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12/02/2018

B. Lopes: Um poeta de boa fé (Resenha Crítica)



B. Lopes: Um poeta de boa fé

B. Lopes foi, decerto, e cumpre dizer, do melhor modo, um poeta de boa fé. Fazia versos íntima e essencialmente, a valer. Pertencia à categoria dos prosadores e rimadores — bem menos numerosos do que parece — que o são, de verdade. A poesia “estava” nele, não por simples deliberação ou propósito da sua parte, mas pela mais espontânea das manifestações, quer do sentimento, quer da vontade. Os versos vinham-lhe de dentro quisesse ele ou não realizá-los. Aquilo tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira. Não houve, por isso, poeta mais verídico, mais leal consigo mesmo. Por isso, também, ele devia sofrer terrivelmente. As tão apregoadas incoerências ou antagonismos declarados entre a veracidade prática, à vista de toda a gente e as que por força lhe queriam notar — e provar — sem dúvida lhe infligiriam contínuos e atrozes tormentos. Pretendiam fazê-lo passar nada menos que por hipócrita, mentiroso. Atiravam-lhe, como uma falsidade ignominiosa, o fato de usar gravatas à La Valliàre, abertas em borboleta, de cores espaventosas e que, de mais a mais, há bastante tempo ninguém gostava. Outra forma de anacronismo irritante vinha das polainas, como se Guimarães Passos devesse ter sido o último janota a ostentá-las. Não se permitia, não se tolerava semelhante atentado ao gosto, às leis efêmeras e, por isso mesmo, soberanas, da Moda. O que, sobretudo, se não admitia era a pretensão de se fazerem belos versos, andando-se tão mal vestido, isto é: aquela antiquada e singular maneira. Ou uma coisa, ou outra! E, ainda por cima, B. Lopes, com o seu ordenado de funcionário dos correios, levava uma existência noturnamente de aperturas, de privações... Laborioso e cumpridor das suas obrigações, nem boêmio chegava a ser.

O pior dano, portanto, era aquele que as suas rimas, tão ricas, conforme a qualificação outrora dada aos cultores da alta métrica e do ritmo de pura sonoridade, causavam ao desventurado artista de “Sinhá Flor”. Todas as graças, todas as opulências lhe eram conferidas, menos aquela. E assim B. Lopes, nem sempre, mas muitas vezes, só por trazer as solas um tanto gastas e com biqueiras de feitio um tanto atrasado, sentiria pesar-lhe em cima de todo o seu talento alguma coisa semelhante a uma condenação. Os poetas mesmos — e só por isso — desprezavam ou faziam como se desprezassem a esbelteza das suas estrofes e a desenvolta veemência da sua inspiração. Todos os seus versos, sem exceção, fosse esta devida à carência de melodia, fosse à indigência das palavras, cuidavam de coisas finas e caras, infalivelmente preciosas. Falavam de toda sorte de joias, inclusivamente as heráldicas; lidavam com sedas, veludos, rendas e, acerca destas, citavam os tipos mais raros e mais leves, com as suas mais eruditas designações... O luxo mais refinado passava por entre os seus decassílabos, tão familiar e asadamente, como se nunca tivesse visto senão anéis de duquesa, brincando com aros refulgentes e lavrados no metal mais puro. Não mentia, porém, B. Lopes, nem por um momento lhe ocorreria a ideia do artifício existente em outros versos ou em outros autores. É que intrínseca, autêntica, profundamente, de alma e de coração, B. Lopes era sincero.

Por: João Luso
Revista da Semana, 3 de setembro de 1949.

5/01/2018

Olavo Bilac - poeta e nacionalista (Artigo)


Olavo Bilac, poeta e nacionalista

Texto publicado originalmente na revista "Carioca", na década de 1940, antes do fim da guerra. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)
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Que os poetas exaltem os guerreiros, mesmo quando eles não sejam, como Camões, ao mesmo tempo guerreiros e poetas, "braço às armas feito, mente às musas dado", não surpreende nem admira. Esse espetáculo é um espetáculo frequente, um espetáculo de todos os dias. Mas quando os guerreiros é que vêm festejar o poeta e exaltar-lhe as virtudes, o caso é bem outro, tornando-se, por isso mesmo, digno de um comentário especial. Foi isso o que acabamos, agora, de assistir, com as comemorações da passagem do aniversário natalício de Olavo Bilac, realizadas por inspiração do Exército Nacional, numa demonstração eloquente de que o espírito cívico brasileiro se acha desperto e atento, como antes jamais esteve, à merecida glorificação dos nossos valores mentais, morais e patrióticos.

Olavo Bilac foi um grande poeta e um grande cronista, um escritor primoroso e, acima de tudo isso, um brasileiro que estremecia a sua Pátria, que amava o Brasil com o mais ardente afeto. Deixou uma obra pura sob todos os aspectos. Pura como arte e pura como intenção. Nos seus Contos Pátrios, escritos em colaboração com Coelho Neto, como no Teatro Infantil e na Pátria Brasileira, sente-se a presença permanente do patriota sadio e bem intencionado, do modelador de caráter, do professor de moral, dissimulado sob a aparência do artista. Nos seus versos – ainda que em quase toda a sua obra poética vibre com maior constância a nota amorosa, o clangor das paixões e o tributo à beleza – excetuam-se algumas obras que revelam, em Bilac, o poeta embebido de exaltado nacionalismo que era ele. O soneto O Brasil é um grito de entusiasmo e de fé, de otimismo e confiança, de deslumbrado enlevo pela terra em que nasceu:

Para! Uma terra nova ao teu olhar fulgura!
Detém-se! Aqui, de encontro a verdejantes plagas,
Em carícias se muda a inclemência das vagas...
Este é o reino da Luz, do Amor e da Fartura!

Em Pátria, o poeta funde-se com o chão da sua terra, integra-se no seu todo, para ainda depois de morto sentir, estorcendo-se de dor, os golpes e os agravos que o Brasil receba. Mas não foram esses lampejos de eloquência poética, essas nobres expansões de artista que sabia amar o seu país – “Criança, não verás nenhum melhor do que este!" diz num verso das Poesias infantis – o que por si determinou a iniciativa das homenagens que foram tributadas à memória de Bilac. A razão essencial dessas homenagens foi a grande campanha cívica que o grande poeta realizou através do Brasil, em favor do sorteio militar, naquela época tão mal compreendido entre nós. A voz do poeta, amado em todo o Brasil, ressoou como um clarim, sonoramente, convocando a mocidade para os quartéis, pregando a necessidade da cooperação civil à defesa nacional, da formação das nossas reservas militares. O prestígio do nome de Bilac, a clareza das suas palavras, a eloquência do seu verbo, produziram milagres. A mocidade retraída e indiferente acordou da sua atitude displicente e acudiu ao apelo do ardoroso apóstolo da grande cruzada. O que Bilac pensava, o que Bilac dizia, era o que se fazia. Grande foi, sem dúvida, a ação social exercida pelo admirável poeta nessa fase da vida nacional. O escritor paulista Amadeu Amaral, sucessor de Bilac, na Academia Brasileira de Letras, disse, com razão, que o poeta reconciliou o país com as armas. Foi bem isso, em verdade.

Com o tempo, cada vez mais se descobre quanto é falso o conceito da inutilidade dos poetas. Ainda há dias, numa conferência realizada na Academia Brasileira de Letras sobre o centenário de Pedro Luís, proclamava o Sr. Cassiano Ricardo precisamente isso, com relação ao autor da Terribilis Dea. Os povos precisam de poetas. Eles fazem parte da alma nacional, eles a completam, eles constituem a camada sensível, por excelência, do quadro mental de cada povo. A ação de Castro Alves na campanha abolicionista teve as mais largas e significativas repercussões. A ação social de Bilac, no terreno da propaganda do sorteio militar, pode lhe ser comparada, na intensidade com que foi desencadeada, como nos resultados colhidos. Se a comunidade negra tem uma grande dívida moral para com o primeiro, o Exército Brasileiro tem outra, de gratidão, tão grande quanto aquela, para com Bilac. As comemorações de sábado passado pagam parte dessa dívida, restaurando a memória do poeta e o culto do seu nome entre as jovens gerações brasileiras, para as quais ele desejou que o Brasil continuasse íntegro, indivisível, soberano – aquele reino da Luz, do Amor e da Fartura, celebrado em seus verses mortais...