sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Poetas Populares: Pelino Guedes




PELINO GUEDES
(1858-1919)

Pelino Guedes é natural dos sertões da Paraíba do Note; ainda moço, mudou-se para o Rio de Janeiro onde fixou residência.

Foi no Rio que Pelino escreveu a inspirada e sentimental poesia “Recordações do Sertão”, que vai publicada nas páginas a seguir.

Apesar de ele não ser um poeta popular, inseri aqui, o seu poema por se tratar de versos genuinamente sertanejos e que pela sua beleza poética servem de chave de ouro para encerrar este livro.

RECORDAÇÕES DO SERTÃO

Oh! que ciudosas lembranças
Que profundo sentimento
Refluem nesse momento
No meu triste coração;
Só tenho no peito a sombra
Das minhas perdidas flores,
Saudades dos meus amores
Recordações do sertão.

Oh! serras, vales, montanhas,
Rochedos, penhas, cascatas.
Florestas, bosques e matas.
Gênios maus das solidões!
Vinde, vinde visitar-me,
Minh’alma por vós suspira.
Geme por vós minha lira,
Nas suas tristes canções.

Oh! azuladas campinas,
Jardins de minha existência;
Ali minha adolescência
Passei em sonhos gentis...
Qual criancinha travessa,
No cume das serranias
Ao sopro das ventanias,
Em busca das juritis.

Oh! quantas flores esparsas
Nas fraldas daqueles montes,
Quantos suspiros nas fontes,
Das brisas ao perpassar,
O vento geme na gruta,
A onça abala a cascata,
O touro estremece a mata,
A rola estremece o ar.

Erguem-se além os rochedos
Sombrios, alcantilados,
Cujos píncaros nevados
Parecem de ouro e cristais;
Lá onde brincam os bodes
À tarde aos saltos berrando,
Onde se ocultam rosnando
De noite os maracajás.

Canta na várzea o craúna,
No curral berra o garrote.
Salta o preá no serrote,
Aos gritos dos bem-te-vis;
Vagam no campo os pastores,
Nos pátios os bezerrinhos,
Nos vales os cordeirinhos
Nos prados os colibris.

Ainda uma vez, quisera,
Nas penedias e matas,
Ouvir o som das cascatas
E as vozes do furacão
Orquestra de harpas agrestes
Cujos divinos acentos
Vibram as nênias dos ventos
Uivando pela amplidão.

Sim! eu quisera de novo,
Como outrora inda criança,
Cheio de vida e esperança
De crença, de luz, de amor;
Fruir sonhando as delicias
Daquele campo odorante,
À sombra refrigerante
Das oiticicas em flor.

Quem me dera, se eu pudesse
Pelas encostas dos montes,
Ver inda beber nas fontes
O bezerrinho a berrar,
Da tempestade o rugido,
Do jumento o feio ornejo
E o grito do sertanejo
Nos campos a vaquejar.

Ainda uma vez sozinho
Visitaria as campinas,
Aquelas verdes colinas,
Aqueles lagos gentis;
Em cuja face argentina
Tantas vezes delirante
Retratei o meu semblante
Contemplando os pastoris.

Em tardes de primavera
De brisas frescas serenas,
Aquelas saudosas cenas
Ah! quem me dera rever;
À sombra dos juazeiros!
No sopé das cordilheiras
Contemplando as ipueiras,
Onde o gado vai beber.

Ah! nessas horas saudosas
Quando o menino aboiava,,
Eu nos mourões me assentava
Da porteira do curral...
Às vezes, também cantando,
Para ver quando voltavam
As vacas que ali pastavam
Nos arredores do vale.

Era também nesse instante
Que a seriema cantava,
Enquanto o tetéu gritava,
Fugindo dos furacões;
E que as serpes venenosas,
Traiçoeiramente agarradas,
No ar passavam enroscadas
Nas garras dos gaviões.

Ah! quem me dera um momento,
Naqueles vales sombrios
A margem daqueles rios,
Que descem lá do sertão...
Ao ronco das cachoeiras
Quando a chuva alaga o prado,
Ver nas colinas o gado
Saltando ao som do trovão.

Oh! como é belo no inverno,
Quando o vaqueiro à carreira,
Persegue a vaca ligeira,
No seu campeão audaz!
Parece rubro corisco
Das ventanias nas asas,
Do chão arrancando brasas,
No seio dos matagais.

E quando em grutas medonhas
Se encontra o touro bravio
Saltando à margem do rio
Em busca do boqueirão,
Como é sublime a vitória,
Das serras no despenhado,
Quando 0 vaqueiro encourado
Derriba o touro no chão.

Oh! quem não deseja ao menos
Gozar na vida um momento,
Do doce contentamento,
Que ali se desfruta então;
Só quem não presa o sublime
Da inocência e da pureza;
Só não ama à natureza
Quem nunca foi no sertão.

Cante quem quiser as luzes.
As riquezas, as vaidades,
Que se encontram nas cidades
Que se ostentam nos salões;
Para mim têm mais encantos
Essas festas soberanas,
Que se fazem nas choupanas
Dos filhos das solidões.

E quando no pátio imenso
Da casa dos fazendeiros.
Vão se avistando os vaqueiros
Já regressando do vale;
Como é belo contemplá-los
Audazes, loucos, feridos
Com os gibões todos rompidos
Guiando o gado ao curral.

Fui contemplando essas cenas,
Na solidão isolado,
Cantando o céu estrelado
E as matas virgens em flor...
Foi no sussurro das fontes,
No alfar da rola gemente,
Que ouvi O som inocente
Da voz do primeiro amor.

Foi nesses sítios agrestes
A minha mansão de outrora...
Lá onde o regato chora
E se ouve a ave cantar...
Foi nessas rochas tristonhas,
Que eu vi como as fontes nascem
E vi que as flores renascem
Sem ser preciso plantar.

Foi então que eu vi que as aves,
De paixão também perecem,
Como as roseiras fenecem,
Se o orvalho do céu não têm;
Beijam-se os rios e os mares,
Beijam-se as árvores e as flores,
Porque de beijos e amores,
Como nós, vivem também.

Ah! meu Deus quanta inocência
A vida do campo encerra,
Ali não fulmina a guerra
Nem reina a vil traição;
As feras são menos bravas,
Nos homens há mais pureza
Na vida, há mais singeleza.
Mais vigor na criação.

Ali, a terra é mais fértil,
É mais vasto o firmamento,
É mais livre o pensamento.
As crenças têm mais fervor.
Os próprios astros, mais luzes.
Os ares mais harmonias,
Os cantos, mais melodias,
Os corações, mais amor.

Há mais fragrância nos prados,
Nas florestas mais frescura,
Nos bosques, mais formosura,
Nas campinas, mais verdor;
Há mais meiguice nos vales.
Há mais ternura nas fontes.
Há mais beleza nos montes.
Há mais perfume, na flor.

Se o céu me ouvisse, eu quisera
Rever de novo as campinas,
Aquelas verdes colinas
Que eu tanto desejo ver...
As aves que eu vi cantando,
As fontes que eu vi gemendo
Os rios que eu vi correndo,
As flores que eu vi nascer.

Mas dessas cenas risonhas.
Desse meu sonho inocente,
Conservo apenas na mente,
Tristonha, e pálida flor...
Eis porque guardo saudades
Desses idílios queridos,
A causa dos meus gemidos
A origem da minha dor.

Tenho saudades das selvas,
Das borboletas dos campos,
Das luzes dos pirilampos,
Que vagueiam na escuridão;
Do eterno bramir dos ventos.
Corcéis bravios que correm.
Rolas dolentes que morrem
Gemendo na solidão.

Tenho saudades dos vales,
Das serras, das cordilheiras,
Das fontes, das cachoeiras,
Do aroma dos roseirais;
Das flores mortas no campo,
Do cordeirinho inocente.
Aos raios do sol luzente.
Perdido nos bamburrais.

Do eco das arapongas,
Do triste gemer das emas,
Do canto das seriemas,
Do grito das araquã
Dos periquitos jandaias,
Dos papagaios pairando,
Das sericoias voando,
Da voz das maracanãs.

Tenho saudades de tudo,
De tudo guardo a lembrança,
Mas, já o sol da esperança
Não brilha em meu coração;
Só tenho no peito as sombras
Das minhas perdidas flores,
Saudades dos meus amores
Recordações do sertão.

Ah! meu Deus fazei que eu goze
Inda um momento dos sonhos.
Celestes, meigos, risonhos,
Da minha quadra infantil;
Eu quero morrer cantando
O berço dos meus amores,
O céu, o campo e as flores
Dos sertões do meu Brasil.



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Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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