quinta-feira, 25 de maio de 2017

Romantismo e Tradição


Romantismo e Tradição

Texto escrito publicado em 1924. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica é de Iba Mendes (2017)

O volume de Pierre Lasserre sobre o romantismo francês, constituiu durante muito tempo o manancial mais autorizado de todo um grupo de críticos e pensadores, para os quais uma revisão completa dos valores do último século parecia mais que indispensável, da maior urgência. Para esses críticos e para esses pensadores não havia fugir à tese defendida pelo autor do Le Romantisme Français. Nela era sustentada sobretudo a necessidade de um retorno à tradição clássica. Mas a dificuldade para a aplicação de suas conclusões, decorria precisamente dessa afirmação, que é a sua razão de ser. Ninguém se entendia sobre o significado real da palavra classicismo. Essa palavra foi o ponto de discordância dos críticos que aceitaram de bom grado a excomunhão do "estúpido século". Cada qual era clássico à sua maneira, a reação clássica chegou mesmo a ser moda em Paris, essa terra que bem podia se chamar o Planalto de Pamir de todas as modas. Mas o móvel primitivo dessa reação, não tardou a perder-se e desaparecendo o ponto de partida que era a consciência da necessidade de uma revisão total de valores de um século, tal reação perdia por isso mesmo toda a sua significação, — os críticos já haviam tentado, e com sucesso, essa revisão de valores. Passou-se então a proceder, não já a uma revisão de valores, mas à negação completa dos valores do século passado. A tese antirromântica comportava desde o princípio uma série de antíteses. Perdida agora a sua maior força, a sua razão de ser, as antíteses ganharam adeptos e o propósito inicial voltou a preocupar os espíritos. A tese de Lasserre não continha tudo o que se poderia dizer sobre o assunto. Além disso, o positivismo mal disfarçado ou mesmo abertamente confessado, o doutrinarismo excessivo, a injustiça até e a estreiteza do dogma não convinham a certos espíritos ansiosos por encontrar um ponto de vista mais amplo, onde pudessem se mover com uma liberdade que não oferecia a tese. A reação contra o antirromantismo é ainda bem recente, mas os seus aspectos não deixam de ser mais variados e sobretudo menos estreitos que os da teoria de Lasserre. A convicção de que o romantismo não é somente um dos seus momentos e que, ao contrário, tem subsistido através de todos os séculos ao lado ou como intermitente de uma tradição clássica, uma tradição romântica, não menos respeitável, é um dos fortes argumentos com que conta a nova reação. O século passado não creia, antes continua uma tradição.
Para a vitória desse ponto de vista, uma das contribuições mais interessantes que ultimamente foram trazidas, é a recente polêmica entre os dois críticos ingleses T. S. Elliot e J. Middleton Murry, iniciada no ano passado na revista londrina The Adelphi e prosseguida com ó artigo deste último no número de abril deste ano de The Criterion. É fácil calcular a importância da contribuição dessa polêmica no movimento moderno das ideias, pelo valor inegável dos dois espíritos que nela se empenharam. Estética que apesar de mover-se por um impulso nitidamente nacional, e talvez por isso mesmo procurará dar aos seus leitores uma resenha de todas as tendências modernas do pensamento, lamenta não poder transcrever por inteiro o notável artigo de Middleton Murry limitando-se a dar um ligeiro resumo.
A convicção profunda do autor de The Problem of Style é que a tradição do romantismo é tão elevada e tão sublime com a tradição do classicismo e que na presente condição da consciência europeia "é de uma importância mais imediata para nós." Para mim, diz ele, a questão de fundamental importância é a questão da relação entre a literatura e a religião. E é em torno dessa questão que gira todo o seu artigo do Criterion. O crítico chega a supor entretanto que o esplendor do espírito religioso, no sentido dogmático, não coincide com o esplendor de uma literatura e que a contrário, um está na razão inversa do outro. É possível mesmo que a decadência da religião dogmática, devida à impossibilidade de exprimir uma realidade religiosa e de satisfazer aos impulsos religiosos do espírito, seja uma condição indispensável para que a literatura venha a florescer. É possível que chegue uma época em que os espíritos mais subtis sejam levados a ser da Igreja, mas sem pertencer a ela: precisamente pelo fato de serem profundamente religiosos, trabalham em completa independência do que passa por religião em sua época. O romantismo é para ele alguma coisa que sucedeu à alma europeia depois do Renascimento, e o fato essencial do Renascimento é que o homem afirmou a sua completa independência de uma autoridade espiritual externa.
"Homens que desde muito tempo se irritavam contra as contrições impostas por uma religião estabelecida e onipotente, que perdera o contato com a alma individual, pela mera magnitude de sua organização ganharam confiança nos seus próprios impulsos, graças à revelação inesperada de uma época anterior à sua." Época em que o espírito florescia livre daquelas contrições e em que homens como eles viviam sem o terror constante da morte e da vida futura. Para se avaliar o que significou para os homens o Renascimento, o crítico cita a famosa estrofe de Villon, que é como que o grito profundo da humanidade nas "épocas obscuras":
"Dites moi ou nen quel pays
Est Flora Ia belle Romaine
Arquipiada ni Thais
Qui fust sa cousine germaine?"

Para aqueles homens, "Flora a bela romana" nem Arquipiada nunca tiveram uma existência real. "Nada havia para Villon além do presente, e das sombras da Igreja e da condenação da Igreja pairando sobre todas as coisas." O âmbito do espírito humano estava circunscrito.
Assim a Renascença pareceu por um momento o fim do terror. "O indivíduo podia de novo permanecer só, após mais de dez séculos. Galileu construiu o seu telescópio e descobriu que a terra se movia em torno do sol. Foi essa a grande descoberta simbólica da Renascença. E a obra de Shakespeare é a reação do espírito profético diante da descoberta." A descoberta de Galileu era apenas "o sinal visível e exterior de um acontecimento interior e espiritual, acontecimento que naturalmente agiu sobre a alma de Shakespeare. O Homem não era o centro do Universo e sentia-se isolado em face de seu destino. A consciência moderna começava a pesar sobre os homens." A base da consciência moderna está nisso, que o indivíduo se coloca aparte e isolado, "sem o apoio de nenhuma autoridade, e procura julgar por si mesmo da vida de que ele é uma parcela." A consciência moderna é em sua base uma consciência de rebelião; ela começa com a exigência de que a vida deva satisfazer o sentimento individual de justiça e de harmonia. A essa exigência se opõe o cristianismo ortodoxo e dogmático, para o qual a injustiça e o terror serão redimidos numa vida futura. A consciência moderna começa historicamente com o repúdio do Cristianismo organizado; começa com o momento em que os homens encontraram em si próprios a coragem para duvidarem da vida futura e para se libertarem de suas ameaças, a fim de viver esta vida mais amplamente. O brasão da consciência Ocidental desde a Renascença resume-se nestas palavras: "só é verdadeiro aquilo que eu sei que é verdadeiro". As várias fases da consciência moderna estão marcadas pelas respostas às perguntas: "para que existo eu?" e "quais os objetos que pôde abranger o meu conhecimento?”
Houve sempre dois grandes tipos de respostas à última pergunta, e são: "conheço o mundo exterior" e "conheço-me a mim mesmo". Em qualquer momento da história da humanidade, uma ou outra costuma predominar. Porque elas correspondem a duas espécies de conhecimento. O conhecimento do mundo exterior é um conhecimento em que operam as leis de causa e efeito; é um conhecimento racional de um mundo de necessidade, onde as condições totais em um dado momento, são totalmente determinadas pelas condições totais no momento imediatamente anterior. A liberdade está ausente nesse mundo e, de fato, nenhuma liberdade é reconhecida. O conhecimento do "eu", por outro lado, ou, como se pôde dizer por uma questão de simetria, o conhecimento do mundo interior, não é dirigido pelas leis de causa e efeito, é um conhecimento irracional, imediato, de um mundo de liberdade onde as condições totais em um dado momento nunca são totalmente determinadas pelas condições totais no momento anterior. A necessidade é uma ficção nesse mundo, e de fato, nenhuma necessidade é reconhecida nesse mundo.
"Ambas essas espécies de conhecimento são conhecimentos. É tão impossível para mim negar que dois mais dois fazem quatro como negar que eu sou livre." Mas são conhecimentos diferentes e mesmo irreconciliáveis. "Um procura se completar pedindo que o mundo interior seja da mesma substância e sujeito às mesmas leis que o mundo exterior, que a minha alma integral e inviolável seja uma parte do mundo de necessidade, o que parece absurdo. O outro procura se completar, pedindo que eu conheça o mundo exterior imediatamente como eu me conheço a mim mesmo, o que parece impossível." É esse o grande paradoxo da moderna consciência, paradoxo que é, de fato, muito mais antigo que o Renascimento. "É universal e eterno no espírito humano." Neste momento, depois de altos e baixos em que tem vivido a humanidade contemporânea, "nós começamos a suspeitar que o paradoxo da consciência moderna chega à sua lenta solução."
É preciso todavia insistir nisto, que "em primeiro lugar esse paradoxo, constitui um problema religioso, ou, mais exatamente, o problema religioso o único problema religioso — e, em segundo lugar, que a moderna literatura, desde a Renascença até hoje se têm ocupado sobretudo com ele."
Agora é claro, devido à verdadeira natureza do paradoxo, que não é concebível nenhuma solução intelectual. O fato primário é a consciência que o homem possui da sua própria existência, seu conhecimento da sua própria liberdade, e esse conhecimento é um conhecimento irracional. O homem não pôde negar nada do que faz, simplesmente porque ele será obrigado a negar a sua própria negação. Não pôde realmente se mecanizar e se tentar fazê-lo, ele se enganará a si próprio. A tentativa para encontrar uma resolução no mundo esterno, sub specie necessitatis, é condenada ao insucesso. Portanto a solução deve ser procurada no mundo interior, sub specie libertatis. Em outras palavras o homem é inevitavelmente levado a procurar por uma compreensão não-racional do mundo. Ele não pôde se socorrer a si mesmo; ele precisa encontrar a harmonia; ele não pôde viver em rebelião; ele necessita reintegrar-se na vida. Desse modo vemo-lo prender-se na literatura a esses momentos de profunda apreensão:
"When ali the burden and the mistery
Is lightened and.
We see into the light of things."

"A realidade de tais momentos de apreensão, é indiscutível para aquele que apreende; a qualidade de visão parece-lhe indubitável. Nesses momentos ele conhece o mundo tão claramente como a si mesmo."
Essa apreensão pôde ser chamada apreensão mística, e não é um erro afirmar que a característica realmente distintiva do "movimento romântico" é precisamente essa solução mística do paradoxo. "Toda a obra de Rousseau baseia-se nela, que constitui por outro lado o centro criador de Wordsworth, Shelley, Keats e Coleridge. O mais verdadeiro e o mais profundo conhecimento que eles encontraram dentro de si próprios realizou-se sempre em um momento de imediata apreensão da unidade do mundo." Eles sentiam que o mundo exterior não era sujeito à lei racional de necessidade; era um organismo que eles conheciam tal como conheciam a vida existente nele. E há de parecer estranho, que a sua apreensão deva ser também de certo modo, uma apreensão de necessidade: da necessidade de que aquilo que eles vêm deva ser assim e não de outra fôrma. Mas isso só parecerá estranho porque nós vivemos hipnotizados pelas palavras e parece-nos difícil imaginar que existam duas necessidades assim como dois conhecimentos. Existe a necessidade do mundo inanimado concebido pelo intelecto, que é a necessária dependência do efeito com relação à causa, v existe a necessidade do organismo vivo, apreendido imediatamente, uma tendência para seguir sua própria lei interior de vida. A visão "mística" é uma visão de necessidade orgânica.
Semelhante resolução do grande paradoxo é para Murry o característico essencial do chamado movimento romântico. "Não é preciso dizer que constitui uma resposta profundamente religiosa a uma questão também profundamente religiosa." Quase todos os verdadeiros românticos formulam essa "percepção de necessidade orgânica como uma percepção de Deus." Será pelo menos uma anunciação do divino, supõe o articulista.
Toda a época em que domina a chamada consciência moderna é, pode-se dizer, uma época romântica. O curto per iodo a que geralmente damos esse nome, não é mais que um pequeno segmento de uma grande curva: romantismo dentro do romantismo. O autor do "Probleme of Style" cita sobretudo Shakespeare como profeta da "moderna consciência". E diz: "Antes de Shakespeare, a história espiritual do homem — refiro-me somente ao Ocidente — está compreendida dentro da Igreja; com ele, transborda da Igreja."

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