segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Lembranças da morte

Lembranças da morte

Breves apontamentos sobre o conto  "As Mortes de Meu Pai", de Yehuda Amihai

“O destino nos molda como o vitrinista arruma os manequins que expõe, levantando-lhes às vezes a mão ou endireitando-lhes a cabeça, e é assim que eles permanecem por toda uma temporada. A mesma coisa conosco” (pág. 30).

Narrado em primeira pessoa, o conto As Mortes de Meu Pai aborda, como faz transparecer o próprio título, a questão da morte. Não a morte no seu sentido meramente físico, mas, principalmente, daquela decorrente das ações humanas. É a morte que surge da memória, que aparece imbuída da lembrança dos horrores da guerra, ou que se apresenta como fruto de uma infância conturbada e traumatizada.

De início o autor traz à tona um episódio ocorrido na comemoração do Yom Kupur. Foi exatamente neste dia que se deu a primeira morte de seu pai: “E, assim ficou meu pai, vestido com sua mortalha branca. Esta foi a primeira morte de que eu tenho lembrança.”  Sabe-se que o Yom Kupur, o dia mais sagrado do judaísmo, apresenta muitas simbologias. Uma delas diz respeito à “morte do velho”. É neste dia que o Eterno examina tudo o que é vivo, decidindo quem viverá e quem morrerá. O Yom Kipur é também o instante no qual se recorda publicamente os entes falecidos, mediante a recitação do Izkor. Era comum nesta época evocar-se recordações que tocavam o âmago das pessoas, as quais buscavam recuperar o essencial dos familiares que haviam morrido.

A narrativa dá-se exclusivamente pela memória. Esta memória recupera acontecimentos do período da Segunda Guerra Mundial, na qual o autor atuou como soldado do exército inglês. E a guerra também lembra a morte.  Foi nela que seu pai morreu de verdade. A lembrança dos horrores da guerra é constante no conto: “Mas a guerra confunde homens e terras, revolvendo tudo e consegue fazer sentar os que estão de pé e deitar os que estão sentados e transforma os deitados em quadros na parede. Tudo é possível na guerra” (p. 296).

Como já referido, a morte é apresentada não apenas como acontecimento meramente físico, que ocorre quando paramos de respirar. Na verdade, a vida é feita, como diria os antigos, de “pequenas mortes”. Constantemente morremos. Ás vezes morremos sem perceber. Outras vezes morremos e ressuscitamos. Porém, estamos sempre morrendo. As pessoas morrem para o mundo, morrem para a guerra, morrem para a riqueza, morrem para os pais e morrem também “de verdade”: “Meu pai morreu muitas outras vezes e ainda continua a morrer de vez em quando. Às vezes eu o assisto e outras ele morre só. Às vezes sua morte ocorre perto da minha mesa. Ou nas horas de trabalho quando escrevo bonitas palavras no quadro negro, ou quando contemplo os países coloridos do mapa. Ás vezes estou longe na hora de sua morte...” (p. 295). Sim, ele morria constantemente, e, muitas vezes, “Cavou muitas sepulturas para si”. As pessoas, muitas vezes, cavam suas próprias sepulturas.

A morte, associada à guerra, especificamente à Segunda Guerra, aparece na lembrança do autor de maneira sempre enfática.  O seu pai, que também lutou durante a guerra, do lado dos alemães, morreu quando se recusou a participar de uma comemoração durante a ascensão do nazismo. Também morreu quando o vieram prender por causa de um distintivo do partido de Hitler, distintivo este trazido pelo próprio autor, quando criança, e que seu pai lançara fora. Morreu ainda quando guardas impediram as pessoas de comprarem na loja de seu pai. E, por fim, morreu quando tiveram de deixar o país onde nascera, a Alemanha. No entanto, as mortes de seu pai não estão restritas somente aos episódios da guerra. Em vez disso, continuam, inclusive em seus sonhos: “meu pai ainda continua morrendo. Ele parece no meu sonho e eu pressinto-o...” (p. 301). E muito além disso, a figura do pai morto aparece encarnada em situações específicas ou até em pessoas - na memória: “Via-o deitado ao lado do caminho. Somente sua cabeça voltava-se para mim e seguia-me. Via-o através do antigo arco de São Sebastião... “Virei-me e vi-o novamente, como algo muito distante, através dos antigos arocos do portão de São Sebastião” (págs. 301, 302).

A questão da memória, portanto, parece essencial para o entendimento do conto. No início, por exemplo, ele lembra o seu pai numa sinagoga; não lembra a sua face, sim, a nuca, pois esta nunca se altera. Igualmente, ao fim do texto, no instante em que se encontrava em Roma, afirma ter contemplado, não a face do pai, mas somente a cabeça, ou seja: a nuca. Em todo o texto, portanto, a memória apresenta-se de maneira sempre explícita e bem realçada: memória do pai, memória da infância, memória da guerra, e, principalmente, memória da morte ou lembranças das mortes.  Na realidade, todo o texto é uma memória. E, o que é o judaísmo senão a memória?

É isso!

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Por: Iba Mendes (2003)
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Nota:
Yehuda Amihai: “As Mortes de Meu Pai”. In: O Novo Conto Israelense. Tradução: Rifka Berezin. Edições Símbolo, 1978.

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