terça-feira, 23 de maio de 2017

Graça Aranha: a procura da terra prometida

Graça Aranha: a procura da terra prometida - O drama e a filosofia do autor de "Canaã"

Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes


Creio que foi esse incansável polemista brasileiro, Sílvio Romero, quem escreveu que o ser escritor em seu país era um verdadeiro triunfo do espírito sobre a matéria. Entretanto, depois de se percorrerem as suas centenas e centenas de páginas — “folk-lore”, filosofia, crítica literária, discussões pelos jornais, etc. — concebe-se que o triunfo de Sílvio Romero, se não foi completo, foi indubitavelmente decisivo. Além das desvantagens do clima e método empregado, ele trabalhou debaixo de unia necessidade premente para todos os escritores que buscam interpretar uma “minor littérature”: teve de tornar a escrever a história da cultura moderna para os seus patrícios, a fim de que os conhecimentos deles pudessem ser encarados pela sua própria perspectiva.

Entretanto, depois do aparecimento da sua 'História da Literatura Brasileira', a sorte dos escritores latino-americanos, que nunca foi uma sinecura, alterou-se para melhor. Alguns homens das repúblicas hispano-americanas e do Brasil estão tratando de ganhar a vida somente pela pena. Embora a consagração ainda dependa da aprovação estrangeira, o espírito de autonomia literária torna-se evidente cada vez mais, desenvolvendo em certas coisas — sem dúvida como reação — uma tendência notável para o regionalismo. Nem faltam Menckens locais para proclamarem a emergência de línguas distintas da linguagem das mães-pátrias. Poucos escritores brasileiros são conhecidos na França — e é em França e não em Portugal que o Brasil intelectual tem procurado de há muito a direção — e esses poucos são particularmente conhecidos por especialistas como Lebesgue, Gahisto, Orban, Martinenche ou por espíritos curiosos como A. France, que deve remar em todas as águas, e C. Mauclair, cuja torre de marfim está calçada com pedras preciosas dos quatro cantos do mundo. Foi A. France que presidiu na Sorbonne a sessão em memória de Machado de Assis, por ocasião da morte deste escritor. Raro espírito era ele e da própria estirpe de France. Foi o próprio France quem saudou ‘Canaã' de Graça Aranha como "Ia grande novela americana" (esquecíamo-nos de que houvesse outra América além do sul do Panamá). Foi Mauclair quem acolheu o drama filosófico de Graça Aranha, "Malazarte”, após a sua representação por Lugné-Poe no Theatre de l’Oeuvre, reunindo à edição impressa uma excelente interpretação. E por fim o próprio "Malazarte" foi escrito originariamente em francês.

Graça Aranha é uma das personalidades representativas do Brasil contemporâneo. Desempenhou importante papel na vida diplomática de sua pátria, tanto no interior como no exterior, e o que é ainda mais interessante, sua obra criadora está livre de quaisquer referências a tais temporalidades. Embora não seu mais um moço, tem sido recebido por unia considerável parte da mocidade brasileira como o símbolo de suas aspirações, e isto por causa do vigor dos três livros, o primeiro dos quais "Canaã”, remonta aos primeiros anos do século; o segundo “Malazarte", é doze anos mais velho; o terceiro, "A estética da Vida", coleção de ensaios em que se ostenta a filosofia do Grande Inconsciente de Graça Aranha, apareceu há já dois anos. Entretanto, tão lenta é a difusão da literatura na América do Sul que isto parece uma inteira novidade; atualmente, em sua terra de origem, escreve-se sobre "Canaã" — e pelos mais ardentes moços — como se fosse um livro novo. O segredo do seu contínuo interesse reside em ter-se a novela do cadinho brasileiro tornado parte da história espiritual da nação.

O lugar de Graça Aranha, no coração da mocidade brasileira, foi recentemente assinalado pelo aparecimento de um duplo número de Klaxon, revista mensal de arte moderna quase que lhe exclusivamente dedicado. Houve mesmo a reprodução de uma página de motivo musical — um sexteto místico do compositor nacional, H. Villa-Lobos, para vozes masculinas, saxofones, celeste, violas, harpa e cítara, em que as vozes devem trilar com a língua. Por que "Klaxon"? Porque klaxon é uma buzina poderosa. No entanto nada “há de klaxônico em Graça Aranha — um pouco do "modernismo" espasmódico e do obscuro intencional desses jovens admiradores. O estilo de Graça Aranha é límpido, melodioso, fazendo mesmo da sua "Estética da Vida" um volume de leitura agradável, estimulante e mesmo fácil. Pôde às vezes ser difícil, mas nunca obscuro; é-se levado a crer em suas visões de beleza, desde que o autor transmite a sugestão delas cm linguagem de correspondente substancia, cor e música.

De "Canaã" precisa-se falar, mas brevemente; foi há poucos anos traduzido para o inglês. No fundo ela está para a novela o que "Malazarte" está para o drama e o que a "Estética da Vida" está para a filosofia. A vida de Graça Aranha, no seu aspecto ideal, é a procura dessa terra prometida do seu primeiro livro — terra em que aquele que procura e o procurado, abandonando a dor, o terror e o incompleto de suas identidades separadas, se confundem no vasto Inconsciente, onde só reside a verdadeira felicidade, porque é a unidade verdadeira, primária. Entretanto, há pouco de evasivamente místico em Graça Aranha; sua filosofia de "self-completion" no inconsciente não é, como muitos dos Cultos quase hindus, que ela sugere externamente, uma fuga da realidade. Procura antes ser um enriquecimento, um embelezamento da vida pela realização do lugar próprio do homem na natureza. Em "Canaã" a fusão no cadinho fica incompleta; daí a felicidade escapar aos seus perseguidores. Em "Malazarte", situação análoga, desta vez entre amantes, conduz a essa separação que para Graça Aranha é sempre dor, porque é o símbolo vivo da falência da união do homem com o grande inconsciente da natureza. Em "A Estética da Vida" esta deu de dez anos.

“Malazarte" é um drama filosófico enxertado em uma ou duas figuras do "folk-lore” brasileiro. Originariamente um espírito de que, as crianças ouvem falar, com os tremores deliciosos dessa idade, quando as histórias de fadas parecem verdadeiras, ele foi elevado por Graça Aranha à importância de um símbolo filosófico. É de algum modo, uma contraparte da rainha Mab, a "parteira das fadas" ("fairies midwlfe"), orgulhoso como ela de galopar "sobre um nariz de conterão" ou de "fazer cócegas no nariz de um padre enquanto dorme". Mas ele é mais. Nas palavras de Mauclair:

"Malazarte é ao mesmo tempo um espírito e um mortal. Tem em si algo do diabo tal qual foi concebido pelos contistas filosóficos do século XVIII. É, como Asmodeu, um motejador. Tem o espírito inventivo de Scapino e de Fígaro, e; o gênio inesgotável deles para o logro; tem a velhacaria dum e o encanto do outro. Lembra também um dos muitos irmãos do norte, o flamengo Til Ulenspiegel... Há um pouco de Mefistófeles em Malazarte... Entretanto, há qualquer coisa de D. Juan, não em casos de amor, mas nos logros que prega aos maridos caçoados e às donzelas afetadas

Mais importante sob o ponto de vista do drama de Graça Aranha, é a significação de Malazarte como um liame entre o mundo da realidade e o mundo da imaginação; Malazarte torna-se não só o arauto das opiniões do dramaturgo, mas também a encarnação delas. Ele é, em resumo, a filosofia do inconsciente em ação; ele mima de Mefistófeles para o Fausto-Hamleto de Eduardo, e para a Ofélia-Gretchen de Almira Eduardo, simbolizando a humanidade, após a morte de Almira, enamora-se de Dionísia. Por ela é levado a deixar sua mãe viúva, a esquecer o seu primeiro amor, a abandonar os laços que o ligam ao mundo que ele conheceu. No entanto, lhe é difícil tomar a decisão final, engana-o esta Lorelei brasileira. E eis Malazarte ilimitado pelas considerações materiais que estão nas mãos de Eduardo. Ele é o pretendente nietzschiano desta rapariga nietzschiana, que, como ele, é uma elaboração filosófica de uma simples figura do "folk-lore" brasileiro, a "mãe d'água", ou espírito d'água da lenda popular. Somente estas naturezas, livres dos estorvos do artifício social, podem achar uma união que é negada a tais como Eduardo. A terra prometida deles é a ilha das palavras de Dionísia — uma ilha, onde C. Mauclair vê o retiro de Próspero, a misteriosa Thule, dos nevoeiros, a radiante Pafos, ou essa "ilha feliz" para onde "o nostálgico, divino Watteau embarca os seus peregrinos para Citereia. Todas estas ilhas talvez nada mais sejam que uma só, para onde Malazarte e Dionísia se fazem de vela, voltando as costas para a vida — enquanto nosso espírito consciente, atormentado por toda a tristeza de “Eduardo, perseguido pelo antigo coro de lamentos da família e da sociedade; os enxerga da praia numa inveja muda e sombria.”

Eduardo entrevê — e mais do que entrevê — a verdade, mas é impotente em segui-la. “Há uma vida universal", afirma ele, "que se reflete na arte, na filosofia e na religião. É a consciência do infinito, a vida suprema acima dos códigos e dos gestos de terror e que faz do mundo uma maravilha... A minha vida é esta tortura: compreender a inutilidade de todo o esforço... Como poderei salvar este patrimônio, de família, que se terá de perder em minhas mãos?”

É muito pesado o fardo que nos lega o passado. “À grande pergunta central de Malazarte ele mal pôde opor o seu raciocínio característico. "Por que compreender a vida?" pergunta o espírito panteísta. "Basta vivê-la”. É esse o meu quinhão. Posto em face de gente triste, enferma e pusilânime e ser responsável pelo seu destino! Por toda a parte, essa maldição dos covardes que precisam responsabilizar alguém pelas misérias que lhes vieram da própria natureza... A minha presença é funesta! Sou eu que altero as coisas e torno em maldade, os benefícios que eles esperavam para a sua vida mesquinha. Sou eu que faço nascer o sofrimento e a expiação. Eu sou a praga! Sou o personagem sinistro que tudo suscita como um flagelo formidável. Se o sol os abrasa, eu sou o sol; se o vento os derruba, eu sou o vento; se o raio os fulmina, eu sou o raio; se o mar os traga, eu sou o mar... Ah! miseráveis, que eles olhem para si mesmos e vejam se são dignos de viver. O próprio mal que trazem em si, revolta-se e os destrói. E o ódio deles se ergue contra a minha serenidade... Eu continuo impassível e zombo dessa cólera que me amaldiçoa. Outros se alegram em mim, os fortes, os grandes, os que não temem e sabem que tudo é fatalmente belo, e fazem do mundo um encanto e um prodígio. Para esses é que eu existo, e toda a minha energia, o meu sangue, a minha alma é para lhes dar a alegria e a beleza." As palavras de Dionísia e Eduardo estão da mesma fôrma cheias de uma extraordinária poesia.

“Lá nós somos um com tudo o que existe. Os meus homens são rochedos, toscos, ásperos, e os rochedos são como os homens do mar, rudes, calados, meditabundos. Às vezes, dentro da luz, sobre, o mar calmo, os barcos parecem pássaros de azas abertas, são gaivotas ou cisnes; outras vezes os cisnes e as gaivotas abrem as azas e são barcos..."

Em Malazarte, Dionísia vê a bela mentira que é a mais bela, mais verdadeira do que a verdade que o homem conhece.

“Não sei me explicar, ele tem mais vida, mais sangue, mais cor. Vale mais do que a verdade, porque representa as coisas que deviam ser o que não são por culpa nossa".

Eduardo fica vencido pela nova e perigosa opinião.

É a inconsciência suprema (diz ele a sua mãe) que dá o amor... A sociedade nos oculta a natureza, e o amor a revela... É o êxtase e o esquecimento... A consciência fez-nos monstros a ti e a mim. Estamos em frente da natureza como fantasmas amedrontados. Tudo nos espanta: as forças do Universo, a beleza, a vida, a alegria, e nós fizemos da sociedade uma organização contra a natureza... ir preciso matar a vida! É o pacto de “aliança... Oh! os seres livres!... Vê Malazarte, vê Dionísia; eu quero a inconsciência deles."

Entretanto, é em vão que ele pergunta: "Oh, quando seremos nos, verdadeiramente, as simples expressões da vida?" Permanece aterrorizado por esse mesmo desconhecido, cujas belezas cantou. As Dionísias pertencem aos Malazartes, enquanto que os Eduardos ficam na praia, apoderados pelos pensamentos que estrangulam a ação, igualmente separados do passado que eles renegaram e do futuro que não podem vencer. "Tudo é separação e dor”.

"Malazarte" é a filosofia de Graça Aranha escrita em imagens em vez de palavras. Mauclair denomina-o "imoralismo filosófico". Desde que um nome é tão bom quanto o outro, eu escolheria antes alguma designação composta como amoralismo panteístico, nirvanista. Quanto à procura do vasto Inconsciente, parece que Graça Aranha seria consciente de sua fusão no infinito.

Considerando de pouca Importância a questão do interesse do leitor pelo drama, ficar-se-á admirado do que seja o seu efeito no palco. Não é, como se poderia ter tornado hoje tão facilmente, uma obra "expressionística"; lê-se com clareza cristalina, a sua ação é uma mistura estranha do real e do irreal, com uma situação tão convencionai como uma ameaçada prorrogação de prazo de uma hipoteca para mover a vivacidade de uma Dionísia, enquanto que Malazarte ora ê mortal, ou espírito de acordo com o papel intermediário para o qual o designou o autor. Entretanto, como símbolos vitais da profunda tendência para essa "al-consciouness", esse Inconsciente, os caracteres parecem muito conscientes da sua importância filosófica. Esta, creio, é a principal objeção à peça como drama vivo. No entanto, há nele algo de diferente que o coloca de algum modo à parte no drama deste século.

"A Estética da Vida" é a flor do pensamento de Graça Aranha: é a sua proclamação da vida como estética. Entretanto, não num sentido estreito, “wildista". A separação inicial do homem da natureza, resultando em consciência, foi produto da dor e do terror. O problema então se transforma em indagar como atingiu uma vez mais a essa união primeira, onde somente reside a verdadeira felicidade? Há três caminhos, ilusórios todos, conduzindo por fim a maior de todas as ilusões A religião dá a ilusão de uma união extática com Deus; a filosofia desempenha o mesmo papel no reino do pensamento; o amor, fundindo dois seres, representa numa escala humana essa fusão cósmica, que se acha na religião e na filosofia. Por todos três o homem lança uma ponte sobre esse abismo de separação do resto da natureza que é o abismo do seu isolamento consciente e o seu misterioso terror. Agora como converter estes elementos numa estética da vida? O homem deve, pois, fundir a sua personalidade como resto da natureza de tal modo que se considere apenas um simples elemento do todo.

"Façamos de todas as nossas sensações, sensações de arte. É a grande transformação de todos os valores da existência. Não só a fôrma, a cor, o som, mas também a alegria e a dor e todas as emoções da vida sejam compreendidas como expressões do Universo. Sejam para nós puras emoções estéticas, ilusões do espetáculo misterioso e divino, que nos empolguem, nos arrebatem, nos confundam na Unidade essencial de todas as coisas, cujo silêncio augusto e terrível perturbamos um instante pela consciência que se abriu, como um relâmpago nas trevas do acaso..."

A atitude de Graça Aranha torna-se então uma retirada, não essa volta freudiana ao seio da mãe natureza com que ela facilmente se pôde parecer, mas antes uma profunda e mais universal participação na vida. É em tal estado inconsciente que Freud encontra os sonhos reveladores que Rémi de Gourmont vê a origem do verdadeiro estilo do escritor, que Benedetto Croce descobre a intuição. Sou levado a encarar "A Estética da Vida" como um poema. "O pensamento projeta-se na arte para existir. A filosofia, que não se faz arte, não será vida" E se pôde acrescentar que a vida que não se faz arte, não será vida. "It has always been difficult for Man to realize that his life is all an art", escreve Havelock Ellis como palavras iniciais da sua nova "Dance of Life".

Eis Graça Aranha o artista, o poeta. E ainda — há nele o humano, o eu humaníssimo, o Eduardo que deve ter a sua opinião. "Por quê?" pergunta ele a si próprio numa pequena composição chamada "Inexplicável Tristeza"— "Por que me compadeço dos outros seres e das coisas? Por que sinto o que se denomina tristeza? E por que para um ser como eu tudo não é indiferente, exceto o gozo estético?

Onde a fonte da minha compaixão? As raízes da minha tristeza?

Por que sofro e porque desejo? E por que não existo somente para a contemplação e o arrebatamento do espetáculo universal, e o meu espírito é carregado de dor estranha à beleza?

Explica-se o sofrimento do amor, que é a necessidade fundamental do ser que aspira pela confusão de toda a sua individualidade desaparecer no todo Universal e abismar-se no infindável silêncio da Inconsciência. Mas por que esse sofrimento que vem da simpatia e se chama compaixão?"

Pôde a sua filosofia ser um esforço da parte do intelecto de Graça Aranha para subjugar os seus sentimentos? Entra Eduardo para explicar Malazarte encarcerado. E a vida continua a ser a coisa embaraçosa que era dantes.

ISAAC GOLDBERG.


---
Referência Bibliográfica:

Revista América Brasileira: resenha da actividade nacional, anno 2, n. 16, abr. 1923.

Nenhum comentário:

Postar um comentário