sexta-feira, 26 de maio de 2017

Uma viagem musical de Mário de Andrade


Uma viagem musical de Mário de Andrade

Texto publicado em 1929. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Compêndio de História da Música é o novo livro de Mário de Andrade. Grande formato, com os subtítulos em cotas à margem. Numa história da música, a primeira coisa que interessa é o método e a coordenação entre os assuntos, o tempo e o espaço. Mário de Andrade tomou-os em ordem cronológica, se assim podemos dizer, e tratou-os em conjunto, nas diversas manifestações nos vários países. Por exemplo, vejamos o classicismo. Depois de mostrar o precário dos qualificativos históricos e de dar o conceito "clássico" da música, estuda a ópera-cômica e bufa, Scarlatti, o virtuosismo italiano, a reforma da ópera, Gluck, os napolitanos discípulos de Scarlatti, a eclosão de Rameau, "genializando a tradição nacional do melodrama francês", a luta dos bufões, gluckistas e piccinistas. Passa depois para o mundo germânico, onde, no tempo, também prevalecia a influência itálica. Aparece depois a música instrumental fascinando a invenção germânica. Surgem Haydn e Mozart, a quem chama "o protótipo da musicalidade humana. Faz a crítica do espírito musical clássico e mostra como vem despontando o valor individual, que iria prevalecer no romantismo. Refere a decadência da música religiosa e por fim fala das fôrmas principais que o classicismo fixou: a sonata, a ária, a abertura e o recitativo acompanhado.
Por esse resumo de um capítulo, queremos mostrar que Mário de Andrade resolveu do melhor modo o seu método, permitindo uma visão segura do conjunto, sem seccioná-lo de país a país, ou de orientação a orientação. Naturalmente que isso faz com que certos pontos sejam tratados muito por alto, o que talvez seja insuficiente para os que não são versados na matéria. Mas o valor de um trabalho desses não está no pormenor (claro está que esse deve ser sempre certo, como acontece aqui) mas na vista-geral do fenômeno musical. É o que Mário de Andrade realiza magnificamente, num traçado de linhas mestras, que não é esboço, mas schema. O fato musical aparece em si, sem comparações nem explicações fora da música, salvo as referências de todo imprescindíveis, não traz outra finalidade senão a da própria música. Para um trabalho das proporções do Compêndio o sistema é seguro e justo. Todas as expressões são fixadas, rápidas que sejam, e se o traço em si pôde ser impreciso, tem o vigor necessário no conjunto.
Merece uma especialíssima referência o último capítulo sobre a atualidade musical. Todas as fôrmas e tentativas de variação harmônica ou melódica, todo "experimentalismo instrumental, todas as insatisfações sonoras, toda essa aparente desordem da música moderna, Mário de Andrade fixa, ponto por ponto, batendo sempre justo, embora dele se possa discordar em generalizações.
Esta notícia, não se escreve para louvar, mas, para coisa mais útil do que o desvalorizado elogio, para divulgar o novo livro desse trabalhador infatigável, que é Mário de Andrade, cuja ação intelectual cresce dia para dia. A ele havemos de voltar, numa análise mais demorada. Vamos, agora, transcrever o trecho final do último capítulo do Compêndio, para dar ao leitor vontade de lê-lo todo.
"A música moderna se prende a revelar o movimento sonoro que passa. Só o presente e o futuro são realmente tempo. O passado, por causa de ser fixo, imutável, é muito mais espacial que temporal. O passarinho bonito enquanto vive é tempo. Morto, empalhado, ele ocupa um lugar na vitrina do museu: é espaço. A Música de agora baseia a sua rezão-de-ser no que está soando no momento e adquire a sua compreensibilidade pelo que virá depois. O que passou: passou. O momento que passa, o presente, não justifica o que passou. É o passado que justifica o presente. Da mesma forma o presente justifica o que tem de vir. O crítico musical russo Boris de Schloezer chamou a música de Strawinsky de "objetivismo dinâmico"... Os músicos e literatos muitas vezes repetem e generalizam hoje essa expressão que me parece estreita (Objetivismo) e falsa (Dinamismo, por Cinematismo, movimento). Movimento sonoro, é o conceito da música atual — única arte que realiza o Movimento Puro, desinteressado, ininteligível, em toda a extensão dele. Este me parece o sentido estético, técnico e, meu Deus!... profético da música da Atualidade.
"Alfredo Lorenz no livrinho que está fazendo tanta sensação ("Musikgeschichte in Rhythmus der Generationen”, Ed. Max Hesses, Berlim, 1928) conclui exatamente o contrário: que a música moderna é polifônica e portanto espacial. Esse livro aliás tem sido mais atacado que louvado... O defeito principal dele é ter uma tese preestabelecida que a cultura do autor se esforçou por justificar. Alfredo Lorenz acha que o movimento das gerações humanas obriga a Música a mudar de conceito de 3 em 3 séculos: respectivamente Polifonia (Música-Espaço) e Harmonia (Música-Tempo). Segundo o ritmo trissecular consecutivo de Música-espaço e Música-tempo, calhou prá fase contemporânea os termos Música-espaço; e pela fatalidade da tese o escritor foi obrigado a ver espaço na música de hoje. Deus me livre de negar preocupação polifônica aos contemporâneos. Porém não tenho tese e não posso aceitar a de Alfredo Lorenz. Existe polifonia como existe harmonia, como existe melodia, como existe... tudo na música de agora. É a fusão absoluta disso tudo, a "maior intimidade entre forma e conteúdo", para me utilizar da frase de Wellesz, que implica a destruição de espaço e das suas principais circunstâncias e fenômenos, e faz da música atual nas suas manifestações mais características o livre jorro sonoro no tempo que julgo ver nela e por onde a compreendo e quero bem.
"Como é difícil explicar... Na verdade eu não pretendo ter descoberto a pólvora e sei que qualquer mal-intencionado pode me contradizer falando que toda música é tempo etc. Mas também é bobagem a gente pretender explicar pra mal-intencionados... Sejamos desinteressados, isto é, sejamos artistas!..."

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