quarta-feira, 24 de maio de 2017

Camões: o português


Camões:  o português

Ensaio escrito em 1924, pelo escritor Amadeu Amaral. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2016)

O que acaba de dar plena consistência e enérgico relevo a esta figura, que vedes mal esboçada nos aspectos até aqui encarados, é a sua alma e a sua consciência de português.

Claro é que o português já está de algum modo assinalado sob as cores vi vazes desse temperamento jovial e melancólico a um tempo, amoroso, senti mental e valente, e sob as próprias feições do homem da Renascença — por que essas feições não representam em suma senão a maneira como atuaram sobre o espírito de um português as influências que a Renascença e fenômenos concomitantes espalhavam por toda a Europa. Mas é preciso agora acentuar; mais precisamente o seu lusitanismo, qualidade tão essencial à compreensão do seu gênio, que chega a confundir-se com este. O gênio de Camões foi o amor da pátria exaltado.

O patriotismo de Camões não era apenas ideia, reflexão e vontade, era, antes de tudo, qualquer coisa ainda mais orgânica e substancial na sua pessoa. Dir-se-ia que lhe latejava obscuramente nos próprios fundamentos do ser, como o instinto de conservação e como os apetites elementares, e que ele viera ao mundo talhado para ser patriota ainda contra vontade. Muita coisa concorre para que Camões seja a expressão suprema da sua pátria, e nem tudo se pôde atribuir a propósitos definidos e certos. O inconsciente corria adiante das suas concepções meditadas e chegava à meta antes delas. É possível mesmo que as tenha suprido mais de uma vez.

Já vimos como a sua paixão da antiguidade foi grande: pode-se dizer que foi exagerada, em questões de pormenores. Houve, porém, qualquer coisa que o amparou, evitando que tombasse no puro eruditismo ou que se estagnasse, como Ferreira, na superstição dos modelos clássicos; e esse poeta, que parecia ter na cabeça um compêndio de mitologia e outro de história antiga, foi o que melhor soube aliar às ideias e formas novas a maior soma de elementos nacionais — as lendas e crenças, os sentimentos e ideias, os boleios familiares do velho lirismo, o tom genuíno da espontânea loquela nativa.

Já ficou dito que a sua moral se ressentia do influxo do Renascimento, que substituirá a uma pálida glória no paraíso a glória saborosa e acre que se conquista na terra. A moral aristocrática dos homens da Renascença italiana tendia à plena expansão da "virtu" individual, no pleno gozo de todos os bens deste mundo. Camões punha como suprema lei o dever patriótico e desprezava a cobiça dos bens materiais como indigna de ânimos generosos. Há nessa atitude algo daquele desprendimento e pureza dos cavaleiros andantes, cujas façanhas e gestos ainda deliciavam toda a gente na península, através de maníacas exagerações literárias. Parece brilhar sobre ela como uma estrela a velha máxima cavalheiresca: "Fais ce que tu dois, advienne que pourra". Mas também há nela bastante da concepção romana do patriotismo, que, como notava Antero de Quental, era a que então predominava ou acabava de predominar nas camadas superiores da nação, produzindo uma florescência admirável, e única no tempo, de caracteres compactos, couraçados de lealdade, de abnegação e de valor Portanto, ainda aqui o poeta não fez senão representar nos seus próprios sentimentos os melhores sentimentos da grei nacional.

Mas ainda há mais, muito mais. Não foi, de certo, com exata intenção que Camões, poeta de um país de navegadores, se tornou o grande poeta do mar, como vem sendo notado desde Humboldt e Lamartine até Joaquim Nabuco. Os "Lusíadas" desenrolam-se como sob um marulho constante de vagas e um sibilar de ventos em vergas e cordoalhas. Muitas das mais vivas, mais verdadeiras e mais formosas das suas pinturas e evocações são marítimas. A paisagem e as coisas de terra passavam vagamente pelos olhos do poeta: os aspectos, cenas e incidentes do mar fixavam-lhe a atenção e gravavam-se-lhe na memória em fulgurantes imagens, ricas de cor, de movimento e de relevo.

Mas venhamos propriamente ao seu patriotismo.

Esse é inegável. Impossível confundi-lo com uma simples exaltação poética mais ou menos sincera, mais ou menos artificial. Tudo, na sua vida e nos seus escritos, traz uma preocupação constante com a terra de seu berço. Algumas das notas mais humanamente vivas da sua poesia são puros brados de saudade, de ternura ou de orgulho patriótico. Lembrais-vos, certo, de como soam deliciosamente, irrompendo como um gorgolão de água fresca no meio da longa narrativa do Gama ao rei de Melinde, estes quatro versos tão simples:

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo...

Notai com que flagrante naturalidade soluça o último verso do soneto em que ele descreve, enfastiado, as misérias da índia, triste Babilônia onde a pátria lhe surgia na lembrança como uma Jerusalém formosa e remota:

Cá neste labirinto onde a Nobreza,
O valor e o saber pedindo vão
Às portas da cobiça e da vileza;

Cá neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Mas todo o seu grande poema não é senão um só canto comovido e forte de patriotismo irreprimível. Desde a primeira à última estrofe tudo parece correr abundantemente da mesma fonte íntima de amor, de ufania e de entusiasmo. Por sob a sucessão das estâncias, ora vivazes e vibrantes a sugerirem longos rufos de tambores, ora calmas e solenes como as solidões do mar em bonança, ora alegres e coloridas, ora tocadas de tristeza como ilhas envoltas na cerração, ora frementes de desconsolo ou de cólera, há sempre e sempre a permanência inalterável de um sentimento profundo, que não arrefece, não dorme, mas pulsa constantemente como um coração poderoso: o amor da pátria.

Sem essa paixão, assim absorvente e dominadora, não é possível compreender o milagre desta vida tormentosa e desgraçada, que produz tal poema. Considerando os aspectos exteriores e superficiais dessa vida e dessa individualidade, fica-se assombrado de como pôde sair obra tão vasta, tão complexa, tão sólida e tão memorável de tanta desordem e tanta incoerência aparentes. É preciso, porém, inverter os termos. A vida secular de Camões é que foi, em grande parte, um produto dos "Lusíadas".

A criação de poemas épicos era uma ideia que andava no ambiente da Renascença. Na Itália havia os exemplos ilustres de Boiardo, de Bocaccio e de Ariosto. Em França, um contemporâneo de Camões, Ronsard, preparava a sua "Franciade" Em Portugal, João de Barros, entre outros, exprimira a aspiração de um poema nacional, e chegara a bosquejá-lo de algum modo, nas visões finais do seu "Clarimundo" Mas em Portugal não havia apenas o sonho literário de uma epopeia, havia uma assombrosa epopeia feita pelo povo e que só esperava por uma voz bastante poderosa que a elevasse à concentração e ao esplendor da forma de arte definitiva.

Essa ideia, vagueando no ar, pousou naturalmente em muitos espíritos, e foi-se. Chegando, porém, a Camões, encontrou um jovem rebento de antiga e larga progênie portuguesa, um parente do ilustre Gama, um caráter ardente e generoso, inteligência aberta e cultiva da imaginação luminosa. Era o terreno próprio. A ideia, acariciada a princípio, deixada logo por outros cuidados, retomada depois, talvez displicentemente, não o abandonou mais. Crescia e precisava-se por si, como um gérmen.

Um dia, o poeta Olhou para dentro da sua alma, e quedou angustiado e maravilhado, receoso e triunfante: era a visão do poema, global e imponente, ainda confusa, mas já esplendida, que lhe entrava pelos olhos espantados, num tropel variegado de guerreiros, de heróis, de varões romanos, — piques levanta dos, espadas relampejantes, corcéis escumosos, velas a tatalar ao vento, estandartes, paquifes e cruzes, — a princípio no horizonte azul do pátrio torrão, de pois mais longe, mais longe, mundo em fora, céu em fora, e ficava pairando sobre a largueza do horizonte mais vasto que até então fora possível conceber, e perdia-se lá no alto numa nevoenta lucilação de resplendores onde se moviam teorias de deuses.

Desde esse dia ele guardou consigo a "sua" ideia, com respeito, com zelo e com ânsia, como quem trazia uma revelação, um segredo, um tesouro, um mundo consigo. Desde então, não se pertencia mais. Tinha uma missão na vi da: realizar aquela visão. Ela possuía-o. Ele era seu escravo. Decepções de amor, desenganos de amizade, malícias humanas, infâmias, tacanhices, que lhe importava isso tudo? Abandonava-se aos balanços da fortuna. Largava-se ao vaivém das ondas da vida. Soprem os ventos de onde soprarem! Atirem esta pobre carcaça de um a outro canto dos mares orientais! Passe por ele a insolência ultrajosa dos chatins opulentos e dos fidalgos tesos e vazios! Venha a miséria, a fadiga, a fome! Ele já não cuida de si. Ele tem a sua missão na vida, a sua grande missão, a sua missão máxima, quase única, a sua missão de amor e já agora de revolta, de desespero, de vergonha, e de esperança, ainda.

Por isso, também, pouco lhe importam os espetáculos repugnantes da realidade presente. Ele vê, ele palpa, ele acima de tudo experimenta quanto há de torpeza nos homens, quanto é vil "o mundo vil da néscia gente", quanto pode a injustiça, quanto vale o dinheiro, "que a tudo nos obriga", quanto o egoísmo e a malignidade perseveram sob as mais nelas aparências de polícia e cultura, quanto, enfim, a terra que ele adora está enxovalhada de coisas execráveis. Não importa. A sua visão salva-o de ficar à beira do esterquilínio, entregue ao desânimo, ou entretecendo pequenas rimas, pequenas intrigas e pequenas discórdias.

A sua pátria, a pátria que ele estremece e em cujo seio se refugia não é essa das aparências e das contingências presentes, é uma pátria transfigurada e purificada, alta como um castelo, casta como uma igreja, inacessível à espumarada dos macaréus transitórios; é a pátria sublime, realidade maior e mais bela que a realidade tangível, a pátria dos heróis, dos sábios, dos justos, dos sonhadores, das grandes almas, das belas ações, dos feitos ilustres, dos orgulhos profundos, das audácias flamejantes, das aspirações radiosamente abluídas em sangue e em lágrimas generosas; é a pá tria que vive há séculos numa obstinação de existir e de poder, que venceu em Aljubarrota, que expeliu os mouros, que fulgurou no montante de Afonso Henriques, que coriscou na espada de Nunalvares, que chamejou no penacho de Fuas Roupinho e de Magriço, que ar deu no côncavo das velas errantes assombrando mares e terras da América, da África, da Ásia e da Oceania; é a pá tria que se consubstância numa aparição de beleza e de glória, e que não morre.

Assim, tudo na sua vida se subordinou ao ritmo de um pensamento supremo e às necessidades da sua elaboração. Assim, tudo quanto lhe vinha do trato e experiência dos homens e das coisas, seus estudos e leituras, tudo se lhe ia convertendo insensivelmente em Substância viva, fecundada pela presença permanente daquela ideia dominadora, que vegetava e crescia. Daí a soma enorme de conhecimentos literários e científicos, de noções morais, de sentenças e observações práticas que enchem o poema e que não se devem compreender só como uma multidão de materiais expressamente aparelhados para ornamento da obra, mas, principal mente, como coisas que se foram fixando sob a ação organizadora e plasticizadora de um pensamento único, que era para o poeta a vida da sua vida e que lhe abrangeu toda a atividade psíquica durante a maior parte da sua existência.

Terminados os "Lusíadas" o poeta voltou com eles à pátria e feios imprimir, em 1571, na casa de Antônio Gonçalves: edição simples, sem proêmio, sem dedicatória, sem notas. Estava reduzido à mais negra necessidade, quase vivendo de esmolas. Obteve-se-lhe uma tença de 15$ anuais. No mesmo ano, pouco depois, o rei mandava pagar 20$ por ano ao seu copeiro Antônio Galvão, por lhe ter trazido em primeiro lugar a notícia da matança de Saint Bartelemi... Cerca de um ano antes, o mesmo rei; concedia a comenda da Ordem de Cristo a Ronsard, a pedido do seu "ir mão e primo", o rei de França.

Passam-se alguns anos. Em 1580, Portugal estava nas mãos de Castela. Camões, no seu leito de morte, teve a antevisão do ultraje e escrevia a um amigo: “assi acabarei a vida, e verão todos que fui tão afeiçoado à minha pátria, que não somente me contentei de morrer nela, mas de morrer com ela."

Morreu com ela. Mas nem ele nem ela morreram de todo. Durante a dura noite do cativeiro, o fogo sagrado continuou a ser entretido em silêncio pela devoção dos que não se corromperam nem se entibiaram. Para esses o poema de Camões foi o livro dos livros, o resumo - das suas saudades, das suas crenças e das suas esperanças. Veio depois a hora da ressurreição, e o poema assim continuou sendo, até hoje, para todo o povo português; e assim continuará por todo o sempre.

Refere Diogo do Couto que, voltando da índia, em 1568, foi encontrar na maior miséria, em Moçambique, o seu "matalote e amigo" Luiz de Camões, e chama-lhe "Príncipe dos Poetas do seu tempo" Príncipe imperante ficou ele sendo desde então e sempre há de ser.

Nenhum reinado mais largo, mais aceito, mais amado, nem mais proveitoso. Portugal deve-lhe mais que a todos os seus reis, guerreiros, estadistas e doutos. Todos esses lhe deram grandezas e faustos, haveres e brilhos que passaram, ou passam: os "Lusíadas", o "Tesoro dei Luso", na frase de Cervantes, esse não passa. As outras riquezas continham germens de decadência, de corrupção, de desordem ou de morte: os "Lusíadas" incorruptíveis, invioláveis e imortais, são uma fonte perene de consolações, de energias e de esperanças.

Em torno deste príncipe perfeito a nação se congraça, se reconhece, se reanima. Diante dele todas as independências e todas as rebeldias se dobram e murmuram contritas, num ato de fé e de amor.

Que maravilhoso destino estava reservado àquele triste indigente de Moçambique!

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