quarta-feira, 24 de maio de 2017

Bocage Mendigo (Aspectos Biográficos)


Bocage Mendigo

Escrito em 1906 por Júlio Dantas e publicado no Brasil em “A Revista”, em sua edição de julho  de 1926. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)


Em Portugal os poetas, durante todo o século XVIII, foram socialmente qualquer coisa de intermediário ao bobo e ao mendigo. Para não morrerem de fome e para não descerem como o Bento Antônio ou o José Daniel a vender literatura de cordel pelas ruas, acolhiam-se à proteção das casas fidalgas. De ordinário, no estado das grandes famílias nobres havia um poeta, — tão naturalmente como havia um cabeleireiro italiano, um frade alcoviteiro ou uma boba mulata. Eram preferidos os que cantavam lundus à viola, ou tinham prática de glozar motes em outeiros de abadessado. Alexandre Antônio de Lima foi o poeta-bobo dos marqueses de Gouvêa; Caldas Barbosa, o dos condes de Pombeiro. Ambos mulatos, ambos célebres nas modinhas brasileiras e No lundu chorado, ambos eméritos na complicada arte de fazer rir o seu semelhante. O talento era então um simples título para se ser admitido à mesa dos criados nas grandes casas da nobreza. Os poetas tornavam-se os mais temíveis concorrentes dos franciscanos. Tolentino passou a vida a pedir esmola, com o hábito de Cristo ao pescoço. Bingre, o Malhão e o idiota do Saunier apodreciam horas e horas nas antecâmaras fidalgas exercendo unia verdadeira mendicidade. Dedicar um soneto equivalia a estender o chapéu. As cartas pedinchonas de muitos poetas no século XVIII desqualificariam hoje o mais modesto homem de letras. No fundo dessas criaturas apagadas tinham-se obliterado as mais fundamentais noções de dignidade. Não havia orgulho, quase não havia caráter. A Nova Arcádia, com o doutor França, com o beneficiado Caldas, com José Agostinho, com Bingre, era uma corte de bobos da casa Pombeiro, lisonjeando a condessa, comendo doce de ovos, tocando viola, dizendo facécias, roçando os calções pelos canapés, humilhando-se, intrigando, bajulando, alcovitando.
O conde, pelo luxo fidalgo de ter uma Academia em casa, dava esmola e mesa aquela assentada de Menalo, cujo distintivo simbólico era, contraditoriamente, um lírio de prata impoluto. O Almanach das Musas ficou como documento reles das “quartas-feiras de Lereno”. Poetas que eram príncipes pelo talento, mendigavam como pedintes de portaria. E nem uma revolta, nem um repelão de dignidade, nem uma reação de orgulho: absolutamente nada. Foi preciso que aparecesse a figura pálida curvada, raquítica de Bocage, para surgir com ela a primeira revolta e o primeiro protesto. É certo que Bocage mendigou lambem, que também pediu esmola para não morrer de fome; mas, honra lhe seja, —rebelou-se e protestou.
Há quem duvide ainda da grandeza moral do primeiro dos nossos poetas setecentistas. Há quem lhe não perdoe vícios e defeitos, isolando-o da sociedade a que pertenceu para o encarar sob o falso critério da moral de hoje. Ora os grandes homens são produtos do seu meio e da sua época. É necessário conhecer-se a sociedade do fim do século XVIII para avaliar Bocage em toda a sua estatura moral. É indispensável compreender-se a que supremo abandalhamento, a que situação de subserviência e de miséria tinha chegado o homem de letras sob a intendência de Manique, para que a rebelião e o protesto desse falido glorioso surjam em toda a sua significação e em todo o seu valor. No momento histórico em que desgraçadamente viveu, a bravura de orgulho, a selvageria de independência, de Bocage são a afirmação irrecusável dum grande e sólido caráter. Evidentemente, ser-lhe-ia fácil ter triunfado na vida, tanto quanto entre nós, em 1790, podia triunfar um poeta. Como todos os outros bobos e mendigos seus confrades, podia encostar-se aos Mecenas que o reclamavam, cocar a casaca em espaldares de damasco, trazer o estômago quente e a algibeira cheia. Bastava transigir, amoldar-se, adaptar-se. Em vez de andar embrulhado no seu velho capote de baetão azul, a arrastar pelas tabernas a sua independência e os seus sapatos rotos, a sua miséria de alcoólico e o seu orgulho de príncipe, podia ter explorado o meio em que vivia, ter sido como os outros, como todos, devoto e bandalho, parasita e adulador, bobo e alcoviteiro. Mas não. Entre Bocage e a sociedade que o rodeava estabeleceu-se desde logo uma essencial e profunda irredutibilidade. Deu sempre um pontapé na fortuna, quando era preciso comprá-la ao preço duma transigência.
Era por temperamento, por caráter, por instinto, uma criatura livre, azeda, combativa e revoltada. Levado ao Paço, de coche, suntuosamente, para improvisar por ocasião do nascimento da infanta Maria Tereza podendo conseguir a proteção do príncipe, a simpatia da corte, infiltrar-se, meter-se, insinuar-se, triunfar, — Bocage afasta-se do Paço. Apresentado a Beckford, quando o riquíssimo inglês, com Verdeuil e o conde de Lucatelli vinham de visitar a Sé de Lisboa, podendo valer-se da sua amizade evidente, aproveitar o entusiasmo da sua admiração, colocar-se, impor-se, — Bocage afasta-se de Beckford. Devendo utilizar a estima da condessa de Oyenhausen, sua admiradora até à ternura, protetora desvelada de sua irmã Maria Francisca, lisonjeá-la, frequentá-la, agradar-lhe, — Bocage afasta-se da condessa de Oyenhausen. Um dia, o erudito Thomé Barbosa hospeda-o, mata-lhe a fome, fá-lo sentar à sua mesa, ler na biblioteca, servir pelos seus criados, trata-o como a um filho, e quando lhe ia dar um começo de vida, como seu secretário, como seu colaborador, como seu amigo, — Bocage afasta-se de Tomé Barbosa. Por último, fazendo parte da Nova Arcádia, admirado com sinceridade pelo conde de Pombeiro, regedor das Justiças do reino, sendo-lhe fácil conseguir, como o mulato Caldas, um lugar na Casa da Suplicação, podendo subir, triunfar, vencer, colocar-se, — Bocage, de súbito, sem motivo, sem causa aparente, mete a ridículo o conde, as quartas-feiras de Lereno, o chá, os versos, os consócios, o ex-frade, o Mecenas, inimiza-se, insulta, achincalha, e declarado incapaz de ser recebido numa sala, move contra si a justiça, o intendente, a Academia, as “sérias”, a nobreza, — e ao mesmo tempo temido e detestado, admirado, e perseguido, liquida-se, perde-se, isola-se, mata-se. Se compararmos este amontoado de rebeliões, de isenções heroicas, com a subserviência de bandalhos dos poetas da segunda metade do século XVIII, compreendemos então que valor incalculável teve o protesto de Bocage, — protesto único, isolado, digno, honesto, no meio duma literatura untuosa de frades, de bobos, de hipócritas e de pedintes. Entretanto, pediu esmola, — dir-se-á. Não há dúvida. Pediu-a, quando tinha fome. Mendigou muitas vezes um cruzado novo para o jantar da irmã. Recorreu alguns dias ao caldo e ao albergue dos frades da Boa-Hora. Mendigou, é certo, mas revoltava-se com toda a sua alma, com toda a sua indignação, com todo o seu orgulho, contra a necessidade de mendigar. A diferença entre Bocage pedinte e os seus confrades do século XVIII estava positivamente nisso. Os poetas mendigos de 1780 cultivavam a esmola, parasitavam, beijavam untuosamente, hipocritamente, a fivela do sapato do benfeitor. Era um hábito, era uma abdicação, era uma vergonha. Bocage, pelo contrário: mendigava, — mas protestava. Foi pedinte, não por costume, não por índole, não por baixeza, — mas por necessidade orgânica, inadiável, no último extremo, na última miséria, protestando sempre, rebelando-se sempre. Era a revolta natural do obreiro contra a sociedade que desvaloriza a sua obra. Como havia ele de comer, se vendia os livros a Tadeu Judas por três moedas? Como havia de vestir-se com a miséria que lhe dava por mês frei José Veloso? Constrangido pela fome, recorria à mendicidade, não como unia dádiva vexante, — mas como uma indenização. Não recebia a esmola com humildade; aceitava-a com altivez. Como Diógenes, não pedia; reclamava o que lhe era devido. Daí, a ausência lógica, em Bocage, de todo o sentimento de gratidão. Acusavam-no de ingrato todos os seus protetores, costumados à genuflexão hipócrita do reconhecimento, — José de Seabra e a marquesa de Alorna, Thomé Barbosa é frei Joaquim de Foyos. Bocage nunca soube agradecer, — como nunca soube lisonjear. Era uma criatura bárbara, selvagem, primitiva, independente. Ao passo que Tolentino, com a fita de Cristo sobre a vestia de seda preta, dava lições de subserviência e de untuosidade aos franciscanos profissionais, — Bocage estendia a mão com a altivez de quem reclamava uma dívida. Os poetas das luminárias e dos outeiros pediam como bandalhos, estendendo o tricorne: Bocage, pelo contrário, mendigava como um grande de Espanha, — de chapéu na cabeça. Por isso, a nossa saudação não deve ser apenas dirigida ao mais brilhante dos sonetistas que teve o século XVIII, — mas também, e acima de tudo, ao mais fidalgo dos mendigos que tem tido Portugal! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário