quarta-feira, 24 de maio de 2017

Antero de Quental: a obra e a sua morte


Antero de Quental: a obra e a sua morte

Publicado originalmente em 1896, (In: " Pelo Mundo Fora"), pela escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho.  Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2016)
I
Hesito em falar ainda de Antero de Quental! Sucedeu um tão silencioso esquecimento ao pasmo, ao sobressalto da primeira notícia do seu suicídio!... E no entanto, se havia fisionomia complexa, sugestiva, capaz de interessar e de cativar o nosso espírito era a deste poeta de tão requintada e extrema delicadeza de inspiração e de pensamentos.

A primeira impressão que recebi da sua morte, foi tão violenta e dolorosa que em vão tentei traduzi-la em palavras, ou metê-la no molde imperfeito e rude de uma apreciação crítica qualquer.
É hoje somente, depois de volvido um mês ou mais sobre esse suicídio, que devia enlutar as letras portuguesas, que eu me atrevo a conversar com os leitores a respeito dele. 
O livro dos Sonetos, saudado na sua primeira aparição com sincero e quase religioso entusiasmo, pode considerar-se como a completa confissão daquela alma combalida, que procurou na Morte o extremo refúgio contra as lutas ásperas do Pensamento, contra as quimeras perseguidoras da Imaginação. 
Se o considerarmos do ponto de vista pratico e material, de onde a maior parte da gente se coloca para julgar os homens e as cousas, Antero não era realmente um infeliz. 
Tinha, pelo contrário, mil predicados, mil qualidades invejáveis. 
Tinha, primeiro de tudo, um superior e belo talento incontestado; tinha a suficiente abastança para não precisar viver dele ― o que eu pelo menos considero o maior dos bens ― tinha a adoração dos amigos (que lhe chamavam Santo Antero), o respeito dos estranhos, a par de uma consciência imaculada que no exercício do bem encontrava permanente e inefável consolo; tivera até na mocidade o raro dom de uma beleza de Cristo, espiritual, meiga e serena. 
E, contudo, apesar de tantas circunstâncias que se reuniam para dever tornar-lhe doce a vida, depois da leitura daqueles sonetos magistrais, em que tão requintadas amarguras e tão estranhos suplícios se cristalizavam, por assim dizer, em pérolas maravilhosas, não havia leitor que não sentisse esta interrogação desabrochar-lhe nos lábios: onde é que este homem tão tranquilamente e tão lucidamente desesperado encontra a força de continuar a viver?

O suicídio do grande poeta responde agora, lúgubre, mas coerente, terrível mas lógico, à irresistível pergunta. 
O pessimismo de Antero não era, como a maior parte dos que nós por aí conhecemos, um pessimismo pessoal, egoísta, limitado às contradições e às tristezas do seu próprio destino. 
Era um pessimismo filosófico, como o de Leopardi, como o de Schopenhauer, como o de Leconte de Lisle. 
A sua concepção da vida, tão triste que faz horror e espanto, traduz-se no soneto: A Divina Comédia, em que ele figura os homens erguendo para os remotos céus os braços desesperados e apostrofando esses deuses que só produziram a Dor, a Paixão, o Pecado, as Ilusões, as lutas fratricidas. 
Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe
Ter ficado a dormir eternamente? 

Porque é que para a dor nos evocastes?
Mas os deuses com voz ainda mais triste,
Dizem: ― "Homens! porque é que nos criastes?

A Morte, não sob uma forma repelente e odiosa, mas atraente como esfinge, perturbante e voluptuosa como sereia que vem cantar a sua cantilena de sedução à flor das águas de um verde glauco, a Morte, revestida de um misterioso encanto subjugador e estranho, paira por sobre todas os páginas deste livro, impregnando-as de subtil e contagiosa tristeza. 
Dir-se-ia que os sonetos lhe são quase inteiramente consagrados. É a ela que ele vê sempre, chamando-o, chamando-o baixinho, entontecendo-o com as promessas do seu silêncio eterno, da sua paz profunda e vasta, do seu mistério que ninguém soube ainda violar. 
Antero pensara tanto que o cérebro esgotado pedia enfim misericórdia. A sua ambição não fora de vãs glorias, nem vãos triunfos; quisera levantar uma ponta desse véu que esconde a eterna Verdade, além da qual tantas gerações humanas têm sonhado com alguma cousa de inextinguível e de eterno. 
E essa agonia intelectual que o dilacerou exprime-se em todos os seus versos, com uma potência maravilhosa, e uma energia devoradora que acabou por consumi-lo!

A ilusão, o vazio universal, que encarava ao sair das suas vertiginosas contemplações metafísicas, faziam-no recuar pávido e tremente. A vida não lhe dava o que ele queria; para aquém desse vasto mundo invisível que a sua alma de sonhador pressentia e pelo qual ela ansiava, nada havia que lhe satisfizesse a sede ideal. Por isso Antero, fugindo voluntariamente dele, foi buscar a sua amiga de todas as horas, aquela que podia entregar-lhe a chave do eterno enigma que o desesperava; a 
Morte! irmã do Amor e da Verdade.

***

A propósito do suicídio de Antero, falou-se muito de três suicídios também famosos que o precederam; mas realmente, a não ser pela notoriedade que os assinala, eu não sei que eles tenham comparação com o deste poeta. Nem Camilo, nem Júlio César Machado nem Soares dos Reis se mataram pelos motivos transcendentes que atuaram no ânimo de Antero de Quental. 
Os três mataram-se porque sofriam mais do que é dado aos seres humanos sofrer sem procurarem no aniquilamento a paz invocada entre suplícios. 
Um deles, Camilo, artista de nervos exasperados pela cegueira, temperamento de histérico para o qual a resignação era uma virtude impossível, matou-se para fugir às trevas densas de uma lôbrega morte em que se sentia perdido! 
Júlio César Machado matou-se porque, no meio do mundo hostil que não satisfizera nenhuma das ambições da sua pobre alma delicada e sonhadora, ele concentrava as afeições todas do seu coração, os últimos sonhos da sua fantasia, a esperança, a suprema glória, no amor de um filho que se suicidara com 19 anos! ― deixando-o só. O infeliz enlouqueceu e matou-se também...
Sobre a morte de Soares dos Reis paira uma sombra de mistério. Quem sabe que lutas íntimas, que drama de paixão intensa e dolorosa esse suicídio não veio rematar!

A morte de Antero obedeceu a outro gênero de impulsos. Não digo que para ela não concorresse também o estado de miséria moral e de anarquia mental em que via a sua pátria (da qual havia pouco ele tinha porventura esperado qualquer ato de enérgica reação contra o destino), mas a sua dor era uma destas dores de ordem aristocrática e rara, que não se originam como as da maioria dos homens no coração, mas que emanam do espírito cansado de cogitar em vão no mistério impenetrável das cousas... 
Querem ver os espectros que enchiam de pavor sagrado as suas noites? Ouvi este soneto que é, como todos os outros, página solta de uma confissão intelectual complicada e dolorosa, tal como um Pascal ou um Amiel a escreveram também cada um, já se vê, na sua respectiva esfera, um nos seus imortais Pensamentos, outro no seu jornal tão característico e tão pouco compreendido: 
Espectros que velais enquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus sonos curtos e cansados
Me encheis as noites de agonia e susto!...

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados,
Disputar dia a dia à mão dos fados
Uma parcela do saber augusto.

Se a minh'alma há de ver sobre si fitos
Sempre esses olhos trágicos, malditos!
Se até dormindo, com angústia imensa

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma, verter sobre o meu peito
As lágrimas geladas da descrença!

Foram estas as dores que o mataram. A sua consciência não achava repouso em nenhuma das concepções do Universo em que alternativamente tentava acolher-se.

Ora, dirigindo-se à meiga Virgem do Catolicismo ele a invocava com infantil simplicidade; ora punha na mão direita de Deus o seu coração cansado, e lhe ordenava que ali dormisse eternamente; ora achava que a dúvida tinha soprado sobre o mundo um vento de ruína e de morte, que tudo emurchecera, que tudo apagara, deixando apenas uma humilde e misteriosa flor desabrochar a medo no fundo da consciência humana. 
Aspirava ao nirvana, à paz inconsciente; queria cair naquele vácuo tenebroso onde na imobilidade indefinida termina o ser inerte, ocioso; e ao mesmo tempo a compreensão atávica da eternidade católica torturava-lhe em horas de luta o inquieto espírito. 
Que aspiração intensa ao ideal, a deste formoso espírito alado! Que sublimes tormentos os seus, procurando sem descanso a verdade e a luz!... 
Mas sempre, em todas as fases desta interna luta que talvez fizesse sorrir alguns dos leitores dos sonetos enquanto o suicídio do poeta lhe não deu o seu fundo de lúgubre realidade, ― Antero chamou pela Morte, a invocou, lhe sorriu, lhe deu os nomes mais belos, os mais doces, os mais apaixonados! 
Dele se pôde dizer que foi um amante da Morte, amante austero e triste, mas nem por isso menos fervoroso e ardente.
Por motivos inteiramente diversos dos seus, também Santa Tereza, a apaixonada castelhana, chamou a Morte com aqueles mesmos arroubos de êxtase que nos surpreendem e nos fazem estremecer a nós, pobres criaturas feitas de carne melindrosa e frágil, a quem o sofrimento repugna, e a sepultura com a sua podridão infecta repele formidavelmente. 
Digam-me se há em língua alguma expressão de dor mais completa do que a deste soneto a que Antero pôs o título de Despondenci por não achar em português um termo que rigorosamente correspondesse ao estado de resinada e tranquila desesperança que ele traduz: 
Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...

Deixá-la ir, à vela que arrojaram
Os tufões pelo mar na escuridade,
Quando a noite surgiu na imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixá-la ir a alma lastimosa,
Que perdeu a paz e fé e confiança
À morte queda, à morte silenciosa...

Deixá-la ir a nota desprendida
De um canto extremo e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir a vida!

***

Não há por tudo isto motivos para espanto no suicídio de Antero. Ele não era, como já dissemos, um escritor de ofício, que de propósito exacerbasse e cultivasse em si próprio o desespero e as lágrimas, para as transformar em retórica livresca; não tinha também um vão amor de glória indesculpável em quem sondava com tão penetrante e lúcido olhar o vazio de todas essas quimeras, a efêmera duração de tudo que é da terra... 
Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente desafogava o seu sentir tanta vez contraditório e doentio, em versos de uma magia dolorosa, de uma graça delicada e triste, de uma profundidade de expressão inigualável, e nesses versos só uma nota era constante: o elogio da Morte
Invocou-a sempre, chamou por ela, coroou-a de fúnebres flores, suplicou-lhe que o acolhesse no seu regaço frio, achando enfim que depois do mal de haver nascido não havia senão um bem: tornar ao Nada. 
II
Quando o livro dos Sonetos apareceu escrevi eu um estudo sobre eles, que não tinha, já se vê, outro merecimento além de uma sinceridade absoluta e de uma imensa simpatia. 
Lembra-me de que lamentava do fundo da alma que o autor dessas belas poesias tão raras na nossa literatura, ― a qual como todas as literaturas meridionais não peca pelo excesso de pensamento ― tivesse consumido a vida, que tão belas cousas podia dar-lhe, metido em si mesmo, naquela espécie de meditação alucinada que se traduzia, é verdade, em versos magníficos, mas versos que eram, como as pérolas, produtos de uma dor mortal. 
E revoltava-me contra a solidão mental em que Antero se concentrara, contra as hesitações do seu querer, contra as flutuações do seu pensamento, contra o pessimismo búdico da sua doutrina, contra tudo que fizera dele um filósofo germânico, ou um sonhador nebuloso e doente, e o separava da vida, da vida que tem tantos risos no meio das suas charnecas desoladas, ou dos seus sarçais cheios de espinhos e de répteis... 
Mesmo com o risco de parecer vaidosa, não quero deixar de oferecer aos meus leitores, a carta, até hoje absolutamente inédita, que Antero de Quental me escreveu então, depois de ter lido os meus artigos que se publicaram primitivamente no Jornal do Comércio de Lisboa, e que hoje estão incluídos no volume intitulado Alguns homens do meu tempo
Aí vai a formosa e eloquente carta: 
“Porto, 24 de dezembro.
Minha Senhora

Agradeço-lhe muito os seus artigos no Jornal do Comércio, e creia V. que o não faço só por civilidade, ainda que não é cousa que se deva desdenhar par le temps qui court. Não lhe direi que me agradaram os seus artigos, porque isso é o menos; dir-lhe-ei que me comoveram. Há neles uma sinceridade, que me encantou, e um tom fraternal que me foi direito ao coração, onde quero que não morra nunca a vibração dessas palavras amigas. Creio que V. se engana na apreciação que fez das doutrinas chamadas (quanto a mim impropriamente) pessimistas e nos receios que lhe inspiram as tendências búdicas que começam a manifestar-se por todos os lados, em sociedades que atingiram o nec plus ultra da civilização, ou em indivíduos que atingiram o nec plus ultra do pensamento. 
Tudo isso, é verdade, está ainda bastante obscuro e confundido com elementos estranhos e até contraditórios, e por isso me não admira que não possa ainda ser apreciado sem grandes apreensões. O meu livrinho, apenas aqui ou ali em meia dúzia dos últimos sonetos, fere a nota exata e sã, porque infelizmente morreu-me o dom dos versos, precisamente quando começava a pensar e a sentir alguma cousa que realmente merecesse ser posta em verso.

Não podia ele, tão incompleto e obscuro, justamente onde mais cumpria que fosse claro e amplo, dissipar aquelas apreensões, antes era natural que contribuísse para as radicar. Mas a minha convicção é que tais apreensões não são fundadas e que entre os sentimentos naturais e espontâneos do coração humano, entre o seu ideal de justiça, de harmonia e de beleza, e o ponto de vista ascético do Budismo, não só não há contradição verdadeira, mas que, pelo contrário, é só nessa esfera que eles encontram a sua mais perfeita expressão, libertos de muitas ilusões e de muitas imperfeições que lhe andam forçosamente misturadas, e atingem a plena consciência do que são e para que são. E seria singular com efeito que a doutrina, que entre todas, faz consistir no Bem a verdade suprema da existência humana, pudesse colidir com aqueles espontâneos impulsos da nossa natureza, que não são, no fundo, senão formas e momentos, mais ou menos obscuros, mais ou menos incompletos da nossa fundamental aspiração a esse mesmo Bem! 
A verdade é que a civilização moderna chegou, no século atual, como a civilização antiga, no período do Império Romano, a um ponto em que, sob pena de completa ruína, o problema metafísico-psicológico tem de ser sondado a uma profundidade desusada e proporcional ao grau superior da mesma civilização.

Hoje, como então, as questões metafísico-psicológicas são a chave de todas as outras questões porque, tendo o próprio progresso das instituições e das ideias arruinado os antigos alicerces morais da sociedade, a grande questão, a questão vital e inadiável não é já a do aperfeiçoamento das instituições nem do aumento dos conhecimentos, mas a da organização teórica e prática da vida moral, a criação da ordem nas consciências, em uma palavra a remodelação do homem interior, sem o qual o outro homem, da sociedade e da vida prática, por forte e sábio que pareça é mais miserável que o escravo mais embrutecido. 
O progresso gigantesco do naturalismo, filho de uma civilização poderosa e complexa como nenhuma, só poderá ser equilibrado por um progresso equivalente do ascetismo. Sem esse equilíbrio a sociedade moderna, que já hoje nos causa mais terror do que admiração, poderá continuar ainda por algum tempo de poderosa, tornada formidável, e, de formidável, bestial: mas o homem, o verdadeiro homem, isto é, o homem moral, terá morrido: e morto ele, tudo cairá, por que só ele sustenta a grande mole social. A sociedade é, antes de tudo, um fato de ordem moral. 
Mas não continuo com estas reflexões, porque desejo fazer delas o assunto de um escrito, até a certo ponto em resposta aos artigos de V. e que publicarei em forma de carta, se V. levar isso a bem. 
E termino, minha senhora, pedindo a V, que me consinta assinar-me daqui em diante, como realmente sou, seu muito amigo. ― Antero de Quental” 
***
Esta carta tão bela na forma, e tão profunda no pensamento, apresenta porém a contradição fundamental a que Antero sucumbiu. 

O ascetismo é a contemplação mais inerte: o Bem demanda a atividade mais incansável, o esforço mais tenaz. 

Como conciliar estes dois termos opostos? Se para o extático e contemplativo pensador a quem o nirvana sorri como o supremo fim da sua ascensão ideal, cada homem não é mais do que um momento que toma consciência de si e logo passa, aquele que na terra procura o Bem e tenta pelo seu esforço criá-lo, sabe que se dissolvem as formas em que a consciência se encarna, mas que ela, a sublime chama não se apaga jamais... Nós os passageiros de um dia que conseguimos por instantes guardá-la no nosso seio mortal, passamos rápidos sim, mas não antes de a transmitirmos àqueles que nos sucedem sempre mais pura, e sempre mais intensa... 

O patrimônio real da humanidade é este: por este lhe vale a pena padecer e lutar. Este não morre com as pobres gerações que se sucedem como as folhas das árvores, como as ondas do mar...

Não é pelo Budismo antigo, ou pela ascética renúncia aos bens reais da vida que a sociedade tem de salvar-se. É pelo exercício ativo das suas energias espontâneas, é pela fé na sua missão do bem, na sua ascensão a qualquer eminência moral, que ela ainda não antevê de longe, mas que existe decerto, mas que deve existir, ou este instinto de progresso a que obedecemos, seria mais uma ironia atroz entre outras tantas!... 

A prova de que esse ascetismo a que Antero recorre na sua bela carta é estéril, é que ele, querendo salvar por este modo a sua clara consciência e o seu espírito genial, veio acabar na morte voluntaria, no suicídio banal dos vencidos e dos fracos! 

Infelizmente era eu, tão mesquinha, e não ele, tão grande, que tinha razão, e essa razão, foi o seu ato extremo que ma veio dar. 

Ninguém pensara mais alto e mais justo que esse homem de uma consciência tão delicada, de uma penetração filosófica tão subtil, e cujo entendimento parecia talhado para as mais elevadas especulações da metafísica e da psicologia.

E no entanto ele não achou outra resolução ao problema que está presentemente posto diante dos olhos das sociedades extra-civilizadas e dos indivíduos que pensam intensamente, senão a do suicídio silencioso. 

É profundamente desoladora a fase do espírito humano que, de vez em quando, se manifesta em fatos como este. 

Como escapar a este estado de descrença absoluta em qualquer destino ulterior da nossa espécie? Retroceder à boa Natureza, à primitiva ignorância dos simples, como manda Tolstoi? Mas em primeiro lugar a natureza não é boa, depois, quem sabe pode porventura, e só por efeito da sua vontade começar de um dia para o outro a ignorar?... 

Cada sociedade que chega ao extremo da sua civilização particular, o que, exaltando de um lado o orgulho natural do homem, produz por outro, no espírito dele, uma irritação doentia, uma penosa desesperação resultante dos limites que este acha sempre à sua curiosidade transcendente ― cada sociedade que atinge esta perigosa eminência, está por esse mesmo fato, muito próxima da sua fatal degeneração. 

Nenhuma civilização se elevou mais alto nas abstrações do pensamento, nos arrojos da metafísica do que esse Budismo em que Antero de Quental tentava encontrar a suprema paz da consciência humana. E o que tem ele produzido senão resultados negativos, e alucinações doentias? A civilização antiga, grega e romana, procurou resolver o problema do destino do homem divinizando-lhe as paixões, e fazendo a permanente apoteose da força. E todos sabem em que agonia vasquejante o mundo antigo se diluiu. A Idade Média teve uma compreensão harmônica e grandiosa da vida e do destino humano, mas tanto exigiu do espírito e tão pouco pensou na fatal realidade, que fez de cada organismo de homem um anjo e um animal perpetuamente identificados, e ao cabo do sublime esforço, respondeu-lhe o retrocesso pagão da Renascença.

O mundo moderno quer achar na ciência a chave do todo o eterno enigma que até hoje se conserva inviolado, a explicação do universal mistério que o envolve e penetra, a resolução de todos os problemas complexos que se têm acumulado diante do seu espírito em dois ou três mil anos de pensamento ― e a ciência impotente, incompleta, desconsoladora não tem água que sacie a nossa sede, não tem piedade que unja a nossa lenta agonia! 

Os melhores abdicam ou pelo indiferentismo inerte, ou pelo suicídio; que é ainda uma vitória do espírito ultrajado sobre si mesmo! 

E um véu de tristeza densa e plúmbea envolve este mundo enorme, agitado, convulso, atravessado de fios elétricos que em minutos transmitem de um ao outro dos seus extremos o pensamento e a palavra; cortado de locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas brutas; ébrio de orgulho material, de luxo e de vaidade; persuadido de que é a realização mais completa da felicidade e do triunfo moral do homem; mas tremendo a cada abalo subterrâneo que revele quão minados estão os seus alicerces e em que movediça areia assentam os seus edifícios de Babel! 

Contudo há uma afirmação, no meio de tantas dúvidas e de tanta desordem mental, que pode ser feita sem medo! 

O Bem existe! A consciência humana conhece-o mesmo quando o atraiçoa ou o desdenha. É ela que o tem criado em séculos de luta sublime! Os humildes de coração são talvez os que estão mais perto das fontes vivas de onde ele promana, e é pela humildade e pela aceitação resinada do seu destino incompleto e triste e eternamente obscuro, que a pobre humanidade definitivamente se salvará! 

Por mais que amenos e veneremos a memória de Antero, não podemos pois achar justo o seu suicídio. 

Contentamo-nos em achá-lo explicável. 

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