quinta-feira, 25 de maio de 2017

Um poema de Byron - versão do Sr. Paranapiacaba


Um poema de Byron - versão do Sr. Paranapiacaba

Texto escrito por Eunápio Deiró, no ano de 1906 em "Os Annaes". A pesquisa, a transcrição e a atualização ortográfica é de Iba Mendes (2017)

Dos poetas modernos, aquele de quem os críticos e artistas, filósofos e literatos têm mais falado; uns com crueza, outros com entusiasmo; todos, porém, admirando-lhe as magnificências da poesia, as belezas das imagens, os primores da versificação, a sublimidade da inspiração, as opulências das ideias, as púrpuras da linguagem, as torrentes da harmonia e a supremacia do gênio é lord Byron.
Ele derramou na alma do século XIX os fulgores e os horrores da consciência humana e uma aluvião de emoções, que nunca havia sentido.
Enquanto os outros poetas do seu tempo, quase iam sendo esquecidos, dormindo em gloriosos túmulos, envoltos pelo silêncio da solidão, o cantor do Corsário passa por prodigiosas e contínuas transformações. O túmulo não é para ele o nada; é, pelo contrário, a perenidade da vida, a renovação da glória.
Nesse Tabor de sua grandeza, ressurge redivivo, e cada vez mais grandioso.
Nas literaturas dos povos cultos, os poemas de Byron reaparecem, e nessa ressurreição contínua, operam-se como que os milagres da natureza divina do seu gênio.
A universalidade de suas criações está mostrando que o espírito do autor de Giaur e Parisina é o mais vasto e o mais compreensivo de todos os soberanos da lira.
Nem Homero ou Esquilo, nem Dante ou Shakespeare, nem Goethe ou Lamartine, nem Victor Hugo ou Schiller sabem, como Byron, vibrar os sentimentos nas recônditas fibras dos corações.
Todos o entendem, o escutam, o amam e admiram, o detestam e o adoram. Os céticos, mirrados pela indiferença; o ateu, em seus desvarios; os desgraçados, sem qualquer esperança; os felizes, para os quais a vida é uma prolongada alegria; todos acham nas poesias de Byron a expressão das tenebrosas cogitações do seu espírito, ou a voz sedutora que os delícia... O gênio deste poeta é deveras onipotente, porque conhece o segredo das múltiplas paixões da espécie humana.
Não admira, pois, que as obras do lord inglês sejam traduzidas nas literaturas dos países civilizados. Ele é como que um poeta nacional; não é dessa nacionalidade que se encerra dentro de fronteiras estreitas e acanhadas, mas da do espírito, que confraterniza com homens de diversas raças e regiões. É a nacionalidade vasta, intensa, como o pensamento:
Não há uma nação, onde as letras tenham cultores, que deixe de ler Manfredo ou Mazezppa, Giaur ou Child-Harold, o Corsário e D. Juan.
As literaturas recolhem tais obras como gemas preciosas, caídas de diadema do soberano de deliciosos e divinos carmes.
Por toda parte os versos de Byron acham intérpretes, quer em poetas, quer em prosadores. Em França, por exemplo, suas obras foram traduzidas por diversos escritores, como Benjamin Laroce, Paulin Paris e A. Pichot. O eminente crítico Villemain escreveu a respeito delas um estudo profundo, que relembra as eloquentes e fulgurosas lições do professor da velha Sorbonne.
Na língua de Camões, as obras completas do bardo inglês não têm sido traduzidas. Existem, porém, muitas versões parciais, que demonstram ter o cantor do Corsário merecido o culto dos próceres da literatura portuguesa.
No Brasil, o cantor de Giaur fez escola; alguns dos nossos poetas alimentaram-se de sua seiva, viveram de sua inspiração, mormente no período do século XIX em que o romantismo foi a teoria literária dominante. Era natural. O sopro do gênio byroniano inflamava os cérebros, e a literatura francesa, que, em geral, a portuguesa e a brasileira imitam, exprimia as emoções e as ideias do vate anglicano. Nas estrofes de Musset e nos volumes dos romancistas, nas criações estéticas dos artistas, sentiam-se os pensamentos, as concepções, as imagens e colorido da inspiração que vinha das bandas da Escócia.
Será um dom peculiar de Byron reviver não só nas diversas literaturas mesmo em diferentes séculos? Vimo-lo colher as saudações ruidosas do século passado, e já no começo do atual o filho de Douvres recebe virentes palmas da glorificação, como os heróis antigos sobre o carro triunfal.
***
Entre nós, um poeta de elevadíssimo talento faz, em primorosas traduções, ressurgir o bardo inglês.
É autor dessa nova ressurreição o barão de Paranapiacaba.
Já verteu para a língua de Bocage e de Garrett, os poemas Giaur, Parisina e Mazzeppa e, nestes dias, acaba de publicar a versão do Corsário. Em menos de dois anos, a inteligência do provecto literato brasileiro provou as energias viris de que é dotado, e tanto mais é admirável a espontaneidade da produção, quanto se considera a dificuldade de dar aos poemas originais, em cada uma destas versões, a mesma estrutura da metrificação, igual colorido, cálido e brilhante; reproduzir as graças, os lavores, as harmonias e belezas, criadas pela pujante inspiração do bardo inglês.
Se lhe fosse dado rever-se nos versos dulcilóquos ou veementes do tradutor brasileiro, certo aplaudiria jubiloso a própria obra.
Penetrar nas profundezas da alma dum poeta, como o cantor de Child-Harold, não é tarefa para simples versejador, nem paragramáticos rubugentos, que só atentam na correção da frase e da sintaxe.
É mister que o tradutor seja inspirado e sinta em si o Deus in nobis agitante calecimus illo. Eis aí porque o tradutor brasileiro faz praça da fecundidade do seu talento. Ele não rasteja apenas de longe os surtos flumíneos do vate original; tenta, audacioso Ícaro, e remonta-se à mesma esfera semeada do lume vivo das estrelas.
Há entre o autor original e o tradutor certas afinidades indispensáveis; do contrário, a alma dum não sentiria da mesma sorte, nem compreenderia as emoções dolorosas, as ledices voluptuosas, as ideias flamígeras e os sentimentos de suprema e profunda agonia do monge Giaur, errante através das sombrias e solitárias arcadas do claustro.
Byron pôde exprimir nos versos o que Child-Harold ou Giaur, Manfredo ou Corsário sentiam ou pensavam, porque os personagens ou heróis dos poemas são feitos à sua imagem e semelhança.
Essa identificação do autor dos poemas e dos heróis produziu estrondoso escândalo na sociedade inglesa.
O tradutor, porém, que não se representa a si — por que maravilha de talento, por que intuição luminosa vê, sente, da mesma fôrma que o criador do poema original?
A crítica, ambiciosa de tudo saber explicar, que pretendesse devassar os recônditos dessas almas impiradas, correria o risco de abraçar a nuvem por Juno.
Mas há outra afinidade, que pôde ser explicada: é a parte material da obra em que a mão potente e amestrada do artista encarnou o ideal que lhe irradiava na mente; criou os prodígios que fazem o esplendor das artes e orgulho do pensamento humano.
Não se penetrará na alma de Miguel Ângelo, mas todos compreendem e admiram os traços do seu; pincel ou os rasgos do cinzel; um, que pintou o Juízo final; outro, que rasgou e esculpiu no mármore o Cristo abraçando a cruz ou a estátua de Bacchus, que Rafael atribuiu a Fídias por causa da extrema perfeição que enganou o pintor de Urbino.
Ora, nos poetas, essa parte material, por assim dizer, palpável, visível, é a metrificação. Aqui os dois poetas rivalizam, medem-se e igualam-se.
É assunto um pouco dúbio o comparar duas versificações de idiomas diferentes, como do inglês e português, cuja vibração não é a mesma. Todavia, não há aí quem, em ser latino, não sinta a harmonia da Eneida e não reconheça que o vale mantuano é o mais dulcísono metrificador da língua que falaram Cícero e Tácito; que o seu verso melodioso, como o sussurro dos beijos de ardorosos amores, ou melancólico e meigo, qual o doce amargo pungir da saudade, — não se compara com a metrificação duramente correta de Horácio, nem com a túmida pompa dos versos da Farsália.
O poeta inglês e o tradutor brasileiro, ambos são admiráveis versificadores. Como fazer ouvidos afeitos à suavidade da língua, que diz “Se é doce no recente ameno estio”, sentir igual suavidade noutra língua diferente; por exemplo, nestes versos de Pope:
“Regard not then if wit be old or new,
But blame the false aud value still the true”;

ou nestes do lakista Coleridge:

“To meet, to know, to love, and then to part,
Is the sad tale of many human hearte!”

finalmente, nos do próprio Byron:

“There is society, where none entrudes,
By the deepe sea, and music in its roar.”

Ora, si não é fácil comparar a primorosa metrificação do autor e do tradutor, todavia nos é dado dizer como na literatura inglesa é apreciada a versificação do cantor do Corsário e de Parisina. Assim, é indispensável recorrer aos juízes competentes. Um crítico afirma: não foi o menor dos poderes de Byron a sua primorosa metrificação. É verdade que o novo em suas poesias não era somente a estrutura dos versos, era a própria poesia. Depois de Pope e Dryden, a Inglaterra havia possuído mais dum hábil escritor em versos; não tinha tido, porém, um grande poeta. A história da poesia inglesa mostra hoje uma sucessão de poemas descritivos ou didáticos, que falam somente à razão e o mais das vezes à razão do lar doméstico. A sensibilidade em tais versos é uma aparência fugaz, um tom da moda, antes do que o sentir, que revolve o coração pela tristeza das coisas humanas. Estes poetas consideravam como poético tudo que se diz natural e como natural tudo que passava como tal na temporada em que viviam.
Após eles, outros amenos autores reduziram a poesia a um jogo de espírito, exceto Crabbe — que pintou o homem sob os andrajos, na cabana, onde a miséria engendra paixões e dores desconhecidas. Era essa a decadência da poesia quando, em 1812, apareceram os dois cantos de Childe-Harold, os quais revelaram à Inglaterra que ela tinha um magnífico poeta. A Inglaterra, no momento de fazer um supremo esforço contra Napoleão, de roldão voltou-se para escutar os versos dum mancebo desdenhador, que, nestes versos veementes ou encantadores, zombava de tudo que ela respeitava e amava. Os espíritos eram simultaneamente provocados pelo soberbo desdém por tudo que consideravam máxima nacional, seduzidos pelo encanto de tanta força e grandeza entre o fulgor e a profundeza em um prosador tão jovem, que ostentava a liberdade de falar, de criticar e de zombar de tudo sem embaraçar-se com as conveniências e atenções do meio social.
Eis aí como a própria crítica julgava Byron — magnífico versificador da escola de Pope e de Dryden e poeta de sublime inspiração no meio duma turba de didáticos, descritivos e lakistas, como Wordsworth, Southey, Coleridge, etc.
Este magnífico trovador encontrou no tradutor brasileiro espírito que o entende e um mestre consumado na metrificação. Tomemos alguns tópicos da versão do Corsário para pôr em evidência a superioridade com que ele interpreta e exprime as profundas emoções do gênio inglês.
O Corsário é uma figura imponente, em que o lord da Câmara dos Pares se disfarça. O Corsário vai partir em seu navio para uma longínqua e arriscada empresa. Byron põe-no em cena: vejamo-lo na tradução.
I
“Ledas ondas abrindo em mar de azul sombrio,
Sem raia ao pensamento, as soltas o alvedrio,
Nosso intérmino império e pátria é toda a plaga
Em que sussurra a brisa e atira espuma a vaga.
Recebe, qual um cetro, o nosso pavilhão,
Onde arvorado for, sinais de submissão
Passamos, nesta rude e turbulenta vida,
De trabalho ao repouso e deste à nova lida;
Mas sempre com prazer. Tal emoção, ao vivo,
Quem a pôde pintar? Não tu, ó vil cativo
Dos gozos sensuais. Teu ânimo enervado
Desmaiara ao vaivém do mar encapelado.
Não tu, vaidoso lord, que os teus inúteis dias
Esbanjando em moleza e lúbricas orgias,
Não achas atrativo em fruições da terra,
E a quem tranquilo sono as pálpebras não cerra.
Quem, salvo o que sentiu intenso aquele gozo
E sobre os escarcéus dançou, vitorioso,
Logrará descrever o júbilo exultante,
Levando as pulsações ardor febricitante
Do audaz explorador que em vasta azul planície,
Onde ficar não pôde um rastro a superfície,
Só por lutar, almeja o embate do inimigo,
E tem por mor deleite o que se diz perigo?
Procurando o que o fraco evita, diligente,
Vendo este desmaiar  — nos seios d'alma sente
Renascer a esperança em todo poderio
E mais forte inflamar-se o nobre, inato brio.
Nem nos infunde horror a tua foice, ó Morte,
Uma vez que também decime a hostil coorte.
Menos pesa a inação, que o fero golpe traz
Do que o ócio obrigado e a constrangida paz.
Que importa! Venha a morte quando lhe aprouver!
E enquanto não chegar, permita-nos, sequer,
Que esgotemos da vida a essência em taças d'ouro;
Pois tanto, vai morrer no leito, ou dum pelouro.
Já na decrepidez, da vida aguarde o termo,
Prezo ao catre da dor, gemendo, o pobre enfermo.
Num ambiente impuro, a definhar, padeça
Abanando a pesada e lânguida cabeça.
Fresca relva nos dá pousada em seu regaço,
Não do leito febril e triste, augusto espaço,
Se no lento ofegar duma agonia infausta
Solta, penosamente, aquele uma alma exausta.
A nossa, dum arranco e num fugaz relance,
Sem custo e livre, atinge o derradeiro transe.
Pôde vangloriar ter, depois que dorme extinto,
Da urna e estreito vão, que o cerram no recinto.
O que a vida execrou dourar-lhe pôde a lousa.
Si da labuta, alfim, algum de nós repousa
No oceano, que lhe dá mortalha e extremo leito
Pagam-lhe seus irmãos sincero e grato preito
Não farto, mas leal, de lágrimas sentidas,
— A mais doce expressão das ternas despedidas —
Exprimindo a saudade em libação festiva,
Por ele em rubra taça um brinde ergue o conviva.
Resumido epitáfio a nossa glória narra
Quando aos sons triunfais da marcial fanfarra,
Os que a morte poupou, ao repartir da preza
Turva a fronte, à pressão da ideia, que lhes pesa,
Dizem: — “Quem hoje vira o júbilo inefável
Dos bravos, que há ceifado a Parca inexorável.

II
Tais as notas, que vem da Ilha do Pirata
Onde, ao pé da atalaia, um guarda a voz desata.
Essa rude harmonia ameiga inculto ouvido,
E das rochas acorda o eco adormecido.”
das rochas acorda o eco adormecido.”
Segue o canto; nós ficamos neste ponto. Transcrevendo estes versos, unicamente ciframos o nosso propósito em dar aos leitores uma amostra da abundância da riqueza da versificação do tradutor brasileiro.
Poucos poetas ousariam empreender a tradução dum poema no metro que, com tanto gosto, elegância e harmonia, empregou o tradutor do Corsário. A opulência das rimas, nas quais não se sente sequer ligeiro esforço, como que borbulha espontânea da pluma que mão amestrada meneia sob a inspiração do momento. O tradutor não precisa fazer provisões dos malditos consoantes, que obrigam até a serem brancas as formigas, segundo se lamentava o notável e erudito clássico português. As rimas do tradutor do Corsário e de Parisina são produzidas pelas emoções que lhe agitam a mente.
O lavor do metro rico, acabado em perfeição, cadencioso, ou veemente e fulgurante, é um dom que o barão de Paranapiacaba houve, como predileto das Musas. Mestre da linguagem, o ilustre tradutor, quando escreve a pedreste prosa, é um escritor que se notabiliza pela forma dum estilo correto, nítido e vigoroso; quando se eleva às regiões das fantasias, sabe exprimir as próprias e as alheias inspirações em caudal harmoniosa, como, ainda mais uma vez, demonstrou, vertendo os poemas Giaur, Mazeppa, Parisina e agora o Corsário.
Byron tem tido vários tradutores, em quase todas as literaturas, nenhum foi melhor intérprete do bardo — que nasceu em Douvres e faleceu em Missolonghi — do que o barão de Paranapiacaba. Que importa ter tido só em França três, quando o trabalho de Benjamin Laroche, Pichot, Paulin Paris, até o estudo eloquente e magistral de Villemain, tudo é escrito em prosa? Só as águias emparelham nos voos às outras águias; rastejá-las pôde ser o papel dos que vertem em prosa as concepções dos cantores, poderosos pela sedução da voz; admiráveis pelas súbitas inspirações, que ainda sentimos cálidas, da flama o sopro dos lábios divinos do Deus que se agita no espírito privilegiado...
O autor brasileiro mediu a grandeza do gênio, cujos sentimentos e cujas ideias devia exprimir na linguagem e na pujança de suas forças intelectuais; interpretando a alma do criador dos poemas, reproduziu-os, belos e refulgentes, em versos dulcísonos ou da mesma energia.
Os leitores inteligentes e versados neste gênero de estudo literário, atentando nos primeiros versos do I canto do Corsário, reconhecerão logo a superioridade da versão, confrontando, por exemplo, os três primeiros versos:
“Ledas ondas abrindo em mar de azul sombrio
Sem caia ao pensamento, a solta ao alvedrio,
Nosso intérmino império e pátria é toda a plaga.”

Os leitores quedam na contemplação dessa imensidade, dessa grandeza que a poderosa inteligência do bardo inglês concentra num resumido quadro que o brasileiro reproduz da mesma sorte.
Não temos tempo para apreciar certos trechos da versão, confrontando com o original.
As figuras, desenhadas pelo lord da Câmara Alta, revivem nas reproduções do poeta brasileiro.
Antes de concluir esta notícia, que não queremos alongar, faremos alguns reparos, deixando de analisar o entrecho, os episódios do poema que o sr. Paranapiacaba traduziu e publicou.
Todos os heróis dos poemas do vate anglicano, Giaur, Conrado, Lara, até D. Juan e Childe-Herold, exprimem os sentimentos e representam a individualidade do autor; daí o grande escândalo que só seria bem compreendido, si nos fosse dado fazer, aqui, uma pintura minuciosa e viva da sociedade inglesa no início do século XIX até à morte do general e mártir por amor da liberdade da Grécia. Diremos, contudo, que todos esses personagens encarnam em si uma qualidade que as mulheres de todos os países apreciam e que, dizem, as inglesas louvam, admiram e exaltam, isto é, a fidelidade no amor... Childe-Harold, Lara, Conrado, até D. Juan, a despeito de variados amores, sempre ficaram constantes e dedicados às mulheres que, primeiro, amaram; no meio de tanta multiplicidade, amaram — só uma vez!...
Muitos olhos lindos, azuis, ou negros, leram os poemas do mancebo de pé estropiado; em público, o maldiziam: era a conveniência social; em particular, o adoravam, segundo refere um notável crítico. Byron, observa outro escritor, fez a Inglaterra saborear um fruto amargo e foi a causa mais eficiente de sua reputação em bem e em mal.
As mulheres, em segredo, apaixonaram-se pelos heróis criados nos poemas, ou, antes, amavam o caráter especial que todos tinham — a mescla de bem e do mal, da virtude e do vício. O que era o bem pertencia ao indivíduo; era mérito seu; o que era mal, recaía sobre a sociedade; era culpa dela.
O tempo passou e ainda não conseguiu reabilitar lord George Gordon Byron, oriundo dos Stuarts, por parte materna. E por que a sociedade da Inglaterra nunca lhe perdoou?
Dizem que ele atacou as duas principais molas de sua vida moral — o patriotismo e a fé — e que os sentimentos dele eram dum pagão e não dum cristão.
O poeta, porém, será sempre a glória da nação, que o admira e maldiz.
Concluiremos, lembrando as seguintes palavras dum francês muito entendido nos fatos da literatura inglesa: “Byron eut de genie, mais une imagination mal reglée. Son vers précis, correct et plein du feu, exprime trop souvent une doute desesperant, une melancholie contagiense et l'admiration du crime. Grande et d'une belle figure, il était né boiteux et ne s'en consola jamais. Sa poésie lui ressemble; elle a une infinité qui lui donne un air maladif. Il manque à sa beauté, pour être parfaite, l'equilibre moral.”
Cabe ao barão de Paranapiacaba a ventura de fazer a ressurreição do poeta inglês no nosso século, quando ainda não se está fazendo em outras literaturas de povos cultos.

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