quarta-feira, 19 de abril de 2017

A despedida, de Lord Byron

A despedida
De: Lord Byron (fragmento de: “Childe Harold”)
Tradução: J. Ramos Coelho

Adeus, adeus! de minha terra as praias
Perdem-se ao longe no azular das águas:
Geme a brisa da noite, brama a vaga,
Solta a gaivota contristadas mágoas.

Do sol que no ocidente vai sumir-se
A luz seguimos que desmaia os céus;
A ele e a ti, ó terra de meu berço
Inda a vez derradeira adeus, adeus!

Em breve o rei dos astros novo brilho
Ao mundo c’o a manhã virá trazer;
E saudarei o mar e o firmamento,
Mas não o solo que me viu nascer.

Meu soberbo palácio está deserto,
Dentro dele a tristeza se assentou;
Bravias plantas pelos muros crescem;
Uiva meu cão à porta que guardou.

Chega, chega-te a mim, meu jovem pagem;
Por que choras assim? o que lamentas?
Temes das vagas o rugir medonho?
O rosto à ventania não sustentas?

Enxuga o pranto que te rega as faces;
Nosso forte navio corre ligeiro:
Apenas meu falcão o mais querido
Na apostada carreira irá primeiro. 

— Sopre o vento sem freio, ruja a vaga,
Que nem o vento, nem as ondas temo;
Contudo, meu senhor, não vos espante
Se dentro d’alma tristemente gemo.

— Porque meu pobre pai, e a tão querida
Mãe, que deu-me a existência abandonei;
Eis meus amigos a não serem eles,
A não ser Deus e vós outros não sei.

— Deu-me a bênção meu pai na despedida
Resignado na dor susteve o pranto:
Mas até quo do novo a pátria volte
A minha triste mão chorará tanto!

Basta, meu jovem pagem, a teus olhos
Ficam-lhes bem as lágrimas da dor;
Se eu nesse qual tu ainda inocente
Também teria lágrimas de amor.

« Vem, meu servo fiel, vem a meu lado,
Que tens? Por que descora o teu semblante?
Do inimigo francês acaso enfias,
Ou do vento que sopra sibilante?

—Não sou tão fraco, meu senhor; da morte
Não julgues que ante os p'rigos esmorecera;
Porém pensando numa ausente esposa
Não é muito que o rosto empalideça.

— Perto de vossa habitação meus filhos
companheira junto ao lago moram.
O que há de ela coitada responder-lhes,
Se pelo pai que está distante choram!

Basta, meu servo, meu fiel mancebo,
Ninguém pode estranhar-te essa tristeza;
Mas eu que tenho o gênio leviano,
Rio, vendo dos mares a largueza.

Quem nos suspiros mentirosos fia
Da esposa estremecida ou cara amante?
Novo amor limpará aqueles olhos
Que choravam por nós há um instante.

Não julgues que lamento o bem passado,
Nem os perigos antever pareça,
A dor que sinto é que não deixe
Em terra nada que um só ai mereça.

Solitário eis-me agora neste mundo
Sobre o deserto, ilimitado oceano:
Tudo se esqueça, que ninguém se lembra
Também de mim, amargo desengano!

Talvez meu cão debalde à porta uivasse,
Até ser pelo estranho alimentado;
Mas se voltar a mão que o sustentara
Infiel morderá já deslembrado.

Veloz contigo pelo mar voemos,
Minha barca, eis o que a alma só deseja:
Nem me importa a que terra me conduzas,
Contanto que da pátria ela não seja.

Salve, ondas do mar azul escuro!
E quando vos perder dos olhos meus,
Salve, grutas profundas! salve, ó ermos!
Terras da minha pátria, adeus, adeus! 

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