quarta-feira, 24 de maio de 2017

Em que veias gira o sangue de Camões


Em que veias gira o sangue de Camões

Publicado originalmente em 1915 (In: “Camões”, de Almeida Garret), pelo escritor português Camilo Castelo Branco.  Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2016)

Não é de mais saber-se isto, quando é moda esmiuçar tudo que entende com o maior poeta do seu século.
O livro mais extravagante que, a tal respeito, viu a luz, é a História de Camões pelo Sr. Doutor Teófilo Braga.
As incúrias, as criancices, os desvarios que esfervilham nessas 441 páginas não aparam a pontoada da crítica. O livro faz tristeza... porque faz rir; e, por muito frouxo que seja o espírito de patriotismo no censor dos escritores seus conterrâneos, dói ter de dizer: “o professor de literatura fez corar a face dos discípulos”.
Os meus reparos neste livro tocam somente com o que há nele relativo à família de Luís de Camões; mas, aí mesmo, é deplorável a falta de siso do biógrafo.
A página 233 supõe o Sr. Teófilo que entre uns papéis que se perderam de Luís de Camões houvesse cartas escritas aos seus amigos mais valiosos intercedendo por seu pai que estava preso.
A página 243, no sumário do capítulo VI, diz: A notícia do perdão de seu pai Simão Vaz de Camões. Temos ainda Camões com o pai.
A página 259: Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Naus partidas no princípio do ano de 1557 soube Camões... da sentença que condenava Simão Vaz de Camões, seu pai, para o degredo perpétuo do Brasil com pregão e cadeado.
O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Camões tinha um pai, que por estouvamentos de rapaz devasso, aí na volta dos 60 anos, mereceu ser condenado a degredo com pregão e cadeado; mas, por acaso, volta a página das erratas, e vê que o biógrafo lhe pede que leia primo onde estiver pai. Parece uma anedota isto!
Que razões motivaram esta correção? Que raio de luz dardejou o bom senso na última página do livro? Pois o doutor, durante a formação do estirado livro, não teve um intervalo lúcido? E, se o teve no fim, porque não queimou a obra desde a primeira página, embora se perdesse a Carta de Aires Barbosa a André de Resende?
Eis aqui o modo como o Sr. Teófilo descobriu afinal que Simão Vaz de Camões era primo e não era pai do poeta.
Quando o livro ia sair do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas linhas, publicava, no Dicionário de Educação de Campagne, um breve artigo intitulado Camões, em que se leem estes períodos:
“Os louvores ao prodigioso gênio de Luís de Camões são tantos, e tão amiudados no decurso de três séculos que já hoje em dia o repeti-los, pelos mesmos conceitos e formas encomiásticas, nos parece banal encarecimento. Mais útil e plausível nos avulta o esforço de alguns biógrafos empenhados em esclarecer os lanços menos claros da biografia do poeta. Nesta árdua lide tem mostrado ardente zelo o Sr. Visconde de Juromenha, o mais particularizador noticiarista da vida de Luís de Camões. Todavia, assentando boa parte de suas inovações em conjecturas, resulta que a louvável vontade de esclarecer se demasie em hipóteses pouco menos de inverossímeis. Está em o número destas a afirmativa de residir em Coimbra, por 1556, o pai de Luís de Camões, Simão Vaz. Este mesmo é na hipótese do biógrafo, um tal que o corregedor de Coimbra enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado em mosteiro de freiras, e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com os seus criados, espancava o almotacé de Coimbra. Bastaria a despintar da fantasia do Sr. Visconde de Juromenha semelhante conjectura, a pobreza do filho, que recebeu 2$400 réis para se alistar na armada, em lugar doutro, enquanto seu pai, com mais de cinquenta de idade, andava por Coimbra escalando Conventos, e já com mais de setenta espancava as justiças, acaudilhando criados, — circunstância indicativa de vida abastada, e orgulho de fidalgo com as posses que dão asas ao orgulho.
De todo em todo aniquila a suposição de que o mexediço Simão Vaz de Camões haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Ana de Macedo, uma nota do Sr. Doutor Aires de Campos, sobposta ao traslado da provisão passada em 16 de Maio de 1576, a respeito das injúrias e ofensas praticadas por Simão Vaz de Camões no almotacé. Eis a nota:
E para também não ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos que com estes tem estreitas relações, aqui os apontamos desde já enquanto as suas íntegras não forem publicadas no suplemento. Assim eles vão prestar auxílio valioso, e não grande embaraço a todos os Críticos ilustres que, talvez fascinados por meras semelhanças de nomes e apelidos, não têm hesitado em atribuir ao turbulento cidadão conimbricense Simão Vaz de Camões, muito vivo e são em 1576, a honrosa paternidade legítima do autor d'Os Lusíadas. Cita mais o insigne antiquário a vereação da câmara de Coimbra de 31 de Julho de 1563 da qual se depreende que Simão Vaz havia casado em 1562, e casara novamente. Ora, quer o novamente signifique segundas núpcias, quer primeiras, como alguém aventa, sem dar a razão do alvitre, é certo que esse não podia ser o pai de Luís de Camões, que faleceu antes de sua mãe.
Temos presente a genealogia dos Camões, manuscrito de Jorge de Cabedo, falecido em 1602 ou 1604, e pelo tanto contemporâneo de Luís de Camões.
Cabedo fala do bisavô do poeta João Vaz de Camões, que foi corregedor em Coimbra, e jaz em Santa Cruz.
Segue Antão Vaz de Camões (filho daquele e avô do poeta) que casou no Algarve com Guimar Vaz da Gama. Menciona Simão Vaz de Camões (filho de Antão Vaz e pai do poeta) que foi por capitão duma nau à índia, e deu à costa à vista de Goa, salvou-se em uma tábua, e lá morreu, deixando viúva Ana de Macedo, dos Macedos de Santarém.
Faz também menção de outro Simão Vaz de Camões, residente em Coimbra, parente próximo do poeta, dizendo ter sido aquele casado com Francisca Rebelo, filha de Álvaro Rebelo Cardoso, a qual viuvando, casara com Domingos Roque Pereira.
O Sr. Teófilo leu isto sem dúvida alguma, e cedeu aos singelos argumentos do artigo do Dicionário.
Que faria o leitor, sendo. (Deus o livre!) autor do livro de Teófilo?
A não entregar a obra toda ao fogo purificador dos seus créditos literários, rasgava as páginas em que chamava pai a Simão Vaz, substituindo-as por outras em que lhe chamasse primo.
Diga-se verdade: o Sr. Teófilo rasgou duas páginas do livro, a 59 e 60; mas devia inutilizar as seguintes em que subsistem os erros derivados da confusão dos dois homônimos Simão Vaz de Camões.
Escrevi no Dicionário, reportando-me impensadamente a um genealógico dos Camões, senhor do morgado da Torre. Casou Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Aires Tavares e Sousa, de quem houve, além de Simão Vaz de Camões, Luís Gonçalves de Camões, e D. Maria da Câmara, que casou com Francisco de Faria Severim. Quanto ao Simão que viveu em Coimbra, diz o linhagista que se casara à sua vontade, como quem desfaz na estirpe da esposa. — Nota de Camilo.
Camões: “Faz também menção de outro Simão Vaz de Camões, parente próximo do poeta, dizendo ter sido aquele casado com Francisca Rebelo, filha de Álvaro Rebelo Cardoso, a qual, viuvando, casara com Domingos Roque Pereira.”
Escreve o Sr. Teófilo na regenerada p. 59:
“Simão Vaz de Camões, que em 1562 casou em Coimbra com Francisca Rebelo, filha de Álvaro Cardoso.”
Convido o Sr. Teófilo Braga a declarar onde leu a notícia de tal casamento! Com toda a certeza, a primeira pessoa, que imaginou ver isto em letra de mão, e o pôs em escritura, desde que há letra redonda, fui eu.
Pesa-me do íntimo seio que o Sr. Doutor T. Braga escorregasse na ladeira do meu engano. Já o Sr. Felner lhe armou a esparrela da carta de Aires Barbosa; e eu, mais inocentemente, fi-lo casamenteiro de Simão Vaz com Francisca Rebelo! É fado esquerdo do Sr. Teófilo! Porém, o que tem graça infinita é o Sr. Doutor fixar o ano do casamento em 1562! Que eu o inventasse, vá; mas que o Sr. Teófilo lhe marcasse o ano, é vontade de colaborar nas indiscrições alheias!
Isto não é simplesmente criancice párvoa — é desgraça; é mais que desgraça — é castigo da Providência, porque o Sr. Teófilo ladrou arrogantemente a Castilho, a Herculano, a Garrett, a Rebelo, a Varnhagen; e não houve ainda de traidor tão audaz, tão ignorante, e, sobre ignorante, ridículo.
O meu lapso procedeu de confundir dois nomes confusamente escritos em uma árvore genealógica. Simão Vaz de Camões, o libertino parente do poeta, casou com uma sua criada, e morreu sem descendentes. Esta é a verdade. Quem casou em Coimbra com Francisca Rebelo, filha de Álvaro Rebelo Cardoso, morgado das Caldas, foi Simão Vasconcelos, e não Simão Vaz.
Cá me fica pesando na consciência o tempo e o papel que o Sr. Teófilo desperdiçou. De ambas as coisas tenho escrúpulo; menos da data do casamento; que essa é dele.
Mas, se o Sr. Teófilo substituiu as duas páginas que eram a fonte do erro, porque não suprimiu as correntes que derivam dessa fonte? Não viu que todas as referências às páginas substituídas ficavam incompreensíveis? O sentimentalismo que enternece o pesar do poeta pela prisão do pai não pode subsistir racionalmente na prisão do primo!
Que faz então o Sr. Teófilo? Usa processos sobremaneira econômicos:
ERRATA
Onde se lê pai, leia-se primo.
E está acabado.
Ninguém me dê definições deste preceptor infeliz! Contem-me esta passagem, que eu não preciso conhecê-lo de perto, nem lobrigar-lhe o feitio interior dos camarins do pensamento. É um caos! Eu já não me admirarei se o Sr. Teófilo, depois de esponjar alguns centos de livros escrever uma Errata geral neste sentido: onde se lê OBRAS de Teófilo, leia-se: MANOBRAS do mesmo.
Se o leitor quer, vamos agora farejar sangue de Camões nas veias dos nossos contemporâneos. Não cuide, porém, que vai deliciar-se nesta leitura. É matéria árida, fruto das tais insônias constantes do proêmio do número primeiro.
Vasco Pires de Camões veio de Castela no tempo de Fernando I. Foi alcaide-mor de Alenquer e Portalegre. Fugiu para Castela, quando o mestre de Avis se levantou com o reino. Foi prisioneiro em Aljubarrota, perdeu os bens da coroa; mas cá ficou.
Gonçalo Vaz, seu primogênito, instituiu um morgado em Évora, chamado da Camoeira. Não temos que ver com os outros filhos, cujos descendentes ou foram pobres, ou identificaram os seus haveres nos morgadios do primeiro ramo, à falta de geração.
Sucedeu-lhe Antônio Vaz, pai de Lopo Vaz de Camões, cujo primogênito, também Antônio Vaz, teve um filho, que outrossim se chamou Lopo, e fez um morgado em Avis.
Deste último gerou-se D. Ana de Castro, que foi casar a Guimarães com Diogo Lopes de Carvalho, quarto senhor dos coutos de Abadim e Negrelos no tempo de. Filipe II.
Luís Lopes de Carvalho, 5º senhor dos coutos, foi assassinado em Guimarães.
Gonçalo Lopes de Carvalho Camões e Castro Madureira, bisneto de Lopo Vaz de Camões, sucedeu nos morgados da Camoeira da Torre de Almadafe no termo de Avis, e da Gesteira no termo de Évora, ambos criados por Gonçalo Vaz de Camões e Duarte de Camões, último representante da varonia, que morreu sem geração, e por isso os vínculos passaram aos descendentes femininos de Lopo Vaz de Camões, que eram os senhores de Abadim e Negrelos. Existia esta posse em 1692.
Tadeu Luís Lopes de Carvalho, filho de Gonçalo Lopes, casou, depois do ano 1718, em Lisboa, com D. Brites Teresa de Meneses, que morreu muito nova. Celebrou segundas núpcias com D. Francisca Rosa de Meneses e Mendonça, filha de D. Francisco Furtado de Mendonça.
Tiveram filhos varões, que morreram na infância, e três filhas que casaram: D. Mariana Luísa Inácia, com Caetano Baltasar de Sousa de Carvalho, alcaide-mor de Vila Pouca de Aguiar; D. Ana Joaquina, com Gonçalo Barba Alardo Correia, em 1751; D. Guiomar Mariana Anacleta de Carvalho Fonseca Camões e Meneses, herdeira, com D. Antônio de Lencastre, governador de Angola — (1772-1779), filho segundo de D. Rodrigo de Lencastre.
Nasceram, entre outros falecidos na infância, um filho, que se chamou D. Rodrigo de Lencastre Carvalho Fonseca e Camões, e uma senhora, D. Francisca Rosa de Lencastre, que casou com seu primo Lourenço de Almada, 1º visconde de Vila Nova de Souto de El-Rei.
D. Rodrigo, herdeiro dos morgadios e senhorios de Negrelos, Abadim, etc., e sargento-mor do regimento de cavalaria do príncipe D. João em 1791, casou com D. Maria do Carmo Henriques, filha herdeira de João Henriques, do Bombarral.
No morgado da Camoeira sucedeu o 2º visconde de Souto de El-Rei pelo seu casamento com D. Francisca Felizarda de Lencastre, filha de D. Guiomar de Camões, senhora de Abadim e Negrelos. Uma filha destes viscondes, D. Guiomar, casou com Gonçalo da Silva Alcoforado.
Está, portanto, o sangue dos Camões em todos os descendentes da mulher do visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assinou com o apelido Camões. Está igualmente na família Alcoforado da casa da Silva, na família da casa de Vila Pouca de Guimarães; nos descendentes de José Bruno de Cabedo, 1º barão do Zambujal, por linha feminina, pois sua mãe era neta de D. Guiomar de Carvalho Camões e Fonseca; na casa da Pousada VI em Braga, representada há quarenta anos por Francisco Xavier Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Tadeu Camões, senhor de Abadim.
Em quase análogo parentesco estão os Srs. Leites de Paços de Sousa, e os senhores Pachecos Pereiras de Vilar, ou de Belmonte.
Não prolongarei esta resenha que decerto, hoje em dia, se ramifica tão copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reprodutoras das pessoas que representam aqueles ilustres apelidos.
Falta dizer que Luís de Camões deixou um filho que não se reproduz, e é imortal: chama-se Lusíadas...

Nenhum comentário:

Postar um comentário