terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O inferno no imaginário Pentecostal

O inferno no imaginário Pentecostal  

Quais as motivações primárias que leva uma pessoa a se refugiar numa denominação religiosa e a se tornar seu ardoroso defensor, especialmente no âmbito das igrejas pentecostais?

Muitas delas poderiam ser citadas: amor a Deus, desapego aos bens materiais, carência espiritual, busca por milagres, necessidade de perdão, insegurança em relação à morte e esta, que considero a mais preponderante entre todas: o medo de ir para o inferno. Exclua-se o inferno dos livros, elimine-o dos sermões, e o resultado será templos quase vazios!

A palavra inferno vem do latim infernus, que significa lugar profundo. Tal termo tem origem no hebraico sheol, ao pé da letra: abismo, sepulcro, tumba, designando as profundezas da terra. Na Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento) o termo sheol foi traduzido por hades, que quer dizer: invisível, tenebroso (alguns traduzem por terrível, cruel, violento). Na mitologia grega, Hades era considerado o rei dos infernos, o qual habitava as regiões situadas nas profundezas da terra, para onde iam os mortos; é também o nome do próprio inferno: a “mansão dos mortos” (Tártaro ou Érebo). Outra palavra usada no Novo Testamento para designar o inferno, é geena. Tal nome refere-se ao vale de Hinom, localizado ao sul de Jerusalém, local este, segundo a tradição judaica, onde os jebuseus e os habitantes idólatras de Jerusalém sacrificavam seus filhos ao deus Moloque, e onde os condenados eram executados. Jeremias o denominou de “vale da matança”: “Portanto, eis que vêm dias, diz o Senhor, em que não se chamará mais Tofete (lugar de fogo), nem Vale do Filho de Hinom, mas o Vale da Matança” (Jr. 7:32). Especificamente, na Bíblia, o inferno é representado de várias maneiras, tais como: castigo eterno, fogo eterno, chamas eternas, fornalha acesa, lago de fogo e enxofre, fogo devorador, lugar de tormento, sorte dos ímpios etc.

Mas o inferno não é um assunto restrito aos livros sagrados. A Literatura de um modo geral aproveitou-se muito bem dele, nos legando verdadeiros clássicos, como a “Divina Comédia”, do qual se insere o famoso “Inferno de Dante”, que é descrito contendo nove círculos de sofrimento localizados no centro da Terra. No âmbito da Língua Portuguesa podemos citar a famosa peça “O Auto da Barca do Inferno”, escrita pelo grande dramaturgo português Gil Vicente, representada em 1517, na qual é mostrada a chegada ao inferno das almas de um fidalgo, de um frade e de quatro cavaleiros. Na pintura há também inúmeros exemplos voltados à morada do capeta, em especial na Idade Média, época em que o pavor pelo inferno atingia o nível da obsessão patológica.

Embora o inferno não seja exclusividade da doutrina cristã, nesta ele se finca de forma definitiva, tornando-se parte dos estatutos doutrinários de todas suas ramificações ao longo dos séculos. Segundo o Catecismo da Igreja católica: “As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente após a morte aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, o fogo eterno”. Na doutrina protestante tradicional as interpretações do inferno são variadas, abrangendo desde o fogo eterno ao aniquilamento total dos condenados, como é o caso da Igreja Adventista do Sétimo Dia e das Testemunhas de Jeová. Para a doutrina espírita, o inferno é apenas um estado de consciência vivenciado por pessoas cujos comportamentos e sentimentos ruins sobressaem em suas personalidades, e as quais poderão através de sucessivas experiências encarnatórias alcançar também a perfeição. Já em relação aos evangélicos pentecostais, em geral acreditam que as almas do que morrerem perdidos irão automaticamente para o inferno, onde aguardarão o julgamento final, sendo o sofrimento ali eterno. Entre todos os grupos da linhagem evangélica, são estes os mais intransigentes e inflexíveis quanto à condenação dos que não “aceitarem Jesus”. Em seus cultos, é de hábito enfatizar-se aquelas passagens bíblicas que discorrem sobre o fogo eterno, alertando sobre a necessidade de se manter “vigilante” para não ficar sujeito às labaredas eternas, as quais não tem começo nem fim. Também é comum testemunhos ou depoimentos de pessoas que tiveram experiências espirituais de verdadeiras viagens ao inferno, algo semelhante ao que Dante Alighieri narrou em sua obra “A Divina Comédia”. Kenneth E. Hagin, fundador da Teologia da Prosperidade, foi um dos que, assim como Virgílio, adentrou aos portões infernais. Em seu livro “Fui ao Inferno” relata: “Desci até a escuridão envolver-me, e as luzes se extinguirem. Quanto mais eu descia, mais quente e escuro ficava. Até que cheguei ao fundo do abismo e vi a entrada para o inferno, ou os portões, como chamo. Tive consciência de que aquela criatura havia-me encontrado.” Outro livro do mesmo viés e que faz enorme sucesso entre o público evangélico tem o título de “A Divina Revelação do Inferno”, de Mary K. Baxter, que conta em detalhes sua passagem pelas regiões das trevas. Escreve ela: “Ao longo do caminho, passamos por muitas, muitas almas queimando no inferno. Por toda a estrada estendendo para Jesus. Onde a carne devia estar, só havia ossos, - uma massa cinzenta com carne queimando e em decomposição. Dentro de cada forma esquelética tinha uma névoa de alma suja cinzenta, vivendo para sempre dentro de um esqueleto seco. Eu podia ver pelos seus gritos, que eles sentiam o fogo, os vermes, a dor e a desesperança. Seus gritos enchiam a minha alma de uma dor tão grande, que nem posso descrever. Se eles pelo menos tivessem escutado, pensei, eles não estariam ali.” E, por fim, faço menção do testemunho de uma garota chamada Jennifer Perez, "que morreu de overdose aos 15 anos", após abandonar à igreja. Em transcrição traduzida de seu depoimento em vídeo, há o seguinte e tenebroso relato: “O anjo Gabriel me agarrou por um dos braços e me levou em direção daquela porta horrível, que eu não queria nem olhar. Tentei parar, mas eu estava em espírito, e o anjo me levou a força. Entramos. Do outro lado daquela porta, era uma escuridão total. Eu não conseguia nem enxergar a mim mesma. Então, começamos a descer, numa velocidade muito rápida, como numa montanha-russa. À medida que descíamos, o calor ia ficando cada vez mais forte. Fechei meus olhos, pois eu não queria ver onde estávamos. Quando paramos, o anjo disse para eu abrir os olhos e que aquele era o meu novo lugar. Vi que eu estava numa grande estrada, mas eu não sabia onde ela iria dar. A primeira coisa que senti quando cheguei àquele lugar foi sede. Muita sede. Eu não parava de dizer para o anjo: Estou com sede! Estou com sede!” Mas era como se ele não estivesse me ouvindo. Comecei a chorar. Assim que as lágrimas caíam, elas evaporavam por completo. Havia um cheiro de enxofre, como se estivessem queimando pneus. Tentei tapar o nariz, mas o cheiro se tornava pior quando eu fazia isso. Os pelos dos meus braços desapareceram. Todos os meus cinco sentidos estavam muito mais apurados. Eu sentia muito calor, aquele lugar era muito quente. Comecei a olhar ao meu redor e vi pessoas sendo atormentadas por demônios. Havia uma mulher sofrendo, em tormentos. Um demônio cortou a cabeça dela e cravava uma comprida lança em todo o corpo daquela mulher. Ele não tinha piedade. Ele cravava a lança nos olhos, nos pés, nas mãos, em todas as partes do corpo. Depois, ele punha a cabeça de volta no corpo dela e começava a cravar-lhe a lança de novo, sem parar. Os gritos dela eram de agonia e dor. Eu tapava os ouvidos, mas não adiantava. Percebi que não saía sangue quando aquele demônio cortava a cabeça daquela mulher, porque ela estava em espírito, e o espírito é eterno”.

É importante salientar que os relatos de ida ao inferno não são um fenômeno recente, restrito à vertente Pentecostal. Em sua obra “O imaginário medieval”, o historiador Le Jacques Goff afirma que eram comum, na Idade Média, essas viagens ao além. Durante o vasto período medieval europeu, a atmosfera estava repleta de demônios; entre as pessoas andavam grandes legiões de espíritos diabólicos, cuja missão era atrair os indefesos para as mais terríveis perdições.

Interessante observar que o medo do diabo tem se alterado ao longo dos anos conforme se modificam as representações sociais em suas respectivas localidades. Em sua tese de mestrado “As Representações do diabo no Imaginário dos Fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus”, Pedro Antonio Chagas Cáceres destaca que as representações sociais do século XI, na Europa, não foram as mesmas dos séculos seguintes, e não podemos dizer que as representações e os medos do diabo na atualidade sejam os mesmos do século XIX. Tais representações se alteram na medida em que fazem parte de outros grupos sociais, pertencentes ao mesmo contexto histórico. Certamente os medos e as representações dos romanos invasores eram totalmente diferentes das representações e medos dos judeus subjugados. O que hoje não ameaça, amanhã pode corromper; o que ontem curou, amanhã pode matar; o que salva, pode condenar. Dessa forma, a humanidade caminha representando sempre um novo mundo, se livrando de antigos medos e constituindo outros. Mencionando o livro “O pecado e o medo: a culpabilização no ocidente”, do historiador Jean Delumeau, afirma que, conforme se agravam as crises, o diabo se tornava mais horrível e cruel. As representações artísticas, literárias, teatrais ganharam ares sombrios e tenebrosos nos séculos XIV e XV. A Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre França e Inglaterra, a Peste Negra, entre 1346 e 1353, epidemia causada por bactérias (Peste Bubônica), originárias do Oriente, dizimou mais de um terço da população européia, estimada, na época, em oitenta milhões. Tais tempestades sombrias somaram-se aos conflitos sociais e à fome que mataram outros milhares. Esses abalos contribuíram para a transformação negativa das representações do homem europeu. O medo se alastrou pelas cidades e campos e o Diabo se tornou muito mais feio e terrivelmente forte; o fim estava próximo.

Embora o medo exacerbado do inferno e do diabo seja uma característica intrínseca a todas as religiões ocidentais, especialmente aquelas de origem cristã, no pentecostalismo ele assume proporções ainda maiores e com cores bem mais avivadas. A maneira afetada, por vezes solene ou empolada, de descreverem cada escaninho do inferno, transformou-se numa poderosa ferramenta para a conversão do maior número possível de pecadores. Imprecações, alertas e vociferações veementes fazem parte da rotina diárias dos cultos, das pregações, das mensagens radiofônicas e televisivas, dos folhetos, dos periódicos, dos livros e das muitas páginas da Internet. Buscam assim, através do temor, manter o maior número possível de almas cativas às suas doutrinas. Essa constante sensação de ameaça, do receio do inferno e da imprevisibilidade da morte, costuma culminar em atitudes extremistas e na intolerância, além de ser a causa de sérios transtornos de natureza psicológica. O fundamentalismo, em sua essência, é resultado do excesso de medo e do desejo do pensamento único. Em vez do amor voluntário e descompromissado a Deus, o processo de conversão fica assim norteado pelo interesse, seja para evitar o inferno, seja para alcançar os céus. É o grande paradoxo da fé cristã, que deveria se guiar exclusivamente pelo amor, deliberadamente pelo amor.

É isso!

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