quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Alienação cidadã



Alienação cidadã

70% de cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha - por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado. ”

Machado de Assis,
em uma crônica de 15/08/1876

Cento e quarenta anos se passaram desde a crônica de Machado de Assis, e ao que se pode constatar a coisa se inverteu para pior. Hoje é possível afirmar que 70% de cidadãos sabem exatamente porque votam, e aí reside o terrível drama. Votam por questão de consciência, para mudar o Brasil, para tornar mais justa a condição social da nação, para melhorar a segurança, a saúde e a educação...  Muitos são capazes de citar parágrafos inteiros da Constituição, e até cospem cidadania pelas redes sociais. Acreditam piamente que a situação do país pode ser transformada através do voto. Nas páginas dos jornais, cientistas políticos enfatizam a importância do sufrágio universal. Na televisão e na Internet as propagandas buscam estimular o cidadão a votar consciente e com responsabilidade: “Voto não tem preço, tem consequência”. / “Seu voto, nosso futuro”. / “Nesta máquina você pode escolher o seu destino”. / “Seu voto pode mudar a história” etc. Enquanto isso os políticos tiram ouro do nariz e riem até cuspir o fígado de toda essa estúpida cidadania.

Desde 1989 que o povo escolhe o presidente da República por meio do voto direto. São mais de 20 anos de pleno exercício da cidadania: 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014.... Quais foram, enfim, os resultados de tantos votos conscientes ao longo de todas essas décadas? O que exatamente mudou no Brasil em todo esse tempo? Houve redução da violência? Tivemos melhorias na saúde? A nossa educação atingiu o nível da dignidade? A corrupção foi minimamente controlada?

A resposta é um escandaloso NÃO!

Então por que, afinal, insistimos nesta mesma tolice de que o voto pode mudar alguma coisa neste país?  O que move uma pessoa com certo nível de consciência da realidade a perseverar em tamanha fraude? O que leva alguém a se sentir realizado votando numa instituição política concebida por políticos em benefício exclusivo da própria política? Como é possível que um cidadão íntegro e moralmente consciente não se sinta envergonhado em contribuir para a manutenção de um sistema tão propenso à corrupção como este?

Em partes isso pode ser explicado pelo simples viés da esperança: pela vontade de ver a nação transformada, pelo desejo de viver num país socialmente mais justo, pela expectativa de que o candidato honesto faça a diferença etc.  A realidade, porém, é que fomos histórica e inconscientemente manipulados. Contaram uma mentira para nós, repetiram-na tão exaustivamente e com tão virtuosos enfeites que até achamos um absurdo duvidar do poder do voto.

Isso é simplesmente tudo o que eles querem!

Os nossos votos é o que mantêm suas boas vidas; é o que assegura o estudo do filho na Europa ou a viagem da amante aos Estados Unidos; é o que lhes dão sítios em Atibaia, tríplices em Guarujá e confortáveis viagens em jatinhos executivos, helicópteros, monomotores e ultraleves; é o que os fazem usufruir de uma aposentadoria precoce e de tantos outros privilégios, tais como nomeações de amigos, imunidade parlamentar, verbas de gabinete, cotas para serviços diversos, auxílio-moradia, carga horária reduzida, carros de luxo, hotéis e restaurantes 5 estrelas; é, enfim, com os nossos votos que eles se perpetuam no poder como hidras genealógicas, sem Hércules que as destruam.  

Mas, o que afinal se pode fazer para tentar mudar esta caótica realidade?

É preciso ressaltar que o problema não reside na política em si, mas na forma como ela se efetua no Brasil. Com leis tão brandas para os políticos, com uma organização partidária parasita e com um sistema eleitoral autoritário, não se pode vislumbrar luz no fim do túnel. O voto nulo é o passo inicial para fazer despertar na classe política algum interesse por mudanças. Ele nos servirá como uma forma de boicote a este sistema podre e devasso, que se mostrou ao longo dos anos num porto seguro dos corruptos.



É isso!


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Por: Iba Mendes (Agosto, 2016)

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