quinta-feira, 20 de abril de 2017

O Porto, de Heinrich Heine

O Porto
De: Heinrich Heine
Tradução: Fritz Ney

Venturoso o mortal! Ditoso o homem
que, depois de afrontar sereno e forte
todos os riscos do mar enfurecido,
logra chegar ao anelado porto,
e bem tranquilo e já destemeroso,
no Ratskeller, abrigado, senta-se,
da cidade de Bremen!

Oh! quão grande e quão formoso
o mundo Se me antolha refletido
no cristal de Roemer transbordante,
e como vário e rico microcosmo
no saboroso líquido espumante
baixa a calmar o coração sedento!
No fundo do vaso,
múltiplas coisas vejo;
passam ante meus olhos, confundidas
as raças velhas e as raças novas,
turcos e gregos, Hegel e Gans juntos,
bosques de limoeiros olorosos,
marciais e brilhantes formações,
Hamburgo e Tunes e Berlim e Schilda,
e sobre tudo o rosto da bem amada,
sua angélica cabeça
fina e dourada como o vinho do Reno.

Oh! quão formosa, quão formosa és, minha amada!
Tu és como uma rosa:
não qual a rosa de Schiraz, a terna
paixão do rouxinol que Hafim cantara
com doce som em cálidas estrofes.
não qual a rosa de Sarão triunfante,
que cantaram os bíblicos profetas;
tu és como a fresca e linda rosa
do Ratskeller de Bremen,
a rainha das rosas; mais fragrância,
quanto mais vive, a corola exala.
e o divino aroma, de delícias
encheu meu peito, levantou meu espírito,
de tal sorte embriagando os sentidos
que, se não houvesse sido pela ajuda
do dono do Ratskeller, pronto e firme,
talvez houvesse rodado pelo soalho.

Oh! excelente varão, oh, fiel amigo!
Sentados à mesa nós dois, juntos.
bebemos como bons irmãos.
esquadrinhamos as mais altas coisas,
os mais fundos segredos,
muitos mistérios e enigmas da vida:
nossos suspiros ambos confundimos
ternamente abraçados,
infundiu-me eloquente com suas frases
a fé que no amor tinha eu perdido,
e bebi pela paz e pela dita
de meus escondidos inimigos.
e perdoei a todos os poetastros,
pois eles por sua voz me perdoaram,
e tão devoto me senti e contrito
quo se abriram já as portas dos céus,
permitindo-me ver os doze apóstolos,
as sagradas barricas,
quo o bem predicam silenciosamente
com linguagem, não obstante, luminosa,
para todos os povos
Eles, sim, que são homens!
Por fora tão simples e tão modestos
em seus trajes obscuros do madeira,
e por dentro mais belos e radiantes
que os levitas duros sombrios
dos bem sagrados templos,
mais quo os engrilados cortezões
do rei Herodes quo se vestem do ouro
e ornam seu corpo com sangrenta púrpura.
Já sempre tinha ou dito
que o Salvador do mundo
não viveu nunca entre grosseiras gentes,
senão entro ilustre o nobre companhia.

Aleluia! Aleluia!
As palmas de Betel fendem os ares,
e a mirra do Herão, de aromas encho-os,
e o sagrado Jordão, o claro rio
ao arrastar as ondas cristalinas
estremece do júbilo,
vacila em sou curso. E minha alma,
imortal, e presa desses júbilos,
estremece e vacila, e ou com ela,
e quando aponta no oriente o dia,
meu nobre amigo, dono
do abrigo Ratskcllor de Bremen,
vacilante também, com passo trôpego,
me ajuda a que ou suba a escadaria.

Oh! insigne taberneiro! Vem o mira!
Sobre os atos das velhas casas
Os anjinhos estão todos sentados;
bêbados cantam, cantam e se riem
Tão roxinho está o sol, quo se parece
ao nariz bom purpúreo de um borracho,
com marcha indecisa,
ébria também, gira, em derredor a terra.

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