deus — dizia ele — dá aos outros as riquezas e a mim não dá coisa alguma. Como é que eu hei de poder fazer o meu caminho nesta vida, sem possuir coisa nenhuma?

Um velho ouviu estas palavras e disse-lhe:

— Acaso és tu tão pobre como dizes? Deus não te deu, porventura, saúde e juventude?

— Não digo que não, e até me orgulho  bastante da minha força e do vigor dos meus anos.

O velho pegou então na mão direita do jovem e perguntou-lhe:

— Deixavas cortar essa mão por mil rublos?

— Nem por dez mil!

— E a esquerda?

— Também não!

— E por dez mil rublos, consentias em ficar cego por toda a vida?

— Nem um olho dava por tal dinheiro! Deus me livre!

— Vês — observou o velho — que riqueza Deus te deu e tu ainda te queixas!


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Revista de Ensino, 1927.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O cão morto (Conto), de Leon Tolstoi




O cão morto

Jesus chegou um dia a uma cidade e, ao atravessá-la, viu um grupo de pessoas que contemplava um cão morto que trazia ainda ao pescoço a corda com que fora enforcado.

O cão já estava podre e cheirava mal.

E todos que se achavam em torno daquele animal em decomposição, examinavam-no, fazendo comunitários.

— Como empesta o ar — dizia um, tapando o nariz.

— Por quanto tempo ainda — acrescentava outro — continuará este maldito cão a envenenar o ar que se respira nesta rua?

— Olhem a sua pele! — exclamava um terceiro — parece um coalho de leite estragado...

— E as suas orelhas? — observava outro — escorre uma aguadilha verde de pútridas espumas...

— Teria sido estrangulado porque se tornou hidrófobo ou ladrão? — indagava por fim uma outra pessoa.

Jesus, que se acercou daquele grupo e ouviu todos esses comentários, lançou então um olhar de compaixão sobre o imundo animal e disse:

— Oh! mas os seus dentes são cândidos e belos como a neve.

O povo, então, que não o conhecia, maravilhou-se de ouvir palavras ungidas de tanta doçura sobre aquela alimária podre e, em coro exclamou:

— Quem será este homem? Não deve ser outro senão Jesus de Nazaré. Só ele é capaz de tamanha piedade ante a carcaça de um cão morto.

E todos se retiraram, inclinando respeitosamente a cabeça diante do Filho de Maria.


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Illustração Pelotense, 16 de maio de 1923.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)