terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O cão morto (Conto), de Leon Tolstoi


O cão morto

Jesus chegou um dia a uma cidade e, ao atravessá-la, viu um grupo de pessoas que contemplava um cão morto que trazia ainda ao pescoço a corda com que fora enforcado.

O cão já estava podre e cheirava mal.

E todos que se achavam em torno daquele animal em decomposição, examinavam-no, fazendo comunitários.

— Como empesta o ar — dizia um, tapando o nariz.

— Por quanto tempo ainda — acrescentava outro — continuará este maldito cão a envenenar o ar que se respira nesta rua?

— Olhem a sua pele! — exclamava um terceiro — parece um coalho de leite estragado...

— E as suas orelhas? — observava outro — escorre uma aguadilha verde de pútridas espumas...

— Teria sido estrangulado porque se tornou hidrófobo ou ladrão? — indagava por fim uma outra pessoa.

Jesus, que se acercou daquele grupo e ouviu todos esses comunitários, lançou então um olhar de compaixão sobre o imundo animal e disse:

— Oh! mas os seus dentes são cândidos e belos como a neve.

O povo, então, que não o conhecia, maravilhou-se de ouvir palavras ungidas de tanta doçura sobre aquela alimária podre e, em coro exclamou:

— Quem será este homem? Não deve ser outro senão Jesus de Nazaré. Só ele é capaz de tamanha piedade ante a carcaça de um cão morto.

E todos se retiraram, inclinando respeitosamente a cabeça diante do Filho de Maria.


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Illustração Pelotense, 16 de maio de 1923.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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