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9/19/2017

O Preste João das Índias(Conto), de Antônio de Trueba


O Preste João das Índias

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I
Não basta que os contos populares deleitem: é mister que, ao mesmo tempo que deleitam, ensinem.
Este que vou contar não sei se satisfará à primeira condição; a segunda porém, há de por certo preenchê-la, por isso que o leitor, que o levar a cabo, ficará sabendo quem era o Preste João das Índias, do qual todos falam, e pouquíssimos são os que o conhecem, a não ser de nome.
Pois, senhores, havia nas Índias um rei mui poderoso, cujo único sucessor direto era uma filha de três ou quatro anos. Como o monarca se sentisse muito mal, chamou todos os grandes do reino, e falou-lhes do seguinte modo:
 — Ando tão adoentado, há tempos a esta parte, que milagre será não esticar a canela antes de oito dias, e confesso que essa partida tão repentina para o outro mundo, me penaliza em extremo, por quanto desejava deixar casada a minha augusta filha; e no entanto Sua Alteza não passa por ora de um comecilho. Asseguro-vos que pouco me importa morrer, porque para morrer todos nós nascemos, e demais, tanto faz morrer hoje como amanhã; porém o que eu não queria era que a pequena se casasse para aí qualquer dia, em virtude de altas razões de estado, com um Príncipe, que não fosse muito do seu agrado.
 — Senhor, lhe tornou um dos homens políticos mais importantes do reino, faz Vossa Majestade muito mal em estar a afligir-se com essas coisas. Quando a Princesa chegar à idade de tomar estado, há de casar-se com o Príncipe, que for mais do seu gosto; e se houver no reino quem se atreva a querer opor-se à libérrima escolha de Sua Alteza, esteja Vossa Majestade certo de que tem que se haver conosco.
 — Ora, ora! Então cuidas tu que eu engulo essas patranhas? replicou o rei, traduzindo a sua incredulidade numa estrepitosa gargalhada. Nem que eu não soubesse o que são os partidos políticos! Aquele que então estiver no poder apresentará a minha filha o seu candidato, e a pobre pequena terá de se aguentar, não com o marido que mais for do seu gosto, mas sim com aquele que mais convier aos seus ministros, os quais, só por satisfazerem mesquinhos interesses de partido, serão capazes de a obrigar a casar ainda que seja com o mouro Musa.
 — Mas, senhor, Vossa Majestade deve lembrar-se de que este país é um país essencialmente monárquico...
 — Isso é bom de dizer! Não estamos nós vendo, todos os dias, homens políticos, que nos concedem, a nós os reis, até o direito divino, e que, se um belo dia lhe não agradamos, nos chegam, inclusivamente, a negar o direito de pessoas decentes!
 — De acordo, mas é que esses são uns vilões que nunca deveram ter parte na luta dos partidos.
 — Mas o grande caso é que a têm no gozo dos direitos constitucionais.
 — Em suma, ordene Vossa Majestade o que lhe aprouver, e eu lhe assevero, que pode marchar tranquilo para o outro mundo, e sem o menor receio de que deixemos de cumprir rigorosamente as suas ordens.
 — Pois bem, nesse caso escutai-me: quando minha augusta filha estiver em idade do tomar estado (e isso é coisa, que facilmente se conhece), deveis dar-lho a saber, tendo em vista todo aquele recato com que se deve falar dessas coisas a uma donzela; em seguida fareis apregoar por todas as nações do mundo, que a vossa rainha e senhora resolveu casar-se, e dará a sua mão ao Príncipe, que mais for do seu agrado.
 — Até aí estamos bem; mas Vossa Majestade sabe que o mundo se divide principalmente em três religiões, a saber: a religião cristã, a maometana e a judaica. Devo portanto supor que Vossa Majestade terá já formado o seu juízo, acerca da religião a que deve de pertencer o seu augusto genro.
— Homem, francamente, ainda nem tal coisa me passou pela cabeça.
 — Ah! pois isso é coisa muito séria!
 — Vai-te daí com esses teus escrúpulos de freira! Vós todos sabeis que no meu reino não há religião alguma. A falar a verdade, já por vezes tenho pensado sobre se conviria ou não que a houvesse, porque há muito quem diga, que não pode haver sociedade sem o freio da religião; porém, no fim de contas, tenho acabado sempre por dizer cá para os meus botões: “deixar correr; quem me manda a mim meter a redentor? Que religião pode haver num país tão desmoralizado como este, onde todos os dias se manda gente à forca?! Vá uma pessoa introduzir aqui, por exemplo, a religião cristã, segundo a qual todos os homens são iguais: haviam de marchar bem as coisas, desde o momento em que os escravos, que tiram os coches, soubessem que valem tanto como os senhores, que vão dentro deles, mui repimpados!”
 — Visto isso, entende Vossa Majestade que a melhor religião... é não ter religião nenhuma, não é verdade?
— Não digo isso, homem; nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O que eu te digo é que não tenho querido quebrar demasiado a cabeça, pensando em coisas tão delicadas. Que escolha, minha augusta filha, marido do seu gosto, e ainda mesmo que seja perro judeu...
Assim terminou a conferência do rei com os próceres da república, e avisado andou Sua Majestade em não a deixar para o dia seguinte, porque naquela mesma noite teve um ataque tão forte, que esticou a canela, sem ter tempo sequer para dizer “Jesus”.
Como era natural, apenas o rei morreu, levantou-se a questão da escolha de uma regência, que devia tomar as rédeas do governo, durante a menoridade de sua excelsa filha, e então é que foram elas!
Sobre se a regência devia ser de três, ou de um único estadista, e se este deveria ser Pedro ou Paulo, levantou-se tamanha tempestade, que ia tudo pelos ares. Por último optaram pela regência una, e por então terminou a contenda; porém os partidos políticos, para os quais ver os seus contrários no poleiro e ver o diabo é tudo uma e a mesma coisa, começaram novamente a tecer os pauzinhos. Era o regente um soldado destemido e honrado de uma vez; porém como homem de estado não passava de um simplório, que entendia tanto de governo como eu entendo de lagares de azeite; os seus inimigos, aproveitando-se da inépcia com que ele dirigia a política, não descansaram enquanto lhe não deram um pontapé, e o expulsaram do palácio.
Nomeou-se novo regente. Este então era um pássaro que cantava na mão, porém ao mesmo tempo, tão medroso, que apenas ouvia um tiro, era capaz de se meter cem braças pela terra abaixo; daí resultava que cada dia havia um pronunciamento.
Por efeito de um desses pronunciamentos, caiu o regente, e organizou-se então uma regência composta de três magnatas.
Até ali era um só a criar nichos para empregar os seus amigalhotes, um só a querer enriquecer à custa da nação, um só a monopolizar os favores da jovem Princesa, e um só a governar mal; multipliquem agora esse um por três, e imaginem a poeira, que se levantou com a tal regência trina!
Conheceu finalmente a Princesa que estava em idade de casar-se, e correu voz, por todas as nações, de que ela punha a sua mão a concurso e a daria ao Príncipe, que mais lhe agradasse.
Os primeiros, que acudiram ao reclame, foram os judeus, os quais trajavam rica e vistosamente, e tinham o cuidado de fazer tinir bem o dinheiro diante da Princesa, supondo talvez, que o vil metal teria para ela tantos atrativos como para eles; e, enquanto os que iam à mostra faziam sua corte à Princesa, andavam os rabinos pelos cerros pedindo a Deus, que desse a algum dos da sua casta aquela boa pequena, que tão belo partido era.
Chegaram em seguida os maometanos, e era muito para se ver, tantos mouros montados em cavalos, mais ligeiros que o vento, escaramuçando e jogando canas, a ver se, assim, engodavam a Princesa.
Afinal apareceram os cristãos, que, com suas justas e torneios, e o seu porte cheio de garbo e gentileza, sabiam encantar o coração das donzelas.
 — Então, em qual das três religiões escolhe Vossa Majestade marido? perguntou o presidente do conselho de ministros à rainha.
 — Homem, nem sei o que te diga, respondeu a rainha. Bem se diz que quem tem que escolher tem que fazer. Se queres que te fale verdade, gosto de todos.
 — Vamos, mas Vossa Majestade precisa decidir-se por um.
 — Asseguro-te que sinto realmente deveras não poder decidir-me, sequer ao menos, por três. Olha, que entre os cristãos há alguns rapazes bem guapos!... mas entre os judeus e os mouros... não te digo nada!...
 — Em suma, disse o presidente do conselho, isto não é sangria desatada; deixe-os Vossa Majestade penar, uns e outros, por espaço de alguns meses, e depois, então, poderá Vossa Majestade escolher, com perfeito conhecimento de causa; isto de escolha de marido é, para as raparigas, operação muito delicada...
O presidente do conselho teve a honra de que Sua Majestade seguisse o seu parecer, e cristãos, maometanos e judeus, continuarem a fazer as suas zumbaias à real moça, cuja mão ambicionavam.
Chegou notícia a Roma do que se passava nas Índias, e o Padre Santo ordenou que se fizessem preces, para que Deus inspirasse a rainha a fim de que casasse com um cristão, coisa que redundaria em glória e aumento da cristandade.
Havia naquele tempo em Roma um Preste ou sacerdote, ainda moço, conhecido pelo nome de Preste João, o qual era a admiração de toda a gente, em razão do seu saber e virtudes, zelo religioso e galhardia.
O Preste João apresentou-se ao Padre Santo, e disse-lhe:
 — Santíssimo Padre, o que se está passando nas Índias é, quanto a mim, coisa mais seria, do que parece, à primeira vista. Aquilo é um país desgraçado, onde ninguém crê em Deus, nem em Santa Maria; onde todos são ímpios e ateus. Se a rainha se casa com algum perro judio, estamos bem aviados; vai tudo para o diabo. Se porém a rainha der a mão de esposa a um cristão, corto a cabeça, se todos os índios, dentro em poucos anos, não forem tão cristãos como nós. Posto isto, vou pedir uma graça a Vossa Santidade.
 — Se for coisa que eu possa conceder-te...
 — Que vossa senhoria me deixe ir às Índias, para ver se faço entrar aquela gente no bom caminho.
 — Estás servido, filho; podes partir quando quiseres.
 — Pois, nesse caso, vou imediatamente tirar passaporte.
 — Toma cuidado, filho; vê lá que esses infiéis te não preguem alguma peça... particularmente os judeus...
 — Isso não me mete medo, que por muito que saibam, sempre hei de saber mais do que eles.
 — Pois vai na graça de Deus, e leva contigo a minha bênção paternal.
— Graças, Santíssimo Padre!
Foi dito e feito; o Preste João, acompanhado de um luzidíssimo séquito de sacerdotes, em cujo número se contavam os melhores cantores de Roma, e munido de riquíssimos paramentos e decorações de igreja, inclusive um órgão, que era o melhor que, até então, se tinha visto naquele gênero, tomou o caminho das Índias.
Felizmente os ingleses não eram, naquela época, tão filantrópicos, como o são agora, do contrário não teriam deixado de lhe armar alguma ratoeira, na ideia em que estão, de que, para civilizar os cipaios, são mais eloquentes os seus canhões, carregados de metralha, do que os hissopes dos missionários católicos, ensopados em água benta.
Os judeus e os mouros souberam que o Preste João se dirigia para as Índias, e estavam atrapalhados da sua vida, porque havia muito tempo que a fama trombeteira lhes tinha levado notícia do saber, da virtude, do zelo religioso, e da extremada galhardia do Preste João.
Chegou este, afinal, com o seu séquito, e a rainha ficou enamorada da graciosa dignidade, com que ele a saudou, a ponto de não poder ter mão em si, que não dissesse, baixinho, ao presidente do conselho:
 — Olha que este cristão não é nenhuma asneira!...
Vendo o Preste João a rainha mui bem disposta em seu favor, aproximou-se de Sua Majestade, e disse-lhe:
 — Senhora, vejo que Vossa Majestade vacila sobre se há de casar-se com um cristão, com um mouro, ou com um judeu. Creia Vossa Majestade que a religião de Cristo é a única verdadeira, grande e salvadora, e que as outras são umas religiõesitas de três ao vintém, que nem com cem varas chegariam ao céu, de onde procede, e onde apoia sua augusta fronte o cristianismo. E se Vossa Majestade se quer certificar de que isto que lhe digo é a pura verdade, não tem mais que ordenar, que nos reunamos, na sua presença, judeus, maometanos, e cristãos, a fim de discutirmos qual das três religiões é a melhor, e, sobretudo, qual é aquela, que mais favorece as mulheres, pois essa é a grande questão, nas circunstâncias atuais.
 — Com muito gosto; não tenho a menor dúvida em aceder aos teus desejos, respondeu a rainha. Amanhã apresentar-vos-eis todos diante de mim, e veremos, então, quem é que leva a melhor.
Com efeito, no dia seguinte, estava a rainha sentada no seu trono, e as três religiões, representadas pelo Preste João, e pelos judeus e maometanos mais sábios, dispostos a discutir na sua presença.
 — Está aberta a sessão, disse a rainha. E como era o Preste João quem tinha provocado aquele certame, devia considerar-se como o primeiro, e por esse motivo que pedira a palavra, a rainha acrescentou: “Tem a palavra o Preste João.”
Os judeus e os mouros começaram logo a murmurar, acusando de parcial a augusta presidente; esta porém fê-los entrar na ordem, a poder de muitas razões, e toques de campainha.
 — Senhores, disse o Preste João, trata-se de orientar a Sua Majestade acerca de um assunto mui grave, qual é a escolha do homem a quem, de preferência, deve ligar o seu futuro. Ora, o que mais interessa a Sua Majestade, é saber o que mais lhe convém, se um marido cristão, se maometano, ou judeu; quanto a mim a questão está resolvida, para Sua Majestade, desde o momento em que esta augusta senhora, ou para melhor dizer, senhorita, souber qual é das três religiões aquela, que mais protege e favorece os fracos em geral, e a mulher, em particular.
Comecemos pela religião judaica.
A mulher, no povo de Israel, era escrava submissa do homem, e não sua companheira. Quase nas primeiras páginas, nos testemunha isso o velho Testamento, pois nos diz que Abrahão, marido de Sara, recebeu Agar por mulher, ainda em vida da primeira, e logo adiante nos conta que Esaú casou, ao mesmo tempo, com duas irmãs cananeias. O Decálogo, revelado mais tarde a Moisés, no alto do Sinai, dizia: “não desejarás a mulher do teu próximo”; mas não dizia: “terás uma única mulher”, e Salomão, que era o protótipo da sabedoria hebraica, teve milhares de concubinas. Pergunto eu agora a Sua Majestade se está disposta a sofrer que o seu futuro marido lhe dê uma, ou mais substitutas?!
 — Substitutas! a mim!... exclamou a rainha indignada. Tenho bom gênio para isso! Mais fácil seria enterrarem-me viva!
 — Pois eu continuo...
Aqui interrompem os judeus o orador, descontentes do caminho que leva a sua causa; a rainha porém fá-los entrar na ordem, à custa de repetidos toques de campainha, e com ameaça de os fazer expulsar do salão.
O orador continua:
 — Ficarei por aqui a respeito de judeus, os quais, em verdade, me causam dó, ainda que não seja senão por os ver condenados a esperar o Messias, até à consumação dos séculos; com isso já não estão mal castigados por haverem crucificado a Cristo, porque lá diz o rifão: “quem espera, desespera”. Passemos agora aos maometanos. Quem era o tal Mafoma?
 — O profeta de Deus! exclamam os maometanos, pondo a mão no peito, e dobrando-se reverentemente.
 — Qual profeta, nem qual cabaça!...
Aqui é que foram elas! Dizer isto o Preste João, e arrancarem os mouraços dos chanfalhos, rugindo de cólera, foi tudo obra de um momento; a rainha porém sacudiu a campainha, mandou entrar o piquete da guarda, e graças a esta energia da presidência, acomodaram-se os perturbadores da ordem, e o orador pôde, afinal, continuar:
 — Mafoma era um sujeito que passava por sábio e grande, entre os seus compatriotas, pela razão muito simples de que na terra dos cegos, quem tem um olho é rei! Um dia, disse ele com os seus botões: Como hei de eu arranjar a dominar estes barbaças, que não tratam senão de se divertir com as moças?... como?... esperem lá... já sei. Engendro-lhes uma religião baseada no grosseiro sensualismo, e meto-lhes na cabeça, que ela me foi revelada por um anjo.” E dito e feito: arranjou o tal alcorão, segundo o qual, a mulher e o cavalo vem a ser, para o homem, uma e a mesma coisa, por isso que apenas servem para o divertir; e fez acreditar aos asnos dos seus compatriotas, que, no outro mundo, haviam de encontrar moças às dúzias, e obra desenganada.
 — E é que as havemos de encontrar! gritam furiosos os maometanos.
 — Deixemos-nos de lerias!... que hão de vocês encontrar?! Só se forem alguns tições, que outra coisa não podem lá achar uns bárbaros como vocês, que atravessam séculos e séculos, sem dar um passo na senda do progresso! Vamos porém agora a ver o que é a mulher, segundo a religião estúpida de Mafoma.
 — Lancem-se essas palavras na ata! gritam, afogados em cólera, os maometanos.
 — Não é da minha real vontade! responde a rainha. Prossiga o orador no seu discurso, que eu cá estou para lhe manter o uso da palavra.
 — Pois bem, eu continuo: É para cortar o coração, e fazer cair a alma aos pés, a maneira como a mulher é tratada pelos muçulmanos. Não se contentam estes senhores com ter duas ou três mulheres; possuem centos delas, encerradas em cárceres, a que dão o nome de serralhos, ou haréns. Atravessa a gente as cidades mais populosas da Turquia, e não encontra uma mulher sequer para um remédio; e isto porque esses bárbaros até as privam do ar e do sol, as duas coisas mais preciosas, que a natureza concede à criatura. Horror! cem vezes horror!! Negarem à mulher, esse formoso ser, todo amor e ternura, a quem todos nós temos dado o dulcíssimo nome de mãe, o ar e o sol, que não negam aos mais imundos irracionais! Maldição sobre essa lei ímpia, sobre o falso profeta, que a ditou, e sobre o povo bárbaro e fanático, que a segue!
 — Ah! perro cristão!... gritam, a um tempo, todos os muçulmanos, ao ouvir a enérgica apostrofe do Preste João; e, rugindo de raiva, mais furiosos ainda do que da primeira vez, lançam mão dos alfanjes, com ameaça de acabar tragicamente com a discussão; a rainha porém, mandou entrar novamente o piquete da guarda, que os desarmou e os meteu na ordem, a poder de muita coronhada de armas.
Apaziguada que foi aquela rusga, continuou o Preste João o seu discurso:
 — Que diferença entre o que a mulher deve à religião cristã, e o que deve a qualquer das duas religiões, maometana e hebraica! Maria, em cujas entranhas encarnou o Verbo Divino, senta-se, no céu, ao lado do Filho de Deus, e juntamente com Jesus, lhe dão os homens o dulcíssimo e santo nome de mãe. A religião cristã glorifica a mulher, destinando-a a esmagar a cabeça da serpente do pecado, e Jesus proclama a igualdade de todas as criaturas humanas, e diz aos meninos que se acerquem dele, igualando, por tal forma, a mulher ao homem, e exaltando os fracos em cujo número se conta a mulher. É pois a religião cristã a única que favorece a mulher; é aquela que a emancipa da escravidão e do opróbrio, a que a condenam as religiões judaica e maometana. Tenho dito; veremos agora se há aí alguém, que seja capaz de me contradizer.
 — Tem a palavra os judeus, disse a augusta presidente.
 — A religião de Moisés, replicou um rabino, já completamente desanimado, não carece de entrar em discussões, para provar a sua superioridade sobre todas as outras.
 — Ficamos inteirados! disse a rainha, e acrescentou: Tem a palavra os doutores muçulmanos.
 — Nós , os verdadeiros crentes, exclamou um turco, não discutimos senão de alfanje em punho.
 — Quer isso dizer, à bruta! exclamou a rainha indignada; e erguendo-se da cadeira, acrescentou: estando já a hora mui adiantada, e não havendo mais assuntos a tratar, está levantada a sessão.
Ficou a rainha quase resolvida a casar com um cristão; porém, receosa de que houvessem murmurações e comentários que lhe fossem desagradáveis, lembrando-se de que alguém poderia dizer que ela obrara levianamente, determinou-se a tentar uma outra prova. Consistia essa prova em fazer com que os apóstolos das três religiões celebrassem, na sua presença, uma das cerimônias mais importantes dos ritos que professavam.
Cristãos, muçulmanos e judeus, todos, com muito gosto, aceitaram a proposta de Sua Majestade, que logo fixou o dia para as cerimônias, que deviam verificar-se no mesmo salão, onde se tinha discutido qual era das três religiões aquela a que mais devia a mulher.
Os primeiros que saíram a terreiro foram os maometanos, os quais anunciaram que iam executar a Zala.
Tinha a rainha grande curiosidade de presenciar esta cerimônia, que julgava ser magnífica, e que muito a divertiria; quando porém viu que a tal Zala consistia tão somente em cruzarem aqueles ratões as mãos no peito, e fazerem reverências e mais reverências, ficou mais fria que o próprio gelo.
 — Muito engraçados são os tais moirinhos! disse Sua Majestade, com riso desfrutador; e ordenou, em seguida, que saíssem a campo os judeus, a ver que tal se portavam.
O grande rabino, com o seu barrete enterrado até às orelhas, como usam os seus correligionários, sacou de um livro, e imediatamente apareceram todos os judeus com os seus ripanços nas mãos. Ora, os tais livros seriam muito edificantes, mas tinham tanta côdea, que só com uma tenaz se lhes poderia pegar. O rabino principiou a entoar um salmo, e todos os judeus o acompanharam; cantavam porém tão desentoadamente, e davam tão insofríveis berros, que a pobre da rainha não teve outro remédio senão tapar os ouvidos, e mandar a toda a pressa que cessasse tamanha algaravia.
Cessou com efeito, e os cristãos dispuseram-se, por último, a celebrar o santo sacrifício da missa, para o que o Preste João tinha tudo perfeitamente ordenado.
Colocaram no salão um magnífico altar, acenderam uma grande quantidade de tochas, que faziam belíssima vista; puseram o órgão num sítio, que tinha excelentes condições acústicas, tossiram e aguçaram o pigarro os cantores que haviam de oficiar a missa, e que, como em princípio dissemos, eram os melhores de Roma; e, em seguida, subiu o Preste João ao altar, magnificamente revestido, bem como os dois acólitos, que o acompanhavam. A missa foi soleníssima, e tanto os celebrantes, como os cantores e o organista fizeram prodígios, que deixaram de boca aberta a rainha e a sua corte.
Os maometanos e os judeus olharam uns para os outros, e disseram por entre os dentes:
 — Derrotaram-nos em tudo e por tudo estes perros cristãos!
E na verdade não se enganaram, porque a rainha chamou, pouco depois, o Preste João, e disse-lhe:
 — Decididamente caso com um cristão.
 — Louvado seja o Senhor! exclamou o Preste João, cheio de santa alegria. Agora só falta que Vossa Majestade escolha o cristão, que deve ter a ventura de ocupar o tálamo de tão formosa Princesa.
 — Já está escolhido, disse a rainha das Índias, fazendo-se corada como uma romã.
 — E quem é esse feliz mortal?
 — Tu.
— Eu!... Vossa Majestade não está em seu juízo!
 — Então! faz-te agora de manto de seda!...
 — Não, senhora; porém não sabe Vossa Majestade que eu sou padre, e que os padres católicos não podem casar?...
 — Que me dizes, homem?
 — Digo-lhe isto, real senhora!
 — Pois, amigo; partiste-me o coração!
 — Então, por quê?
 — Porque estou apaixonada por ti, e se não casar contigo, não caso com ninguém.
 — Mas, senhora, entre os meus correligionários há moços mais bem parecidos do que eu.
 — Asseguro-te que nenhum me pode agradar tanto como tu.
 — Sinto isso bem; mas eu é que não posso casar.
 — Visto isso, não terei outro remédio, senão dar a mão de esposa a algum desses mouros... que... diga-se a verdade, entre eles há rapazes bem tirados das canelas, e o que me não agrada neles é apenas a religião, que professam...
Quando o Preste João ouviu estas palavras, tremeu dos pés à cabeça, pensando, e com razão, que, pelo fato de a rainha casar com um maometano, todas as Índias, povoadas de milhões e milhões de habitantes, abraçariam a seita detestável de Mafoma, ao passo que, se casasse com um cristão, toda aquela gente seguiria a religião de Cristo.
 — Senhora, disse ele, por fim, à rainha, pode ser que consigamos harmonizar tudo. O Papa, que é o Vigário de Cristo na terra, é o único que pode autorizar-me a casar com Vossa Majestade Vou já escrever-lhe, pelo correio de hoje, pedindo-lhe a competente licença.
 — Oh! que feliz ideia! exclamou a rainha; e riam-se-lhe os olhos, de contente. Bem digo eu que és um rapaz de muitos recursos!
O Preste João pôs logo mãos à obra; escreveu ao Papa, contando-lhe, muito pelo miúdo, o que se passava, e, na volta do correio, recebeu de Sua Santidade a dispensa para casar com a rainha das Índias.
Celebraram-se, pouco tempo depois, as vodas, com grandes festas e muito regozijo (bem entendido, depois da rainha se ter feito cristã) e, passados anos, recebiam o batismo todos esses milhões de milhões de índios, que os ingleses, nos nossos dias, se fartaram de metralhar, sem dó, nem piedade.
Eis aí a história do Preste João das Índias. Outros a contarão com mais graça do que eu, porém com melhor intenção por certo que ninguém a conta.

A portaria do céu (Conto), de Antônio de Trueba


A portaria do céu
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)


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I
O tio Paciência era um pobre sapateiro remendão, o qual ganhava honradamente o pão de cada dia, mete que mete a sovela e puxa que puxa o fio, em um portal de Madrid, e devia o apelido por que era conhecido à resignação com que sempre tinha sofrido os muitos trabalhos, que o Senhor lhe havia dado.
Ao tempo da constituição de 1820, era já rapaz dos seus quinze ou dezesseis anos, mas tinha a inocência de uma criança de oito, e como ouvisse a cada passo dizer que todos os homens eram iguais, perguntou ao mestre se aquilo seria verdade.
— Não acredites nessas coisas, lhe respondeu o mestre. Só no céu é que os homens são iguais.
Sentiu o rapaz que não acontecesse outro tanto na terra, mas consolou-se com a ideia de que o eram no céu, e quando algum freguês da loja convidava o mestre para beber uma pinga na taberna próxima, dizia com os seus botões o pobre aprendiz:
 — Pena é que não sejamos todos iguais na terra, como sucede no céu, porque se assim fosse, por certo que o freguês me não diferençaria do mestre, e, como ele, iria eu também agora à taberna beber a minha pinga; mas, acabou-se... paciência... no céu seremos todos iguais.
Passados dois anos, coube-lhe a sorte do recrutamento; então mais do que nunca teve ele motivo para lamentar que os homens não fossem iguais na terra como no céu, por isso que na sua companhia havia soldados distintos, e cabos, sargentos e oficiais, que provavam ser verdade aquilo que o mestre lhe tinha dito acerca da igualdade humana; porém consolava-se ainda o pobre rapaz, pensando que no céu se acabariam as distinções, e todos seriam iguais.
Deixou de servir o rei, e aproveitando-se do pouco que sabia do ofício de sapateiro, estabeleceu-se num portal, e ali passou o resto dos seus dias, conformando-se com as privações que sofria, na esperança de ir para o céu e gozar então dessa igualdade, que não encontrara na terra.
No andar nobre da casa, cujo portal ocupava, vivia um marquês, que por certo muito o houvera magoado com o espetáculo da sua opulência, se não fora um excelente homem, e a não ser tamanha a sua paciência, e sobre tudo tão arraigada no seu coração a esperança de lhe poder dizer um dia no céu: “meu amiguinho, aqui todos nós somos iguais.”
Não era porém só o marquês que lhe fazia sentir, que não fossem todos os homens iguais na terra; até os seus amigos mais íntimos queriam diferençar-se dele. Estes amigos eram o tio Mamerto e o tio Macário, homens de tão boa conduta, que não podia o tio Paciência viver sem a sua honrada companhia.
O tio Mamerto tinha uma paixão desenfreada pelos touros, e passava por ser muito entendido em matéria tauromáquica.
Quando, no reinado de Fernando VII, se criou uma escola para ensinar esta ciência, esteve o bom do homem quase a ser nomeado lente catedratico da faculdade, e este precedente era o bastante para que ele se considerasse superior ao tio Paciência, o qual, reconhecendo esta superioridade, se consolava pensando que, se o seu querido amigo e ele não eram iguais na terra, o seriam por certo no céu.
O tio Macário era muito feio, mas casou com uma mulher lindíssima, porém levadinha da breca.
Ao cabo de vinte anos de um viver amargurado, morreu-lhe o demônio da mulher, e o pobre homem ficou tão descansado que lhe parecia ter entrado no céu; passados tempos, enamorou-se de outra rapariga, que não ficava a dever nada à primeira, e casou segunda vez, apesar de todos os esforços que o seu amigo, o tio Paciência, fez para lhe tirar isso da cabeça. Ora, como o tio Paciência nunca tinha conseguido que as mulheres se agradassem dele, ao passo que do tio Macário se agradavam aos pares, julgava este ter certa superioridade sobre o primeiro, que, da sua parte, não deixava também de a reconhecer, e que deveras se teria afligido com isso, se não fora a lembrança de que o seu bom amigo e ele seriam iguais no céu, já que na terra o não podiam ser.
O tio Mamerto era capaz de ir até ao fim do mundo para assistir a uma corrida de touros; tanto assim, que até costumava dizer: “Parece-me que trocava de bom grado a glória eterna por uma boa tourada”, ao que o tio Paciência replicava sempre, agastado: “Homem, não digas heresias, que não vá Deus castigar-te.”
Um dia em que os pássaros caiam das árvores, assados pelo sol, havia em Getafe uma corrida de garraios; o tio Mamerto, foi vê-los, à pata, segundo o seu costume, e, de volta a casa, acamou com uma febre, que o levou desta para melhor vida.
No mesmo dia estava muito mal, na cama, o tio Macário, por causa de uma tremenda coça que a mulher lhe tinha dado, porquanto se a primeira mulher lhas dava grandes, a segunda não lhe ficava atrás. A mulher, que nunca perdia a ocasião de lhe comunicar uma boa notícia, deu-se pressa em lhe participar, que o tio Mamerto tinha esticado a canela, e ouvindo isto, o pobre Macário, que já não estava para muitos sustos, esticou também a sua.
Como eu já disse, não podia o tio Paciência viver sem os seus dois amigos, porque lhes queria muito. Estranhando que, em todo o dia, eles lhe não tivessem aparecido para palestrar um pouco e fumar um cigarro na sua companhia, quando à noitinha deixou o trabalho, foi procurá-los, e soube então que ambos tinham morrido. Essa notícia causou-lhe um abalo enorme, e, naquela mesma noite, tomou atrás deles o caminho do outro mundo, com a grande consolação de que ia finalmente para onde todos os homens eram iguais.
Toda a vizinhança sentiu muito a morte do tio Paciência, pois todos depositavam tamanha confiança na sua honradez e no seu caráter dócil e serviçal, que, quando careciam de trocar algumas notas do banco de Espanha, encarregavam disso o tio Paciência, que era capaz de morrer arrebentado, para dar conta da incumbência.
Na manhã seguinte à morte dos três amigos, o bruto do criado particular do marquês, quando entrou no quarto, teve a imprudência de dizer a seu amo que o sapateiro do portal morrera, ao saber que dois amigos seus tinham faltado quase de repente. E como o marquês era um fidalgo muito apreensivo, e corriam uns certos rumores de cólera em Madrid, assustou-se tanto com a saída de sendeiro do bruto do criado, que, poucas horas depois, era cadáver, com grande desgosto da pobreza do bairro. E por todas as partes se se ouvia dizer: “Estes homens, assim, nunca deviam morrer.”
O tio Paciência empreendeu a jornada do céu, muito contente com a esperança de gozar da glória eterna, de viver em um mundo onde todos os homens eram iguais, e finalmente de encontrar ali os seus queridos amigos Mamerto e Macário. Com relação porém a este último pensamento não deixava ele de ter suas dúvidas, porque dizia lá para os seus botões:
 — E se lhe não querem abrir as portas do céu?! Eles foram sempre homens de bem às direitas; mas o demônio da paixão de Mamerto pelos touros, e a tolice do Macário de casar segunda vez, tendo-se saído tão mal da primeira, fazem-me recear que lhes deem com a porta na cara.
Para sair um tanto de dúvida, perguntou a um viandante se tinha visto passar por ali dois sujeitos, com estes e aqueles sinais; e como ele lhe respondesse afirmativamente, prosseguiu o tio Paciência no seu caminho, mais alegre que umas páscoas.
O caminho do céu era escabroso e áspero, e essa era por certo a razão porque nele se não encontrava senão gente pobre e habituada à fadiga.
Impressionado o tio Paciência por não ver nenhum figurão, entre tantos caminhantes, dizia, de si para si:
— Não admira que os homens ricos não façam esta viagem, porque teriam de fazê-la no cavalinho de São Francisco. Se pudessem empreendê-la de carruagem, os diabos me levem, se não víamos por aqui mais trens do que no Prado e na Fonte Castelhana.
O tio Paciência interrompeu as suas reflexões ao ver aproximar-se, vindo do lado do céu, um homem, que chorava como um bezerro, e dava mostras da maior desesperação. Era nada mais nem nada menos do que o tio Mamerto.
O tio Paciência sentiu uma pancada no coração, anunciando-lhe alguma desgraça, quando reconheceu o seu amigo.
 — O que tens tu, homem? perguntou ele ao tio Mamerto.
 — Que demônio hei de eu ter! Se eu não fosse um bruto, como não há segundo, não me fechavam para sempre as portas do céu!
 — Mas então como foi isso? explica-te com a breca, que me tens o coração em talas. Aposto que não foi senão por causa da maldita paixão pelos touros.
— Parece-me que concorreu.
 — Vamos, por quem és, conta-me o que se passou.
 — Cheguei à portaria do céu, e encontrei ali uma porção de gente, que estava à espera de vez para entregar os passaportes para o outro mundo. O porteiro, que visava os papéis, com a sua grande calva à mostra, e o seu molho de chaves na mão, levava a coisa com toda a pachorra, e moía-os com perguntas, primeiro que permitisse a entrada. Eu, que, como é bem natural, estava morto por me ver lá dentro, disse com os meus botões: — Este velho, com os seus vagares, é capaz de me conservar aqui de fora até à noite. Pois deixa estar, que se te pilho distraído, atiro comigo lá para dentro, ainda que depois me cortes uma orelha, como fizeste ao pobre Malco. Estava eu a pensar neste expediente, quando vejo o porteiro armar uma questão com um pobre diabo, a quem não deixava entrar, com o pretexto de ter sido apaixonado de touros. Aí temos nós os touros! disse eu, ao ver aquilo. O velhote é capaz de me fazer esperar uma eternidade, e por fim, se chega a saber que também fui afeiçoado às touradas, nega-me a entrada, como aconteceu com o outro. E que faço eu? Assim que o porteiro deu uma volta: zás! raspo-me lá para dentro. Já dava graças a Deus pela minha resolução, e vai senão quando o porteiro, dá-lhe na cabeça contar quantos estavam na portaria, e conhece que lhe falta um.
— Falta-me aqui um! grita enraivecido, e aposto uma orelha que não é senão o madrileno. Ou ele não fosse de Madrid, o maroto, que se escoou lá para dentro como um gato: deixa estar que já vamos ajustar contas!
— Ó meu senhor, disse da banda um adulador, que tinha assim jeitos de cortesão, quer que eu lho saque de lá para fora por uma orelha?
— Deixemos-nos de orelhas, respondeu o velhote; e chamando uns músicos, a quem falava com muito agrado, porque parece que lhe tinham sido recomendados por Santa Cecília: Toquem lá a música da saída do touro!
Os músicos começam de tocar, e eu (sempre sou muito bruto!) ao ouvir aquele toque, julgo que há corrida de touros na portaria, e saio muito lépido a vê-la; de repente, o porteiro fecha a porta e deixa-me ficar de fora, com uma cara de palmo e meio, dizendo-me:
— Vá já para o inferno, seu meliante, que uma paixão por touros como essa, não pode Deus perdoá-la.
E aqui tens tu, querido Paciência, como eu vou caminho do inferno por causa da minha maldita mania pelas touradas!
O tio Paciência prorrompeu em amargo pranto ao ver a infelicidade do seu velho amigo, e esteve quase a pregar-lhe um sermão, mas não o fez por se lembrar de que era pregar no deserto; ambos continuaram, por último, o seu caminho; o tio Paciência o do céu, que era costa acima, e o tio Mamerto o do inferno, que era costa abaixo.
 — Querem ver que também me acontece alguma na portaria? O tal senhor porteiro tem um geniozinho endemoninhado!
Isto dizia o tio Paciência, seguindo sempre o seu caminho, quando avistou outro homem, que vinha do lado do céu. Este não se carpia, nem se arrepelava; trazia porém a cabeça baixa, e denotava profunda tristeza.
 — Esperem! disse o tio Paciência. Os diabos me levem se aquele não é o tio Macário! Pois quê? Não é senão ele!
Com efeito, o tio Macário era o da cabeça baixa.
Os dois amigos abraçaram-se comovidos.
 — Tu por aqui, Paciência! disse o tio Macário. Para onde vais, homem?
 — Ora, para onde hei de eu ir? Vou para o céu.
 — Duvido muito que lá entres.
 — Então por quê?
 — Porque é dificílimo entrar lá.
 — E em que consiste a dificuldade?
 — Consiste em ser o porteiro o velho mais caturra, que eu tenho visto. E para prova, basta o que se deu comigo.
 — Conta depressa.
 — Uma frioleira! Chegamos, eu e outro, à porta; chamamos, e aparece-nos o porteiro, com a sua grande calva e o competente molho de chaves na mão.
— Que é o que querem? pergunta ele.
— Essa não está má! o que havemos nós de querer senão entrar?
— Você é casado ou solteiro? pergunta o velho ao meu camarada.
— Casado, responde o tal sujeito.
— Nesse caso pode entrar, que basta essa penitência para um homem ganhar o céu; e isto por maiores que sejam os pecados, que haja cometido.
E o meu companheiro entrou lá para dentro.
— Cáspite! disse eu com os meus botões; se aquele ganhou o céu por se ter casado uma vez, com mais razão o devo eu ter ganho por me haver casado duas. E larguei atrás do meu companheiro.
— Onde vai o senhor? perguntou o porteiro, detendo-me por uma orelha.
— Homem, o senhor deve estar farto de o saber! Vou para o céu.
— É casado ou solteiro?
— Casado duas vezes à falta de uma.
— Duas vezes?!
— Sim, senhor, duas vezes.
— Pois vá para as profundas do inferno, que tolos desse lote não têm entrada no céu.
E aqui vou eu, amigo Paciência, caminho do inferno! São coisas que só a mim acontecem!...
 — É bem feito, disse o tio Paciência, entre compadecido e indignado da parvoíce do seu amigo. Não te dizia eu que não podia obter perdão de Deus quem duas vezes se casasse?
O tio Paciência já não ia muito satisfeito e tranquilo, ao aproximar-se das portas do céu, porque as notícias que recebera do geniozinho do tal porteiro, eram, na verdade, para intimidar o mais pintado.
 — Vamos, tio Paciência, dizia ele, é preciso que não desmintas, nesta ocasião, o apelido que te puseram, porque, se consegues catequizar o porteiro, colas-te lá dentro, e depois é que já ninguém te dá volta. O velhote é esquisito de gênio, caturra e curioso como todos os porteiros... Mas também, deve a gente lembrar-se de que o pobre do homem é tão velho, que já não pode com os calções, e devemos ser indulgentes para com os velhos como para com as crianças, porque os extremos tocam-se. Demais, a paciência é uma virtude, que o próprio Jesus recomendava ao apostolo São Pedro, como se vê da seguinte cantiga:
Era São Pedro na calva
perseguido do mosquito,
e o Mestre lhe dizia:
 — Tem paciência, Periquito!
Ao terminar estas reflexões, avistou o tio Paciência as portas do céu, e estremeceu de alegria, lembrando-se de que estava já a meio quilômetro de Distância do mundo onde todos os homens eram iguais.
Chegou finalmente à portaria, e viu que não havia lá viva alma, o que deveras lhe agradou, porque assim não se expunha a morrer arrebentado, como quando ia trocar notas ao banco de Espanha.
Deu uma aldrabada pequena na porta, e um velho, que não tinha um pelo na cabeça, abriu o postigo e perguntou-lhe:
 — O que quer você daqui?
— Ora, o Senhor lhe dê muito boas noites, lhe tornou o tio Paciência, com a maior humildade, tirando o chapéu. Como passou? Passou bem?
 — Muito bem, muito obrigado. Mas o que queria o senhor?
 — E a senhora e os meninos estão de saúde?
 — Homem, despache daí, diga o que quer.
 — O senhor não tem senão desculpar... mas... nada... eu... vinha ver se o senhor me deixaria entrar.
 — Sente-se aí, nesse banco, e espere que venha mais gente, que não se pode andar sempre a abrir e a fechar esse maldito portão, que é mais pesado que um marido jogador.
 — Está bem, senhor, essa é boa; faça favor de perdoar.
 — Não há de quê.
O velhote fechou o postigo, e o tio Paciência, a quem as últimas palavras, que ouvira, deram alma nova, sentou-se num banco, e começou o seguinte solilóquio, para passar o tempo:
— O tal senhor porteiro é realmente um grande caturra. Quem diabo podia supor que o homem se esquentaria por eu o cumprimentar como Deus manda! Mas apesar de ter o gênio um tanto assomado, bem se conhece que é um santo. Pois, senhor, esperemos aqui, no banco da paciência.
Estava o tio Paciência entretido a apertar um cigarro, quando, ouvindo uma tremenda aldabrada na porta, que por pouco a fazia em hastilhas, ergueu a cabeça, e viu então que a pessoa, que com tanta arrogância chamava, era nem mais, nem menos, que o seu visinho marquês.
 — É melhor bater com a cabeça! gritou de dentro o porteiro, ao ouvir aquele barulho. Quem é o bruto que chama assim?
 — O excelentíssimo senhor marquês de Pelusilla, grande de Espanha de primeira classe, cavaleiro de todas as ordens criadas e por criar, senador do reino, etc., etc.
Mal isto ouviu, o porteiro abriu de par em par a porta, quebrando pelo espinhaço com muitas reverências, e exclamando:
— Perdoe vossa excelência se o fiz esperar algum tempo, mas... é que eu não supunha, que tivéssemos por cá tamanha honra. Queira vossa excelência entrar, que, pela balburdia que lá vai por dentro, é de crer que já tenha corrido a notícia de que temos por estes bairros o cavalheiro mais ilustre e mais rico de toda a Espanha.
Com efeito o céu estava alvoroçado com a chegada do marquês, para o qual começava a improvisar-se uma recepção esplêndida. Repicavam os sinos, e os foguetes cortavam o ar em todas as direções; já não havia uma varanda, nem uma janela de onde não pendesse um cobertor de damasco, ou quando menos uma colcha de chita, modesta, mas vistosa. As imprensas vomitavam versos (ih! que nojo!) em louvor do marquês; os garotos esganiçavam-se todos a dar vivas a sua excelência; as virgens largavam a costura, e vestindo-se de branco, e pondo na cabeça a sua grinalda de flores, lançavam mão da lira, e tocavam e cantavam como desesperadas; desde as charangas das ruas até a orquestra do teatro real, todas as músicas faziam ouvir as suas harmonias; em suma, era tudo festa, júbilo e regozijo. Até o próprio porteiro, quando voltou a fechar a porta, deu um pulo de contente, exclamando:
 — Bravíssimo! Hoje é dia de atirar uma cana ao ar!
 — Sim, como não atires a cabeça!... rosnou por entre os dentes o tio Paciência, indignado com o que estava presenciando.
Repetiam-se lá por dentro as manifestações de alegria, e o estrondo dos festejos, e o tio Paciência, que assistia àquele entusiasmo, continuava nestes termos o seu solilóquio:
— E esta!... Ainda me custa a acreditar o que por aqui vai com a chegada do marquês! Com que, passo toda a minha vida a sofrer com santa paciência os trabalhos e humilhações da terra, imaginando que no céu todos os homens são iguais, e que, por conseguinte, me verei aqui livre de todos os meus pesares e apoquentações, e no fim de contas, chego às portas do céu e recebo logo a prova mais irritante de desigualdade, que pode imaginar-se! Com que então, aqui, como na terra, a mim, porque sou um pobre sapateiro, fazem-me estar, como um espantalho, à espera na portaria, e ao marquês, só porque é marquês e rico, e por vir carregado de cruzes e calvários, abrem-se-lhe, de par em par, as portas, e recebem-no com repiques de sinos, com foguetes, músicas, versos, e colchas de seda nas janelas!... Isto realmente é para fazer ferver o sangue nas veias a um santo!... Porém, paciência, senhor Paciência!... Se consigo afinal entrar lá para dentro, o que já me vai parecendo bem difícil, posso reputar-me feliz, porque ali deve passar-se divinamente, a julgar pelo pouco que vi, quando o velho deu passagem ao marquês, e pela baforada, que sai, quando abrem ou fecham a porta ou o postigo.
O barulho que este fez ao abrir-se, tirou o tio Paciência das suas meditações; fez-se ver a calva do porteiro, o qual vinha examinar se já havia gente reunida, à espera, na portaria.
 — O que faz você aí? perguntou o porteiro, reparando no tio Paciência.
 — Senhor, respondeu humildemente o tio Paciência, estava esperando...
— Se as lebres esperassem tanto!...
 — Como o senhor não aparecia...
 — Tem razão, tem... são tantas as coisas em que tenho que pensar, que de todo se me varreu da ideia... Eu vou já abrir, amigo. Ora!... mas porque não chamou por mim, homem de Deus?!...
 — O senhor bem vê que... como sou um pobre sapateiro...
 — Qual sapateiro, nem qual cabaça! aqui no céu todos os homens são iguais.
 — Deveras?! exclamou o tio Paciência, dando um salto de alegria.
 — Pois, então!... Não faltava mais nada senão andarmos aqui com categorias! Isso é bom lá para a terra! Vamos, entre cá para dentro.
O porteiro nem por isso abriu toda a porta, como quando entrou o marquês, mas o suficiente para que pudesse passar um homem. O tio Paciência acercou-se da cancela, lançou um relancear d'olhos lá para dentro, e deteve-se ali, dolorosamente surpreendido. As virgens não largavam a costura, nem os rapazes saíam da escola; não havia uma triste sineta que tocasse; os foguetes não rasgavam as nuvens; as músicas não deixavam ouvir as suas harmonias; nem sequer uma pobre colcha de chita adornava as janelas, nem tampouco as imprensas vomitavam versos!...
O porteiro, que não tinha nada de tolo, adivinhou o doloroso espanto do tio Paciência, e acudiu a desvanecê-lo, dizendo-lhe:
 — Que quer isso dizer, homem? Então fica para aí pasmado, em vez de entrar cá para dentro?.
 — Não me disse o senhor, ainda há pouco, que no céu todos os homens eram iguais?
 — Disse, sim senhor, e daí?...
 — Então... como é que ao marquês...
 — Homem, você se não é tolo, parece-o! Pois não leu na sagrada escritura, que é mais fácil entrar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico no céu?...
 — Não, senhor, não sabia isso.
 — Pois pode acreditar que é a pura verdade. Sapateiros, ferreiros, lavradores, mendigos, gente, em suma, farta de trabalhar e de padecer, chega aqui a todo o instante, e não temos que estranhar a sua chegada. Já outro tanto não acontece com os ricos e os fidalgos; passam-se séculos sem vermos o focinho a um figurão, como esse que veio hoje, de modo que, quando algum nos aparece por cá, anda tudo numa poeira! Ora, venha, ande lá para dentro, que já é tempo de descansar.
O tio Paciência transpôs o limiar da porta, e não podendo com a alegria, que o dominava, caiu de joelhos, e exclamou, erguendo as mãos para o Senhor, que saia ao seu encontro:
 — Senhor! Bendito sejais vós, que dais a bem-aventurança eterna aos que padecem na terra!

9/18/2017

A necessidade (Conto), de Antônio de Trueba


A necessidade
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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I
Ainda hoje existe, junto à confluência de dois rios, um formoso castanheiro, a cuja sombra eu me sento, sempre que por ali passo, haja ou não haja calor, e isto pela razão muito natural de que, sendo eu criança, costumávamos sentar-nos, minha mãe e eu, à sombra daquela mesma árvore, quando íamos a uma aldeiazinha, que ficava perto da nossa. A pequena Distância do castanheiro veem-se ainda as ruínas de um moinho, tais quais eram nos tempos saudosos da minha infância; e a lembrança de minha mãe, do castanheiro e das ruínas, faz-me recordar de um conto, que ela me contou, em uma tarde de verão, ao pé da árvore frondosa, a cuja sombra, graças a Deus! ainda posso sentar-me.
O último moleiro, que habitou o moinho, era conhecido naquelas redondezas pelo apelido de Sêneca; e vejam lá, não vão mudar para o primeiro o acento que pus sobre o segundo “e” deste apelido, pois que o moleiro de quem estou falando, e que minha mãe conheceu e tratou, era tão modesto, que ainda hoje no céu se veria muito aflito e contrariado, se o confundissem com o filósofo cordovês.
Não tinha Sêneca pretensões a filósofo, mas era-o até sem querer, e a isto devia ele indubitavelmente o seu apelido, em cuja aplicação não podemos deixar de reconhecer uma filosofia muito profunda; se não, reparem os leitores, e digam-me se não é bem admirável a do povo, que, com a mudança de um simples acento, marca o abismo, que separa o filósofo da natureza do filósofo do estudo! Tinha eu que fazer, se quisesse referir os muitos rasgos de engenho e sã filosofia com que Sêneca ilustrou a sua trabalhosa e modesta vida, e portanto limitar-me-ei a referir um dos que mais Cativaram minha pobre mãe, de quem herdei o gosto que tenho pelas recordações da infância.
Sêneca não tinha outra família senão um filho de dez anos, nem outras cavalarias senão um burro de vinte. Morreu-lhe a mulher, que era quem ficava no moinho, curando das moagens, enquanto ele andava com o burro, levando e trazendo foles por aldeias e casais, e o pobre Sêneca viu-se então em graves embaraços, porque os seus ganhos lhe não permitiam tomar uma criada, que substituísse sua mulher no moinho, nem um criado, que o substituísse a ele no transporte dos foles.
 — E como te hás de tu arranjar agora? lhe perguntavam os vizinhos, quando o viram viúvo, e sem outro auxílio mais que o do pequeno.
 — Não me dá isso cuidado, respondia Sêneca, não faltará quem me ajude.
— Isso é bom de dizer; mas quem te há de ajudar?
 — Quem?... A Necessidade.
Os vizinhos punham-se a rir do bom humor de Sêneca, porém sem compreender o que ele queria dizer na sua.
Uma certa manhã aparelhou Sêneca o burrico, pôs-lhe em cima um saco, que continha quatro alqueires de farinha, e chamando o pequeno, disse-lhe:
 — Rapaz, toma o burro pela arreata, e leva-me esta carga à padaria de Somorrostro.
O pequeno desatou a chorar.
 — Que é lá isso, homem? perguntou-lhe o pai.
 — Que há de ser de mim pelo caminho, se o burro cair, ou se espojar no chão! exclamou o rapazito, sem cessar de chorar.
 — Não te dê isso cuidado, disse Sêneca; se tal acontecer, não faltará quem te ajude a levantar o burro.
 — E quem é que me há de ajudar nessas devesas tão solitárias, que não se encontra por elas viva alma?!
 — Quem? A Necessidade. Se o burro cair, ou se deitar no chão e se não poder erguer, chama pela Necessidade, e verás como logo acode em teu auxílio.
 — Está bem, disse o pequeno, limpando as lágrimas com a manga da jaqueta; e pegando na corda do burro, tomou pela margem do rio, caminho de Somorrostro, que distava uma légua do moinho.
 — Ora, ora, ora! Sempre este Sêneca tem coisas!... diziam os vizinhos, ao verem o rapazito com o burro atrás de si. Com que então a Necessidade, com cujo auxílio contava Sêneca, para levar e trazer os foles, era essa pobre criança?!... E o pequeno, quem é que o há de ajudar?
Seguia o filho de Sêneca com o seu burro à arreata ao longo dos carvalhais, que assombram as margens do rio, que corre pelo vale profundo, que separa Somorrostro de Galdamez e Sopuerta, quando, ao chegar a um pequeno areal muito suave, fez o burro esta reflexão:
— Ai! que bela cama para eu descansar um pouco!... e então, se eu pudesse soltar esta maldita carga, que me vai amolando as costelas!
E de repente, antes que o pequeno olhasse para traz, estirou-se ao comprido no meio do chão.
 — Ai! minha mãe!... exclamou o rapazinho aterrado; — porque convém saber que em Espanha, e com especialidade na Biscaia, não só aos pequenos como também aos grandes, o primeiro auxílio que lhes ocorre invocar nas maiores aflições, é sempre o de sua mãe, ainda mesmo que já a tenham no céu.
E pegando numa vergasta começou a zurzir o burro sem dor nem piedade; porém o animal, por mais esforços que fazia para se levantar, não o podia conseguir.
Estava já o pequeno quase a chorar, quando se lembrou do conselho, que o pai lhe havia dado, e, em vez de dar largas ao pranto, começou a gritar:
 — Necessidade! Necessidade! faz-me o favor de vir aqui ajudar-me a erguer este burro?!
O pequeno bem olhava para todos os lados, a ver se aparecia a Necessidade, mas não via ninguém. Já cansado de chamar e de esperar pela Necessidade, desatou o arrocho, que prendia o saco ao aparelho do burro, e aliviou-o da carga; em seguida deu-lhe uma vergastada e o animal ergueu-se de um salto. Então o pequeno tomou o burro pelo cabresto, levou-o para junto de uma ribanceira, e rolando o saco até lá, pôde, a muito custo, colocá-lo em cima do animal; apertou-o bem com o arrocho, montou-se sobre a carga, atirou uma pancada ao burro, e prosseguiu no seu caminho, mais alegre que umas páscoas.
Passada uma hora chegava o rapaz ao moinho, cantando e fazendo trotar o seu ginete.
 — Olá, pequeno, disse-lhe o pai, apenas o avistou, como te foi pela tua viagem?
 — Muito mal, meu pai.
 — Então o que te aconteceu, homem?
 — Deitou-se o burro no caminho, e, por mais pancadas que lhe dei, não foi capaz de se levantar.
 — E então o que fizeste?
— Desprendi a carga, levei o burro para o pé de uma ribanceira, fui rolando o saco até lá...
 — Bem, bem, já percebo. Quer isso dizer que chamaste pela Necessidade, não é assim?
 — Chamei, chamei; fartei-me até de chamar; mas não apareceu...
 — Rapaz, disse Sêneca, vê como tu te enganas; — quem te levantou e carregou o burro não foi senão a Necessidade.

Tinha razão Sêneca, e também eu a tenho para dizer aqui que a necessidade presta tanto auxílio e tamanhos benefícios ao homem, que não sei como ainda lhe não deram a cruz de beneficência.