terça-feira, 18 de abril de 2017

Os sinos, de Edgar Allan Poe

Os sinos
De: Edgar Allan Poe
Tradução: Manuel de Souza e Azevedo

OS SINOS DE PRATA
Ouve... passa um trenó  batendo o sino.
Claro, argentino,
Em tênue som de álacre  melodia,
Vai batendo a tinir e vibra e oscila,
Se agita e oscila pela noite fria.
Entanto no alto límpida cintila
A Via Láctea num fulgor divino,
E constelando o céu em luz palpita
Seguindo num deleite cristalino,
Em ritmo musical o tempo esquivo,
Que vai correndo fugitivo,
Na trepidação do sino que se agita,
Trepida e oscila, tine e palpita,
Palpita e tine,
Tilinta e tine, tine e tilinta,
Tine e retine
Tine e tilinta.

OS SINOS DE OURO
Ouve... passa um noivado. Os sinos de ouro 
Batem todos em coro, 
E o tom sonoro de feliz agouro 
Mil venturas vibrando prenuncia. 
Vão pela noite, límpida e encantada, 
Soltando ao vento um vento de alegria.
Em áureas notas liquida ressoa 
Essa canção de amor, que no ar flutua, 
Enquanto a noiva, contemplando a lua, 
Sonha enlevada. 
Como na torre o som vibra e reboa, 
E se avoluma quando à terra desce, 
Sobe ao céu e recresce! 
Como em tom augural todos palpitam, 
Na exaltação em que no ar se agitam,
Todos a badalar carrilhonando. 
Carrilhonando, ecoando, ecoando
Ecoando, ecoando, 
O compasso em cadencia dando, dando, 
Alto, mais alto, dando, dando, dando! 

OS SINOS DE BRONZE 
Ouve... é o sino de bronze. Toca a fogo 
E ulula e brame em lúgubre regougo. 
Em sua turbulência que terror 
Se espalha num clamor! 
na tormentosa noite despertando 
Os ecos vêm, no bronze badalando. 
No atropelo não pode modular 
Nem compassar o som! 
Brados vão em tumulto pelo ar, 
Sem cadencia, nem tom, 
Pedindo num clamor clemência ao fogo. 
Mas a súplica é vã que é surdo o fogo. 
E crepitando em salto. 
Livre de todo o freio, 
A chama vai, alto, alto, alto, mais alto, 
Num resoluto anseio 
De agora ou nunca mais ao céu chegar; 
Enquanto os sinos a tocar, 
A tocar, a dobrar, 
Clamam num brado uníssono de dor, 
Desespero e pavor. 
Em rebate, dobrando, badalando 
Um grito de terror voa ululando, 
E o rugido do bronze, ecoando, ecoando 
Bradar ao longe até parece 
Que o fogo aumenta ou se amortece 
E que o perigo cede ou cresce 
Bramindo a voz do bronze o seu clamor 
Espalha ao longe; 
Ulula e ecoa, em lúgubre clangor, 
Ao longe, ao longe, 
Ao longe, ao longe, ao longe, ao longe, 
Ao longe, ao longe. 

OS SINOS DE AÇO 
Ouve... O sino dobrando, o sino de aço. 
Espalha pelo espaço 
Um tom solene em um lento compasso. 
E pela noite silenciosa e triste 
Flutua e vibra o som. 
Como persiste 
Melancólica ameaça no seu tom! 
Todos os sons que estrugem 
No seu côncavo rubro de ferrugem 
Não passam de um gemido. 
Sineiro solitário, 
No alto do campanário, 
O coração de certo empedernido, 
Vai dobrando, dobrando, badalando, 
Vai dobrando, dobrando, 
Vai dobrando a finado 
Num monótono tom lento e abafado 
Seu coração gelado e indiferente. 
Não é humano, não! Nada mais sente. 
Um fantasma parece 
E mecanicamente 
Vai batendo, batendo, vai tangendo 
O sino lentamente, 
Num sussurro monótono de prece, 
Num compasso monótono de réquiem, 
E se avoluma o réquiem 
No côncavo do sino, que estremece, 
Que balança e palpita 
Que geme e que se agita, 
Na cadencia do ritmo batendo 
Batendo, soluçando, esmorecendo,
Ao longe, além, além. 
Batendo lentamente, 
Ininterruptamente, 
Em continuo compasso, 
O sino de aço 
Vai batendo, batendo, vai batendo. 
Lento espalhando, lento, passo a passo, 
Além, além, além 
gemido, um soluço pelo espaço 
Além, além, além, além além, 
Além, além. 

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