quarta-feira, 31 de maio de 2017

Amós Oz: “Meu Michel”


Amós Oz: “Meu Michel

Pergunto-me porque o sofrimento de outras pessoas nos parecem enredo de operetas. Será que é só porque são outras pessoas?
Desenvolvido na década de sessenta, o romance “Meu Michel”, trata do processo de desgaste psicológico de Hana Gonen. A narrativa dá-se na década de cinquenta, nos anos de consolidação da independência, quando Israel expande suas fronteiras para além dos limites estabelecidos em 1948. Os fatos desenvolvem-se na Jerusalém de Amós Oz. Uma cidade de montanhas sombrias, muralhas antigas, bairros estranhamente divididos, ruas de traçados tortuosos e ruelas de formatos extravagantes. Na verdade, a cidade de Jerusalém liga-se, metaforicamente, ao universo intimista da personagem Hana. Tal qual a personagem, Jerusalém, como ela mesma afirma: “É uma cidade recolhida dentro de si mesma”.
Por sua vez, Hana é uma metáfora do próprio Estado do Israel que acabara de nascer. Os sonhos de Hana Gonen são os sonhos dos novos imigrantes judeus; a ambição dela é a mesma dos novos israelenses; seus ideais, que envolve a fantasia, são semelhantes aos dos nacionalistas intolerantes e dominadores. Como é sabido, os imigrantes dessa nova Aliot, eram pessoas utopicamente sonhadoras, idealistas, ambiciosas, que almejavam um Estado forte; alguns deles, muito mais que isso, desejavam um espaço geográfico extenso como nos antigos tempos bíblicos. O próprio título do livro, o emprego proposital do possessivo, já carrega em si a ideia de domínio e de posse. No romance, a personagem Hana é assim dominadora. Mesmo nos momentos de quase total esquizofrenia, ela exerce poder sobre os outros. Ela seduz. Algumas vezes é rainha, outras, princesa, imperatriz, comandante, juíza etc. Esse domínio não se dá apenas no plano dos sonhos, em suas alucinações delirantes. Na vida prática, embora não exerça diretamente um domínio sobre o próprio esposo, ela o manipula psicologicamente através do sentimento de culpa. Ela está sempre revelando a força avassaladora de seus desejos reprimidos. De forma perversa, ela tenta seduzir o jovem Yoram, o qual sempre teve uma educação dentro dos mais severos preceitos religiosos. No plano da memória, esse domínio manifesta-se, entre outros casos, na subjugação dos gêmeos árabes. Não seria isso uma metáfora da realidade Israelense em nossos dias? Até os fatos já consumados ela procura subvertê-los. Citando a personagem bíblica Tamar, que foi violentada e humilhada pelo próprio irmão Amnom, ela faz uso do domínio ao mesmo tempo que se embebe do devaneio: “Se eu fosse Tamar, faria Amnom ajoelhar-se à minha frente por sete noites. Depois que ele confessasse, em linguagem bíblica, os tormentos do seu amor, eu lhe ordenaria que me transportasse num barco a vela para as ilhas do arquipélago, para a vastidão onde os peles-vermelhas transformam-se em seres marinhos...”.
Esta associação da personagem Hana Gonen com a nação emergente de Israel, parece se realçar com a insistente menção da cor azul; cor esta que faz parte da bandeira nacional: “Michel observou timidamente que eu parecia mais feminina pela manhã, com o vestido azul, aos seus olhos, é claro”. / “Pus o vestido de lã azul e amarrei um lenço de seda”. / “Eu gostava de pôr o avental azul”. / “Ela fez para Michel e para mim um pulôver azul cinzento, da cor dos olhos tranquilos”. / “Quando eu era aluna da Universidade, costumava vestir, durante todo o inverno, um vestido de lã azul”. / “Pintamos o quarto de Yair de azul”. / “Uma menina bonita e inteligente num casaco azul”. O azul aparece também em suas alucinações, de maneira até hiperbólica: “Remendos azuis navegavam para o oriente”. / “Entre um sono e outro, o bebê abaria as pálpebras e mostrava duas ilhas de um azul translúcido. Parecia que esta era sua cor interior e que através das frestas dos olhos apareciam só os fragmentos de um azulradiante... / “Mas quando viro a cabeça, vejo a aldeia árabe de Schaafat do outro lado da fronteira, inundada de luz azul”. / “Um dia de um azul transparente repleto de sons e visões”. / “Uma veia azul, incha a atravessa a fonte de Halil”. / “...meu olhas se dirige para o retângulo inundado de azul que é a janela da cozinha”. / “De repente, percebi através das ondas de luz azulada que meu filho será um homem robusto e bonito”. Em alguns casos, outras cores se transformam no azul: “...nos edifícios de pedras cinzenta, que às vezes se tornam azuladas...” Nomes de coisas ou objetos são também azuis: “Num sábado azul, uma primavera repentina...” / “Um vapor azul sobe do deserto da Judéia” / “Bandos de pássaros migrantes percorriam espaços azuis”. Esta asserção, embora especulativa, parece verossímil se levarmos em conta a essência da obra, uma vez que os sonhos e as fantasias estão diretamente ligados à cor azul.
Ao contrário, quando se refere ao marido, Hana sempre faz menção de “cores mortas”: “Seus olhos eram cinzentos”. / “Enviei as duas mãos nos bolsos das calças de veludo marrom”. / “A amiga de Michel era uma mulher magra, alta e amarga. Com seus cabelos cinzentos...” / “Os olhos do Michel são cinzentos”. / “Michel e o pai vestiam ternos pretos”. / “Durante a maior parte do dia Michel ficava sentado numa poltrona, calçando chinelos de cinza claro e escuro”. O próprio gato, que se chamava Branquinho, era na verdade cinza: “Branquinho não era um gato branco, mas acinzentado”.
A figura paternalista da personagem Michel, parece associar-se ao judeu pacífico e tradicionalista, que vivia ordeiramente com os irmãos árabes, antes da fundação de Israel. O fato de estudar geologia, faz transparecer o apego à terra em si, ao amor à terra de Israel.
Sintetizando: a oposição Hana/Michel, parece ser uma metáfora ou uma espécie de simbologia entre o judeu europeu cheio de sonhos e o judeu patriarcal do Oriente. Como sabemos, o autor, Amós Os, é um grande pacifista, que luta pela tolerância entre os povos da região. Embora aparentemente não haja no romance um sentido político, na realidade, parece que o autor criou propositadamente duas personagens de gênios opostas, que são obrigados a conviver pacificamente dentro dos limites da tolerância mútua. A tolerância parece ser a grande questão do livro.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2003.

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