quinta-feira, 25 de maio de 2017

Carlos Drummond: poesia e religião


Carlos Drummond: poesia e religião

Texto escrito por Carlos Drummond e publicado no ano de 1926. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

O espírito religioso vai readquirindo os seus direitos no campo das poesias. Esta afirmação talvez provoque protestos, mas estou certo que também encontrará apoiados (Muito bem! Muito bem!) Não é difícil prová-la. Provo. Não tenho sobre o assunto nenhum ponto de vista sectário. Isto é o essencial. Constato apenas. Confesso que a religião não faz parte de minhas preocupações habituais. Ainda não cheguei à idade de crer pela segunda e última vez, isto é, definitivamente. Os moços não têm tempo de ser religiosos; poderão sentir no máximo pressentimentos religiosos. Sua missão natural é destruir os mitos da infância, para reconstruí-los mais tarde, na idade madura. Na idade madura o homem regressa à religião. Não tem outra ciosa a fazer. Faz bem. É um crente desiludido, mas é um bom crente. Falo dos espíritos indagadores. Os outros nunca duvidaram... E sem dúvida não pode haver convicção generosa. A dúvida é a semente de tudo. A negação, esta eu não compreendo. Mas como dizia...
Como dizia, encontro na poesia moderna a influência frisante da religião. Entendamo-nos. Absolutamente não foi minha intenção afirmar que os poetas modernos são uns carolas ou uns savanarolas. Indiquei uma influência. Esta influência existe, verifica-se, mas não domina exclusivamente. Poderia acrescentar que ela é um produto dos dias feios da guerra que o mundo inteiro viveu, porém acho isso mais discutível. A guerra não foi um fenômeno à parte, gerador de outros fenômenos igualmente positivos e catalogáveis. Foi uma consequência, como consequência tem sido tudo que depois vem sucedendo. Só uma longa e intensa fermentação espiritual poderia dar em resultado a dolorosa tolice dos exércitos que se espatifaram e dos povos que brigaram por um ideal muito bonito mas que afinal de contas... pilhérias! Tudo isso vem de longe e é bem possível que a guerra não tenha acabado. Mudou de piano ou de cenários. São imprevisíveis os destinos do mundo dito civilizado, num raio de 100 anos apenas. Prefiro silenciar sobre este ponto e lembrar somente que a revivescência do espírito religioso, não nas massas porém nas elites, tem sua origem em fatores complexos que muito antes da guerra já se faziam sentir e que se resumem todos numa pavorosa desorganização dos valores morais e intelectuais. Irra que ninguém mais se entendia! Paulo Valery em seu saboroso “Varieté” procura descrever o que era a Europa de 1914: “Cada cérebro duma certa classe era uma encruzilhada para todas as espécies de opinião; cada pensador, uma exposição universal de pensamentos. Havia obras do espírito cuja riqueza em contrastes e impulsões contraditórias faziam pensar na iluminação desesperada das capitais naquele tempo; os olhos pegavam fogo e aborreciam-se...” Tudo isto somado multiplicado levado ao infinito provocou reação fulminante que se esboçou com a guerra e irá Deus é quem sabe onde. Deixemo-la ir e fixemos o papel do espírito religioso na poesia moderna.
No Brasil há evidentemente um equívoco a respeito da natureza das ralações entre estas duas palavras: poesia e religião. Li há pouco um artigo do estimável Sr. Jackson de Figueiredo (um bom espírito; um espírito com quem se pode contar) e pude ver até onde leva esse equívoco. Leva ao ponto de confundirmos poetas religiosos com religiosos poetas; os primeiros são raros; os segundos proliferam e dão mostra quase sempre de estreiteza de vistas, cantando por extenso a obra da criação, com louvores particulares a cada “florinha mimosa” e a cada “colibri adejante” e esquecendo... a mulher. Lamentável esquecimento! Mas isso é lá com eles. O fato é que não tivemos até agora nenhum poeta religioso.
— E Alphonsus de Guimarães?
Alphonsus de Guimarães foi admirável poeta lírico, de inspiração melancólica e mesmo fúnebre; escreveu “Kiriale”, “Dona Mística”, “Septenario”, mas não se pode dizer que o dominasse nenhuma das grandes preocupações de caráter religioso que tornam inconfundível a produção dum Paulo Claudel, por exemplo. Em que passo de sua obra o poeta se prepõe como tema a finalidade do homem ou os grandes trabalhos espirituais exigidos para sua purificação ou o sentido místico das coisas ou qualquer outra questão da mesma ordem? O que o seduzia na religião ou melhor no catolicismo era a liturgia a pampa do cerimonial o aparelhamento suntuoso com que a Igreja cativa até os mais libertinos, convidando-os à maior das volúpias, que é a da libertinagem estética. Compre notar ainda que ele se alistou numa escola onde Verlaine dava o tom cantando “O mon Dieu, vous m'avez blessé d'amour” e que assim, compondo louvores à Virgem, obedecia muito menos ao temperamento que à moda. Não vou ao extremo de negar a religiosidade de Alphonsus. Mas era a de todos nós que recebemos infalivelmente a educação cristã. Tenho meditado sobre sua obra. E cada vez me convenço mais que Alphonsus foi um grande lírico vindo antes do tempo. Não achou a sua expressão. Dessem-lhe o material de que dispõe o poeta moderno, dotado de recursos críticos incomparáveis, terrivelmente bem informado sobre a menor de suas impulsões e ao mesmo tempo respeitando o elã primitivo dessas impulsões e... os senhores veriam.
Conversemos. O responsável por toda a poesia moderna em França e nos países que lhe sofrem a influência é o malogrado Sr. João Nicolau-Arthur Rimbaud. Deste jovem se dizem coisas admirabilíssimas, inclusive a de que foi a inteligência mais diabolicamente livre que já penetrou na poesia francesa. Tenho muito medo de medalhões, credo! Mas impossível negar. Cocteau irônico fala no “pecado original de Adão-Rimbaud e Eva-Mallarmé”. Como todo pecado, principalmente o original, fecundíssimo. Rimbaud projetou-se violentamente em nossos dias. Sua garra aparece em tudo. Mario de Andrade: “Não imitamos Rimbaud. Nós desenvolvemos Rimbaud. ESTUDAMOS A LIÇÃO RIMBAUD”. Esta advertência é útil.
Parecia absurdo senão impossível tirar da obra desse “danado”, como a si próprio se chamava ele, a menor semente de misticismo. Paulo Claudel tirou: Arthur Rimbaud foi um místico “em estado selvagem”, fonte perdida brotando dum solo saturado”. E humildemente se confessa seu discípulo e converte-se ao catolicismo dominado por sua influência. Atentando em Claudel podemos observar bem o caráter religioso da nova poesia, onde o criador de “Tête d'Or” tem lugar representativo de primeira ordem. Há um espiritualismo difuso, tendendo para o ideal católico no citado Claudel, em Max Jacob e tantos outros; para um misticismo vago sub-reptício envolvente, que nos reserva surpresas, e nos aparece de supetão nas páginas de muito profano desabusado; e para movimentos de sentido social fortemente vincados de espírito religioso. Este último é o caso do unanimismo, com que Romains, Duhamel, Vildrac, etc., nos propõem um fortalecimento da solidariedade humana, pela criação duma “consciência coletiva” agindo sobre cada indivíduo e o impelindo a comungar no todo. Aspiração religiosa iniludível. Sinal dos tempos.
À Ia fin tu es Ias de ce monde ancien.
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La relígion seule est restée toute neuve Ia religion
Est restée simple comme les hangars de Port-Aviation
Seul en Europe tu n'es pas antiqne ô Christianisme
L'Europeén le plus moderne c'est vous Pape Pie X.

exclamava Apolinaire um pouquinho antes da guerra E a ideia deste poeta católico é retomada e desenvolvida pela gente de depois da guerra, ansiosa de explorar as riquezas dum espiritualismo latente e generalizado. Max Jacob: “Tudo que é essencial sobre o coração humano já foi ditos nos Evangelhos.” Etc. Etc. Os poetas de origem judaica trazem a esse movimento uma contribuição tanto mais intensa quanto excitada pelo temperamento mesmo da raça. Edmundo Fleg e André Spire entoam hinos furiosos a Israel Não esquecer que grande parte da literatura francesa é escrita pelos judeus.
Renascença religiosa? Advento duma nova interpretação do cristianismo, ainda em período de larva? É bem possível. É mesmo muito possível. Não serei eu quem trate do assunto grande. O meu é particular.
Ao lado das duas tradições, perfeitamente legítimas: clássica e romântica, em refluxo contínuo e rítmico, haverá talvez duas outras: religiosa e profana (ou racionalista), que também se sucedem e não se destroem. Tendemos para o classicismo de que adquirimos uma concepção mais depurada e fecunda; não será demais que simultaneamente se esboce uma volta à religião, e no mundo ocidental quem diz religião diz cristianismo. Nossos filhos verão.
Seguramente, o grande problema da atualidade em poesia é conciliar o espírito crítico, cada vez mais absorvente e dominador, com as imposições e imperativos do espírito religioso. Dizem que a fé exige a virgindade do cérebro. Ora, virgindade do cérebro = imbecilidade total. Não sei bem si é assim. Então a fé é privilégio dos carneiros? Meu Deus! Não foi para respondera esta pergunta que escrevi este artigo...
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P. S. — No Brasil, onde só há pouco se esboçou a reação modernista os poetas ainda têm vergonha de confessar a sua fé. Mario de Andrade é corajoso e em 1922, na “Pauliceia desvairada”, livro de lirismo um pouco, turvo porquê de combate, tem uma escapada soberba no poema “Religião”: “Deus! Creio em ti! Creio na tua Bíblia!”

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