quarta-feira, 24 de maio de 2017

Bocage (Ensaio Biográfico)


Bocage (Ensaio Biográfico)

Olavo Bilac: Conferência realizada pela Sociedade de Cultura Artística de São Paulo, no Teatro Municipal, em 19 de março de 1917. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

“Se o Destino cruel me não consente
Que o ferro nu brandindo, irado e forte,
Lá nos horrendos campos de Mavorte,
De loiros imortais guarneça a frente;
Se proíbe que, em sólio refulgente,
Faça os povos felizes, de tal sorte,
Que o meu nome, apesar da negra Morte,
Fique em padrões e estátuas permanente;
Se as suas ímpias leis inexoráveis
Não querem que os mortais em alto verso
Cantem de mim façanhas memoráveis,
Submisso à má ventura, ao fado adverso,
Ao menos por desgraças lamentáveis
Terei perpétua fama no Universo...”

Relembrei-me, tristemente, este desalentado soneto de Bocage, uma tarde, em Lisboa, numa loja do Rocio, em que se vendiam tabaco, jornais, revistas, e edições baratas de literatura equívoca. Sobre o balcão, havia um folheto mal impresso, de capa mascarrada, com um título vistoso, de chamariz, e um retrato do poeta:
"Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno..."

Abri o livreco, e folheei-o. Entre alguns poucos versos autênticos de Bocage, e ainda assim errados, cheios de aleijões, cobria as páginas uma germinação de pântano, anedotas insulsas, quadrinhas obscenas, motes e glosas de repugnante facécia, — tudo isso flagrantemente apócrifo, de gosto plebeu, de metro cambado, de gramática mascavada, revoltantemente atribuído ao talento de um dos melhores vernaculistas, do melhor metrificador da poesia portuguesa, de quem Teófilo Braga escreve "que é, depois de Camões, o único poeta de quem o povo português verdadeiramente se lembra". E voltaremos já a esta frase, para mostrar até que ponto um singular concurso ele circunstâncias fatais deu a um dos mais belos e corretos cultores da nossa língua a mais triste e lastimável das reputações.
Atirei, com asco, a desavergonhada brochura. Pobre Bocage! Nem ao menos só pelas suas "desgraças lamentáveis" teve ele "perpétua fama no universo"!
A fama lhe foi dada por esta ignóbil literatura de porneia! Era a sua estátua, aquele opúsculo torpe! — a estátua, que lhe foi erigida, amassada de lama, no coração da sua amada Lisboa, naquele mesmo Rocio, em que pompeou e brilhou, no fim do décimo-oitavo século, e no começo do décimo-nono, o famoso Botequim das Parras, teatro das glórias do inspirado repentismo de Elmano!... Como poderia Elmano, naquelas noites de triunfo, embriagado pelas palmas e pelas aclamações, pálido e descabelado, no arrebatamento da improvisação, adivinhar que aquele elogio geral, aquele louvor dos letrados e aplauso da plebe, aquele incensamento de excessivas lisonjas em vida, seriam, depois da sua morte, desfigurados em labéus?
Triste fraqueza humana, esta, talvez a mais triste das fraquezas que nos diminuem e envergonham: o amor da popularidade!
É tão fácil ser popular! terríveis assassinos, exímios ladrões, grandes devassos alcançam facilmente uma celebridade mais vasta do que a que logram os mais altos benfeitores da humanidade e os mais claros servidores da arte. Nem é preciso para ganhar notoriedade ser um chapado criminoso, nem um rematado louco; para subir ao galarim, não é necessário ser Nero, nem Erostrato; a escalada para o fastígio não requer sublimidades de crueldade nem de megalomania: nem a carnificina de cem mil cristãos, nem o incêndio do templo de Diana. Para guindar um homem ao Capitólio, bastam tolices vulgares, extravagâncias jocosas ou escandalosas, e pequeninas infâmias: cortar, como Alcibíades, a cauda de um cão de preço; ou exagerar, à guisa dos bufões de feira, momices e chalaças, originalidades de vestuário ou preciosidades de dizer; ou ainda, como Aretino, armar na praça pública um pelourinho para as reputações alheias, restaurando para espantalho dos timoratos as estátuas de Marforio e Pasquino. E nem tanto! A ascensão para o renome é ainda mais fácil... Esses pobres diabos, a quem chamamos "tipos de rua", que divertem ou incomodam os transeuntes, com a sua bebedeira ou a sua maluquice, são populares sem querer, inconscientes da sua popularidade... Pobres dons, os da fama pública!
Dir-se-á que há exagero nesta objurgatória contra a celebridade, porque não se deve confundir o renome, que se atribui a um horrendo facínora ou a um descarado palhaço, com o que se dá a um nobre estadista, ou a um belo poeta, ou a um admirável homem de ciência. Mas até a esses, até aos mais dignos e puros sacerdotes da Verdade e da Beleza, sempre a celebridade dá uma deturpadora tacha. O vulgo não perdoa nem suporta facilmente superioridades intelectuais ou morais. Quando um homem se realça sobre o comum dos mais, logo nasce contra ele, entre os aplausos, um sentimento hostil, que, se não é de inveja, é ao menos de instintivo despeito e vaga irritação. E começa o trabalho da curiosidade malévola, o inquérito perverso... "É possível que este homem, tão elogiado, não tenha todas as inferioridades, todas as mesquinharias, todas as misérias, que viçam em tantos entes sem talento e sem brilho? Exumemos desta vida gloriosa alguns mistérios, que se mudem em escândalos! catemos caramujos neste rosal! esvurmemos espurcícias deste astro! espiolhemos torpezas na grandeza desta inteligência e na limpidez desta moral! abaixemos esta montanha até o nosso pântano!" E lá vai a malignidade esperta, de olhos furadores e dedos metediços. Este sábio deve ter algum segredo triste; este artista deve possuir algum lastro de materialismo grosseiro; este santo deve disfarçar debaixo da aureola alguma tinha de pecado! E, se não aparece imediatamente alguma verdade, que dê pasto à ansiedade dos inquisidores, a calúnia abre o seu campo imenso, de fértil imaginação. E aí rebenta sobre o tronco da alta árvore humana a lepra da vegetação parasitaria, escamas de podridão, liquens verde-negros, ferrugem voraz, numa pululação de aleives... O grande homem não é tresnoitado jogador, nem temulento borrachão contumaz, nem frequentador de vielas escusas, comensal de tavolagens, de tascas, de prostíbule inclinações monstruosas, vagos desvios, inconcebíveis perversões, em que se não possam estabelecer verificações nem desmentidos; ou o célebre deve ser avarento, ou ganancioso, ou venal, ou seco de alma; ou talvez haja no recesso de sua família, alguma infelicidade, que, assoalhada, respingue vergonha ou ridículo sobre o seu nome... Que homem célebre já se livrou deste imposto sobre a celebridade? Sobre o lar doméstico de Vitor Hugo, houve quem despejou o cântaro da lama infecta, maculando a doce mulher que perfumou a casa, a lira e toda a vida do extraordinário poeta; de Goethe, disse-se que o seu coração era árido como uma rocha alpestre, e que o seu desamor infernou todas as mulheres que o amaram, até aquela que lhe deu o ser e o leite; e de Shakespeare inventou-se que acabou os dias, usurário sórdido, emprestando dinheiro a ágio cruel, e desgraçando viúvas e órfãos...
Além do mais, e principalmente, o renome em vida tem esta desvantagem: o cativeiro. O homem renomeado perde a propriedade de si mesmo, e fica escravo da pior das tiranias, que é a tirania exercida pela multidão. Aquele, que é constantemente falado, deificado e difamado pela voz pública, é como o ouro amoedado, que corre de mão em mão, roçando o tapete de todas as távolas, sujando-se no zinco de todos os balcões, perdendo o peso e o brilho. Mais vale para qualquer homem, e sobretudo para um artista, ser como o ouro, que se afeiçoa em custodia e se guarda na velada paz do santuário...
Isto apenas se refere, está claro, à popularidade em vida. Depois da morte, a aura popular muda de nome, e é a glória. E aqui cabe completar a frase de Teófilo Braga: "É certo que o povo português só conhece dois poetas pelos seus nomes — Camões e Bocage; não porque repita os seus versos, como os gondoleiros de Veneza as estâncias de Tasso ou os romanos as canções de Salvator Rosa, já que em Portugal se deu uma forte separação entre os escritores e o povo, mas porque Camões sintetiza o amor da pátria, e Bocage o repentismo muitas vezes cínico das suas anedotas picarescas..." Aí aparece, em plena luz, a funda diferença que há entre os dois renomes: o que é granjeado durante a vida, e o que é fruído depois da morte. Camões ficou célebre, de uma celebridade sem mácula, porque, depois de ter vivido desconhecido ou quase desconhecido, apareceu, depois da morte, aureolado da glória de ser o enternecido e puro cantor da sua nacionalidade, e revestido de uma misteriosa penumbra de legenda; as suas aventuras de espadachim e de arruador duraram pouco, em Lisboa, antes das suas campanhas e do seu exílio; os seus 16 anos da Ásia mataram o seu nome; e este nome, depois, fulgiu ao povo, como o de um deus invisível. Ao contrário, Bocage, que apenas viveu quatro anos fora de Portugal, foi sempre uma figura infalível de Lisboa; conhecido (infelizmente conhecido demais!), adulado e difamado, elogiado e injuriado, amado e odiado, célebre em vida, conservou depois da morte a nodoa dessa triste celebridade de rua e botequins, reputação de repentista fácil, equívoco lustre de rimador e contador de historietas imundas...
O pobre Elmano teve a consciência disto, quando escreveu em Macau este admirável soneto:
"Camões! grande Camões! quão semelhante
Acho o teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar com o sacrílego gigante.
Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
Ludibrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
Modelo meu és tu... Mas, ó tristeza!
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza!"

A diferença não consistiu nos dons da Natureza. Consistiu na disparidade dos destinos. O Destino não se importa muito com os dons da Natureza... Bocage nasceu cento e oitenta e cinco anos depois da morte de Camões — quase dois séculos. A época em que Camões viveu era ainda épica; a de Bocage era sensual — e burlesca.
Bocage, nasceu em 1765, e nasceu poeta, pela influência do sangue e pela da atmosfera de poesia que lhe cercou o berço. O pai era poeta; poeta era o tio-avô, Pierre Joseph Fiquet du Bocage, casado com uma poetisa francesa, Marie Anne Lepage; e poetisa era a irmã mais nova de Manuel Maria, dona Maria Francisca, nobre e carinhosa senhora, que acompanhou sempre o infeliz poeta na glória, na miséria, na enfermidade e na morte. Manuel Maria nasceu poeta:
"Das faixas infantis despido apenas,
Senti o sacro fogo arder na mente:
Meu tenro coração inda inocente
Iam ganhando as plácidas Camenas.
Faces gentis, angélicas, serenas,
De olhos suaves o volver fulgente
Da ideia me extrairiam de repente
Mil simples, maviosas cantilenas.
O Tempo me soprou fervor divino,
E as Musas me fizeram desgraçado,
Desgraçado me fez o deus menino:
A Amor quis esquivar-me, e ao dom sagrado;
Mas vendo no meu gênio o meu destino,
Que havia de fazer? cedi ao fado."

Cresceu o menino, a ouvir e fazer versos; fez-se rapaz, assentou praça no exército, obteve baixa, matriculou-se na Academia de Marinha; e veio cair em Lisboa, no ano de 1781, aos 16 anos de idade. Que era Lisboa, que era Portugal, naquele tempo? Já não era governo o grande Pombal, que morreu no ano seguinte. Corria, para a história de Portugal, uma fase triste, em que é difícil dizer o que mais dominava: o fanatismo ou a luxúria, a intolerância política e religiosa ou a depravação dos costumes.
No paço, Lisboa era isto, segundo Oliveira Martins: "O palácio era um convento. O rei esposo, feíssimo, com um aspecto de idiota, o olhar esgazeado, a peruca desgrenhada, parecendo bêbedo, era um sacristão, ou coisa nenhuma... Por toda parte, se murmuravam terços, e havia santos por todos os cantos, em oratórios e nichos, com velas e lâmpadas acesas. E o exército era uma confraria." Nas ruas, era isto: A capital do reino recordava aos viajantes sábios, que tinham visto mundo, Fez ou Mequinez em Marrocos. Mas sobre a Lisboa africana havia uma outra Lisboa afrancesada; e a reunião das duas produzia contrastes extravagantes. O janota odiava os costumes nacionais, falava em francês ou italiano. Meneando-se ostentosamente nas ruas, recebendo algum recado, que os criados lhe davam de joelhos, o fidalgo janota era chamado por várias ocupações. Estacionava nas esquinas e nos adros das igrejas, namorando ele estafermo, fazendo sinais com o lenço ("alcoviteiro das distâncias"), ou partia escudeirando a dama. Corria apressado, de uma missa a uma "grade", a um "outeiro"... As meninas, das janelas, faziam-lhe momices e acenos, chamando-o às vezes, à escada, para cochicharem; e pela noite a fora ia aos conventos das freiras, onde mais de uma vez a polícia deu assaltos, para expulsar as ternuras. Por essas horas perdidas, nas ruas da mal cheirosa Lisboa, despenhavam-se das janelas as cataratas das imundícies... Os mendigos iam esmolando, como fakirs; os andadores dos conventos vendiam piedosamente uvas, rape, e muitas coisas mais, pelas almas do purgatório... E nos conventos o requinte devoto reunia-se ao apuro do namoro: a sala da "grade", deliciosamente fresca, perfumada de jasmins, com uma luz tépida, era ao mesmo tempo a doirada gaiola das salesias e das pombas, dos papagaios e dos canários, que voejavam soltos, dos poleiros para o seio das meigas freiras; e nesta deliciosa mansão as visitas comiam doces, ouvindo os discursos seráficos do confessor...". E nas salas: "Os "peraltas" e as "franças" ou "sécias" falavam agitadamente, com grande mobilidade, agudeza e repentes, em coisas preciosas. Esta era "Sol-entre-nuvens"; os olhos de outra eram "Figas-de-Cupido" por serem pretos; "Ciúmes-da-vista" os azuis, "Traições-á-beata" os pardos. Os pés chamavam-se "Onças-de-neve", as mãos "Jasmins-de-carne". As mães sisudas eram "Vênus-maduras"... A modinha brasileira era o encanto doce da sociedade licenciosa. Havia mulatos célebres, autênticos, aplaudidos nos salões, por darem ao lundu um acento libidinoso como ninguém... Depois do lundu, alguma velha marquesa, alta, com o rosário de pérolas e topázios enrolados no pulso, dizia, lembrando-se de outros tempos: "lá vai!" — era um mote, que os peraltas orates glosavam. E as meninas, derretidas, aplaudiam com afeição: belo! sublime! precioso!...
Foi nesta cidade e nesta sociedade que o mancebo caiu de chofre, ávido ele amores e de glórias. E começou logo a perverter o seu talento nos improvisos, e o seu coração no desregramento geral. E habituou-se à triste existência de parasita, vivendo às sopas de gente rica, retribuindo com repentes e glosas a ceia que lhe davam, ou, como ele disse, num verso que escreveu pouco antes de morrer: "Pagando em metro o que devia em ouro..."
Esta fase da vida de Bocage, que poderei chamar "a sua iniciação na calaçaria lisboeta", durou até 1786, ano em que o poeta, despachado com o posto de guarda marinha, partiu para a índia, com escala pelo Rio de Janeiro. Como Camões, Bocage vai ver os grandes mares e o Oriente. É com um acento de grande melancolia, mas também de grande esperança, que ele se despede de Lisboa:
"Antiga pátria minha, e lar paterno,
Penates, a quem rendo culto interno,
Lacrimosos parentes,
Que inda na ausência me estareis presentes,
Adeus! um vivo amor de nome e fama
A nova região me atrai e chama.
Os mares vou talhar, cujos furores
Descreve o grande Camões, por quem de amores
Inda as Musas suspiram;
Aqueles mares, onde os Gamas viram
Do rebelde horrendíssimo gigante
Os negros lábios, o feroz semblante.
Quer a Sorte, propicia a meu desejo,
Manda-me a honra, cujas aras beijo,
Que com fervido brio
Contemple os muros da invencível Diu,
De onde, ó Silveiras, Mascarenhas, Castros,
Foi soar vossa fama além dos astros!
Nos climas, onde mais do que na História
Vive dos Albuquerques a memória,
Nos climas, onde a guerra
Heróis eternizou da lísia terra,
Vou ver se acaso ao meu destino agrada
Dar-me vida feliz ou morte honrada..."
Pobre! nem vida feliz, nem morte honrada... Lá se foi o desventurado para a Ásia, e veio, primeiro, ao Brasil, onde a sua nau devia vir buscar o novo governador nomeado para a índia. No Rio de Janeiro, Bocage, que morou na velha rua das Violas, foi feliz: recebeu assistência e carinho do então governador elo Brasil, Luiz de Vasconcelos, literato, que foi amigo dos nossos José Basílio da Gama e padre Conceição Veloso. E teve amores cariocas, e relembrou em versos gratos o encanto da cidade,
"............ onde murmura
O plácido JANEIRO, em cuja areia
Jazia entre delícias a ternura..."

O poeta quis ficar no Brasil. Mas não ficou, e seguiu para Goa, onde encontrou uma sociedade insuportável, enfatuada, ridícula, corrompida, — viveiro de viciosos. Bocage, pervertido por um famoso jogador, alferes José Dionísio, caiu nessa existência desregrada, encalacrou-se em tavolagens, desertou, fugiu, esteve em Damão e Surrate, náufragou em Cantão, e foi para Macau a pé, esfarrapado, faminto, mendigando. E aí padeceu miséria negra e vida vergonhosa...
Ao cabo de 4 anos deste ignominioso martírio, Manuel Maria voltou a Portugal. Tinha então 24 ou 25 anos de idade, e vinha encontrar Lisboa, como a deixara, entregue ao beatério, à devassidão e ao despotismo. Camões, no Oriente, sofrera, e exaltara a sua alma, e cristalizara os seus sofrimentos num poema imortal; Bocage, no Oriente, sofrera, e rebaixara a sua alma, e aprendera o amor da ociosidade e do vício, e adquirira o gosto da sátira mordaz, que é a expressão comum do descontentamento, da desesperação e da impotência. É que diferentes eram as épocas, em Portugal, como na Ásia. No Oriente e no Ocidente, no decaído Império e na decrépita Metrópole, a pompa e o fulgor da conquista, os troféus e a coroa, a vitória nos mares e o entusiasmo na terra atolavam-se num pântano... Filhos de dois períodos opostos, Camões e Bocage foram o que tinham de ser. O primeiro foi da era da aventura e da força; o segundo foi da era da carolice ridícula, da hipocrisia e da libidinagem.
Depois do regresso ao reino, os quinze anos de vida, que Elmano ainda teve, foram tristes como os outros, cheios de vã glória e de deplorável celebridade: a improvisação nos botequins, nas salas e nas grades dos conventos; os lampejos de independência, logo sufocados na estreiteza do meio e do hábito; os louvores exagerados, excitando ainda mais a imensa vaidade natural do poeta; a animosidade dos rivais medíocres, as injúrias, a inveja, a calúnia, a pobreza, precipitando-o no furor e no desregramento. Como todos os grandes espíritos do tempo, Elmano quis reagir contra a tirania política e religiosa. Estes assomos de dignidade levaram-no aos cárceres da polícia de Pina Manique e do Santo Ofício. Quando saiu da prisão, voltou aos botequins, fez escola, chegou ao fastígio da popularidade e da desgraça, e teve a sua famosa e feroz campanha com o invejosíssimo padre José Agostinho de Macedo, que também invejara Camões, pretendendo desbancar "Os Lusíadas" com o seu "Oriente". Consumiu-se assim, em lutas, a vida de Bocage, que envelheceu prematuramente, adoeceu, e morreu miseravelmente em 1805, num quarto andar da travessa de André Valente, pouco depois de escrever este soneto:
"Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel das paixões, que me arrastava;
Ah! cego, eu cria, ah! mísero, eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros soes a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mais eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dama
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:
Deus, ó Deus! Quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube!"

Morto Bocage, a triste e perigosa vulgarização, que se chama a popularidade, deveria, para o seu nome e para a sua imensa e radiante obra lírica, transformar-se em pura glória. Mas a glória, que lhe está sendo dada, está maculada. Um século de vergonha pesa sobre a alma de Elmano. O que aconteceu à sua memória é doloroso e revoltante. Em torno do seu nome, chegou a formar-se uma atmosfera de depravação e de escândalo. "Versos bocageanos", na boca do povo, querem dizer: versos que se não podem dizer, literatura de sal grosso e bafio nauseante, florilégio, de lama. Como se não bastassem para difamar a memória do poeta, as rimas de erotismo baixo, que ele infelizmente deixou, suas, bem suas, autenticadas pelo cunho inconfundível do seu estilo e da sua incomparável técnica, — ainda todas as gerações, que se seguiram à sua, têm inventado sujas trovas, tolas quadrinhas, inomináveis sonetos, que a ignorância alvar e sacrílega do populacho vai atribuindo à autoria do mais limpo versificador, que jamais praticou a nossa língua.
Duas injúrias: a agravação dos verdadeiros pecados do homem, e a falsa imputação, aleive infamante ao crédito do artista.
Sobre a primeira injúria, podemos passar sem reparo demorado. Para honrar a memória de Bocage, e reabilitá-lo, dando ao poeta o lugar que lhe compete, não é necessário negar os vícios do homem, transformando-o num anjo. Carlile escreveu que os grandes homens não podem, nem devem ser julgados pelos seus defeitos, senão pelas suas qualidades... E Manuel Maria não foi melhor nem pior do que os homens do seu meio e da sua época. Naquele tempo, e naquela Lisboa de Dona Maria Primeira, não havia anjos. Bocage foi realmente um vaidoso, um boêmio, um desordenado, um brigão, um homem de alma fraca e de linguagem desenvolta. Mas que eram os seus contemporâneos? Ele foi bem um filho da sua época. A cidade e o reino enchiam-se de libertinos e desbocados. Salões e conventos, palácios e ruas tinham a mesma gente sem moral. Os costumes eram soltos, e o falar desbragado. Foi então que começou a florescer o medonho calão, que ainda hoje desonra o idioma português, a gíria abjeta que suja a do Brasil, essa horrenda geringonça, de que Eça de Queiroz estereotipou o modelo em "Os Maias", no artigo asqueroso de Palma Cavalão, na "Cometa do Diabo". Todos os poetas do tempo de Bocage rimavam coisas fesceninas e sátiras atrozes, e assim se sujeitavam à moda, lisonjeando o gosto da gente que os rodeava...
Mas a segunda injúria, — e, mais do que injúria, calúnia, — essa é que deve ser dolorosa para nós; essa é que deve ser combatida por todos os poetas, e por todos os homens de cultura intelectual e moral. Bocage, autor de versos tolos e errados! Pobre poeta... Os recitadores das salas — gente daninha! — e os rapsodistas das ruas — raça abjeta! — torturam, desarticulam, destroncam, escorcham, escarnificam, aspam, desossam, mutilam, desgraçam a metrificação de Elmano. Até o seu mais erudito biógrafo, o sr. Teófilo Braga, que deveria ter a obrigação de saber o que é um verso bom e um verso mau, é cúmplice no crime. Este crítico, nas páginas do seu alentado volume de biografia e análise literária, tranquilamente aceita a autenticidade desta quadrinha enfezada, mole e torta, com que, no dizer das crônicas, Bocage respondeu às perguntas dos "noturnos" da guarda real da polícia, quando o prenderam à saída do botequim do Nicola:
Eu sou Bocage,
Venho do Nicola,
Vou p'r'o outro mundo
Se dispara a pistola...

Como se porventura esta prodigiosa imbecilidade pudesse sair da inteligência e da boca de Elmano, por mais que lhe tivessem embrulhado as ideias e a língua os carrascões da tasca!
Urge reabilitar o formoso lírico, que compôs tantos sonetos de ardente amor e triste filosofia, e tantos idílios, e tantas elegias, e tantas canções, que honraram a nossa raça. E urge, sobretudo, reabilitar o grande arquiteto da expressão verbal, o admirável artista da palavra, o inexcedível metrificador, que foi o desventurado Manuel Maria.
Não consintamos permaneça vilipendiada a reputação do lírico, que escreveu estes quatorze versos:
"Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores
Mole e queixoso deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
Dentre os aromas de pomar sombrio
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida...”

Em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage, e depois dele decaiu. Da sua geração, e das que a precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. A plástica da língua e do metro; a perícia do ensamblar das orações e no escandir dos versos; a riqueza e graça do vocabulário; o jogo sábio e às vezes inesperado das vogais e das consoantes dentro da harmonia da frase; a variação maravilhosa da cadência; a sobriedade das figuras; a precisão e o colorido dos epítetos; todos estes difíceis e complicados segredos da arte poética, cuja beleza e raridade às vezes escapam até aos mais cultos amadores da poesia e aos mais argutos críticos literários, e que somente os iniciados podem ver, compreender e avaliar; esta consciência, este gosto, esta medida, este dom de adivinhação e de tato, de que os artistas natos têm o privilégio, — tudo isto coube a Elmano, tudo isto se entreteceu no seu talento. Depois dele, Portugal teve talvez poetas mais fortes, de surto mais alto, de mais fecunda imaginação. Mas nenhum o excedeu, nem o igualou no brilho da expressão. O romantismo veio renovar a poesia portuguesa, deu frescura e brilho à idealização dos assuntos, deu força e graça ao movimento da expressão, — e benéfica foi aquela rebeldia contra a secura e dureza dos moldes clássicos. Mas, depois de Garrett e Castilho, os últimos renovadores exageraram e deturparam a escola saneadora. Implantou-se nos arraiais da Poesia o desleixo, a correção da linguagem foi desprezada, e a métrica arrastou-se por longos anos, pobre enferma, aleijada mísera, em vão suplicando cuidados de desvelado ortopedista a... Houve, depois, felizmente, reação; mas esta reação não se manifestou em Portugal, senão aqui, no Brasil, com a geração dos chamados poetas parnasianos, erradamente parnasianos, porque, como tão belamente escreveu o meu querido mestre Alberto de Oliveira, "entre nós nunca houve parnasianismo; houve, sim, por influxo deste, um desvio da corrente poética, que, engrossada a princípio dos melhores cabedais românticos, rolava ultimamente rasa e desfalecida; houve substituição e melhoria de alguns ideais, a dos elementos de elocução, linguagem, e tudo o mais tocante ao meneio do verso; tomou-se então mais a sério o ofício de lidar com a palavra, o que não foi senão repor em seu lugar este ofício ou arte, sempre reverenciada dos bons espíritos; e não direi o "culto da fôrma", mas o empenho de bem escrever, aprimorando esta ou expurgando-a de vícios que a desfeiam, tornou-se mira principal dos poetas de então. "
Pois bem, devem os nossos poetas modernos ter Bocage como orago e mentor. Devem amá-lo e estudá-lo, sem o imitar, porque não podemos pensar e escrever exatamente hoje como se pensava e escrevia em 1801, mas aprendendo com ele o respeito do idioma e da versificação.
E congreguem-se iodos os bons amigos da Poesia no piedoso trabalho ela reabilitação de tão alto cantor e adorável artista! Não fiquem sobre o seu nome tantas crustas de lodo! Esqueçam-se nas tristes páginas de amargo rancor e feia licenciosidade, que o descontentamento, a má educação do tempo, a miséria, o desamparo moral inspiraram a Elmano; rasguem-se, queimem-se, com asco e horror, todas essas invenções impressas, com que descarados escrevinhadores procuram, sob a capa da fama do grande poeta, explorar a algibeira e depravar o gosto do povo; leiam-se e releiam-se os perfeitos versos em que ele cantou os seus amores e as suas desgraças; e alvoreça para ele a verdadeira e definitiva glória.
E possa ele, libertado do desdouro que tanto tempo lhe infamou a memória, repetir:
"Eia! os ódios cevai, cevai a infâmia,
Fúrias, que evaporais tártaras sombras
Contra o olímpio fulgor que envolve o gênio!
Entre essa escuridão, reluz meu nome.
Versos balbuciei com a voz da infância;
Vate nasci, fui vate, inda na quadra
Em que o rosto viril macio e tenro
Semelha o mimo de virgínea face...
Se às Musas não pertenço, eu, que a Virtude,
Filosofia, Amor cultivo, adoro;
Eu, que cem vezes, concebendo o Olimpo,
Absorto com Platão num mundo estranho,
Ou de olhos divinais divinizado,
Sinto no coração, na voz, na mente
Tropel de afetos, borbotões de ideias,
E: "Eis o Deus! eis o Deus!" exclamo, e voo
De repente onde mil nem vão de espaço;
Pertencereis às Musas, vós, sem fama,
Sem alma, sem ternura? Ah! longe, longe
De meus cândidos sons, que se enxovalham,
Peçonhentos dragões, na peste vossa!
Graças, ó Febo! ó nume! ó Lísia! ó Pátria!
Vossos dons, vosso aplauso alteiam, firmam
Sobre a cerviz da inveja o meu triunfo!"

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