quinta-feira, 25 de maio de 2017

A Literatura na minha geração


A Literatura na minha geração
Texto escrito por Sangirardi Júnior, em 1923. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Nós somos uma geração perdida no limiar de dois mundos diferentes. O mundo do passado, cuja segurança e serenidade mal chegamos a provar na voz das últimas cantigas de berço. Sobre esse berço não brilharam estrelas propícias: roncaram os aviões de bombardeio, voaram os corvos da guerra. Chegava até nós o rugido dos canhões de 14. Era já o desassossego do mundo de hoje, mundo que se debate no caos econômico, despedaçado pelas guerras, aterrado pelos povos que assentam o seu prestígio sobre uma montanha de ossadas e de obuses — época que ouve a marcha surda dos "chomeurs" pelas ruas das grandes capitais, e em que os balizas do trágico carnaval totalitário atiram os seus "tanks" e as suas colunas motorizadas contra as últimas cidadelas da cultura.
Geração sacrificada, escolhida pelo determinismo da história para assistir ao encontro de duas épocas na mesma época, ela caminha de pés sangrando. É o drama de Hermann Hesse. São milhares de lobos da estepe uivando de ódio e de dor na mesma planície desolada.
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Na infância e na mocidade nós ouvimos a lição dos velhos, nós fomos educados pela geração de antes da guerra.
Aprendemos a exaltar mediocridades e a transformar imbecis em gênios e bandidos em heróis. Consagramos lugares-comuns como dínamos do pensamento, decoramos frases latinas, folheamos calhamaços inúteis, consideramos que Dom Pedro II sabia hebraico, desprezamos Voltaire e tivemos nojo de François Rabelais, admiramos Rui Barbosa e odiamos Antônio Torres, batemo-nos por causas injustas, aceitamos mentiras, escrevemos coisas suficientemente sujas — mas fomos sempre idiotas e safados por culpa daqueles encarregados da nossa formação. No fundo. Unhamos os nossos entusiasmos sãos, a nossa lucidez nas revoltas, a nossa intuição nos protestos — e foi inutilmente que tentaram nos corromper. O nosso instinto adivinhava que eles falavam de um mundo que ruía com fragor.
Várias vezes ficamos sem recreio por não saber em que ano César foi assassinado ou por ignorar que a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a dois ângulos retos. Mas, depois que tiramos o nosso diploma, com parabéns e discursos, atirados em contato com a realidade, vimos que a data do assassínio de César não nos arranjava um emprego e que o teorema geométrico não impedia a existência do fascismo na Itália. E, pouco a pouco, fomos abandonando ao longo da marcha penosa a quinquilharia inútil com a qual nos haviam enchido a valise.
Agitamos, ferimos e fomos feridos, tomamos parte em conflitos, demos tiros nas ruas, bebemos e amamos. E fomos sempre explorados. O nosso entusiasmo moço e a nossa energia que necessitava de uma aplicação, serviram de trampolim a indivíduos sem escrúpulos, sem cérebro e sem coração.
Depois nos regeneramos.
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E tivemos um trabalho enorme para esquecer o que havíamos aprendido.
Assistimos ao esboroamento de uma velha cultura. Debatendo-nos de encontro às paredes ambientes, nossa atitude é de defesa e de ataque. E a diferença que vai do erudito ao intelectual e do literato ao escritor é a mesma que existe entre os que têm consciência do século em que vivem e a "trahison des deres".
O desnorteamento da hora que passa trouxe para a literatura essa negação da personalidade tão viva em Pirandello e em Aldous Huxley.
Mas o que mais caracteriza esta geração é a amargura triste, o risco desabusado, a coragem de derrubar ídolos, arrancar deuses dos nichos, deitar por terra as figuras empalhadas dos museus e as estátuas desprestigiadas: uma atitude de revolta e de desprezo. Ela está na mordacidade de Pitigrilli, no riso de Jardiel Poncella e na inquietação de llya Erhemburg.
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A geração de antes da guerra morria de amor infeliz. A geração de após guerra morre nas barricadas ou tomba nas ruas em madrugadas sangrentas.
O escritor é uma antena nervosa que recebe as vibrações da massa. Mil problemas preocupam a sua atenção. Seus olhos se voltam para as garras do imperialismo, os gemidos da fome, a partida de mais uma leva de carne para canhão, a terra cinzenta revolvida pelas granadas e eriçada de baionetas. A terra não é mais banhada pelos luares do romantismo: é inválida pelas imprecações e pela fumaça das batalhas. À beatitude de Lamartine sucedeu-se a angústia de Remarque.
Antigamente vivia-se numa torre de marfim. Nós vivemos em contato com a multidão e trazemos, palpitantes de vida, os elementos da mesma tragédia colossal.
Primeiro os poetas tomavam bebedeiras sentimentais e tossiam desventuras. Hoje os poetas marcham para os campos de concentração ou são assassinados como o moço Garcia Lorca.
Eles escreviam sonetos. Nós escrevemos manifestos. Nós estamos fazendo, na literatura, a síntese de uma grande luta dialética.

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