quinta-feira, 25 de maio de 2017

O que há de errado na nossa Literatura Moderna


O que há de errado na nossa Literatura Moderna
Texto escrito por  Martins, em 1939. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Seria uma banalidade repetir que a literatura estava se tornando um emaranhado de falsidades que o modernismo acabou. O modernismo, de certo jeito, foi outro emaranhado de falsidade. Hoje não se sabe bem o que quer dizer modernismo, tanto é efêmera e relativa a mística das classificações. Quem é moderno? Quem não é moderno?
Por muitos aspectos os movimentos modernistas não passaram de verdadeira s manifestações do século XIX, porque foram a exaltação do indivíduo. Esse indivíduo era o "homem moderno", com as suas impasses de cultura, a sua coragem esportiva, a sua inquietação permanente, a sua linguagem modificada pela mecânica, o seu tédio melancólico e a sua loucura jovial.
O fato, entretanto, é que passamos o momento lúgubre em que os nossos escritores se compraziam em compor artificialmente uma literatura de caroços. Vencemos também o período anárquico da reação, a hemorragia dos manifestos.
Como nas revoluções políticas, os vencedores de ontem começaram já a estabelecer uma nova burguesia intelectual, uma volta voraz ao academismo (clara ou disfarçada em eufemismos sucedâneos) a criar uma nova ordem, uma nova disciplina e o culto de novos tabus.
As consequências do movimento foram de tal forma consideráveis, que seria ingênuo estabelecer os limites de sua extensão. Pode-se dizer que ele passou a mentalidade brasileira a limpo. Mas, como todas as revoluções, trouxe detritos nas águas turvas. É que toda escola oferece uma oportunidade aos medíocres.
O modernismo sofreu a influência avacalhadora dos adeptos. Como nos tempos do parnasianismo todos escreviam sonetos, no tempo do modernismo passaram todos a escrever tolices em versos livres. (Como, há coisa de uns dois anos, era moda ser escritor proletário). Tirando talvez uma dezena de nomes principais, onde estão agora aqueles rapazes que apareciam nas revistas assinando coisinhas aí por volta de 1924?
É essa a ação perniciosa das teorias, das escolas, das plêiades, das academias. É essa a influência perniciosa dos grandes escritores. Como somos um país de reflexos, assimilamos sempre a literatura de um nome solar para estabelecer a ronda saltitante dos satélites. Byron era um grande poeta, mas os "byronianos" forçaram a nota até ao ridículo pitoresco. A obra de Wilde não é má, mas a obra dos "wildianos" é péssima.. Assim também a dos "verlainianos", a dos "proustianos", a dos "pirandelianos", etc.
Sob esse aspecto, foram grandes malfeitores para a nossa intelectualidade moderna Gilde, Proust, Lawrence, a literatura proletária. Além de Péguy e Claudel, que orientaram os católicos.
Dessas influências, naturalmente a que mais se esparramou foi a da literatura proletária, em razão da nossa Índole tão afeita às emoções de superfície.
De fato, um dos defeitos maiores da literatura dos nossos dias, no Brasil, é a facilidade de construção. Os nossos romances modernos, sobretudo, ressentem-se da falta de profundidade, da ausência de análise. Temos estendido a literatura de observação direta a um excesso de superficialidade horizontal, de conformidade banal com a realidade, de cumplicidade com a vida.
O crítico francês sr. Pierre Hamp escreveu com propriedade a propósito dessa literatura de reportagem:
"L'écrivain d'enquête est obligé de toujours poursuivre son sujet dans les embuches d'un réel qui lui est étranger. Il se superpose a son oeuvre, il ne l'habite pas. II tourne autour, il n'est pas au centre et dans l'imprégnation. On voit alors Ia grande difficulté de l'art social: c'est Ia pénetration".
Uma determinada concepção de arte social tem levado parte de nossos escritores a sair de sua órbita natural de atividades, do meio em que vivem quotidianamente, para a realização de inquéritos sobre a vida proletária. Ora, toda obra de arte é social, desde que seja atual, desde que seja um reflexo do seu meio. O que é preciso é que seja feita com sinceridade. Porque o que pode comover na arte social, não é o fato dela ser social, é de ser arte.
Advirto que me refiro exclusivamente à arte social e não à arte doutrinária, ã literatura de partido. Não discuto aqui si a criação artística está ou não ligada ã posição política do indivíduo. Há quem pense aliás que pode haver uma perfeita dissociação entre as duas atitudes, a artística e a humana: o sr. Julien Benda lembra o caso de Fustel de Coulanges, ensinando que a reconstituição do passado exige a anestesia das paixões do presente; isso como historiador, porque, como homem, ele bem que participou das paixões do seu tempo...
Quanto à influência de Lawrence, ela degenerou, entre nós, numa sinistra exibição de recalques evadidos. O escritor inglês é admiravelmente puro, quase ingênuo, no próprio ímpeto pagão de sua selvageria erótica. Nada de "canaille", nenhum tom escuso de patifaria sexual. O que ele tentou escrever foi uma espécie de sinfonia litúrgica da carne, num tom misterioso de oficiante pagão.
Nós introduzimos gestos obscenos de coitos infelizes, evocações sórdidas de recalques adolescentes e bamboleios suados de sambas excitantes.
(Muita gente achará talvez que eu estou fazendo a crítica justa de meus próprios livros. De fato, alguns críticos me acusaram, no meu romance "A terra come tudo" e, principalmente no "Lapa", de exibir uma certa volúpia em pintar cenas eróticas em seus mais repugnantes detalhes. Nada mais injusto. O que me interessou naqueles dois livros, o que me levou a escrevê-los, não foi nunca um impulso sexual, mas a dor humana, a desgraça irremediável das mulheres para quem o amor não passa da tragédia quotidiana. Não tem importância nenhuma o tom da linguagem. Ele é necessário ã vida do romance, à verdade de sua estrutura. Posso afirmar que ambos são livros absolutamente puros e bem intencionados).
Uma das consequências mais sérias do modernismo foi afastar inteiramente a poesia da sensibilidade popular. De fato, o povo desconhece por completo a poesia moderna, fôrma aristocrática da literatura.
Há quem julgue isso um mal. Na verdade, não é um mal nem um bem, é um fenômeno lógico. Há uma dissociação tremenda entre a brutalidade mecânica do mundo moderno e o lirismo açucarado dos motivos poéticos tradicionais. O poeta se sente mal, quer dar o fora da vida, quer se refugiar em um país onde se fale uma linguagem diferente, onde os outros homens não compreendam e não ridicularizem as suas mensagens. A poesia moderna representa um anseio de fuga, de evasão, de não conformidade com a vida real. (Jorge de Lima na "Túnica inconsútil", em contraposição ao Jorge de Lima dos primeiros poemas; Manuel Bandeira; Adalgisa Néri — três exemplos só).
Essa poesia se transformará pouco a pouco, quando se realizar lentamente uma espécie de reajustamento sentimental entre os poetas e as multidões. Porque atualmente os poetas estão falando, para o povo, uma língua morta, grego ou latim, sem nenhuma ressonância na sua receptividade emotiva. O modernismo não deu um grande poeta popular.
O lirismo moderno tornou-se uma "voz interior", perdeu todas as suas características de interpretação de sentimentos coletivos, refugiou-se no círculo fechado de uma arte para iniciados Maçonaria literária.
Se o romance social caiu num excesso de facilidade, a poesia vai se atirando num hermetismo perigoso e solitário.
Esse divórcio entre o artista e o público caracterizou todo o esforço moderno nas letras e nas artes. Os socialistas explicam, com Plekanow, que é uma forma tímida de protesto contra a sociedade burguesa. Para eles, entretanto, passou o tempo dos protestos tímidos e, daí a literatura social dos nossos dias.
Quanto a mim, acredito que o artista é quase sempre um inadaptado, seja qual for o meio social em que viva. Quase todos os poetas, pintores, compositores, romancistas, escultores que viveram numa atitude de permanente hostilidade com a vida nunca pensaram numa revolução brusca dos valores sociais, ou encararam essa hipótese ainda com olhos sonhadores, como si se tratasse de uma utopia, um devaneio sedutor, um "motivo artístico".
A literatura moderna se caracteriza também pela sua feição de pesquisa, pela ânsia de explicar o fenômeno "homem" em função de suas próprias paixões ou da sua coletividade social. O homem passou a ser um caso clínico.
Daí a volúpia das memórias e das biografias. Daí a voracidade com que são devorados os tratados de psicologia e da rapidez com que se vulgarizou a estudo da psicanálise e está se vulgarizando o da biotipologia.
Decorre disso uma certa facilidade propicia à floração da charlatanice cultural. A vulgarização da cultura produziu a falsa cultura, panaceia que só tem servido para complicar ainda mais o estado mórbido desse frágil doente que é o homem dos nossos dias, o tão decantado "homem moderno" — domador de máquinas domado pela sua própria miséria interior...

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