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10/27/2018

O jabuti e a onça (Conto infantil), de Monteiro Lobato


O jabuti e a onça

 O jabuti e a onça
  
Uma vez uma onça ouviu a música da gaitinha do jabuti e aproximou-se.

— Como você toca bem, jabuti! De que é feita essa gaitinha?

— De osso de veado, ih! ih! — respondeu o cascudo.

A onça, que estava querendo apanhar o jabuti; veio com um plano.

— Sou um pouco surda — disse ela. — Toque mais perto da abertura do buraco.

O jabuti apareceu na abertura do buraco e tocou, mas no melhor da festa a onça deu um bote para pegá-lo. O jabuti afundou a tempo; mesmo assim ficou com uma pata nas unhas da onça.

— Ah, ah, ah! — riu-se ele. — Pensa que agarrou minha pata mas só pegou uma raiz de pau! Fiau!...

A onça soltou as unhas, desapontada. O jabuti deu outra gargalhada.

— Grande boba! Era minha pata mesmo que você havia agarrado. Fiau! Fiau!

A onça jurou que não sairia da beira daquele buraco enquanto não apanhasse o jabuti — e ficou lá até morrer de fome.

***

— Aparece aqui aquele mesmo truque do coelho com a onça — notou Emília. — Quer dizer que a onça é tão estúpida que todos os animais a enganam do mesmo modo.

— Só não acho direito — disse Narizinho — que a onça ficasse lá até morrer. Por mais estúpida que seja, isso é coisa que onça não faz. Os índios que inventaram esse caso eram bem bobinhos.

— Eu sei mais histórias do jabuti — disse tia Nastácia.

— Pois então conte.

E ela contou a história de "O jabuti e a fruta".



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Notas:
Extraído da obra: Histórias de Tia Nastácia.
Transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

O jabuti e a caipora (Conto infantil), de Monteiro Lobato




O jabuti e a caipora

O jabuti entrou num oco de pau e começou a tocar a sua gaitinha. A caipora, lá longe, ouviu e disse: "Não pode ser outro senão o jabuti. Vou agarrá-lo."

Veio vindo. Parou perto do oco, a escutar.

Li, ri, li, ri...
Lé, ré, lé, ré...

— Olá, jabuti!

— Oi! — respondeu o tocador de gaita.

— Saia do buraco, jabuti, para vermos qual de nós dois tem mais força.

O jabuti saiu, enquanto a caipora cortava um cipó.

— Eu puxo uma ponta e você outra — eu em terra e você n'água.

— Pois vamos a isso, caipora — respondeu o jabuti.

O jabuti entrou na água e amarrou a ponta do cipó no rabo dum pirarucu, que é o peixe de rio maior que há. A caipora, lá em terra, puxou o cipó — mas o pirarucu a arrastou para a beira d'água; e como não tinha mais força, foi puxando-a para dentro do rio. O jabuti, que já estava em terra, bem escondidinho no mato, ria-se, ria-se.

Não podendo mais de tão cansada, a caipora gritou:

— Basta! Você venceu.

O jabuti, sempre a rir-se, entrou n'água e foi desatar o cipó do rabo do pirarucu. Em seguida voltou para terra.

— Está cansado, jabuti? — perguntou a caipora.

— Cansado, eu? Nem um tiquinho! — e a caipora viu mesmo que nem suado estava. Não teve remédio senão confessar que o jabuti era mais valente do que ela — e lá se foi muito desapontada.

***

— Sempre a esperteza vencendo a burrice! — observou Emília. — Mas que bicho caipora é esse?

— A caipora — explicou dona Benta — é um dos monstros inventados pela imaginação da nossa gente do mato. Vocês bem sabem que para o povo existem na natureza muito mais coisas do que os naturalistas conhecem, como lobisomens, sacis, mulas-sem-cabeça que vomitam fogo pelas ventas e também caiporas.

— Mas como é a caipora?

— Dizem que é um bicho peludo que gosta muito de fumar. Cerca os viajantes nas estradas, de noite, para pedir fumo para o cachimbo. Descrever como é a caipora não é fácil, porque as coisas que só existem na imaginação do povo variam de lugar em lugar. Aqui é dum jeito, ali é do outro. Se querem saber como é a caipora, perguntem ao tio Barnabé. Só negro velho entende bem disso.



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Notas:
Extraído da obra: Histórias de Tia Nastácia.
Transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)