domingo, 28 de maio de 2017

A nova poesia brasileira

A nova poesia brasileira: conferência de Renato Almeida

Publicado originalmente em 1929. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2017)


A natureza, no Brasil, não tem sido somente essa força de misterioso terror que amesquinha o homem, nem essa perturbação constante à obra do progresso, que entrava como a defender a barbaria nativa, mas, por sobretudo, uma inspiradora fiel do lirismo, com que o homem tem procurado exaltá-la, sofrer a sua tirania, dominai-a e vencê-la. Toda a nossa poesia brota dessa fonte prodigiosa. O seu deslumbramento nos “faz eloquentes e vibrantes. Se, porém, nos deprime, tudo é melancolia, lassidão, desânimo. O sortilégio perdura. Do êxtase dos primeiros conquistadores à emoção dos poetas modernos, a poesia tem sido o milagre supremo da terra. Do pasmo inicial, das sensações do olhar, do tacto, do gosto, do olfato, tudo novo na terra nova, até a sensibilidade nativista da poesia moderna, há por certo um longo sentimento que se transforma. A princípio é o canto à terra "estupidamente bela", depois é ao país que surge, se modifica, e começa a criar a civilização. Mais tarde, as forças humanas se incorporam e o índio romântico é um símbolo da terra, que se torna pátria. Vêm depois outros poetas, imbuí- dos agora de espírito estranho, muito metidos com gregos e romanos. Mas, nem assim, fogem à fascinação da natureza e são seus grandes cantores, ainda que por vezes o artifício prejudique a sinceridade. Os que se afastaram e se isolaram dessa emoção nacionalista, que na poesia contaminou o próprio Machado de Assis, fizeram obra incompreensível na harmonia da sensibilidade brasileira. O nosso lirismo é a magia da natureza que nos envolve e já agora nós a completamos.
Mas, se a imaginação brasileira se comove sempre diante dos mesmos motivos, como variou a sensibilidade, que hoje se reclama moderna e renovadora, para exprimir sensações mais puras e mais livres? Que transformação é essa que impõe o espírito moderno e as suas correntes vitoriosas? Não são esses poetas, novos cantores da terra, das suas lendas, da sua gente, do seu dinamismo, das suas aspirações e das suas forças numerosas e ativas? Não os há exaltados e frementes, melancólicos e ingênuos, não há mesmo os que renovam o indianismo, ansiando pela volta à selvageria, como a suprema expressão brasileira, que a cultura compromete e degrada? Onde a novidade e a diferença entre antigos e modernos, se nestes perdura o sentimento que animou seus antecessores? Onde está a poesia nova do Brasil?
Se quisesse responder a essas perguntas, de uma só vez, creio que acertaria dizendo que os modernos trouxeram ao sentimento uma consciência brasileira. Neles, o lirismo não vem do esplendor ou de melancolia, mas da união profunda com o Brasil, da intimidade que adquiriram com as coisas, do sentido intenso das suas vozes e das suas ânsias, da ideologia formadora de um espírito nacional, que se liberta de todos os entraves e se afirma decididamente. Nem o espanto inicial, com as formas do terror, nem a exaltação desordenada, nem o lamento persistente e torturado, nem a transubstanciação da terra na paisagem apenas. Haverá de tudo, mas orientado num sentido inteligente e criador. Porque a poesia moderna não é mais de pura sensibilidade, antes cerebral por excelência. Ao invés do devaneio a intenção. Procura construir, espiritualmente, o Brasil e para isso o interpreta.
Não indagaremos das muitas correntes que porfiam no mesmo esforço, pois, na finalidade comum, explicaremos a sua razão de ser, que a inquietação moderna a todas justifica. O poeta do futuro nascerá das ânsias que agora se multiplicam e aspiram a exprimir a essência fundamental da terra. Poetas dinâmicos ou sentimentais, uns exaltados pelo progresso avassalador, outros humildes, preferindo a poesia simples da gente rústica, outros ainda, sob a inspiração de Oswald de Andrade, reclamando selvageria e antropofagia, querem todos o segredo da realidade brasileira, que lhes foge sutilmente.
Se há uma constância de energia na poesia e na arte brasileira é a do sentimento nacional. O Brasil não cessa de afirmar a sua independência, o que torna o seu nacionalismo agressivo. A princípio, na colônia, a revolta é contra um só adversário, Portugal, e a agressão é o insulto, o achincalhe, a sátira, ou a exaltação do indígena e do ambiente brasileiro por poetas de feitio clássico lusitano, como Basílio da Gama e Santa Rita Durão. Com a independência, veio a vigília constante contra uma imaginária dominação estrangeira, que redobra as forças da sua permanente energia. Agora não é só a terra, mas o homem que se exalta, a sua construção, o seu espírito de barbaria, a sua alegria nova. A "luz selvagem do dia americano".
A grande transformação foi obra da inteligência. A contemplação é rara, mas longa a análise e a intenção, profunda a descoberta. O poeta novo procura as determinantes ostensivas ou obscuras do espírito nacional e se afirma pela ação. As descrições ardentes substituiu o schema, rápido e preciso. Um epigrama tem mais substância do que longos poemas e o conceito não vem mais de um enunciado prolixo, aponta-se na sugestão apenas. Seria curiosa a análise psicológica do processo, em que o subconsciente desperta aos menores choques para as associações sugeridas. Nesse particular, toda a arte moderna está animada por esse espírito geométrico, em que a imaginação se compraz apontando à inteligência os elementos fundamentais da construção. Cada palavra vem carregada de sugestões e cheia de ideias que se desdobrariam longamente. Resultam daí o simultaneísmo, que permite essas impressões de conjunto, através da superposição de muitas coisas numa mesma emoção, e o sintetismo que agrupa as mais ousadas associações em torno de um nó central. Tomemos, por exemplo, um epigrama de Ronald de Carvalho, para citar uma das fôrmas mais avassaladoras da poesia moderna brasileira. Verão. Ao invés da impressão vir de um quadro descritivo, é marcada através de alguns pormenores da natureza que, por eles, se constrói e integra no motivo: folhas de metal, que brilham na claridade; brilhos e cintilações, aroma de resinas, crepitações, zumbidos, trilhos surdos. E a nota psicológica (sintetismo) marca o ambiente — torpor, monotonia, desalento, lassidão. É uma poesia cerebral, de impressões simultâneas, cortadas e rápidas.
A renovação é espiritual. Está no tempo. Foi a guerra que modificou a sensibilidade e a civilização da máquina, prática e econômica, habituou o homem moderno a disciplinar o espírito pela síntese. A inteligência reclamou o poder de ordenar pela essência. A arte, mais do que nunca, é uma sugestão objetiva, para que o subjetivismo multiplique a fantasia criadora. Mario de Andrade, para mostrar o mistério da unidade brasileira, a tragédia da nossa vida de pátria imensa que se procura mas se desconhece ainda, assim falou ao seringueiro distante:
"Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós dois que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porém para comprar as pérolas
Do pescoçinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme:
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais...
Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!

Através de todos esses pormenores, que a poesia fixou, há um sentido intenso e profundo, que vem da intenção espiritual, que é o fundo mesmo da arte moderna. O grande choque da inovação consiste na dificuldade de perceber desde logo. Os que estão habituados aos desenhos longos e aos quadros pitoresco se comoveriam se o poeta, em numerosos versos, descrevesse dramaticamente essa história brasileira. Mas não sendo capazes da abstração, não passarão do pormenor banal, que tomam como a essência da poesia, assim tornada ridícula
Se a emoção brasileira é a mesma que fez vibrar os antigos, aparece transformada, pela inteligência pela modernidade. Antes de tudo, a poesia nova desprezou o formalismo e a liberdade da métrica e do sentido estreito da gramática lhe permitiu dominar a matéria numerosa em que tem de modelar. Dir-se-á que os antigos, nas fôrmas rígidas, criaram obras imperecíveis. Mas é que, no seu tempo, a sensibilidade a elas se adaptava sem constrangimento, quando não representavam inovações sobre os modelos passados. O alexandrino romântico já é uma conquista sobre o clássico e para nós ambos são inúteis, como as expressões de hoje envelhecerão para os homens do futuro. Acreditar nas formas perpétuas é desconhecer o ritmo universal, que, variando, nos permite a ilusão consoIadora de modificar e de criar. Só o espírito ordena o mundo e ele não se pôde limitar às fôrmas. Também não é o assunto que determina a arte pois persistiria o infecundo preconceito. É a emoção de cada tempo que a arte reflete e não se escraviza, porque é ânsia de liberdade. Por absurdo, justificaríamos a palavra de Novalis, que a suprema poesia seria aquela que nem assunto tivesse...
Vimos que o modernismo se diferencia da poesia antiga pela inteligência, que lhe dá maior liberdade. Os poetas modernos quebraram displicentes todas as fôrmas, sorriem aos cânones, desprezam e exemplo inatual e vêm com olhos próprios o espetáculo da vida. Persistindo a mesma constante lírica, transfiguram. Aproximam-se das coisas, são simples e buscam a expressão direta da realidade, que a retórica sempre evitou, deformando-a em imagens retorcidas e comparações artificiais. Vivem o real sem se transpor a planos abstratos. O poeta de hoje fala nas coisas tal qual são, citadino ou rústico, eloquente ou humilde. E essa realidade nasce da profunda impressão de poesia que sublima os motivos e os eleva à emoção humana, além das relatividades do tempo e do espaço, em que se constrói.
Duas são as grandes tendências da nova poesia brasileira. Elas não estão, porém, afastadas e não raro se encontram na mesma emoção. Essas expressões são aliás as fôrmas permanentes da nossa poesia. O entusiasmo e a melancolia. Aquele continua no fundo do espírito brasileiro e é uma constante do nosso temperamento. Esta afina-se nas cordas lânguidas da saudade, do amor infeliz, do desengano irremediável. Aquela é dinâmica, eloquente e vivaz. Esta, triste e nostálgica. Uma reclama a vida intensa e mecânica, a outra lança-se às fontes da poesia popular, ao resíduo perpétuo do nosso romantismo. Em tudo, um reflexo da inquietação brasileira. Da primeira feição, nenhum livro mais característico do que este grande poema que é Toda a América, de Ronald de Carvalho, sinfonia de todas as vozes do mundo novo, agitação fecunda das suas energias dispares e vibrantes, tumulto das forças criadoras que renovam o espírito humano, eloquência dos seus ritmos numerosos que ordenam a Civilização moderna. Ronald de Carvalho é o poeta do nosso entusiasmo e este livro um dos mais altos gritos do nosso lirismo. É certo que, também ele, nos Epigramas Irônicos e Sentimentais, que tanta influência têm tido na nossa poesia, sobretudo nos seus processos de factura e no cerebralismo sintetista, justificando o conceito de Graça Aranha, quando o chamou "criador do novo lirismo", também ele se mostra par vezes cheio de melancolia, ainda que de fundo intelectual. É também Guilherme de Almeida poeta da nossa exaltação e Raça, o poema extraordinário da magia brasileira. Mas em Guilherme de Almeida, como em nenhum outro, a maravilha é do artista. Ele sabe tocar em tudo para transformar em motivos de beleza e joga cores, massas, sonoridades com mão ágil e prodigiosa. É o poeta de todas as coisas, que delas tira um mundo de sugestões. Preocupa-lhe a alma sensorial, a essência lírica que pôde descobrir em todos os objetos para a transfiguração estética.
A poesia brasileira aproxima-se sobretudo da terra e se melancoliza. As impressões de interior, da gente pobre e miserável, das coisas humildes e singelas, são ainda muito profundas. Tudo isso se reflete no folk-lore e ele se tornou o seu grande inspirador. Lendas, superstições, fantasmagorias, toda a teoria do terror primitivo avassala ainda a alma do nosso interior. O encantamento assenhoreia-se da emoção poética. As festas, os sambas, os batuques, os ritmos sincopados da sua música se transportam para a poesia original e bárbara que aparece, criando um pathos curioso. Sem se poder falar de regionalismo, há um intenso localismo. Os poetas gaúchos cantam pampas e vida livre. Os mineiros, seus lugares, suas terras calmas das montanhas, suas cidades velhinhas, seus rios meia pataca, suas fazendas e suas rezas. Os baianos, a agitação da Bahia que se renova e seus lugares do interior tranquilo. Godofredo Filho fez um admirável poema à Feira de Santana. Os de Alagoas e de Pernambuco, particularmente Jorge de Lima e Ascenso Ferreira, se volvem ao mistério primitivo das gentes. Os cearenses ressurgem a poesia nordestina, cheia de sol e de perfume agreste, em que:

“Cabe todo o Ceará dos cangaceiros,
cabe o gemer de todas as violas..."

Os paulistas são pela terra roxa, pela cidade estupenda envolta em neblinas, que Mário de Andrade e Ribeiro Couto cantam enternecidamente, pelo ritmo do progresso e da civilização intensa, pela maravilha do ambiente ativo e enérgico, ao mesmo tempo que pressentem o tumulto perturbador que resulta do entrechoque de muitas gentes, muitas línguas, muitas vontades.
Também os cariocas criam uma poesia da nossa cidade. Ronald de Carvalho, Álvaro Moreira, Manuel Bandeira, Felipe de Oliveira, Murilo de Araújo. Curiosa a feição local da nova poesia, que caracteriza essa pesquisa do Brasil, como a sentir melhor a sua posse, chegar-se mais, incorporar-se a ele, auscultar intimamente no seu ritmo.
Poderá parecer estranho e contraditório que a, poesia moderna demonstre tanto apego às fôrmas primitivas e volva às suas emoções simples, ao invés de encaminhar-se toda para a corrente dinâmica que canta a civilização, com alguns dos poetas referidos e Manuel de Abreu e Tasso da Silveira, libertos da tristeza. É que vacilamos entre esses dois modos de ser e há um temor que o progresso nos tire a frescura da terra ingênua e moça. Daí essa persistência romântica, que se exagera nos que se proclamam antropófagos para defender a pureza do estado selvagem, a que não podemos mais voltar e, portanto, se vai resumir num exercício literário. Precisamos tomar o Brasil na sua realidade díspar e monstruosa, de país de contrastes e diferenças fundamentais, que aure de todas as fontes a energia vital, que transforma em atividade criadora. A melancolia está no fundo da alma brasileira. Não se vá discutir o problema da tristeza brasileira, essa duvidosa tristeza, de que não nos convenceu o livro admirável de Paulo Prado. O que é certo é que a poesia popular é melancólica, como, aliás, quase todas as poesias populares, e a arte em geral se inspira mais na tristeza do que na alegria. Aquela nos comove muito mais profundamente e a vida se transfigura sobretudo pelo lado patético. Schopenhauer disse: "Só a dor é positiva, o prazer negativo."
Dessa nossa poesia melancólica, que Manuel Bandeira e a influência mais considerável, por nos ter dado os motivos mais dolorosos numa simplicidade muito brasileira, que lembra, com maior intensidade subjetiva está claro, Casemiro de Abreu, por ter fixado esse fundo recalcado da nossa alma em formação num meio exuberante, dessa nossa poesia de nostalgia está cheio o Brasil inteiro. Poesia sincera e íntima, sem literatura, que procura a ingenuidade das coisas e o desengano do seu atropelo, o eterno mal da vida, o sabor amargo de todos os frutos. Álvaro Moreira, por um toque de humor, a torna inquieta, dá-lhe o travo da inteligência, quando em geral é resignada e abatida. Conforma-se com a dor, alegra-se em sofrê-la, como faz Augusto Frederico Schmidt.
Não se negará a pureza dos motivos primitivos para a arte. Transplantados para um quadro superior têm todas as sugestões da vida. Mas limitar a poesia a determinados quadros, situar o Brasil em meia dúzia de ambientes de Toca e interior, satisfazer-se com a magia popular e abandonar as feições intensas do momento de civilização mecânica, olhar as coisas sem sentir nelas tudo que o nosso domínio lhes extrai, ver uma cachoeira como uma paisagem apenas e não pensar nas possibilidades de força, luz e movimento que brotam do seu jorro, não penetrar no supremo encantamento da velocidade que condensa o mundo, tudo isso é uma limitação, em que não devemos persistir. Toda essa sensibilidade que se contenta com o interior e seus aspectos pitorescos é ainda um resíduo passadista que nos cumpre vencer. Vem talvez do excesso de nacionalismo, que obriga a concentração, para repelir o que vem de fora e estratificar o que havemos das origens. Mas esse preconceito absorvente é um perigoso embaraço. O Brasil tem por função fundir as forças do seu temperamento ao universalismo, para criar obra de cultura. A poesia brasileira não perderá o seu caráter, tornando-se universal.
Bem sei que o primeiro benefício desse retraimento foi libertar a nossa poesia das influências estrangeiras, que sempre pesaram sobre os poetas nacionais, fazendo-os reflexos, embora com vigor e espontaneidade, de sensibilidades estrangeiras, variando aqui os motivos. Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias ou Castro Alves, Álvares de Azevedo ou Olavo Bilac são todos representativos de outras poesias. Ao passo que os poetas novos do Brasil, se a princípio ainda se ligavam aos das correntes de vanguarda de outros países, se libertaram pela força intrínseca do nosso espírito, fatigado das correntes de vanguarda de outros países, se libertaram. Para isso não foi preciso fazer uma poesia rudimentar e primitiva. Portanto, a conquista não nos deve levar agora ao excesso que degenerará em preconceitos. A nossa poesia dominará livremente a matéria universal.
Nada de mais delicioso do que a conquista sobre a língua portuguesa, para o que não é preciso também chegar ao extremo de criar uma expressão voluntariamente errada e cheia de modismos. Acompanhemos a evolução da língua na boca do povo, que se forma e lhe dá um sabor de constante novidade. Assim como ninguém mais pensa no motivo nobre, pois a arte transfigura todas as coisas, acabemos também com o preconceito da língua escrita, para mumificar o pensamento e a sensibilidade. Foi essa uma das mais belas afirmações do modernismo, escrever na língua brasileira, sem as horríveis deformações do classicismo lusitano, que até agora perdurou aqui, fermentando essa retórica vazia e palavrosa, essa poesia seca e detestável, que não é poesia porque não tem vida. Ouçamos, nessa simplicidade modernista, um magnífico poeta jovem, Henrique de Resende.
A poesia ganha um singular prestígio e, felizmente, o soneto morreu... Ninguém mais ousa perpetrá-lo, mesmo porque é impossível vencer o ridículo. A réplica que os há maravilhosos é ingênua, porque também foram maravilhosas as galeras antigas e ninguém hoje vai estabelecer uma companhia de navegação em galeras... No entanto, antes da reação modernista, andávamos por aqui nas galeras de Cleópatra... De 1922 para cá foram todas torpedeadas. Se ainda pôde haver, e por certo que ha, muito de que se libertar a poesia brasileira, não será dos preconceitos de fôrmas. Essa libertação integral virá como fruto do esforço magnífico dos poetas de hoje, procurando através de todas as forças do espírito brasileiro as expressões definitivas da sua essência. Com elas se criará esse ritmo novo, que está nos poetas modernos, mas continua uma perpétua aspiração.
Não posso acompanhar o parecer sempre agudo de Tristão de Ataíde, uma das nossas novas forças renovadoras mais eficientes, quando vê nessa agitação que vai por todo o Brasil, um movimento intencional a que nega valor. Muito ao contrário, essa singular identidade de espírito renovador, através de excessos absurdos, monstruosidades — se quiserem — a mim se me afigura como a demonstração de que varia a nossa sensibilidade, torna-se brasileira exclusivamente, e procura uma expressão livre. Replicam outros que os poetas mais jovens continuam nas estradas que abriram Ronald de Carvalho, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e os outros chefes da vanguarda. Pouco importa. Era natural que uma modificação tão profunda viesse criar grandes influências e ai do movimento se não se produzisse por tal fôrma! Dessa intensa vibração é que se formarão as grandes personalidades, que não podem aparecer ao acaso, mas são precedidas de longas formações. Toda a poesia nova do Brasil, dos de menos de 25 anos, nasce do modernismo e o que parece intenção é o imperativo do tempo, que assim modela a sensibilidade.
Já não é só a maravilha da terra que nos arrebata. Hoje o mistério do homem é a suprema indagação. Volveram-se a ele os poetas também e a poesia nova, por esse aspecto, se torna subjetiva. O homem não é mais uma força da natureza, como as árvores, ou os animais. Ê o ordenador. Sem ele, tudo é inútil paisagem e é preciso conhecê-lo para sentir o ambiente, entender as suas vozes, interpretá-lo. O mistério brasileiro é o da adaptação do homem à terra, desse homem, em cujas veias cada dia se somam mais sangues, em cujo espírito se vão debatendo as mais diversas tendências, e cuja formação deve ser o equilíbrio de múltiplas forças imponderáveis ainda. O seu segredo não será decifrado pela inteligência apenas, mas se revelará à sensibilidade. E essa indagação domina os poetas de hoje, que procuram o Brasil, dentro do seu problema fundamental. Esse poeta que nos fala do roceiro, aquele que exalta o homem da cidade, o operário, o mecânico, o industrial, um outro que penetra na humanidade primitiva e recolhe as suas vozes e balbucios, indagam todos o sentido da mesma realidade.
Há um canto de futuro na poesia nova do Brasil. Quando o grande Graça Aranha afirmou que "ser brasileiro é ver tudo, sentir tudo como brasileiro, seja a nossa vida, seja a civilização estrangeira, seja o presente, seja o passado", disse a síntese de toda a tendência modernista de ativo nacionalismo. Não era uma escola artificial que se criava, não era uma orientação que se fixava, nem mesmo uma tendência que se abria. Valiam todas as tendências, todas as orientações, talvez todas as escolas, desde que permanecessem fiéis ao espírito criador. Tanto assim foi, que, variaram as feições modernistas, não para prejudicar o movimento, senão para torná-lo mais vivo, desdobrá-lo, pois cada qual procura realizar mais livre e mais decisivamente a ação brasileira. Esse modo de sentir, num país jovem e imenso, não poderia ser uniforme e o que parece a muitos confusão é o sinal mais seguro de um espírito construtor que reformou a sensibilidade brasileira e aspira à libertação integral. Essa talvez se consiga um dia. Ou talvez nunca. Será melhor assim, o lirismo brasileiro se moverá sempre no ritmo da aspiração.

Nenhum comentário:

Postar um comentário