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8/13/2023

Caminho de luzes (Poema), de Iba Mendes

 


CAMINHO DE LUZES

Tudo seria tão diferente se ele não tivesse seguido por aquele caminho de luzes! Agora já é tarde demais. Cada passo para frente é uma pedra deixada para trás. O fim do túnel é o começo do regresso. Mas, como regressar se a montanha que se formou parece instransponível? Terá forças para transpor os pedregulhos de sua culpa? Conseguirá chegar ao início onde começou seu fim?

Ah, como quisera ter só mais uma chance para não fazer nada, para continuar trilhando pelo mesmo e velho caminho da própria mediocridade! Agora já é tarde demais. Cada culpa para frente, é uma pedra deixada para trás. Não há caminho de luzes. Só a realidade é o que lhe resta. Mas como encarar a luz do sol se a noite não se apaga? Como voltar atrás se não consegue remover as pedras?

Como um andarilho que caminha no deserto, faz-se mister ignorar as agruras do tempo. Não há caminho de luzes. Precisa de sua quimera a todo custo. Precisa de sua utopia a todo o transe.  A dor será seu galardão quando ultrapassar o fim do túnel. Quantas pedras terá deixado para trás e quantas luzes terá ainda pela frente?  Como escapar da realidade se o remorso ainda lhe corrói por dentro? Como seguir adiante se os caminhos de luzes se transformaram em trevas?


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São Paulo, agosto de 2023.

O nada absoluto (Poema), de Iba Mendes

 


O NADA ABSOLUTO

Sentado sobre aquele tronco de árvore envelhecido, ele volta à mente ao ventre do passado, buscando nele os despojos de sua existência intranquila. Por que, meu Deus, se preocupara tanto com tantas coisas inúteis e desnecessárias? Por que desperdiçara seu precioso tempo em querer desvendar o impenetrável? Por que se deixara perturbar noites inteiras com as opiniões alheias, com o sopro do vento, com a brisa da noite ou com o voo da borboleta? Por que, enfim, consumira parte de sua vida em busca de um prêmio que nunca existira?

Erguendo-se, ele mira agora o topo do além, buscando na lonjura do tempo o posfácio de um livro que nunca leu. Pensa na vida que poderia ter sido e que não foi. Rumina coisas que estavam tão ao seu alcance, mas que se evaporaram na linha tênue dos anos. Tão pouco tempo pra tão longa culpa! Que preço pagou por tantas rugas? Qual o soldo de tão grande sacrifício?

Agora ele segue, deixando para trás uma trilha de lágrimas. Em sua mente, pretérito e futuro mesclam-se como uma nuvem que a neblina da manhã logo desfará. O presente é para ele uma sombra fronteiriça do que se foi o do que há de vir. Sim, não obstante tudo, alguma coisa há de vir, mesmo que seja o nada absoluto.


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São Paulo, agosto de 2023. 

1/21/2020

Ode à Língua Portuguesa (Poema), de José Albano


ODE À LÍNGUA PORTUGUESA

Língua minha, se agora a voz levanto,
Pedindo à Musa que me inspire e ajude,
Somente soe em teu louvor o canto,
Inda que a lira seja fraca e rude;
E tudo quanto sinto na alma, e digo,
Já que na alma não cabe,
Contigo viva e acabe — só contigo.

Língua minha dulcíssona e canora,
Em que mel com aroma se mistura,
Agora leda, lastimosa agora,
Mas não isenta nunca de brandura;
Língua em que o afeto santo influi e ensina
E derrama e prepara
A música mais rara-e mais divina.

Língua na qual eu suspirei primeiro,
Confessando que amava, às auras mansas
E agora choro, à sombra do salgueiro,
Os meus passados sonhos e esperanças;
Na qual me fez ditoso em tempo breve
Aquela doce fala
Que outra nenhuma iguala — nem descreve.

Língua em que o meu amor falou d'amores,
Em que d'amores sempre andei cantando,
Em que modulo os mais encantadores
E deleitosos sons de quando em quando
E espalho acentos inda nunca ouvidos
De mágoas e de gozos,
Queixumes amorosos — e gemidos.

Sempre e sempre te eu veja meiga e pura
Naquela singeleza primitiva,
Naquela verdadeira formosura
Que farei que no verso meu reviva.
E, se apenas um pouco se revela
Desse encanto jucundo,
Há de mostrar ao mundo — quanto és bela.

Outros andam o teu sublime aspecto
D'ornamentos estranhos encobrindo
Sem saber o que tens de mais secreto,
De mais maravilhoso e de mais lindo:
Em ti já não se nota o mesmo agrado
F eu não te reconheço,
Se o teu valor e preço — é rejeitado.

Quanta e tamanha dor me surge e nasce
De nunca ouvir aquele antigo estilo,
Mas eu fiz que ele aqui se-renovasse,
Para que o mundo enfim pudesse ouvi-lo.
E com todo o poder d'engenho e d'arte
Foi sempre o meu desejo
Ver-te qual te ora vejo — e celebrar-te.

Ah! como assim me enlevas e me encantas,
Ora chorando e rindo, ora gemendo;
E, se te outros ofendem vezes tantas,
Embora solitário, eu te defendo:
Eu te defenderei sem ter descanso
E em luta não inglória
Tu verás que a vitória — e a palma alcanço.

E em pago disto peço que me imprimas
Maior ternura na alma e não ma agraves;
Dá-me versos dulcíssimos e rimas
Eternas, peregrinos e suaves:
Dá-me uma voz melodiosa e amena,
Para que noite e dia
Diga a minha alegria — e a minha pena.

E não quero um som alto e retumbante
Para cantar d'amor ao inundo atento,
Pois não há língua que d'amor não cante,
Mas, nenhuma traduz o meu tormento;
Nenhuma se conhece que traslade,
Afora tu somente,
Do coração doente — a saudade.

9/07/2019

Ilusão romântica



Ilusão romântica

Oh, se os céus chorassem por mim,
e se das nuvens caíssem pérolas de amor,
e se o sol aquecesse o meu coração frio,
e se as estrelas brilhassem no meu escuro caminho,
e se as flores desabrochassem quando eu passasse sozinho,
e se as águas molhassem minha alma sedenta de carinho,
e se as pessoas todas me abraçassem,
e se as mulheres todas me beijassem,
e se o mundo fosse um imenso jardim,
e se todas as utopias fossem realidades,
e se todos semeassem nele apenas a amizade,
e se todos se dessem as mãos,
e se eu fosse menos romântico,
e se eu não vivesse de ilusão...

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Iba Mendes (07/09/2019)

Dentro e fora



Dentro e fora

Lá fora o gozo,
Lá dentro a dor,
Lá fora o ódio,
Lá dentro o amor...

Lá fora o pântano,
Lá dentro a flor,
Lá fora o frio,
Lá dentro o calor...

Lá fora o abutre,
Lá dentro o condor,
Lá fora a queda,
Lá dentro o voo...


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Iba Mendes (07/09/2019)

8/05/2018

"Algas e Musgos", de Luís Delfino (Crítica)


Algas e Musgos, uma crítica

Texto publicado originalmente na revista "Vida Doméstica", em edição de 1927. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)
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Luís Delfino, que morreu aos setenta e tantos anos de idade, nem sequer nos deixou um único volume de versos, apesar de ser o poeta mais fecundo que o Brasil já possuiu. Como se sabe, o autor das Imortalidades era temperamento poético exuberante, espontâneo, que versejava com prodigiosa facilidade. Deixou, por isso, matéria para muitos e alentados volumes.

Os admiradores do grande poeta, que o são todos os que sabem estimar a poesia, esperavam, com justificado anseio, o primeiro livro da série a ser publicada pelo Sr. Tomás Delfino, que, zelosa e avaramente, tem sob a sua guarda esse tesouro paterno. E quando já começavam a desesperar-se, eis que, afinal, aparece Algas e Musgos!
Todos a um tempo se apressaram para deslumbrar-se, ante o faiscar das joias raras, como só as sabia cinzelar magníficas e rutilantes Luís Delfino. No entanto, o livro em que se encontram duzentos e seis sonetos, foi uma decepção para muitos espíritos, dentre os quais para só citar um, se vê o também grande e glorioso poeta Alberto de Oliveira, que disse em carta aberta ao Sr. Tomás Delfino: “só ao digno filho de Luís Delfino, não se querendo demover do propósito de, sem nenhuma seleção, estampar tudo o que achou escrito da mão paterna, se deve a impressão desagradável produzida em alguns espíritos por várias das páginas de Algas e Musgos”.
Realmente, nem tudo quanto escreveu Luís Delfino é admirável; conhecemos muita produção sua que chega a ser abominável, de tão medíocre no referente à essência e à técnica do verso.
Mas seja como for, Algas e Musgos é um livro bom, pois há nele páginas que só um poeta genial seria capaz de escrever. E o Sr. Tomás Delfino merece ser louvado, apesar do seu ponto de vista sobre a publicação da obra paterna não ser o mesmo que o nosso.
Revista "Vida Doméstica", maio de 1927.

6/15/2018

“A Morte de Cristo”, de Onofrio Minzoni (Poema traduzido)


Autor: Onofrio Minzoni
Tradutor:  Pinto de Moura
Ano: 1913
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)


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A Morte de Cristo
  
No dia em que Jesus, com o último gemido
A terra fez tremer desde a campina ao monte,
Da sepultura Adão, surgindo espavorido,
De pé se colocou, erguendo altiva a fronte.

Cheio de maravilha, extático, aturdido,
Lançando o turvo olhar na curva do horizonte,
— Quem era, perguntou, aquele que pendido
Da cruz e ensanguentado, estava ali defronte?

Logo que tudo soube, o pálido semblante,
As desgrenhadas cãs, vexado num transporte,
Com fúria maltratou naquele mesmo instante,

E em lágrimas volveu à tímida consorte,
Num brado que se ouviu na serra mais distante:
"Eva! por ti causei a meu Senhor a morte".

“O Gato Bolchevista”, tradução de Luiz Edmundo (Poema Traduzido)


Autor: Desconhecido
Tradutor: Luiz Edmundo
Ano: 1932
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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O Gato Bolchevista

Um gato, que era chefe conceituado
dum bando bolchevista,
vai à cozinha dum capitalista,
e acha, sobre o fogão, um frango assado.
Abocanha-o dum salto; e à unha, e a dente,
começa a devorá-lo...
que esplêndido regalo!
... E assim, tranquilo, come, quando sente
melífluo, que lhe fala, em tom cordato,
outro gato:
Dividamo-lo, pois,
bem como ensina
a moral do partido...
De resto, o frango é grande, e dá pra dois...
O outro, porém, matreiro e precavido,
mostra-lhe a unha felina,
e diz:
— Perdão!
o frango é meu...
E o que é meu, gato amigo, não é seu...
Tire para lá o seu nariz!
Então?
— Volve-lhe o outro — assim
de que vale a moral do bolchevismo
se o próprio chefe, com o maior cinismo,
não a pratica? Diga lá, que, enfim,
você é um chefe, e, como tal, parece
que, melhor do que eu, não desconhece
os ideais que juntos professamos...
Por acaso você enlouqueceu?
por acaso você virou fascista;
burguês, idiota? Vamos:
responda, por favor! .
E o outro respondeu:
...quando em jejum  — sou sempre bolchevista!
mas quando como  — eu  sou conservador!...

"Humoradas", de Ramón de Campoamor (Poema Traduzido)


Autor: Ramón de Campoamor
Tradutor: Goulart de Oliveira
Ano: 1912
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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Humoradas

Venho pedir-te perdão,
Não posso lutar contigo,
Pois meti maior inimigo
Em meu próprio coração.

Causas-me tanto pesar
Que me chego a convencer
De que muito deve amar
Quem tanto me faz sofrer.

Desde que perdi o encanto
Dessa primeira paixão,
Não mais vi meu coração
Para não morrer de espanto.

Pensando que hei de morrer
A tal desventura chego
Que como um morto me entrego
À ventura de viver.

Então, só com o meu desejo
Sem que te olhasse eu te via;
Passou-se o tempo e hoje em dia
Se te olho, vejo...

Quisera ao jardim volver
De teu carinhoso amor,
Se se pudesse colher
Duas vezes a mesma flor...

“A Garganta” de Charles Baudelaire (Poema Traduzido)


Autor: Charles Baudelaire
Tradutor: Lopes Filho
Ano: 1889
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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A Garganta

Quando a Natureza, em sua verve luxuriante,
Concebia no seu ventre um ente monstruoso,
Eu quisera dormir aos pés de uma gigante,
Como aos pés de uma rainha, um gato preguiçoso!

Ver seu corpo crescer indefinidamente,
E sua alma desabrochar como os meus sonhos...
Escutar-lhe do riso o ritmo fremente,
Na doce embriaguez de seus olhos tristonhos!

Trepar-me sobre a torre dos joelhos colossais!
Contemplar-lhe, absorto, as formas sem iguais...
E quando, ao calor do estio, a sesta na campina,

Ela fosse dormir, toda inclinada a meio,
Eu, então, dormiria à sombra do seu seio,
Como um olmo feliz ao pé de uma colina!

“A Cama” (“O Leito”), de José María de Heredia (Poema Traduzido)


Autor: José María de Heredia
Tradutor: Padre Correa de Almeida
Ano: 1901
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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A Cama


Brilhe o seu cortinado em seda ou melhor coisa,
ou alegre qual ninho ou triste como a cela,
é aí que o homem nasce e se achega e repousa,
criança, moço, ancião, matrona, avó, donzela.

Fúnebre ou nupcial, tenha defunto ou esposa,
água benta e na cruz a fixa imagem bela,
tudo começa aí, daí se vai à lousa,
desde o claro arrebol à noite que nos vela.

Humilde, tosca, estreita, ou mesmo quando a cubra
dourado sobrecéu ou linda umbrela rubra,
de vinhático seja ou de atra cabiúna,

Feliz é quem dormiu sem remorsos nem susto
na cama paternal, do respeito mais justo,
onde nascem os seus e onde a morte os reúna.

***

Autor: José María de Heredia
Tradutor: Heráclito Viotti
Ano: 1901
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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O Leito

Pertença à gente pobre ou de fidalga estema,
Tenha o aspecto de um ninho ou de uma sepultura,
Nele se perpetua a humana criatura:
Da descuidosa infância à velhice suprema.

Duro, frio, funéreo — onde alguém sofra e gema;
Ou florido, nupcial; d'imácula brancura,
Nele tudo se apaga, assim como fulgura:
Da primeira alvorada, à luz de um círio extrema.

Modesto, humilde mesmo, ou do dossel altivo
Triunfalmente pintado à púrpura e ouro vivo;
Seja, embora, de pinho ou preciosa madeira,

Venturoso é quem pôde adormecer, sonhando,
No leito paternal macio e venerando
Que, foi berço dos seus e estancia derradeira.


***

Autor: José María de Heredia
Tradutor: Carlindo Lellis
Ano: 1901
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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O Leito

Sob um fino dossel de sarja ou de brocado,

Triste como uma tumba, alegre qual bulhento
Ninho, nele o homem nasce e repousa o cansado
Corpo — criança, pai, mãe de seio opulento.

De morte ou de himeneu, do hissope abençoado,
Sob a imagem do Cristo ou sob o ramo bento,
Nele começa tudo e tudo é terminado,
Do vagido primeiro ao derradeiro alento.

Humílimo que seja ou seja, num esforço,
Feito de erable fino ou feito de um robusto
Carvalho, pincelado em ouro, ou de outra sorte,

Feliz quem repousar, sem medo e sem remorso,
Pôde no leito em que viram os seus, sem susto,
O alvorecer, da vida, o anoitecer da morte!


***

Autor: José María de Heredia
Tradutor: M. Viotti
Ano: 1901
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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O Leito

Que seja de brocado ou sarja a sua umbela,
Triste como uma tumba; ou ninho prazenteiro,
É nele que o homem nasce e descansa o ano inteiro,
Criança, esposo, ancião, avó, mãe ou donzela.

Funéreo ou nupcial, quando a hissope o pincela
Sob o ramo bendito ou o negro cruzeiro,
Tudo nele começa e tem seu paradeiro,
Do primeiro arrebol à luz da última vela.

Pobre, tosco, cerrado, ou, do laquear, vaidoso,
Triunfalmente dourado ou de rubro glorioso,
Que seja de harto roble,—  cipreste ou acer brando;

Ditosos quantos dormem e em tempo algum temeram
No leito paternal, maciço e venerando,
Onde todos os seus nasceram e morreram.

“O Pão Maldito”, de Guy de Maupassant (Poema Traduzido)


Autor: Guy de Maupassant
Tradutor: Silvestre Lima
Ano: 1901
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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O Pão Maldito


Abençoado há um pão, —  esse que sem alarde,
Mas, com valor da terra é preciso arrancar.
É o pão do trabalho, o que aos filhos, à tarde.
O pai risonho traz, quando recolhe ao lar.
Mas, outro há que nos deixa acre e eterno resquício
Nos lábios, pão que o inferno espalha em profusão.
Filhos, deste fugi, pois que é o pão do vício!
Meus filhos não toqueis nesse maldito pão!

Respeite se o infeliz que, já de forças falho
Pelos anos,  — nos pede uma esmola, a gemer.
Despreze-se, porém, o que foge ao trabalho
E ousa a valida mão a quem passa entender.
Quem assim pede rouba ao que tombou na liça,
Exausto e velho, e dorme esfalfado no chão.
Vergonha a quem assim nutre o pão da preguiça!...
Meus filhos, não toqueis nesse maldito pão!...

Costureira gentil, mesmo, onde estás, marulha
A onda, e chega-te aí mesmo a voz do sedutor....
Pobre criança, vá!... Não desprezes a agulha!
Pensa que és de teus pais o seu único amor.
No luxo torpe e vil, como acharás encanto,
Quando a te maldizer teus pais expirarão?
É o pão da desonra, amassado com pranto...
Meus filhos, não toqueis nesse maldito pão!


***

Autor: Guy de Maupassant
Tradutor: Bento Ernesto Junior
Ano: 1901
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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O Pão Maldito

Há um pão santo que na terra brota
Regado aos poucos com o suor do rosto
Pão do trabalho, que alimenta os pobres
Dá-nos vigor, consolação e gosto.
Mas outro existe que a infâmia amassa
E o inferno serve descaradamente...
No pão do crime não toqueis, meus filhos,
É pão maldito que envenena a gente!

Socorro ao pobre que, curvado de anos,
Pede a quem passa piedosa esmola.
Tristes velhinhos que a desgraça esmaga....
A caridade o próprio Deus consola.
Mas, nunca o obreiro preguiçoso e mau
A mão estenda aviltadoramente.
É pão de crime! Não toqueis, meus filhos,
É pão maldito que envenena a gente!

Gentil criança, costureira escuta:
Não sigas nunca as seduções do mundo;
Ouve os conselhos de teus pais amigos
Porque a desonra é um lodaçal profundo....
Todo esse luxo que te embriaga a vista
Em si contém a podridão fremente.
No pão do vício não toqueis, meus filhos,
É pão maldito que envenena a gente!

“O Estrangeiro “, de Sully Prudhomme (Poema Traduzido)


Autor: Sully Prudhomme
Tradutor: Antônio Sales
Ano: 1907
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)


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O Estrangeiro

Pergunto muita vez: De que raça és nascido?
Nada há que tenha o dom de prender-te ou encantar-te;
Nada que o pensamento e os sentidos te farte;
Fazes supor que um bem infindo te é devido.

Que paraíso, entanto, hás tu jamais perdido?
De que causa superna empunhaste o estandarte
Para ver só miséria e vício em toda a parte,
Que virtude e beleza inatas te hão nutrido?

À saudade de um céu, que eu entrevejo obscuro,
Ao meu tédio divino, uma origem procuro,
Que em meu peito de argila indistinta se some...

E das dores que exprime a espantar-me o primeiro,
Sinto chorar em mim um sublime estrangeiro
Que sempre me ocultou sua pátria e seu nome.

“A Ianthe”, de Lord Byron (Poema Traduzido)


Autor: Lord Byron
Tradutor: Francisco Jose Pinheiro Guimarães
Ano: 1907
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

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A Ianthe

Nem nas plagas, em que eu vaguei por último,
Onde a beleza sem igual foi sempre;
Nem nas visões, que ao peito trazem formas
Que ele só sente em sonhos haver visto,
Nada ideal ou real, como tu, viu-se:
E inda tendo-te visto em vão tentara
Eu pintar essas graças variadas,
Como os reflexos seus; pois sendo fracas,
Para quem te não vê, minhas palavras,
O que havia eu dizer a quem te observa?

Ah! possas sempre ser o que és agora,
E sem faltar da tua primavera
À promissão, figura ter tão bela
Como um ardente coração e puro,
Na terra imagem do amor sem asas,
E ingênua mesmo além das esperanças!
Em ti aquela que ora terna alinha
Tua juventude, cada vez mais lúcida,
De seus futuros anos vê o Íris,
Cujo matiz celeste espanca as mágoas.

Jovem Peri do Poente! eu tenho a dita
De minha idade ser da tua o dobro;
Imóveis, sem amor, te veem meus olhos;
Vejo a salvo crescer, brilhar tuas graças.
Feliz! pois declinar não hei de vê-las;
Mais feliz porque, quando jovens peitos
Sangrarem todos, há de o meu isento
Ser da sorte, que os olhos teus reservam
Aos que virem coroado o seu assombro;
Mas seguido das penas infalíveis
De Amor, mesmo nas horas mais ditosas.

Teus olhos vivos, como os da gazela
De afoito brilho, de formoso pejo,
Que vencem móveis, e deslumbram fitos,
Lança-os sobre estas páginas, e a meus versos
Ah! não queiras negar esse sorriso,
Pelo que eu suspirara em vão, se fosse
Para ti mais do que um sincero amigo.
Concede-me isto só, cara donzela,
Nem me perguntes porque a ti tão jovem
Os meus carmes entrego; mas consente
Que entre em meu diadema um lírio puro.

Destarte aos versos meus se une teu nome;
E enquanto houver de Harold quem para as páginas
Olhe benigno, nelas consagrado
De Ianthe o nome sempre há de o primeiro
Ser contemplado, e o último esquecido:
Quando eu já não viver, se esta homenagem
Levar os dedos teus de Fada à Lira
Deste, que te saudou, como a mais bela,
Não pode mais querer minha memória,
E ainda que a esperança a mais não chegue,
Poderia a amizade exigir menos?