quinta-feira, 25 de maio de 2017

Guilherme de Almeida — “A flauta que eu perdi”



Guilherme de Almeida — “A flauta que eu perdi”

Texto escrito por Prudente de Moraes Neto e publicado em 1928. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

A filosofia da unidade levou Graça Aranha a uma incoerência de que ele mesmo foi o primeiro a se espantar. Depois de caracterizar toda a arte moderna pelo objetivismo dinâmico, definido em função dessa filosofia, ele reconhece que os poetas mais livres são quase todos subjetivos. O que o fez pensar numa possível lei de constância lírica.
Exista ou não essa lei, é indiscutível, como por aí se vê, que o objetivismo dinâmico não é toda a arte moderna, mas apenas uma de suas tendências. Ou melhor, que não há propriamente uma arte moderna: há artistas modernos, coisa muito diferente. Dos nossos poetas só tem, às vezes, alguma coisa de objetivo dinâmico, esse admirável Mário de Andrade, tão universal mas tão paulista. Os outros, subjetivos todos, quando não o são, limitam-se ao objetivismo estático de certas paisagens de Ronald de Carvalho, por exemplo.
Entre eles, subjetivo por excelência, Guilherme de Almeida, em vez de integrar-se no universo, integra o universo em si, exprime o que aproveita a suas emoções e despreza o resto por inútil. Foi isso que lhe permitiu escrever estas canções a um tempo gregas e modernas. Como para esses dois efeitos concorrem os mesmos fatores, este livro de Guilherme de Almeida bem se pôde chamar de furta-cor. O que faz dele um livro moderno é talvez precisamente certo realismo rústico que lhe dá aparência de ter sido verdadeiramente escrito na Grécia, uma espécie de falsa cor local. Nele não é a arte grega que renasce ou que se conserva, como nos museus. É a vida grega, são os pastores, os bosques, as virgens, as cortesãs da Grécia que se animam e voltam a seus hábitos. Guilherme de Almeida os surpreendeu. Não procurou reproduzir-lhes os momentos solenes, de antemão ensaiados, como cenas de teatro. A flauta que eu perdi é a expressão grega de uma sensibilidade moderna. Apesar das imagens primitivas, frescas, ácidas como frutas, só um poeta moderno é capaz de escrever um poema como este.
Sobre a saudade

Na madrugada toda rósea,
eu desci ao fundo do vale verde
enfeitado de bruma,
para encher meu cântaro de argila porosa
numa água noturna
que foi o espelho das estrelas.

Quando a sede
pôs um beijo seco, de fogo, em minha boca,
eu estendi meus lábios para a argila fosca:
— e o reflexo branco de uma estreita gelada
boiava na superfície da água exilada.

Ou como este outro, onde ainda melhor se pôde observar a dupla face do livro:
O fogo na montanha
Os pastores haviam feito
de noite, um grande fogo na montanha.
Eles tinham os braços cruzados no peito
e estavam sentados na sombra incerta
e olhavam o fogo, e ouviam a história
noturna e estranha
que a chama sonora
agitada como uma língua inquieta
ia contando.
E a labareda era como uma dançarina
de cabelos livres, dançando
por entre os perfumes bárbaros de resina
e os estalos dos toros de cedro na argila,
uma dança de véus furiosos pelos ares.
— Porque ela pôs uma pupila
nos olhos vazios que não tinham olhares.

Só um poeta moderno? Só Guilherme de Almeida, artista desnorteador que quando muda de livro é como um ator quando muda de roupas para representar outro papel. A plateia a princípio estranha. Depois, vai descobrindo sob o disfarce os mesmos traços conhecidos. Em Guilherme de Almeida, o que desnorteia é a presteza da mudança. Mas sua personalidade não cabe numa simples nota. Exige um estudo mais longo, que Estética desde já se compromete a consagrar a esse maravilhoso criador de imagens, ritmos e emoções.

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