quinta-feira, 20 de abril de 2017

Traduções livres de Heine por Maria Amália Vaz de Carvalho

De: Heinrich Heine
Traduções livres, por: Maria Amália Vaz de Carvalho

I
Pescadora gentil, nauta graciosa
Deixa que à terra o barco teu se acoite
enquanto cariciosa,
Do alto dos céus tranquilos, desce a noite!

Dá-me essa mão crestada e pequenina,
— Pomba quo sinto inquieta a palpitar; —
No meu peito, sem medo, a face inclina!...
Tens por ventura medo ao bravo mar?...

Pois Como ele, que impávida tu sondas
Dia a dia, tal é meu peito insano!...
Tem tormentas, marés, voragens, ondas,
E pérolas no fundo como o Oceano!...

II
Envenenaste a fonte dos meus cantos,
E como havia de não ser assim
Se a mocidade e os êxtases santo
Tu corrompeste para sempre em mim?!...

Nunca mais cantarei canções dolentes:
— Rosas nascidas no ideal jardim
Da minha juventude enamorada —
Fez-se o peito um ninho de serpentes!...
E como havia de ser assim,
se és tu quem vives nele, ó minha amada!...

III
Quando escuto saudosa e rediviva,
A doce voz do meu amar d'outrora,
Uma lenta amargura corrosiva,
Me entra no coração, que devora!...

E uma ansiedade súbita, instintiva,
Me leva então às ásperas montanhas,
Onde perpassam virações estranhas
E onde pendura os ninhos o condor;
E ali, na solidão, desfaz—se em lágrimas
A minha imensa, incomportável Dor!...

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