sábado, 11 de março de 2017

O Fascismo e o Pai dos Burros




O Fascismo e o Pai dos Burros

O termo fascista transformou-se de uns tempos para cá numa verdadeira muleta linguística na qual muitos se apoiam para atacar seus adversários, seja no âmbito da política, seja por mera desavença ideológica. Simplificando: é "fascista" todo aquele que pensa diversamente a mim, que não partilha dos meus ideais, que não segue a minha cartilha política, e por aí vai... O acadêmico Leandro Karnal, por exemplo, numa de suas palestras denominou de "fascistas" todos os leitores da revista Veja, obviamente pela vertente conservadora do periódico. Por sua vez, o jornalista Reinaldo Azevedo, rotulou igualmente de "fascistas" todos os admiradores do Deputado Jair Bolsonaro, claramente pela postura ultraconservadora do referido político...

Em qualquer discussão banal, especialmente na Internet, o adjetivo "fascista" torna-se imprescindível, caracterizando a própria insensatez dos que dele fazem uso. Poucas dessas pessoas conhecem de fato a origem do termo, seu sentido histórico, seus aspectos ideológicos, conforme o seu respectivo contexto. Um simples dicionário de Língua Portuguesa por si já é suficiente para lançar ao ridículo toda essa panaceia vocabular. Segundo Houaiss, Fascismo é um movimento político e filosófico ou regime (como o estabelecido por Benito Mussolini na Itália, em 1922), que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador.

Indo um pouco além da definição meramente lexical, Robert O. Paxton, em seu livro "A Anatomia do Fascismo", publicado pela Editora Paz e Terra, elenca uma pequena lista de itens que caracterizavam as práticas fascistas. Ei-la:

1 - Um senso de crise catastrófica, além do alcance das soluções tradicionais;
2 - A primazia do grupo, perante o qual todos têm deveres superiores a qualquer direito, sejam eles individuais ou universais, e a subordinação do indivíduo a esses deveres;
3 - A crença de que o próprio grupo é vítima, sentimento esse que justifica qualquer ação, sem limites jurídicos ou morais, contra seus inimigos, tanto internos quanto externos;
4 - O pavor à decadência dc grupo sob a influência corrosiva do liberalismo individualista, dos conflitos de classe e das influências estrangeiras;
5 - A necessidade de uma integração mais estreita no interior de uma comunidade mais pura, por consentimento, se possível, pela violência excludente, se necessário;
6 - A necessidade da autoridade de chefes naturais (sempre de sexo masculino), culminando num comandante nacional, o único capaz de encarnar o destino histórico do grupo;
7 - A superioridade dos instintos do líder sobre a razão abstrata e universal;
8 - A beleza da violência e a eficácia da vontade, sempre que voltadas para o êxito do grupo;
9 - O direito do povo eleito de dominar os demais, sem restrições provenientes de qualquer tipo de lei humana ou divina, o direito sendo decidido por meio do critério único das proezas do grupo no interior de uma luta darwiniana.

A forma como o termo é utilizado hoje, especificamente aqui no Brasil, descaracterizou portanto sua  significação original, equivalendo a qualquer palavra de natureza pejorativa, por exemplo: corno, veado, vadia, canalha, imbecil, ignorante, puta, coxinha, petralha etc. Como bem escreveu o genial Nelson Rodrigues: cada época tem suas palavras encantadas. No tempo de Dumas velho, era "cáspite". Ninguém sabe, até hoje, o que se esconde por trás de "cáspite". Em nossos dias temos o famigerado "fascista", embora poucos dos que dele fazem uso mal sabem o significado de  "o pai dos burros".

É isso!


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Por: Iba Mendes (Março, 2017)

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Referência bibliográfica:
Robert O. Paxton, em "A Anatomia do Fascismo". Tradução: Patrícia Zimbres e Paula Zimbres. Editora Paz e Terra. São Paulo, 2007.         

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